Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


CONTO MÓRBITO FINAL

 

Numa segunda-feira como outra qualquer, o Nunes chegou no horário de sempre ao trabalho e logo de cara estranhou que em frente ao prédio estivessem estacionados dois Passats, uma Belina e um Fusca, todos em excelente estado de conservação. O Nunes se preparava para comentar o episódio com o Seu Vieira, o porteiro, quando notou, estupefacto, que o veterano funcionário havia pintado os grisalhos cabelos e emagrecido milagrosamente, o que tornava a sua aparência muito mais jovial. E o Nunes teria comentado isso com o porteiro se, estranhamente, ele não tivesse sido barrado.

-Posso ajudá-lo?

-Que brincadeira é essa, Seu Vieira? Eu trabalho aqui.

-Seu crachá, por favor?

E foi nessa hora que o Nunes reparou que haviam retirado as catracas eletrônicas por onde entravam os funcionários.

-Onde estão as catracas, Seu Vieira?

-Nunca teve catraca nenhuma. Crachá, por favor...

Impaciente com a brincadeira sem graça, o Nunes sacou o crachá digital que havia acabado de receber do RH, cujo código de barras também poderia ser usado para debitar o valor do tíquete-refeição na hora do almoço.

-Que porra é essa?, disse o Seu Vieira, enquanto olhava o crachá como se jamais tivesse tocado em algo tão moderno e cibernético. O Nunes deu um suspiro de impaciência e aproveitando o fascínio do porteiro com o documento, entrou no elevador que havia acabado de chegar no andar térreo. Na cabine, outro fato intrigante: o moderno elevador espelhado e repleto de câmeras e de sensíveis botões digitais havia sido trocado por um modelo obsoleto, com paredes de madeira compensada e botões pretos de pressão com o número do andar pintado ao lado. Mas o que deixou o Nunes boquiaberto foi o fato de que ele conhecia aquele elevador, justamente porque era exatamente o mesmo elevador que ele usava quando ingressou no escritório. E passada a inebriação gerada pela viagem nostálgica que aquele elevador havia lhe proporcionado, ele pensou consigo mesmo: “Não é possível...”

O elevador parou no andar de sempre, o sexto, mas quando a porta se abriu, não estava diante dele o moderno escritório de paredes de alumínio iluminado pelas  luzes dicróicas de última geração, com as modernas mesas de vidro e as cadeiras de reclinação hidráulica. Tudo agora era simples e despojado com aquelas mesas na cor creme, feitas de madeira compensada onde telefones de luzinhas amarelas em cada um dos números davam um ar de modernidade à uma tecnologia que, ele sabia, já era completamente obsoleta. O Nunes teria dado meia volta se tivesse a certeza de ter se enganado de endereço, mas não fez isso porque sabia onde estava: o seu escritório, o mesmo escritório de trinta anos antes. A comprovação veio através de um jornal que repousava em cima do balcão. O Nunes olhou a data. Abril de 1979. Dois meses depois da sua contratação. Antes que ele pudesse recuperar o fôlego, o desfile dos rostos conhecidos começou a dissipar a neblina das suas lembranças e na carona da euforia, ele apontava os funcionários, resgatando as memórias adormecidas:

-Dona Angêla! Não está me reconhecendo?

-Não. O senhor tem hora marcada?

-Dona Angela! A senhora trabalhou quinze anos nessa recepção e saiu depois que teve uma crise de nervos por causa da morte do seu cachorro... o ... o ...

-O Hugo?

-Hugo! Isso! Hugo!

-O Hugo vai morrer?

-Claro que vai! E por causa disso a senhora vai pedir transferência pra filial de Bragança, onde morrerá atropelada por uma mobilete!

Naquela altura, os funcionários foram saindo de suas salas, atraídos pelo discurso aparentemente ensandecido daquele velho estranho.

-Borges! Não tá me reconhecendo?

-Pois não, meu senhor?

-Você era tão jovem! Depois, deu pra beber, foi demitido! Te encontrei um trapo num bar do centro!

-O que significa isso?

-Eu sou o culpado! Insistia pra que você me acompanhar no happy-hour e você dizendo que precisava voltar pra casa porque a Cleide tava te esperando!

-Comecei a namorar a Cleide mês passado!

-E vai casar, meu amigo! Mas te digo, daqui a vinte anos, você vai estar chamando a Cleide de mocréia!

E antes que o Borges manifestasse sua indignação, um sujeito obeso tomou a palavra.

-O que está acontecendo aqui?

-Noronha! Você tá vivo!

-Claro que estou vivo! Quem é você?

-Noronha, escuta o que eu te digo. Trata essa depressão crônica com um psiquiatra desde já! E se afasta daquela aeromoça que ela vai ser o pretexto pro seu suicídio!

Da ante-sala da Biblioteca apareceu a Dilza, gostosíssima como sempre.

-Dilza, meu sonho de consumo! Você vai morrer engasgada com um sanduíche na fase mais feliz da sua vida! A existência humana é de uma ironia aviltante, minha filha!

A essa altura, todos os funcionários cercavam o Nunes, absolutamente perplexos.

- Péricles, você ainda tem cabelo! Não faça aquela implante que seu couro cabeludo tem hipersensibilidade! Valdemar, não reaja quando for assaltado daqui há dez anos porque o tiro na perna vai te deixar manco pro resto da vida! Getúlio, larga esse cigarro! Olavo, aceita aquele emprego em Joinville! Lúcia, não casa com aquele safado do Fernando que ele já tem outra família no Maranhão e você só vai descobrir quando estiver grávida do terceiro filho!

Aquele festival de previsões agourentas obviamente gerou um tremendo mal-estar e alguém chamou os seguranças que naquele momento já subiam as escadas no intuito de escorraçar o demente visionário. Mas antes disso, o Nunes quis salvar a própria vida.

-Onde está o Nunes?, o próprio Nunes gritou.

-O senhor é o pai? Porque parece muito com ele, alguém observou.

-Onde é que está o Nunes, porra?

-No banheiro....

O Nunes sabia que nada seria como antes. Por isso, invadiu sôfrego aquele banheiro de azulejos cor azul celeste e deu de cara consigo mesmo lavando as mãos na torneirinha ordinária que anos depois seria substituída por modernas torneiras com sensor fotoelétrico. Achou-se lindo naquela juventude perdida e sentiu por si uma ternura imensa e uma grande vontade de se dar uma dose imensa de carinho e atenção. Tomou o seu próprio rosto jovem com as mãos e ignorando o semblante de horror que o jovem Nunes dirigia pra si mesmo, disse numa convicção assombrosa:

-Peça a mão da Juliana em casamento! Esquece aquele curso de inglês e aquela essa história de intercâmbio, seu idiota! Casa com a Juliana, entendeu?! Com a Juliana! Com a Juliana!

Foi quando ele sentiu a pontada e deslizou pela parede. Do chão, ele reparou que o tempo presente estava de volta. Agora os azulejos eram de mármore, as torneiras tinham  sensores e as toalhas de papel davam lugar aos secadores automáticos que ele sempre detestara. Diante dele, os colegas mortos haviam desaparecido e os outros,  que foram contratados depois, lamentavam o ataque senil daquele que era o mais antigo de todos os funcionários do escritório. E antes de morrer, o Nunes percorreu o ambiente com os olhos na esperança de encontrar o jovem Nunes no meio dos curiosos que se apinhavam para testemunhar a sua desgraça. E, pra sua imensa alegria, teve a nítida impressão de ter se visto correndo para algum dos telefones de luzinhas amarelas, na tentativa de encontrar a Juliana ainda em casa.



Escrito por Leonardo Cortez às 23h56
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MICROCONTOS MÓRBIDOS DE ESCRITÓRIO

TRABALHO ENFORCADO 

Dona Joana era uma mulher discreta e eficiente. Naquela manhã, ela chegou no escritório mais cedo do que o costume, precisamente cinco e meia da manhã, pra estranhamento do Seu Ferraro, da zeladoria. A assessorista, Dona Eulália, ainda não estava no elevador, por isso Dona Joana subiu a pé os três lances de escadas que a conduziram ao escritório deserto. Ela acendeu todas as luzes, colocou nas orelhas os fones do i-pod e sentou-se à sua mesa pra depois ajeitar o porta-retrato com a foto do sobrinho mais novo, o Norberto. Arrumou os arquivos conforme ela havia prometido ao Jacinto, do departamento de vendas, na véspera. Organizou os formulários para que a Regina da contabilidade tivesse tudo à disposição no dia do pagamento. Estruturou cinco planilhas orçamentárias como havia se comprometido com Ernani do Rh. Às oito e quinze da manhã, precisamente quinze minutos antes da chegada do pessoal pro expediente ela entrou no banheiro feminino. Às nove horas e dez minutos, a Cleide da faxina encontrou o corpo de Dona Joana dependurado numa corda. Obviamente algumas pessoas ficaram chocadas e o Dr. Osmar, da gerência executiva, achou aconselhável mandar todo mundo embora pra casa naquele dia, mesmo porque, a Dona Joana tinha adiantado boa parte do serviço.

ESQUECERAM DE MIM

Foi um cheiro estranho vindo do almoxarifado que chamou a atenção dos funcionários do depósito. Normalmente cheiros esquisitos vinham do almoxarifado, mas era difícil ser preciso em relação origem daquilo, mesmo porque o almoxarifado era colado na cozinha onde todo mundo colocava as marmitas num daqueles tanques de agua morna que esquentam o almoço em banho-maria. No entanto, o Alfredo cismou que aquilo tava forte demais e qual não foi a surpresa de todos quando descobriram que o seu Olivério, o veterano funcionário responsável pelo arquivo-morto estava, com o perdão da ironia, morto há três dias, deitado atrás de uma das estantes de fichário, onde normalmente ele se encostava pra tirar um cochilo depois do almoço. Durante uma investigação posterior, descobriram que o Elias da segurança havia suspeitado que a soneca do Seu Olivério estava longa demais, mas que ele preferiu não acordá-lo porque, segundo o seu relato,  “o Olivério era mais agradável dormindo do que acordado”. Todos foram obrigados a concordar com o Elias e no final das contas, ninguém foi demitido depois do episódio.

 

O PODER DO BOM HUMOR

Foi com uma solenidade respeitosa e lamurienta que o Dr. Leopoldo anunciou na reunião de fechamento mensal que seria obrigado, por conta da política de contenção de despesas, a demitir cinqüenta por cento dos funcionários do departamento de pesquisa de mercado, onde na realidade trabalhavam num esquema de revezamento rotativo somente o Matias e a Dona Irene. Os dois funcionários, apesar de dividirem a mesma mesa, possuíam personalidades antagônicas: enquanto Matias era um poço de popularidade por conta do seu jeito extrovertido e irreverente, a Irene era conhecida pela amargura e pelo fel destilado em cada rara manifestação vocal durante o período de trabalho. Por isso, naturalmente, todos os funcionários torceram violentamente em segredo para que a mocréia da Irene fosse a escolhida pra ser mandada embora. O problema é que, justamente por ser um piadista convicto, a produtividade do Matias em comparação à da colega era baixíssima e não restou ao Dr. Leopoldo outra alternativa a não ser optar pela degola do simpático escriturário, que com o seu bom humor e alto-astral alegrava aquele ambiente sinistro, soturno e melancólico. E não foi surpresa que no último dia de trabalho do Matias, os funcionários fizessem fila pra dar no sujeito um abraço de despedida invariavelmente comovido, numa cena que poderia levar qualquer um às lágrimas. Na realidade, a única pessoa indiferente à comoção geral era Irene, que pra se despedir de Matias preferiu acenar de longe e dizer algo como “seja feliz, se é que isso é possível nos dias de hoje...”

No decorrer das semanas subseqüentes, um clima de velório interminável se instaurou, e no ápice da angústia incontida, a Sueli do Financeiro explodiu numa crise de choro revelando em altos brados que, na realidade, sempre fora apaixonada pelo Matias, o que era um sentimento que muitas mulheres e alguns homens do escritório secretamente compartilhavam com ela. Enquanto isso, Dona Irene permanecia inabalável na sua alta produtividade e no seu silêncio antipático, cada vez mais cultivado na solidão daquela mesa que agora era somente sua.

Talvez tenha sido por tudo isso que, a par de do choque gerado pela notícia, ninguém tenha lamentado muito a morte repentina de Irene, vítima de um misterioso atropelamento na garagem do escritório. A polícia achou curioso o desaparecimento das fitas de segurança e o fato do acidente não ter sido, aparentemente, testemunhado por ninguém. E nem bem o caso foi arquivado, o Matias estava de volta à sua mesa, mais piadista do que nunca, curiosamente um pouco menos engraçado do que antes por causa de uma certa ansiedade revelada em cada piada proferida, como se aquele senso de humor fosse, a partir de agora, praticamente uma obrigação contratual.

 

 



Escrito por Leonardo Cortez às 14h05
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