SÁBADO À NOITE FOI ÓTIMO
A minha última noite de sábado foi ótima. Vamos ignorar o fato de que amanheci na delegacia depois de ter sido espancado pelo zelador do meu prédio. Fora isso, foi tudo ótimo. A começar do jantarzinho romântico que providenciei pra Solange: filé ao molho madeira, brócolis e batata sotê. Tudo feito com esmero e carinho numa refeição que teria sido deliciosa se eu não tivesse confundido o sal com o açúcar enquanto preparava o tempero. Acabei pedindo puma pizza no Agnaldo´s, mas o queijo grudado na tampa e o cano da Solange me deixaram ligeiramente mal humorado. Quando liguei pro celular da minha namorada, ela me disse que estava na Autrália e que voltaria dentro de dez anos, quando enfim, poderíamos discutir a nossa relação. Inicialmente desconfiei que ela estivesse mentindo, principalmente porque ninguém atende uma ligação na Austrália de um celular pré-pago. Depois, tive certeza que aquela desculpa se traduzia como um pé na bunda e após quebrar todos os vidros do meu apartamento, concluí que o mais bacana seria assumir uma atitude positiva em relação à vida. Na carona desse pensamento otimista, entornei meia garrafa de uisque e ganhei as ruas de São Paulo disposto a me divertir como nunca, embora esse pensamento tenha sido afastado da minha cabeça logo na primeira esquina, quando tive uma crise de choro compulsivo seguida de um acesso de vômito, o que convenhamos, acontece eventualmente com todo mundo. Minha primeira parada foi no Barnei, meu boteco preferido. Na realidade, o boteco não tem nome, mas como o antigo dono se chamava Nei, eu chamo o estabelecimento de bar-nei, numa piada que eu adorei ter inventado, mas que o novo proprietário, o Seu Sillas não acha nenhuma graça. No Barnei tem uma copeira que dá muito em cima de mim, a Jurema. A Jurema é um doce de pessoa e seria linda se a humanidade fosse cega como no filme do Fernando Meirelles. Mesmo assim, de vez em quando eu soltava um ou outro gracejo, hábito que parei de cultivar desde que a Jurema me acuou no banheiro masculino e praticamente me fez optar entre um beijo na boca ou um soco na cara. Olhando pra Jurema, achei que um soco na cara poderia sair barato, mas o fato é que acabei beijando a copeira e o pior, não dei nenhum telefonema no dia seguinte. Desde então, toda vez que eu entro no bar , o clima fica esquisito, principalmente quando a Jurema pega a faca de cozinha sob o pretexto de limpar um peixe e fica me olhando de um jeito estranho por trás do balcão. Mas naquela noite, minha única preocupação era rever a velha turma e mal pude conter a euforia quando percebi que o Joca estava numa mesa dos fundos, cercado de cascos de cerveja e bitucas de cigarro. Dirigi um sorriso ao meu velho amigo e ele retribuiu com um pequeno gesto de amizade que depois descobri ser um arroto. Durante uma hora e meia destilei um pequeno apanhado das minhas desventuras até perceber que o Joca dormia profundamente. Ainda assim, continuei desabafando durante mais quarenta minutos e confesso que eu prefiro o Joca desse jeito, quieto e desmaiado, porque pelo menos nesse tipo de situação, ele não interrompe o meu raciocínio pra dizer que meu nariz é imenso, o que sempre acontece quando a gente se encontra. Depois que uma ambulância recolheu o Joca, concluí que a noite era uma criança e fiquei dividido entre três opções: uma chegada no Blue Belt, antro das prostitutas mais cobiçadas da Rua Augusta, uma passada na Boca do Macaco, onde se toca o fino do funk pancada, ou finalmente uma ida ao grupo de jovens da Igreja Santa Teresa, que ando frequentando apesar de ser vinte e cinco anos mais velho que o mais velho da turma. Desisti de tudo aquilo quando decidi aparecer no prédio da Solange e dar um alô. Pensei que seria bacana tomar um chá com biscoitos, bater um papo, conferir se ela estava precisando de alguma coisa e depois enforcá-la com o fio da tevê a cabo ou algo do gênero. Resoluto, me dirigi ao Itaim, onde vaguei durante quarenta minutos gritando o nome da minha namorada, até lembrar que a Solange sempre morou na Lapa. Quando me dei conta do equívoco, achei que seria possível dar uma marcha-ré na 23 de Maio e foi exatamente isso que eu fiz antes de ser atingido por um caminhão em alta velocidade. Por sorte (do caminhão), eu estava na minha bicicleta, que foi arremessada a dois quilômetros de distância enquanto eu permaneci colado ao meu guidão no meio-fio. Realmente sei que tive muita sorte de escapar ileso e a única consequencia desse acidente é desmaiar toda vez que escuto uma buzina e isso vale, inclusive, quando o sorveteiro passa com o seu carrinho na frente da minha casa. A sensação de ter nascido de novo me deixou numa euforia sem precedentes. Saí correndo pelas ruas, pensando que tudo o que tinha me acontecido naquela noite era um sinal de que eu não deveria mais me apegar a coisas pequenas e banais. Naquele momento, Solange era uma sombra amorfa de um passado distante, difusa no brilho da constatação de que a vida era uma dádiva e que o amor era o dom supremo do meu coração e que deveria ser compartilhado com quem de fato o merecesse. Pensei na insignificância dos nossos problemas diante da grandiosidade do universo e decidi naquele momento que a bondade seria a minha bússola na construção de um mundo melhor e mais justo. Cheguei no meu prédio absolutamente extasiado e tudo teria dado certo se o Seu Josias não tivesse me comunicado que o filha da puta do meu vizinho do andar de baixo estava reclamando de uma infiltração que, segundo ele, vinha do meu apartamento. Quando eu disse que era inquilino e que o vizinho poderia enfiar a reclamação no rabo, o seu Josias falou que eu não precisava gritar daquele jeito e foi nessa hora que eu mandei ele calar a boca e levei um soco na cara. Enfim, horas depois eu tava na delegacia, mas aí a Jurema apareceu, pagou a fiança e agora, enquanto eu amar essa mulher, tudo vai continuar ótimo.
Escrito por Leonardo Cortez às 10h10
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