CONTO DO DESABAFO DA EX
Recebi esse telefonema da Isadora. Eu sei. Se eu tivesse dado a devida atenção à esse desabafo, não estaria agora nessa cama de hospital, me recuperando das cinco facadas que eu levei pelas costas hoje pela manhã. Pelo menos, a Isadora pediu desculpas. O que não alivia o fato dela ter desligado de maneira proposital os aparelhos que ainda me mantinham vivo hoje à tarde. Pra minha sorte, a Isadora confundiu as camas e quem morreu foi o meu colega de quarto de UTI.
“Desculpa, eu tava numa aflição monstruosa. Não sabia se te ligava ou não. Na realidade, eu tava decidida a não ligar, mas depois eu decidi que o melhor seria ligar mesmo e se eu estou falando com você agora, é porque entre ligar ou não ligar, eu acabei optando pela segunda opção, alias como normalmente acontece em situações onde eu fico na dúvida entre fazer uma coisa ou outra. Historicamente na minha vida sempre foi assim: eu opto invariavelmente pela segunda opção e isso seria uma tranqüilidade se eu não tivesse problemas imensos para decidir qual opção é a primeira e qual opção é a segunda.
Pois é. Acabei ligando. Não digo que foi fácil. Pelo contrário: foi difícil. Ok, eu sei que acabei de cometer uma redundância porque se eu digo que uma coisa não é fácil , é porque obviamente ela é difícil. Mas deixa eu ser mais clara com você: quando eu digo que não foi fácil, e quando eu digo que além de não ter sido fácil, foi, antes de tudo, muito difícil, na realidade estou querendo te dizer que você é um filho da puta e nunca é fácil falar com um filho da puta como você. E me desculpe se eu estou desviando do assunto. Não foi pra te xingar que eu te liguei. Na realidade eu pensei em te xingar num primeiro momento, mas depois concluí que se fosse pra te xingar , nem valeria a pena dar esse telefonema. Então, eu pensei comigo mesma: “Ligo, mas não xingo.” e o fato é que eu liguei e te xinguei, o que é a prova cabal que eu não consigo fazer nada do que eu planejo quando o assunto é o nosso relacionamento amoroso.
Acho que é preciso um pouco mais de inteligência da sua parte para entender o quanto eu sou profunda, mesmo quando eu demonstro essa aparente superficialidade. Saiba que a minha superficialidade esconde uma profundidade muito menos óbvia do que a profundidade que você está acostumado a conhecer nas relações superficiais que você vivenciou antes de ter me conhecido porque, ao contrário das mulheres com quem você se acostumou a conviver, a minha profundidade não é rasa, meu querido!
Tô cansada do teu desinteresse. Você não pergunta nada, você responde nada e quando fala alguma coisa, fala baixo que é pra eu não escutar, ou então fala em inglês, sabendo que eu não manjo picas desse idioma. Então, eu fico com essa sensação chata de que você não se importa, e se você não se importa é porque não te interessa saber o quanto isso me magoa, e como se não bastasse tudo isso, você ainda é incapaz de me pedir desculpas, usando como desculpas pra não pedir desculpas o fato de que você não sabe o que eu estou querendo dizer quando eu digo que tô magoada pra cacete.
Não sei se tô sendo clara. Às vezes eu tenho essa sensação de que as nossas conversas nunca me levam pra lugar nenhum. Esse telefonema é um exemplo clássico! Estamos andando em círculos nessa conversa telefônica, porra! Alias, não sei porque eu tô chamando essa conversa de conversa, se é só eu que tô falando. Numa conversa, duas ou mais pessoas falam, de maneira intercalada, visando um entendimento. Na nossa relação, eu sempre falo sozinha, você nunca abre a boca, quando abre a boca, fala baixo ou fala em inglês e o resultado é que a gente nunca se entende. Agora, se eu fico falando sozinha é porque a impressão que eu tenho é que somente interessa a mim encontrar as soluções pros problemas que só eu enxergo e que aparentemente só angustiam a mim mesma e não a você. Eu sei que você poderia dizer que nesse caso o problema é meu, e eu sei que provavelmente você está certo, mas se eu não divido com você os problemas que eu desenvolvo graças à nossa relação mal-resolvida, então com quem que eu vou desabafar?
Finalizando, é o seguinte: aquilo tudo o que eu disse ontem, esquece. Eu não queria dizer, muito embora precisasse. Na verdade, uma coisa é precisar dizer, outra coisa é dizer de verdade. Eu deveria ter calado a boca, mas o fato é que eu disse, você escutou, eu me arrependi de ter dito e agora tô ligando pra pedir desculpas. Eu sei que já pedi desculpas ontem e também sei que você odeia quando eu peço desculpas. Enfim, eu tô ligando pra pedir desculpas pelo pedido de desculpas que eu dei e, aproveitando que eu tô me desculpando de novo, então, eu peço desculpas novamente. Mas antes de pedir essas desculpas, eu vou te dizer umas verdades! Preparado? Então lá vai: pra começo de conversa... alô? Alô?”
Escrito por Leonardo Cortez às 00h56
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