O Carteiro
O Carteiro conhecia todas as ruas da cidade e quase a totalidade de seus cinquenta mil moradores. Era um senhor de traços robustos calejados pelas horas a fio percorridas ao sol de tantos dias de calor insuportável. Dezenas de pares de sapatos e milhares de litros dágua consumidos graças a boa vontade de quem recebia a correspondência e retribuia o trabalho bem feito com um copo e cinco minutos de conversa mole, porque eram muitas as cartas pra tão pouco tempo de expediênte. O Carteiro era figura aguardadíssima, sabia disso e valorizava sua presença com toques firmes nas campainhas que anunciavam o cumprimento do seu dever. Foram trinta anos andando de cima pra baixo numa disposição invejável que esconderam qualquer eventual tristeza ou melancolia. Pra se ter uma idéia, o Carteiro entregou um punhado de cartas no dia seguinte à morte do próprio filho e aquela atitude foi interpretada por muita gente como a garantia de que o mundo não acabaria jamais, mesmo diante de tragédias pessoais imensuráveis. O Carteiro deixou de sair de casa para o trabalho depois de uma quarta-feira como outra qualquer, interrompida diante do pavor de perceber-se perdido numa rua por onde ele passava pelo menos cinco vezes no mesmo dia. Quem testemunhou o fato disse que a princípio ele simplesmente parou e ficou por ali durante intermináveis dois minutos. Em seguida, deu meia volta, buscando no caminho percorrido algum lampejo da velha segurança. Parou de novo e o olhar vidrado denunciava uma constatação terrível. Alguns passantes ofereceram ajuda e dali a pouco chamaram a esposa, que chegou em pouco tempo, com a resignação típica de quem sabia que algo do gênero estava prestes a acontecer. Quando ela se aproximou do marido, um aglomerado de pessoas se formava ao redor de um homem que de uma hora pra outra havia se transformado numa espécie de Kaspar Hauser uniformizado, empunhando múltiplas cartas. E logo depois de ser conduzido ao interior do carro, o Carteiro fincou as unhas na própria testa e arrasto-as em direção ao queixo, preenchendo a face enrrugada com oito longos filetes de sangue.
Escrito por Leonardo Cortez às 01h34
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