Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


A burguesia

A jovem atriz se encantou com o pintor. Achava ele ótimo nas cores, composições e principalmente na cama. O pintor era mais velho e amava loucamente. Morava num pardieiro, entre tintas e telas. Ele tinha uma habilidade enorme de tirar a roupa da menina ao mesmo tempo em que se despia e abria espaço na cama, afastando o gato e os restos de comida que repousavam por ali. Ela tinha vinte e poucos anos, ele tinha trinta e muitos e foi amor a primeira vista. A família da menina foi contra, mas acabaram cedendo quando a menina anunciou que tava indo morar no pardieiro. Como a família era tradicional, o pai disse que bancava a cerimônia de casamento. O pintor disse que festa de casamento era coisa pequeno-burguesa, mas que topava por causa da comida. Durante a cerimônia, os convidados repararam que o smoking tinha manchas de tinta. Depois descobriram que era o molho de mostarda. O pintor encheu a cara e vomitou na festa do próprio casamento. Foi chato, mas a menina achou transgressor. 

A menina tentou transformar o pardieiro num lar depois do casamento. Como o gato só dormia se fosse na cama e no meio dos dois, ela levou o bicho pra Cidade Universitária e o deixou por lá. Cinco dias depois,  o gato estava de volta, o que foi um mistério porque o pardieiro ficava a dois ônibus e um metrô de distância do campus. Um dia, os pais da menina anunciaram que iriam fazer uma visita. Ela fez questão de arrumar tudo e pela primeira vez lamentou que o pardieiro não tivesse cadeira o que obrigaria seus progenitores a se sentarem no chão. O pintor achou a preocupação pequeno-burguesa, mas segurou o comentário porque ela andava se irritando quando ele chamava alguma coisa de preocupação pequeno-burguesa. Quando chegaram, era nítido o desalento dos velhos. Eles olhavam a mesma filha que anos antes namorava o Rubens,  que era filho de desembargador,  agora casada com aquele traste. E se perguntavam se o grande equívoco não tinha sido mandar a menina pro intercâmbio no Canadá, ocasião onde ela conheceu um grupinho de teatro amador e encasquetou que queria ser atriz, mesmo com aquela voz de taquara. O pintor se esforçou pra ser simpático, mas a visita ficou tensa depois que o pai recusou a água de torneira. Na saída do pardieiro,  a mãe, num misto de maldade com esperança, sussurrou no ouvido da filha:

-Encontrei o Rubens no clube. Ele te mandou um beijo.

Bom, hoje  a menina virou mulher e  tá casada com o Rubens. Leva uma vida de dondoca e a paixão pelo pintor virou folclore familiar, uma lembrança remota de uma época em que ela era porra-louca. Ela nunca mais ouviu falar daquele sujeito. Dizem que ele ainda mora no pardieiro, com dois novos gatos, porque aquele anterior ela levou pro sítio da família em Minas Gerais pra ser devorado pelos rootwilers. Parece que namora com uma universitária fascinada por aquele talento todo que ainda se manifesta na hora de tirar a roupa e afastar os gatos do ninho de amor. E parece que a universitária está mesmo apaixonada, ainda sem saber que, depois de casada com o artista, tudo o que ela vai desejar é um bom e velho burguês como marido



Escrito por Leonardo Cortez às 10h06
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25000

Bom, entre uma troca de fralda e outra, fui dar uma espiada no blog e vi que o número de visitas tava em 25000. Porra, 25000 visitas! Pode parecer pouco perto do blog do Rafael ou outros blogs da moda e tá certo que só eu e  a minha mãe devemos  ser responsáveis por umas mil e quinhentas conferidas, mas de qualquer modo, o número me impressiona. E pensar que o negócio todo começou em 2006 com meia dúzia de gatos pingados dando aquela força e fazendo um comentáriozinho aqui e acolá. O Diario do Ganso era um blog de crônicas que imediatamente me encheram o saco de escrever. Então eu desencavei os contos. E graças aos leitores fieis dessa página, que suportam com paciência a indisciplina de quem passa semanas sem escrever nada por aqui, eu fui perdendo totalmente os pudores de publicar as novas histórias na medida em que eles me vem à cabeça. Os comentários bacanas de muita gente me animaram à beça pra seguir nesse exercício da escrita e o resultado é que tem um monte de material aqui, me cobrando a batalha pela publicação de mais um livro, o que eu espero conseguir fazer até o fim desse ano. Então, a todo mundo que frequenta, comenta, lê e recomenda o Diario do Ganso, meu muito obrigadíssimo pelo prestígio. E pra quem gosta de teatro, fica aqui a lembrança que amanhã e quinta-feira eu tô felicíssimo fazendo "O Rei dos Urubus" em São Bernardo do Campo e que sábado e domingo tô em Santo André. Tudo pelo SESI e tudo de graça.

grande abraço a todos



Escrito por Leonardo Cortez às 22h21
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OS IRMÃOS GRIMM NOS DIAS DE HOJE

OS TRÊS PORQUINHOS


Somos eu e mais dois irmãos, o Geraldo e o Maciel. A gente vivia na maior podreira na casa da nossa mãe, que também era uma porca, com todo o respeito que a minha mãe merece. O que eu quero dizer é que ninguém se preocupava em passar uma vassoura, dar uma descarga ou segurar um pum fedido. A gente era unido naquela fedentina, mas aí os vizinhos começaram a reclamar e foi o começo da merda toda. Nossa mãe falou que ou a gente parava de tratar a casa como um chiqueiro, ou então cada um ia ter que se mandar pro seu próprio barraco. Achamos que a segunda opção era mais fácil , mesmo porque eu e os meus irmãos nunca chegamos num consenso pra saber quem ia tomar a iniciativa de lavar a louça primeiro. Vazamos e nossa mãe deu graças a Deus, porque ela já tinha uma oferta pra sublocar o nosso quartinho, que imediatamente foi ocupado por uma família de sete retirantes recém-chegados do Nordeste.

Me mandei prum barraco de palha no pé do morro. Aluguel barato e perto do ponto de ônibus, o que pra mim era indiferente porque eu sou um vagabundo, não trabalho e não preciso pegar o ônibus pra ir pra lugar nenhum. Arranjei uma nega que me sustentava e tava tudo numa boa até que a prefeitura falou que iam alargar a avenida. Quando bateram na minha porta,  eu disse que não saia do meu barraco nem fudendo, mas aí o trator passou por cima e estragou a minha mobília, que na verdade era composta de duas caixas de papelão onde eu apoiava o meu colchonete. Saí xingando e fui buscar abrigo na casa do meu irmão Geraldo, que naquela altura tava morando de favor no barraco de madeira da sogra, já que a mulher dele tava grávida e o casal não tinha pra onde ir. Fui recebido na porrada e disseram que eu não poderia ficar nem fudendo, o que na minha família geralmente significa que você pode ficar o tempo que quiser, mesmo porque foi assim que nossa mãe conseguiu o barraco onde a gente morava até pouco tempo atrás (o barraco da minha mãe era da minha tia, que há dez anos disse que a minha mãe não podia ficar nem fudendo. Tempos depois, minha mãe é que expulsou a minha tia da sua própria casa, mas é claro que ela não foi embora e mora lá até hoje).

Enfim, o fato é que me instalei no barraco de madeira da sogra do meu irmão com a minha nega e tudo tava uma merda, o que não significa que tava tão ruim assim, a não ser que tava uma merda muito fudida, até o dia em que a prefeitura apareceu de novo dizendo que o barraco de madeira tava construído em terreno desapropriado e que o trator ia passar por cima sem dó em piedade, o que levou, eu, minha nega, meu irmão Geraldo, a esposa grávida e a sogra do Geraldo a buscar abrigo na casa do meu irmão Maciel, que naquela altura tinha acabado de construir um sobrado de tijolo na base do mutirão.

Batemos na porta do Maciel e ele disse que a gente não podia ficar nem fudendo. Fomos entrando na maior alegria, mas aí o Maciel começou a atirar, o que deixou a situação tensa, porém contornável, principalmente porque a única pessoa que morreu no tiroteio foi a sogra do Geraldo, o que foi motivo de grande alívio pra todo mundo. A gente já tava se instalando quando o pessoal da prefeitura apareceu com o trator dizendo que tinha ordens de botar abaixo a casa quem não estivesse com o IPTU em dia. Começamos a arrumar as trouxas pra voltar pro barraco da nossa mãe, mas o que ninguém esperava é que o Maciel estivesse com o carnê quitado em mãos. O trator deu a meia-volta humilhado e nunca mais voltou. Combinamos de fazer um churrasco na lage pra comemorar, mas agora apareceu a nossa tia de mala e cuia dizendo que foi expulsa da casa da nossa mãe e que quer morar com a gente, o que não vai acontecer nem fudendo.


CHAPEUZINHO VERMELHO

Vou seguindo pelas ruas desertas aqui do Jardim Parada São Galvão usando meu boné vermelho que é pra não estragar a chapinha que eu fiz ontem à tarde na casa da Cleisa. Como se não bastasse ter uma vó doente, ainda sou obrigada a lidar com o sentimento de culpa da minha mãe, que apesar de não ter saco pra visitar a velha no hospital, me obriga a ir entregar esses doces pra ela lá no quarto 413 da Santa Casa de Misericórdia. O pior de tudo é que o hospital é longe , o caminho é deserto e sabe-se lá quem eu posso encontrar pelo caminho.

Quando eu chego na estação, o Toninho me aborda junto da catraca. Esse cara não sai do meu pé há seis meses e agora deu pra me seguir onde quer que eu vá. E de nada adianta dizer que eu tô indo visitar a minha avó no hospital. Ele diz que quer me acompanhar, e quando eu mando ele ir pro inferno ele diz que me encontra na Santa Casa e ainda garante que chega lá primeiro porque conhece um busão que chega por um caminho alternativo. Dou uma risada, deixo o coitado falando sozinho, pego o primeiro dos quatro trens, pra depois baldear na lotação que leva pro metrô antes de descer na Rua Marques de Itu, completamente no bagaço. Os doces eu fui traçando no caminho, pra delírio da minha celulite. Sobrou um pedaço de rocambole, que eu acho que nem vão liberar na entrada do hospital, mesmo porque minha avó tá internada justamente por causa da diabetes.

Entro no quarto e acho estranho porque a velha tá coberta até a cabeça. Penso: “Fudeu! Tá morta!” e é nessa hora que ela fala: “entra, minha netinha”. É aí que eu saco que na realidade quem tá na cama hospitalar é o Toninho disfarçado. Filho da puta! Acho uma graça fudida e me jogo embaixo do lençol com ele. A farra acaba quando entra o rapaz da faxina dizendo que a minha avó tem que sair do armário porque senão não dá pra guardar os produtos de limpeza no lugar certo.



CINDERELA


Eu tava muito puta da vida. Depois que a minha mãe sumiu no mundo, meu pai inventou de se casar uma mocréia, pra depois morrer de bebedeira, me deixando numa situação de merda, trampando de doméstica pra minha madrasta. O pior era aturar as duas bruacas das filhas dela, que ainda por cima ficavam me humilhando porque eu não poderia ir ao show de pagode que o Belo ia promover na nossa comunidade já que eu não tinha o dinheiro do ingresso  e nem uma única calça jeans que ficasse colada na minha bunda de maneira satisfatória. Eu tava realmente revoltada com o mundo e tudo estaria perdido se não fosse o concurso promovido pela Rádio Comunitária,  “Um Dia de Cinderela”. Era só escrever o porquê eu faria de tudo pra conhecer o Belo que a melhor frase daria cinquenta reais em compras no Largo Treze e livre acesso ao camarim do Belo depois do show, com direito à jantar com o próprio. Dei tratos a bola pra pensar em alguma coisa decente e saiu algo mais ou menos assim: “Eu quero conhecer o Belo porque eu sou a Cinderela desse Belo príncipe encantado”. Frase fudida e tanto foi assim que dias depois ligaram no meu celular dizendo que eu tinha ganho o concurso e que tava tudo certo.

Na hora marcada, os caras passaram em casa com uma Kombi. Comprei uma bota-plataforma que me deixou com um metro e noventa e olha que a minha altura é um e cinquenta e dois. Fui deslumbrante pro Clube onde o palco tava armado e logo na porta, fui assediada por um bilheteiro bonitão chamado Oséias que me chamou de princesa e me convidou prum forró no final de semana. Naquele momento, eu disse que tava comprometida com o Belo, mas que depois poderia pensar no caso dele. Eu tava literalmente nas alturas e ver as duas bruacas das minhas irmãs no meio da pista enquanto eu tava no camarote da Rádio me deixou em êxtase. Infelizmente, o Belo se atrasou pra cacete e aí,  começou uma quebradeira na platéia. No meio da confusão o motorista da Kombi disse que a diária dele vencia meia-noite e deu no pé, me deixando a ver navios. Tentei invadir o camarim, mas fui barrada pelos seguranças pra depois levar uma garrafada na cabeça e perder os sentidos.

Acordei na enfermaria com as bruacas rindo de mim, junto da maca. Olhei os meus pés e vi que tinha perdido uma das minhas botas-plataforma. Aí, pensei no Belo, na minha vida desgraçada, nos meus um metro e cinquenta e dois e comecei a chorar copiosamente. E foi nessa hora que o Oséias apareceu com a minha bota na mão. “Achei no meio das cadeiras quebradas e descobri que você tava na enfermaria”, ele disse num sorriso com quase todos os dentes. Uma das bruacas ainda disse que a bota era dela, mas felizmente eu tava com a nota fiscal da compra no meu bolso. O Oséias calçou a bota em mim e se ofereceu pra me levar pra casa na sua moto 125 cc. Hoje a gente tá casado e eu estou esperando o nosso quarto filho. A felicidade poderia estar completa se eu não estivesse com a pulga atrás da orelha por causa de uma vizinha que vive dando em cima do meu marido. Mas claro que quando uma das minhas irmãs solteironas pergunta se está tudo bem com o meu casamento, eu digo que estou no céu, mesmo porque, eu adoro que elas morram de inveja de mim.

 



Escrito por Leonardo Cortez às 00h31
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ENTREVISTAS

Talmo Flores foi um dos mais promissores alunos da nossa faculdade de artes-cênicas. Ator de personalidade inquieta, Talmo dividiu comigo momentos marcantes da minha vida acadêmica, e aí estão incluídas experiências traumáticas com um bolo de maconha e uma garota linda do Centro Acadêmico chamada Suzete que deu pra todo mundo , menos pra nós dois. Eis que estou em casa , cuidando das crianças, quando recebo uma caixa lotada de fitas e um envelope pelo correio. Imediatamente, fiquei inebriado pelo material enviado e lancei-me à confecção desse texto, esquecendo por causa disso de providenciar o almoço, o que gerou um sonoro esporro da minha mulher quando ela chegou em casa. A seguir, a carta do Talmo e a transcrição de parte das gravações.

Querido Leonardo:

Fomos durante muitos anos dois heróis na busca da concretização dos nossos ideais artísticos. Lembro das nossas conversas eufóricas no bar da faculdade, onde entorpecidos pela cerveja e pela beleza das universitárias que acompanhavam nossos discursos inflamados, colocávamos em cheque toda a produção teatral do nosso tempo, certos de que a nossa entrada no mercado seria o início de uma nova era de aproximação do teatro com a sua real função sócio-política. Eis que me vejo, quinze anos depois fazendo figuração em comercial de cerveja e no momento em que o diretor pede aos berros que eu saia do ângulo de visão da câmera porque o meu semblante sugere um fracasso que não é condizente com a imagem vitoriosa de quem comemora o happy-hour brindando com os amigos, tenho uma epifania e decido abandonar a carreira pra seguir a minha real vocação como monge budista. Aqui me despeço, meu amigo, doando, na carona da minha vocação , todos os pertences que me ligaram à esse mundo material. Não é muita coisa. A imobiliária aceitou receber a quitinete de volta com toda a mobília incluída, o que significa que o próximo morador do meu apartamento vai poder usufruir de um colchão de espuma surrado, de uma geladeira frigobar que nos últimos tempos eu usei pra guardar minha coleção de revistas Seleções e do casco da minha tartaruga Jacira, que depois de morta foi transformada num lindo cinzeiro. À minha ex-mulher, deixei o velho Fiat 147, que ela se recusou a receber em sua garagem e a você, querido amigo, deixo as fitas onde registrei o processo de criação de todos os meus personagens. Talvez esse material possa ser de serventia ao dramaturgo que você se transformou. Assim como todos os nossos ex-colegas de faculdade, sempre fui um ator muito responsável na construção dos meus papéis. Invariavelmente eles sempre ficavam idênticos uns aos outros, mas sei que isso era fruto da minha incapacidade técnica e não da minha negligência, que foi amplamente reservada à criação dos meus dois filhos. Em suas mãos, Leonardo, estão agora oitenta horas de entrevistas coletadas ao longo de todos esses anos de carreira, oriundas da minha busca pelo material humano que embasasse o meu trabalho de intérprete. É uma pena que esse esforço hercúleo não tenha resultado em nenhuma indicação ao prêmio Shell, mas antes de jogar as fitas no lixo, lembre-se que elas me renderam duas intimações judiciais, três internações hospitalares e uma grave intoxicação alimentar, entre outros apuros.



Hare Krishna



Talmo”

 

 

Espetáculo: Baixo Meretrício, Altas Confusões 

Nessa comédia, Talmo interpretava o cafetão depravado Cabeça de Sebo, que no decorrer do espetáculo alicia cinco universitárias vindas do interior e acaba se envolvendo num escabroso caso de assassinato que acontece logo após uma orgia regada a drogas e animais silvestres. O detalhe dramático é que tudo isso acontece bem no dia em que Cabeça de Sebo resolve virar evangélico. Para entender o universo da prostituição, Talmo entrevistou, no dia 15 de maio de 1998, Verusca, uma simpática gordinha que fazia ponto na Augusta com a Caio Prado. 

TALMO- Podemos começar?

VERUSCA- Pagamento adiantado...

TALMO- Mas é só uma entrevista...

VERUSCA- Olha que eu chamo o Janjão...

TALMO- Ok. Aceita cheque?

VERUSCA- Tá brincando, moleque?

TALMO- Se der pra segurar até o dia vinte eu agradeço...

VERUSCA- Vai dar uma bimbada à vista pra depois pagar à prazo?

TALMO- Se você dividir em três vezes também ajuda...

VERUSCA- Janjão, chega aqui!

TALMO- Ok, eu tenho dinheiro vivo, pronto! Podemos começar?

VERUSCA- Podemos. Tira a roupa.

TALMO- Não.

VERUSCA- Ok, eu tiro primeiro.

TALMO- Você não está entendendo. Eu te chamei aqui pra uma entrevista. Eu sou ator, tô compondo um personagem que...

VERUSCA- Eu já tirei tudinho pra você...

TALMO- Bom, você quem sabe. Eu sou ator, tô acostumado com um estilo de vida menos reprimido...

THALITA- Topo tudo, menos suruba.

TALMO- Há quantos anos você...

VERUSCA- Tira a camisa pra ficar mais a vontade...

TALMO- Tá bom, mas é só porque tá calor. Desde quando você trabalha na...

VERUSCA- Você tem um terceiro mamilo?

TALMO- É uma pinta de nascença... Você acha que o mercado está favorá...

VERUSCA- Hahahaha. Parece um terceiro mamilo!

TALMO- Não tem graça. Na escola todo mundo tirava sarro quando eu ficava sem camisa...

VERUSCA- Nunca vi uma coisa dessas!

TALMO- Podemos continuar?

VERUSCA- Deixa eu ver de perto?

TALMO- Não!

VERUSCA- Tá bom. Tira a calça.

TALMO- Tiro. Mas é só por causa do calor... quantos clientes você...

VERUSCA- Hahahaha...

TALMO- Qual é a graça?

VERUSCA- Hahahaha...

TALMO- Qual é a graça? (O GRAVADOR É DESLIGADO) 

Espetáculo: Clarabóia do Destino 

Em Clarabóia do Destino, Talmo entrava em cena no quinto ato pra servir um uisque pro pessoal da figuração enquanto os atores principais discutiam Proust, numa cena que, por opção estética da direção, era realizada na penumbra. Para compor o personagem do garçom, Talmo entrevistou Fidélis Pereira, que trabalhava no restaurante do saudoso Jubaro, que morreu ano passado, depois de experimentar a maionese do seu próprio bufet de saladas. 

TALMO- Podemos começar, Fidelis?

FIDELIS- Claro. Sempre às ordens...

TALMO- Que bom que você tá bem-humorado.

FIDELIS- Só perco o sorriso quando não tiver mais dentes!

TALMO- Claro, claro. Mas me conte um pouco sobre a sua rotina.

FIDELIS- Minha rotina é ótima. Adoro trabalhar com o público e todo dia acontece uma novidade...

TALMO- Como você se tornou garçom?

FIDELIS- Sempre fui garçom. Começou como um bico, mas aí eu fui ficando. Lá se vão trinta anos. Servir bem pra servir sempre... Deixa eu pegar um copo dágua...

TALMO- Claro, Fidelis.

FIDELIS- Trinta anos nessa mesma espelunca. Que me importa se esse é um restaurante de quinta categoria? Minha vida não poderia ser melhor. Tá servido?

TALMO- Fidelis, você sempre toma essa quantidade de comprimidos de uma vez?

FIDELIS- Mês passado a minha mulher me deu um pé na bunda. “Você não tem ambição!”, ela falou. Ela não entende que eu estou onde sempre quis estar, ou seja, no mesmo lugar onde sempre estive?

TALMO- Fidelis, que remédio é esse?

FIDELIS- Não é remédio. É veneno de rato...

TALMO- Fidelis! Socorro! Alguém chama uma ambulância!

FIDELIS- Minha vida foi sempre essa festa! Agora eu vou curtir a ressaca no inferno!

TALMO- Fidelis! Fidélis! (O GRAVADOR É DESLIGADO) 

 (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 02h15
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(continuação...)

Espetáculo: Máfia Mofada Não Acumula Fungo 

Sem dúvida nenhuma, a grande chance de Talmo como intérprete que ele acabou perdendo porque a máfia mandou quebrar suas duas pernas depois dessa entrevista. No drama épico “Mafia Mofada Não Acumula Fungo”, Talmo iria interpretar o mafioso homossexual Dom Toroso e no afã de compor seu personagem com verossimelhança, lançou-se a uma arriscada jornada dentro do submundo do braço brasileiro da Cosa-Nostra. Após intenso trabalho de pesquisa, no dia 13 de fevereiro de 2002 ele sentou-se frente a frente com o chefão Dom Vito Camascho, numa cantina italiana do Bexiga. Ao que tudo indica, a conversa aconteceu antes da chegada do couvert.

TALMO- Em primeiro lugar eu queria agradecer, Dom Vito...

VITO- (SILÊNCIO)

TALMO- Como eu disse pro seu capanga, eu sou um ator...

VITO- (SILÊNCIO)

TALMO- E preciso de algumas dicas pra interpretar um mafioso.

VITO- (SILÊNCIO)

TALMO- Não que ache que o senhor seja um mafioso...

VITO- (SILÊNCIO)

TALMO- Apesar de se chamar Dom Vito, o que é bastante sugestivo...

VITO- (SILÊNCIO)

TALMO-...enfim , não me interessam as suas atividades ilegais...

VITO- (SILÊNCIO)

TALMO- Não que eu ache que o senhor promova atividades ilegais...

VITO- (SILÊNCIO)

TALMO- Quem sou eu pra julgar. Nem Jesus Cristo agradou todo mundo. Enfim, eu quero dizer que o fato de eu estar gravando essa conversa não vai te comprometer em nada. O que interessa pra mim é a motivação do meu personagem...

VITO- (SILÊNCIO)

TALMO- ....além do sotaque, que é meio italiano. “Mama mia, que bela macarronada...”, essas coisas, entende? Ah, ah, ah, ah...

VITO- (SILÊNCIO)

TALMO- Enfim. O mafioso da peça é gay.

VITO- (GRANDE SILÊNCIO)

TALMO- Não que eu esteja insinuando nada, mas me diga uma coisa: o senhor já ouviu falar de homossexualismo na Cosa Nostra?

VITO- (SILÊNCIO. E O GRAVADOR É DESLIGADO)

 

Ainda tenho cento e setenta e quatro entrevistas pra transcrever. Para preservar sua imagem, vou descartar as conversas com a tartaruga Jacira, onde Talmo sempre acaba se descontrolando emocionalmente. A próxima entrevista é a que ele fez com o seu Osires, o faxineiro do seu prédio, como parte da pesquisa de construção do seu personagem  no musical “Sarapatel na Mesa, Com Certeza”. Nesse espetáculo Talmo precisou aprender o sotaque pra dar credibilidade à interpretação de um retirante nordestino, muito embora ele tivesse na peça apenas duas falas, sendo que uma era um acesso de tosse. Depois disso, estou ansioso pra transcrever as pérolas de um papo hilário entre Talmo e o traficante que o colocou dentro de uma pilha de pneus embebida em gasolina,  além de um delicioso diálogo com seu dentista durante um tratamento de canal, onde Talmo não fala nada a não ser a frase “tá doendo...” dezesseis vezes.



Escrito por Leonardo Cortez às 02h11
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