DE VOLTA, DE NOVO...
Depois de longo e tenebroso inverno, eis-me de volta à esse blog moribundo, que definitivamente não corresponde ao carinho que volta e meia se manifesta por aqui através de pacientes e fiéis leitores que ainda insistem em prestigiar o Diário do Ganso. Prometo tentar ser mais disciplinado nas postagens, mas aviso de antemão que as minhas promessas não valem nada. De prima, quero dizer que há uns dez anos eu fui assistir no Centro Cultural São Paulo o repertório da Cia do Latão e entre uma peça e outra não consegui deixar de me imaginar fazendo a mesma coisa num futuro distante. Bom, a questão é que o futuro distante chegou mais rápido do que eu imaginava e pra aliviar essa sensação esquisita de ser o tiozão da vez, a partir de 18 de setembro eu vou fazer a mesma coisa: um repertório das minhas peças, celebrando dez anos de Cia dos Gansos, esse grupo que eu mantenho à fórceps, entre trancos, barrancos, barracos, dívidas, processos trabalhistas e algumas cervejas compartilhadas com os meus colegas de elenco. Estaremos em cena na Sala Jardel Filho com todas as peças que integram o livro "Trilogia Canalha". No pacote de benefícios, uma remontagem de "O Crapula Redimido", desta vez com a minha ilustre figura protagonizando a peça, já que o Valter Lagoa, que assumiu esse ofício na estréia, há seis anos, acabou desistindo da profissão de ator, argumentando, veja se isso é motivo, que ele precisava de dinheiro pra comer. Então, na ausência de algum insano que topasse a empreitada, eis-me em cena, entusiasmadíssimo na redescoberta das virtudes de um texto que eu poderia dizer que foi escrito na época em que eu vivia imerso em porres homéricos que eu compartilhava com meus amigos viciados e com as prostitutas que frequentavam a minha quitinete imunda e que serviram de inspiração para cada um dos personagens. Poderia dizer, mas seria mentira porque a realidade é que essa peça eu escrevi quanto morava na casa da minha mãe, entre uma louça ou outra que ela me obrigava a lavar. A Glaucia anda puta comigo, porque eu tenho ensaiado em casa. Volta e meia ela prefere sair com as crianças pra que elas não se assustem com a gritaria, muito embora eu tenha explicado pra Clara que toda vez que o papai grita como um demente é porque está ensaiando uma peça. Isso é uma ótima desculpa pra xingar os vizinhos na frente dela, sem a preocupação de ter que recorrer ao psicólogo daqui a alguns anos. Em "O Crapula Redimido" teremos pela primeira vez, na história da Cia dos Gansos, a presença de uma banda de rock no palco, encabeçada pelo Ricardo Corte Real, que faz o meu colega Nepotônio Sobrinho na Escolinha da Band. Essa é mais uma prova de que a Band paga muito bem seus atores, já que o Ricardo agora pode se dedicar à atividades nada rentáveis nas suas horas de folga, como tocar numa peça minha. Outra que está bem de vida e que topou tudo pela amizade foi a Eliana Fonseca, que sempre foi uma espécie de mãe artística na minha vida e que agora vai fazer o papel da minha mulher. No papel da minha amante, a Daniele di Donato, que foi a minha esposa Celeste na novela "Dance, Dance, Dance", além das presenças ilustres do Henrique Pessoa e do Rinaldo Aranha, que fizeram parte do elenco de 2003 e que ao contrário dos outros atores da montagem original, não mandaram dizer que não estavam quando eu telefonei pra eles fazendo o convite. Três semanas depois, reestreamos, com o elenco original e três dentes a menos por conta das nossas últimas brigas, "O Rei dos Urubus", o que vai representar uma ótima oportunidade de assistir a peça numa cadeira acolchoada, o que não acontecia quando a gente se apresentava pras duras arquibancadas do Espaço Porão na nossa primeira temporada aqui em São Paulo. Confesso que eu sempre me senti culpado por submeter o público a tanto deconforto, mas o que me consolava é que muitas vezes o público não aparecia. Por fim, fechamos o repertório com Escombros, meu texto preferido, que teria ganho o Prêmio Shell de 2006 se minha mãe estivesse no corpo de jurados. E pra finalizar, bom que se diga que em agosto vou pro Rio nos dias 17 e 24 fazer duas leituras dramáticas de Escombros e Rei dos Urubus na Casa da Gávea. Vai ser bacana. O Paulo Betti inclusive topou ler uma delas, desde que eu prometesse parar de encher o saco dele com as minhas súplicas. Vou adotar a mesma estratégia com o Rafael Cortez, muito embora eu tenha certeza de que ele vai acabar topando participar da leitura se eu ameaçar tornar pública a informação de que na infância ele gostava do Menudo.
Escrito por Leonardo Cortez às 02h45
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