Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


Helena

Você é linda e tão forte. Admiro tanto seu senso de justiça, seu caráter,  sua força e otimismo. Preciso muito desse seu apartamento sempre aberto no consolo das tormentas da minha adolescência atormentada. Você é jovem demais pra ser tão triste, ela me disse. Ela está sempre certa.

Ela não merecia tantos anos de silêncio. Ela não merecia minha ausência justificada em nome de quinze mil bobagens que ocupam meu dia a dia e que me impediram de visitá-la com mais frequencia. Eu sinto tanto por ter te dado tão pouco e por ter te dito muito menos do que o meu coração sente. Eu sinto tanta saudade de conversar contigo, sinto tanta falta da sua visão sábia das coisas. E aprendi contigo que, se sou imensamente fraco, também sou forte o suficiênte pra reconhecer isso e lutar, simplesmente, como você me ensinou.  

"A vida é combate que aos fracos abate e que aos bravos e fortes só pode exaltar."

Adeus , vó. Desculpe não ter te agradecido tanto, tanto, tanto... 



Escrito por Leonardo Cortez às 00h43
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ir-remediável

 

 

Abri os olhos e vi que os destroços estavam espalhados por todo lado. Olhei ao redor, procurando desesperadamente por você e vi que você estava bem, o que foi a melhor coisa que eu poderia ter sentido em toda a minha vida. Eu quero ver essa gente amada crescer e por isso estou um pouco apavorado, só isso. Mas deixe-me dizer uma coisa, antes de ser recolhido por essa ambulância: eu lamento muito que possam pensar que eu fui um desses que focalizam o pior do ser humano quando falam sobre ele. O que eu disse e escrevi não retrata o que eu acredito e uma das minhas grandes misérias é ser incapaz de descrever o meu maravilhamento. Fica aqui o registro. Eu me maravilhei muitas vezes, muito embora não tenha falado sobre isso de maneira contundente.



Escrito por Leonardo Cortez às 00h45
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Fim

Mal consigo acreditar que a Sueli me deixou. Na realidade, eu deveria saber que seria difícil ser apenas um blefe aquela história de “estou indo embora pra sempre”, acompanhada daquele monte de malas que ela fez questão de fazer na minha frente, o que foi bem esquisito, já que a gente não morava junto e dentro das malas só tinha roupa minha. O fato é que ela saiu porta afora e agora tudo o que me resta é curtir essa sensação fantástica de liberdade que deve estar escondida dentro de mim, debaixo de toneladas de desespero, angústia e depressão.

*

Liguei pra Sueli três vezes hoje. No período da manhã. E no intervalo de vinte minutos. No resto do dia, foram mais desesseis tentativas de falar com aquela vaca. Agora, ela não me atende mais, talvez porque eu tenha chamado ela de vaca no primeiro telefonema, muito embora eu acredite que o fato de ter ligado às seis e meia da manhã tenha sido o que mais a aborreceu nessa história toda. Eu sei que eu não deveria ter ligado tão cedo, mas o que eu posso fazer se nos meus pesadelos a Sueli tá sempre se comportando tão mal?

*

Seguindo um conselho da minha faxineira, escrevi num papel tudo que eu queria dizer pra Sueli, mas que nunca consigo expressar porque na hora das discussões eu sempre fico muito nervoso e perco o fio do meu raciocínio. Com os dedos trêmulos, eu liguei pra casa dela e desembestei num desabafo desesperado que saiu da minha garganta com a virulência das cataratas do Niágara. Foram quinze minutos pra dar conta das sete páginas que eu havia escrito e reescrito durante toda a minha madrugada de insônia e no final de tudo, uma voz de velha me respondeu que eu tinha ligado pro número errado. Pedi desculpas e telefonei pra Sueli, dessa vez no número certo, mas ela não estava em casa, a vaca.

*

Hoje, perseguindo a Sueli às escondidas, flagrei a desgraçada almoçando com um sujeito no mesmo restaurante de comida macrobiótica onde ela me disse pela primeira vez que nós precisávamos de um tempo. Na ocasião, eu achei o fim da picada aquela proposta, já que aquele almoço era o nosso segundo encontro e por isso, agredi o garçom quando ele veio trazer a conta. O homem que estava com a Sueli era um velho asqueroso que no meio da sobremesa pegou na mão dela, o que me fez sair como um tigre faminto debaixo da mesa onde eu estava escondido. E nem adiantou a Sueli explicar que o velho era seu pai. Acabei agredindo o garçom de novo, antes de ser retirado à força pelos seguranças do estabelecimento.

*

Meus amigos tem me evitado porque toda vez que eu encontro com eles, eu fico falando o tempo todo da Sueli. O Zé, inclusive, rompeu a amizade comigo durante nossa última bebedeira, mas mudou de idéia quando eu prometi que pagava a conta. O Geraldo mandou dizer que estava viajando e que por isso não poderia me encontrar hoje e foi por isso eu fiquei bastante surpreso quando cheguei no bar e dei de cara com o Geraldo, sentado numa mesa acompanhado de uma loira lindíssima. Eu disse: “Pô, Geraldo! Você não tava viajando?” ao que ele respondeu que sim e que aquele diálogo era fruto da minha imaginação. Acreditei, porque é muito raro ver o Geraldo acompanhado por uma loira lindíssima. Deprimido, voltei pra casa e consultei minha agenda telefônica. Parei na letra M e liguei pra minha mãe, mas ela mandou dizer que não estava. O que foi estranho porque eu tenho certeza que foi ela mesma quem atendeu o telefone.

*

Dei uma grana pro porteiro do prédio da Sueli me avisar sempre que um homem aparecer na portaria perguntando por ela. Hoje, às dez da manhã, meu celular tocou. Era o porteiro, dizendo que um sujeito tinha acabado de subir. Me vesti atabalhoado e cheguei no prédio soltando fogo pelas ventas. E nem adiantou a Sueli dizer que o sujeito era o encanador. Enchi o porteiro de porrada assim mesmo e acabei sendo levado pela polícia.

*

A Sueli prestou queixa contra mim, o que só reforça a minha tese de que ela é uma vaca. Agora eu não posso chegar perto dela dela num raio de um quilômetro. Achei melhor não ignorar a intimação, mesmo porque na delegacia eu ganhei umas boas bordoadas na orelha. Por isso, pra me aproximar da Sueli discretamente e sem ser notado, decidi comprar um nariz com bigode e óculos postiço daqueles que te deixam a cara do Grouxo Marx. Não sei porque, mas a Sueli me reconheceu de cara e o fato é que amanheci na delegacia de novo, de onde só fui liberado três dias depois. Poderia ter saído antes se a minha mãe tivesse pago logo a minha fiança, mas ela disse que precisava de um descanso no final de semana.

*

Não consigo tirar a Sueli da minha cabeça, o que não seria tão desagradável se, na carona dessa obsessão, eu não esquecesse coisas simples do meu dia-dia, como por exemplo, por que que eu saí de casa de manhã ou pra onde eu estava indo agora que eu me encontro no meio da Praça da Sé, às sete e meia da noite. Não consigo me concentrar em nada, revivendo os grandes momentos da nossa paixão e rememorando cada detalhe daquele corpo nú, o que não é fácil, porque a Sueli sempre apagava as luzes quando a gente fazia sexo. Essa mania da Sueli acabou rendendo problemas pra nossa relação. Numa noite de inverno, eu me encontrava especialmente inebriado pela minha voracidade e não reparei que a Sueli tinha saído da cama e que estava no banheiro. Tive um orgasmo inesquecível e quando a Sueli acendeu a luz, foi difícil pra mim explicar que eu não havia percebido a diferença entre ela e um travesseiro de penas de ganso.

*

Resolvi cair na gandaia pra esquecer da Sueli e acabei a noite na cama de uma prostituta chamada Verônica. O problema é que no meio da bebedeira que antecedeu o programa, eu esqueci minha carteira no banheiro do bar. Obviamente a Verônica ficou puta, com o perdão do trocadilho e disse que iria chamar o Janjão. Eu ainda tentei argumentar que o fato de eu ter broxado poderia ser um atenuante no calote, mas isso não adiantou -com o perdão do trocadilho, de novo- porra nenhuma. Dali a pouco o Janjão tava gentilmente me conduzindo pra fora do hotel, enquanto eu contabilizava quantos dentes eu havia perdido depois da cerimônia de despedida. Trôpego e maltrapilho, fui até o prédio da Sueli e acabei apanhando um pouco mais do porteiro, que desde o episódio do encanador, estava doido pra me dar umas porradas. Me arrastei até os fundos do prédio, onde consegui pular o muro que dava acesso à uma garagem descoberta, infelizmente guardada por um cachorro Rotwailer. Depois de ter sido quase dilacerado pela besta-fera, consegui ter acesso à escadaria de serviço e subi entre trancos e barrancos os dezessete andares que me conduziram até o apartamento da minha ex-namorada. Durante o trajeto, desmaiei duas vezes, rolando três lances de escada no primeiro desmaio e mais dois no segundo. Quando finalmente consegui chegar até a porta, constatei que dois dedos da minha mão direita estavam fraturados. Ainda assim, consegui tocar a campainha. A Sueli atendeu e mostrou nítida má vontade ao me ver estendido no capacho, mas mesmo assim, chamou a ambulância.

O que eu acho que foi uma atitude bacana da parte dela, o que prova  que a gente ainda tem chance de se entender um dia.



Escrito por Leonardo Cortez às 03h29
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