ENTREVISTAS
Talmo Flores foi um dos mais promissores alunos da nossa faculdade de artes-cênicas. Ator de personalidade inquieta, Talmo dividiu comigo momentos marcantes da minha vida acadêmica, e aí estão incluídas experiências traumáticas com um bolo de maconha e uma garota linda do Centro Acadêmico chamada Suzete que deu pra todo mundo , menos pra nós dois. Eis que estou em casa , cuidando das crianças, quando recebo uma caixa lotada de fitas e um envelope pelo correio. Imediatamente, fiquei inebriado pelo material enviado e lancei-me à confecção desse texto, esquecendo por causa disso de providenciar o almoço, o que gerou um sonoro esporro da minha mulher quando ela chegou em casa. A seguir, a carta do Talmo e a transcrição de parte das gravações. “Querido Leonardo: Fomos durante muitos anos dois heróis na busca da concretização dos nossos ideais artísticos. Lembro das nossas conversas eufóricas no bar da faculdade, onde entorpecidos pela cerveja e pela beleza das universitárias que acompanhavam nossos discursos inflamados, colocávamos em cheque toda a produção teatral do nosso tempo, certos de que a nossa entrada no mercado seria o início de uma nova era de aproximação do teatro com a sua real função sócio-política. Eis que me vejo, quinze anos depois fazendo figuração em comercial de cerveja e no momento em que o diretor pede aos berros que eu saia do ângulo de visão da câmera porque o meu semblante sugere um fracasso que não é condizente com a imagem vitoriosa de quem comemora o happy-hour brindando com os amigos, tenho uma epifania e decido abandonar a carreira pra seguir a minha real vocação como monge budista. Aqui me despeço, meu amigo, doando, na carona da minha vocação , todos os pertences que me ligaram à esse mundo material. Não é muita coisa. A imobiliária aceitou receber a quitinete de volta com toda a mobília incluída, o que significa que o próximo morador do meu apartamento vai poder usufruir de um colchão de espuma surrado, de uma geladeira frigobar que nos últimos tempos eu usei pra guardar minha coleção de revistas Seleções e do casco da minha tartaruga Jacira, que depois de morta foi transformada num lindo cinzeiro. À minha ex-mulher, deixei o velho Fiat 147, que ela se recusou a receber em sua garagem e a você, querido amigo, deixo as fitas onde registrei o processo de criação de todos os meus personagens. Talvez esse material possa ser de serventia ao dramaturgo que você se transformou. Assim como todos os nossos ex-colegas de faculdade, sempre fui um ator muito responsável na construção dos meus papéis. Invariavelmente eles sempre ficavam idênticos uns aos outros, mas sei que isso era fruto da minha incapacidade técnica e não da minha negligência, que foi amplamente reservada à criação dos meus dois filhos. Em suas mãos, Leonardo, estão agora oitenta horas de entrevistas coletadas ao longo de todos esses anos de carreira, oriundas da minha busca pelo material humano que embasasse o meu trabalho de intérprete. É uma pena que esse esforço hercúleo não tenha resultado em nenhuma indicação ao prêmio Shell, mas antes de jogar as fitas no lixo, lembre-se que elas me renderam duas intimações judiciais, três internações hospitalares e uma grave intoxicação alimentar, entre outros apuros.
Hare Krishna
Talmo” Espetáculo: Baixo Meretrício, Altas Confusões Nessa comédia, Talmo interpretava o cafetão depravado Cabeça de Sebo, que no decorrer do espetáculo alicia cinco universitárias vindas do interior e acaba se envolvendo num escabroso caso de assassinato que acontece logo após uma orgia regada a drogas e animais silvestres. O detalhe dramático é que tudo isso acontece bem no dia em que Cabeça de Sebo resolve virar evangélico. Para entender o universo da prostituição, Talmo entrevistou, no dia 15 de maio de 1998, Verusca, uma simpática gordinha que fazia ponto na Augusta com a Caio Prado. TALMO- Podemos começar? VERUSCA- Pagamento adiantado... TALMO- Mas é só uma entrevista... VERUSCA- Olha que eu chamo o Janjão... TALMO- Ok. Aceita cheque? VERUSCA- Tá brincando, moleque? TALMO- Se der pra segurar até o dia vinte eu agradeço... VERUSCA- Vai dar uma bimbada à vista pra depois pagar à prazo? TALMO- Se você dividir em três vezes também ajuda... VERUSCA- Janjão, chega aqui! TALMO- Ok, eu tenho dinheiro vivo, pronto! Podemos começar? VERUSCA- Podemos. Tira a roupa. TALMO- Não. VERUSCA- Ok, eu tiro primeiro. TALMO- Você não está entendendo. Eu te chamei aqui pra uma entrevista. Eu sou ator, tô compondo um personagem que... VERUSCA- Eu já tirei tudinho pra você... TALMO- Bom, você quem sabe. Eu sou ator, tô acostumado com um estilo de vida menos reprimido... THALITA- Topo tudo, menos suruba. TALMO- Há quantos anos você... VERUSCA- Tira a camisa pra ficar mais a vontade... TALMO- Tá bom, mas é só porque tá calor. Desde quando você trabalha na... VERUSCA- Você tem um terceiro mamilo? TALMO- É uma pinta de nascença... Você acha que o mercado está favorá... VERUSCA- Hahahaha. Parece um terceiro mamilo! TALMO- Não tem graça. Na escola todo mundo tirava sarro quando eu ficava sem camisa... VERUSCA- Nunca vi uma coisa dessas! TALMO- Podemos continuar? VERUSCA- Deixa eu ver de perto? TALMO- Não! VERUSCA- Tá bom. Tira a calça. TALMO- Tiro. Mas é só por causa do calor... quantos clientes você... VERUSCA- Hahahaha... TALMO- Qual é a graça? VERUSCA- Hahahaha... TALMO- Qual é a graça? (O GRAVADOR É DESLIGADO)
Espetáculo: Clarabóia do Destino Em Clarabóia do Destino, Talmo entrava em cena no quinto ato pra servir um uisque pro pessoal da figuração enquanto os atores principais discutiam Proust, numa cena que, por opção estética da direção, era realizada na penumbra. Para compor o personagem do garçom, Talmo entrevistou Fidélis Pereira, que trabalhava no restaurante do saudoso Jubaro, que morreu ano passado, depois de experimentar a maionese do seu próprio bufet de saladas. TALMO- Podemos começar, Fidelis? FIDELIS- Claro. Sempre às ordens... TALMO- Que bom que você tá bem-humorado. FIDELIS- Só perco o sorriso quando não tiver mais dentes! TALMO- Claro, claro. Mas me conte um pouco sobre a sua rotina. FIDELIS- Minha rotina é ótima. Adoro trabalhar com o público e todo dia acontece uma novidade... TALMO- Como você se tornou garçom? FIDELIS- Sempre fui garçom. Começou como um bico, mas aí eu fui ficando. Lá se vão trinta anos. Servir bem pra servir sempre... Deixa eu pegar um copo dágua... TALMO- Claro, Fidelis. FIDELIS- Trinta anos nessa mesma espelunca. Que me importa se esse é um restaurante de quinta categoria? Minha vida não poderia ser melhor. Tá servido? TALMO- Fidelis, você sempre toma essa quantidade de comprimidos de uma vez? FIDELIS- Mês passado a minha mulher me deu um pé na bunda. “Você não tem ambição!”, ela falou. Ela não entende que eu estou onde sempre quis estar, ou seja, no mesmo lugar onde sempre estive? TALMO- Fidelis, que remédio é esse? FIDELIS- Não é remédio. É veneno de rato... TALMO- Fidelis! Socorro! Alguém chama uma ambulância! FIDELIS- Minha vida foi sempre essa festa! Agora eu vou curtir a ressaca no inferno! TALMO- Fidelis! Fidélis! (O GRAVADOR É DESLIGADO) (continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 02h15
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