Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


IN MEMORIAM

Acabo de receber a notícia da morte de Alírio Tavares, que sem dúvida nenhuma foi um dos maiores diretores teatrais do nosso país. Um artista à frente do seu tempo e a prova maior disso é que quase ninguém do nosso tempo sabe quem foi o Alírio e aparentemente muito pouca gente teve tempo pra ir ao enterro. Tive a honra de trabalhar para o Alírio em diversas oportunidades, muito embora na maior parte delas, ele tenha me demitido. Depois virei empresário, contratei o Alírio e o demiti logo em seguida, mas ele ignorou o fato e apareceu pra trabalhar normalmente no dia seguinte, o que me obrigou a demití-lo mais três vezes até que ele entendesse o recado.

Lembro quando conheci Alírio, numa festa da classe teatral. Ele já era uma espécie de lenda no nosso meio, desde o dia em que, ainda como um mero estágiário de produção, mandou Paulo Autran plantar batatas durante os ensaios de “Antígone”, ao que Paulo, segundo consta, respondeu: “eu te conheço?”. Na euforia dos meus vinte e poucos anos, me apresentei como um jovem ator que ao mesmo tempo era um grande fã e descrevi entusiasmado o quanto a sua versão de “Esperando Godot”, encenada exclusivamente por anões havia mudado a minha vida e o quanto eu achava maravilhosa a sua idéia de colocar o Godot aparecendo no final, na antológica cena onde ele perguntava pro público onde era o banheiro. Assisti ao espetáculo seis vezes, sendo o único espectador em pelo menos quatro. Lembro de ter encontrado o Alírio na platéia depois de uma das apresentações. Pensei em cumprimentá-lo, mas ele estava dormindo profudamente desde o início do segundo ato e não acordou nem quando o segurança jogou um copo d´agua na sua cara. Anos depois, eu o reencontrava  naquela festa da classe teatral, em que ele estava desperto, mas completamente bêbado. Desconfiado da pureza da minha admiração, Alírio provavelmente imaginou que os meus elogios fossem uma espécie de gozação e me mandou pro inferno pra depois vomitar aos pés da parede e foi nessa hora que eu pensei que aquele homem era definitivamente carismático.

Na minha opinião, o grande diferencial de Alírio era que, ao contrário dos diretores da sua geração, ele nunca se importava efetivamente com a iluminação ou com a sonoplastia dos seus espetáculos. Figurinos, maquiagem e adereços tampouco o interessavam, da mesma forma que o trabalho do ator e o texto do dramaturgo costumavam aborrecê-lo profundamente. Perguntado numa palestra por que ainda fazia teatro, mesmo achando tudo no teatro um saco, ele respondeu que era por causa dos descontos nos restaurantes. No auge da carreira, Alírio tornou-se um radical, como todo o grande artista. Ficou célebre na história do moderno teatro brasileiro a sua versão de “O Avarento”, de Molière, que ele dirigiu sem ter comparecido a um único ensaio sequer. Na noite da estréia, Alírio foi reconhecido na platéia e declarou que só estava lá pra filar os canapés do coquetel. Paradoxalmente, um suplemento cultural acabaria considerando “O Avarento” como um dos seus melhores trabalhos, o que Alírio interpretou como uma ironia, desferindo, dias depois, um soco na boca do crítico durante um jantar no Piolim.

Alírio Tavares foi, acima de tudo, um revolucionário. No intuito de demonstrar a força da incomunicabilidade no mundo contemporâneo, impediu a entrada do público no teatro na sua versão para "Otelo". A peça acontecia à portas fechadas, e por uma única frestinha as pessoas podiam observar a encenação num esquema de revezamento. Obviamente a ousadia da proposta foi mal interpretada e a peça foi um fracasso retumbante.

Seus espetáculos eram marcados por altos e baixos e talvez tenha sido por isso que ele achou que seria uma boa idéia encenar "Romeu e Julieta" a bordo de uma montanha-russa. Quando o parque de diversões cancelou o projeto no meio dos ensaios argumentando que os atores não limpavam os bancos dos carrinhos a cada crise de vômito, Alírio entrou numa profunda depressão e mergulhou naquela que ele mesmo definiu como “minha fase viceral”, onde, durante cinco anos, dirigiu oito peças infantis e um texto de teatro espírita.

Alírio revolucionou o teatro infantil brasileiro, incorporando às encenações o que ele chamava de “violência lúdica” . Foi a inspiração de Alírio que trouxe aos palcos cenas inesquecíveis como o esquartejamento do lobo mal e o ritual satânico promovido pelos sete anões em torno do corpo de Branca de Neve. Após uma das matinês de “O Patinho Feio No Mundo da Cirurgia Plástica”, Alírio foi agredido por um grupo de pais católicos e, desgostoso com a Igreja, converteu-se ao espiritismo, aceitando posteriormente dirigir uma comédia dramática psicografada pelo espírito de Pirandello, intitulada “Não Fui Eu Que Escrevi Isso”. No entanto, o processo de ensaios foi extremamente conturbado. Logo no primeiro trabalho de mesa, houve uma séria divergência durante uma sessão do jogo do copo, quando descobriram que uma das médiuns estava empurrando o copo com o dedo pra que um espírito zombeteiro respondesse “sim” à uma pergunta que lançava dúvidas sobre a masculinidade de Alírio. O clima piorou às vésperas da estréia, quando Alírio retirou-se do teatro indignado, aparentemente porque alguns espíritos de luz se recusavam a sair de cena no final da peça, o que  impedia o black-out de encerramento. Insatisfeito com a baixa qualidade do texto, Alírio ameaçou processar Pirandello e só desistiu depois que seu advogado alegou que teria grandes dificuldades em entregar as intimações judiciais. Mesmo assim, “Não Fui Eu Que Escrevi Isso” foi um dos grandes sucessos de sua carrreira como diretor e durante dois meses de temporada a casa sempre esteve cheia, muito embora setenta por cento do público fosse formado por espíritos que nunca aceitaram pagar sequer a meia-entrada.

Etlético e inquieto, Alírio também emprestou seu talento à espetáculos de ópera. Sua montagem de "Carmem" no Teatro Municipal chocou os críticos que aparentemente não entenderam sua opção revolucionária de excluir as músicas da encenação, o que deixava os cantores o tempo todo com cara de bobo. Foi nessa época em que ele deu a bombástica entrevista onde, livremente inspirado por John Lennon, afirmou categoricamente que era um artista mais popular que Jesus Cristo, o que depois ele desmentiu numa entrevista posterior, alegando que estava bêbado. “Na realidade, eu sou tão popular quanto Ele.”, ele reinterou,  pra depois dizer numa entrevista seguinte que estava bêbado de novo. Entretanto, suas declarações polêmicas lhe renderam o boicote da imprensa que durante anos se recusou a publicar as críticas sobre seu trabalho e os anúncios de venda de seus carros usados nas páginas de classificados. Desgostoso, Alírio partiu para a sua fase popular, onde enveredou para o teatro de rua, se preocupando sempre em nunca revelar exatamente onde eram as ruas em que aconteciam suas peças, de forma que pouca gente testemunhou essa fase do artista.

No final da vida, decadênte e incompreendido, Alírio recorreu ao teatro pornô para pagar as suas contas. Mais uma vez, a marca da sua genialidade se manifestou e Alírio foi revolucionário ao levar pro palco erótico, pela primeira vez, cachorros, cabritos e uma enguia. No espetáculo “Sexo Animal”, Alírio foi além e após uma briga com uma das atrizes, achou que não haveria problema abrir mão daquilo que costumava considerar “o pior da raça humana: os homens e as mulheres”. Claro que a peça foi um fracasso e Alírio, mais uma vez, mergulhou em profunda depressão.

E sabendo que não lhe restavam muitas opções, ele acabou largando o ofício de diretor e virou ator de novela. Pouco tempo depois, morreria, sob o signo do incorformismo.



Escrito por Leonardo Cortez às 00h47
[   ] [ envie esta mensagem ]




A VOLTA DO INSPETOR FONSECA

Pra começo de conversa, é bom que se diga que eu não morri, mesmo que muita gente tenha vibrado com o fato e alguns tenham feito isso mal-educadamente na minha presença, como foi o caso da minha ex-mulher. Na realidade, o que eu fiz foi bolar com o Trajano, meu colega delegado, um plano onde eu forjaria a minha própria morte pra ficar com o dinheiro do meu seguro de vida. Acabei mudando de idéia quando descobri que o boleto do mês anterior ainda não tinha sido pago, mas infelizmente, não tive tempo de avisar o Trajano porque naquele dia ele deixou o celular descarregado. O resultado é que o Trajano me deu dois tiros no peito, se esquecendo que, de acordo com o nosso combinado, as balas deveriam ser de festim. Além de puto com o Trajano, fiquei dois meses internado na UTI, o que foi uma merda a não ser pelo fato de que isso salvou a minha vida. Uma das poucas vantagens de estar numa UTI é que uma vez lá dentro, por ordens médicas, ninguém vem te avisar que seu plano de saúde não cobre o custo integral da sua internação. Só quando fui transferido para o quarto é que a administração me mostrou o montante da fatura, o que gerou a crise de hipertensão que me conduziu de volta à UTI por mais duas semanas. Depois da minha alta, comecei a receber telefonemas de uns capangas contratados pela direção do hospital onde eles manifestavam, com toda a simpatia, a firme pretensão de quebrar os meus braços caso eu não pagasse o que estava devendo. Numa das nossas conversas mais tensas, eu cheguei a propor a doação de um rim em troca do abatimento da minha dívida. A princípio, os capangas receberam a oferta com bons olhos, mas depois ela foi recusada quando eles descobriram que o rim que eu queria doar não era meu e sim da minha Tia Adelaide, que mora num asilo.

Confesso que por essas e outras, eu andava bastante deprimido e voltar ao trabalho não colaborava em nada pra melhora do meu humor. Fui reintegrado à corregedoria e no meu primeiro dia de trabalho, descobri que haviam dado a minha antiga mesa a um estagiário. De pronto, encaminhei ao Recursos Materiais a solicitação de uma mesa nova, mas enquanto meu pedido chafurdava na burocracia, fui obrigado a despachar minha papelada sentado no vaso sanitário, de onde tinha que me levantar cada vez que alguém resolvia usar o banheiro. O som da descarga e o ar pestilento lembravam o tempo todo que a minha vida estava uma merda e foi por isso que fiquei felicíssimo quando me convocaram para voltar à campo depois que um faxineiro foi assassinado em circunstâncias misteriosas numa fábrica de queijo.

Cheguei animadíssimo ao local do crime. Depois de semanas despachando numa privada, eu sabia que novos ares iriam me fazer muito bem, sem desconfiar que o interior da fábrica de queijo exalava um cheiro putrefato que fazia com que o ar do meu banheiro parecesse o ar de Campos do Jordão. Os funcionários aparentemente não se incomodavam com a fedentina, talvez porque fosse mais desagradável pra eles a obrigatoriedade do uso de um capacete que lembrava um daqueles chapéus do Mickey Mouse que são distribuídos na Disneylândia pros turistas. Aquela horda de funcionários tristonhos trajando um capacete tão rídiculo me provocou uma crise de riso incontrolável, que só acabou quando percebi que, por questões de segurança interna, eu também seria obrigado a usar o acessório. Olhei-me no espelho, concluí que o capacete do Mickey fazia um bom conjunto com o meu sobretudo e cheio de confiança, embarquei em mais uma jornada rumo a elucidação de um crime asqueiroso, sem saber que naquele momento, ao entrar naquela fábrica da morte, eu me arriscava mais do que um menino descalço que joga futebol usando como bola uma colméia de marimbondos.

Fui encaminhado até o setor de queijos petit suisse, onde dezenas de funcionários se acotovelavam em torno de um tonel de aproximadamente mil litros de leite, onde boiava o corpo do pobre faxineiro assassinado. O sangue havia tingido o leite de cor de rosa, dando ao conteúdo do tonel a aparência de um grande copo de Quik sabor morango, o que me fez salivar em grande profusão. Além disso, aquela visão me trouxe emocionantes lembranças da minha infância, e suspirei pensando que a pobreza da nossa família nunca permitiu que eu e os meus irmãos pudéssemos tomar Quik sabor morango no café da manhã. Lembro uma ocasião em que meu pai, cansado das reclamações dos filhos sobre esse fato, resolveu bater no liquidificador duas beterrabas num litro de água com maizena, e depois serviu pros filhos dizendo que o gosto era o mesmo. Nenhum de nós acreditou mas mesmo assim, ele obrigou cada filho a tomar pelo menos dois copos daquele caldo sob a ameaça da gente apanhar de cinto. Volta e meia meu pai nos ameaçava com o cinto e a nossa sorte é que sempre que ele tirava o acessório pra bater na gente suas calças caiam, e esse era o tempo que tínhamos pra escapar. Meu pai sempre foi um homem severo. Certa vez, ele me disse ao berros que eu deveria arranjar um emprego, pois caso contrário, seria expulso de casa. Assustado, eu respondi: “mas pai, eu só tenho quatro anos de idade!”, e foi nesse momento que ele tirou o cinto e suas calças cairam de novo.

Minha nostalgia foi interrompida quando os cadavéricos artelhos do Trajano encostaram em minhas costas. Mais uma vez, o meu colega delegado estava de prontidão para o trabalho antes de qualquer outro policial. O Trajano tinha acabado de ser promovido do cargo de delegado adjunto pra o cargo de delegado adjunto-senior. Na época, ele me disse que não sabia diferenciar um cargo do outro, e que a única coisa que tinha mudado depois da promoção era o seu salário, que agora estava vinte por cento menor. Na minha opinião, o Trajano nunca foi valorizado como mereceria um delegado tão competênte. Como eu disse, seu profissionalismo sempre o fazia chegar com muita antecedência ao local de um crime, e não raras vezes ele era obrigado a tomar um café na padaria enquanto o assassino ainda terminava de matar a vítima. Naquele dia da fábrica, notei que o Trajano estava com uma visível irritação cutânea que o deixava com o aspecto de um turista alemão em férias na Bahia e por isso quando ele me perguntou se eu estava “chocado”, eu achei que ele se referia ao aspecto da sua pele e de pronto respondi:

-Muito. Já foi ao dermatologista?

-Não, seu idiota! Estou perguntando se você não está chocado com a cena do crime!

-Já vi coisas piores, meu chapa, falei, relembrando o dia em que a minha ex-sogra estreou um maiô de duas peças durante uma viagem de famíla à Boissucanga.

-Ai!, gemeu o Trajano, enquanto se curvava de dor sobre si mesmo, tal qual uma ratoeira disparada acidentalmente.

-Tá sentindo alguma coisa?

-Comecei a ficar com essa alergia na cara depois que o dono da fábrica me ofereceu um pedaço de gorgonzola como cortesia. Mas o pior é que meu estômago está pegando fogo, o que nunca aconteceu comigo antes. E olha que eu almoço todos os dias no refeitório da corregedoria... Ai...

-Ok!, concluí, triunfante. O dono da fábrica tentou te envenenar! Chamem esse homem aqui, imediatamente!

Não sei se aquele capacete do Mickey tirava um pouco da seriedade da minha figura, mas o fato é que nenhum dos funcionários se mexeu para atender a minha solicitação. Notei, inclusive, que muitos soltavam discretas risadinhas e por isso, gritei que se não me trouxessem o patrão, todo mundo seria levado pra delegacia. Na carona do meu grito, todos os funcionários sairam correndo tal qual uma legião de ratos surpreendidos no meio da madrugada por uma dona de casa numa cozinha putrefata de uma casa de subúrbio. E minutos depois, o Seu Ernesto, o dono da fábrica, apareceu.

-Ernesto Ratto, empresário de laticínios. Desculpe o atraso, mas eu estava almoçando.

Olhei o relógio e disse prontamente:

-Às nove e meia da manhã? Quem almoçaria nesse horário?

-São meio-dia e doze. Obviamente seu relógio está parado, ele repondeu e foi nessa hora que eu descobri que tinha perdido o minha consulta com o urologista.

-Em que posso ajudá-lo?, perguntou Ernesto, palitando os imensos dentes.

-Não sei se o senhor sabe, mas tem um homem morto no seu tonel de leite.

-Claro que eu sei. Esse aí é o Severino, mais um idiota que não fará falta ao mundo.

-E qual é a sua versão para a morte do Severino?

-Suicídio, obviamente.

-Curioso porque o corpo apresenta pelo menos sete perfurações à bala. O senhor poderia me explicar como alguém se mata dessa maneira?

-Esse imbecil provavelmente fez seis tentativas frustadas antes de atingir algum orgão vital. O Severino era um incompetênte notório! Nunca fez nada direito! O senhor aceita um pedaço de queijo gorgonzola?

Concluí que aquela raiva toda contra o faxineiro já credenciava o Ernesto Ratto como um dos principais suspeitos daquele assassinato. Eu só precisaria fazer mais duas ou três perguntas para colocá-lo em contradição, mas como era hora do almoço e eu estava com muita fome, abocanhei inadivertidamente o queijo que me foi oferecido pelo empresário. Nesse momento, o Trajano deu um grito de dor e após um piripaque, caiu dentro no tonel de leite junto com o Severino. Foi quando lembrei que o Trajano provavelmente havia sido envenenado com o mesmo queijo que eu havia acabado de engolir e sentindo as primeiras pontadas no estômago e uma certeza profunda de que eu era um perfeito idiota, subi na borda do tonel e anunciei que o assassino era o Ernesto Ratto. Alguém me perguntou de quem o Ernesto era de fato o assassino: do faxineiro ou do Trajano. Em altos brados e carcomido pela dor e pelo desespero, eu gritei que, naquela altura, era melhor prender primeiro pra perguntar depois. E foi nessa hora que eu despenquei no tonel e perdi os sentidos.

Acordei na boa e velha UTI, deitado ao lado do meu colega delegado. Como o plano de saúde da corregedoria não cobria as despesas de dois pacientes de UTI ao mesmo tempo, me colocaram junto com o Trajano na mesma cama, o que não seria tão desagradável se ele não tivesse crises de flatulência incontroláveis após a sopinha do final de tarde. Foi ainda na UTI que nossos colegas da corregedoria nos contaram que o Ernesto era de fato o assassino do faxineiro, como eu havia suspeitado desde o início. Ao que parece, o Severino havia descoberto que os furos dos queijos suíços eram fabricados artificialmente com uns parafusos e queria dinheiro pra ficar de bico calado. Dias depois, o Trajano virou-se  pra mim e, quase desfalecendo, disse algo como “eu sempre te amei”, o que me deixou bastante apreensivo, até porque estávamos dividindo a mesma cama. Foi nessa hora que as máquinas que mantinham o Trajano vivo começaram a apitar escandalosamente. Os médicos invadiram nosso quarto e tentaram reanimá-lo, sem sucesso. Durante algum tempo eu fiquei bastante deprimido com a morte do meu amigo, mas depois a depressão deu lugar à um ódio profundo, precisamente quando recebi alta do hospital e descobri que o Trajano tinha me colocado como fiador no seu contrato com o plano de saúde. O resultado é que a fortuna que eu já devia ao hospital triplicou, o que não me dá alternativas a não ser oferecer o meu rim e o rim da Tia Adelaide aos capangas em troca do abatimento dos juros.

Dois rins pelo preço de um! Acho dessa vez, eles amolecem.



Escrito por Leonardo Cortez às 21h03
[   ] [ envie esta mensagem ]




LIÇÕES DE AUTO-AJUDA- UMA OBRA DE FICÇÃO

Eu faço aniversário 30 de janeiro e janeiro costuma ser um mês terrível pra mim. É o mês do meu inferno astral e inferno astral é a unica coisa na astrologia em que eu acredito, além do fato de que a minha lua em Escorpião contribui decisivamente para que eu tenha determinadas perversões impublicáveis. De qualquer maneira, nessa época eu sempre fico nessa fossa de merda, que felizmente acaba depois do dia 30, a não ser quando a minha mãe não lembra do meu aniversário, o que normalmente acontece quando o ano é ímpar.

Minha família sempre foi muito prática na comemoração de datas festivas. No dia dos pais do ano passado nós aproveitamos que a família estava reunida e comemoramos também o natal, o reveion, o aniversário de dois dos quatro irmãos e o dia das mães do ano seguinte de maneira antecipada, na tentativa de economizar no bolo, nos salgadinhos e no convívio com o Tio Rubens, que todo mundo acha chato, principalmente quando ele começa a contar as histórias da amizade dele com o prefeito de Paraibuna. Talvez por esse desapego familiar às datas festivas, nunca senti a mínima necessidade de comemorar o dia em que eu nasci. Às vezes, eu inclusive lamento a data, muito embora isso só aconteça quando eu esqueço de tomar determinados remédios ou quando a minha mulher me chama de traste.

Já está mais do que óbvio que essa tristeza em relação ao meu aniversário tem origem na infância. Minha família não se preocupava em me promover festinhas e até completar sete anos de idade, eu desconheci a data do seu próprio nascimento, o que gerou situações constrangedoras, como no dia em que apaguei as velinhas do caixão do meu avô, achando que elas tinham sido acesas em minha homenagem. Na minha inocência infantil, ainda gritei algo como “Viva!”, ou “Muitos anos de vida!”, e na carona disso, minha avó Jerusa teve uma crise histérica, o que, segundo o tio Rubens, contribuiu decisivamente pra que ela desenvolvesse a doença cardíaca que até hoje ela nunca manifestou, mas que segundo o Tio Rubens, certamente vai matá-la.

A regra é que, pra mim, o mês do meu aniversário é invariavelmente marcado pela melancolia e pela depressão. Em outras épocas, eu me refugiei nos livros de auto-ajuda na tentativa de seguir em frente nessa hercúlea tarefa de concretizar o plano divino que certamente me reserva uma grande prosperidade ou um fracasso retumbante, o que no final das contas vai acabar dando na mesma porque de qualquer maneira eu vou morrer, como alias acontecerá com todo mundo que eu conheço, talvez com excessão da Glória Maria e alguns cantores sertanejos. Entretanto, nesse ano, aproveitando o meu exílio voluntário na casa de praia da minha sogra insuportável, estou desenvolvendo alguns esboços daquele que será o meu primeiro livro de auto-ajuda destinado à promover o sucesso do homem moderno no âmbito familiar e corporativo. Não está sendo fácil escrever essa obra, principalmente porque a mocréia da minha sogra fica pedindo o tempo todo pra que eu ajude a lavar a louça ou cortar a grama. Mas nos poucos momentos de sossego, entre doses cavalares de repelente pra não ser devorado pelos borrachudos, eu sigo na escrita dessa monumental contribuição ao bem-estar da humanidade em forma de literatura cujo título provisório é “Desistir Jamais!”, e que só não será publicado em 2009 porque eu já desisti de procurar uma editora que se interesse em lançá-lo ainda esse ano. Por isso, aproveito esse espaço para apresentar de antemão alguns trechos do original, o que preciso fazer com certa pressa, antes que a minha sogra me encontre escondido debaixo dessa cama e me obrigue a dar banho no cachorro.


CAPITULO 1- Comece do começo.


Nem sempre é fácil começar, mas o começo normalmente é fundamental se você pretende terminar alguma coisa. Na minha vida pessoal, tive diversas experiências de fracasso resultantes da ansiedade de querer, digamos assim, construir o telhado antes de fazer os alicerces da casa. Curiosamente, foi exatamente isso que eu fiz quando me propus a fazer eu mesmo um puxadinho nos fundos do meu sobrado. Comecei, ingenuamente, pelo telhado e por isso acho que mereci ser chamado de idiota pela minha mulher quando ela me viu empoleirado em cima das telhas a dez centímetros do chão. Na realidade, a pouca altura do telhado salvou a minha vida porque quando despenquei de lá de cima, tive somente uma fratura exposta no braço quando poderia certamente ter morrido se possuísse algum tino arquitetônico primordial.


CAPÍTULO 9- Você é o lider de si mesmo!


É importante dar ouvidos à sua voz interior, mesmo que no começo seja difícil distinguí-la de uma crise de gases. Muitas vezes em minha vida eu paro e me pergunto se determinada atitude é a atitude correta a ser tomada. E se a resposta não vem imediatamente, a melhor recomendação é esperar. No verão passado, saí de casa com o firme propósito de comprar uma estante de armar pra conseguir dar um mínimo de organização à minha coleção de carrinhos Machbox. Chegando no shopping, minha voz interior me questionou se aquela estante era realmente necessária, frente ao fato de que até hoje, eu só possuo cinco carrinhos que podem ser facilmente acondicionados dentro de um pote de maionese. Fiquei estático no centro da praça de alimentação durante três horas e meia até que o meu psiquiatra foi chamado, mas o importante é que eu não tomei nenhuma decisão precipitada.



CAPÍTULO 16- Escute primeiro, fale depois!


Acredito piamente que essa é uma das chaves do sucesso e durante todos esses anos tenho aplicado esse ensinamento com resultados magníficos. Lembro quando trabalhava numa multinacional e fui chamado à sala do meu chefe, já sabendo que seria demitido por ter urinado no bonsai da secretária depois de um porre na festa de confraternização da empresa no final do ano. E antes que meu chefe pudesse dizer qualquer coisa, eu gritei:"Escute primeiro, fale depois!" pra então desembestar no relato lacrimoso de uma detalhada e autopiedosa auto-biografia que saia da minha boca aos borbotões tal qual as águas revoltas de uma comporta de hidrelétrica, sem dar ao meu chefe a mínima possibilidade dele interromper o meu fluxo de pensamento. O resultado é que após duas horas de falatório initerrupto, ele desistiu de comunicar a minha demissão, o que me deixou satisfeitíssimo, muito embora eu tenha sido barrado na portaria no dia seguinte.


CAPÍTULO 25 – Quem roubou o meu queijo?


Minha mulher sempre rouba o meu queijo e isso me deixa puto. Mesmo quando eu escondo o queijo atrás do pé de alface, ela vasculha a geladeira até conseguir me privar do meu único prazer matinal que é degustar o meu queijo enquanto folheio o "Guia dos Sonhos" em busca das interpretações adequadas para os sonhos estranhíssimos que ando tendo desde que decidi virar macrobiótico. Numa noite dessas, sonhei que estava tomando banho de terno e gravata. Quando acordei, vi que tinha tirado um cochilo durante a missa e que estava sem as minhas calças dentro da igreja. Estar sem calças dentro de uma igreja normalmente deixa qualquer um em pânico, mas depois constatei que ainda estava sonhando. Quando acordei de verdade, respirei aliviado por estar na segurança do meu quarto e no conforto da minha cama. Foi quando eu percebi que do meu lado estava dormindo um travesti, o que definitivamente acabou com a minha manhã.


CAPÍTULO 53- Se ninguém reconhece seu esforço, não se acanhe de dar tapinhas nas próprias costas.


De que adianta a bajulação alheia, se você mesmo não está satisfeito com o que acaba de produzir? Da mesma forma, qual é o problema de te chamarem de cretino se você não acredita na força da sua própria cretinice? Durante todos esses anos, desenvolvi a auto-acarinhação como estratégia de sobrevivência ao convívio com a minha mulher. Durante uma de nossas múltiplas brigas conjugais, eu decidi interromper o quebra-pau pra ficar beijando de maneira sôfrega a palma da minha própria mão enquanto gemia algo como “unham-unham”. Minha mulher se irritou à princípio, mas ao perceber que depois de duas horas eu continuava em lua de mel comigo mesmo, ela se retirou do recinto e, entre aborrecida e derrotada, foi procurar outra coisa pra fazer. Tomado por um irrefreável entusiasmo, decidi incorporar a experiência no mundo corporativo na primeira oportunidade. Na época, eu trabalhava numa firma contábil e o meu chefe estava com a macaca durante o fechamento dos balancetes anuais. Naquela manhã, como de hábito, ele emendou o “bom dia” com um esporro dirigido à minha pessoa. E no momento em que ele me chamou de incompetênte, eu comecei a fazer cafuné em mim mesmo, enquanto dizia “mamãe, mamãe...”. O resultado é que auto-envolvi numa sensação de conforto e acolhimento que se sobrepôs ao tenso estresse que o esporro do meu chefe poderia me causar. E voltei pra casa satisfeitíssimo, muito embora no dia seguinte , eu tenha sido barrado na portaria.



Escrito por Leonardo Cortez às 03h04
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
  20/12/2009 a 26/12/2009
  01/11/2009 a 07/11/2009
  18/10/2009 a 24/10/2009
  06/09/2009 a 12/09/2009
  16/08/2009 a 22/08/2009
  09/08/2009 a 15/08/2009
  02/08/2009 a 08/08/2009
  26/07/2009 a 01/08/2009
  19/07/2009 a 25/07/2009
  31/05/2009 a 06/06/2009
  24/05/2009 a 30/05/2009
  10/05/2009 a 16/05/2009
  19/04/2009 a 25/04/2009
  01/03/2009 a 07/03/2009
  22/02/2009 a 28/02/2009
  08/02/2009 a 14/02/2009
  01/02/2009 a 07/02/2009
  11/01/2009 a 17/01/2009
  04/01/2009 a 10/01/2009
  21/12/2008 a 27/12/2008
  30/11/2008 a 06/12/2008
  23/11/2008 a 29/11/2008
  07/09/2008 a 13/09/2008
  31/08/2008 a 06/09/2008
  24/08/2008 a 30/08/2008
  10/08/2008 a 16/08/2008
  03/08/2008 a 09/08/2008
  27/07/2008 a 02/08/2008
  20/07/2008 a 26/07/2008
  13/07/2008 a 19/07/2008
  22/06/2008 a 28/06/2008
  01/06/2008 a 07/06/2008
  04/05/2008 a 10/05/2008
  13/04/2008 a 19/04/2008
  06/04/2008 a 12/04/2008
  23/03/2008 a 29/03/2008
  16/03/2008 a 22/03/2008
  09/03/2008 a 15/03/2008
  17/02/2008 a 23/02/2008
  10/02/2008 a 16/02/2008
  03/02/2008 a 09/02/2008
  27/01/2008 a 02/02/2008
  13/01/2008 a 19/01/2008
  06/01/2008 a 12/01/2008
  30/12/2007 a 05/01/2008
  23/12/2007 a 29/12/2007
  02/12/2007 a 08/12/2007
  18/11/2007 a 24/11/2007
  11/11/2007 a 17/11/2007
  04/11/2007 a 10/11/2007
  21/10/2007 a 27/10/2007
  14/10/2007 a 20/10/2007
  07/10/2007 a 13/10/2007
  30/09/2007 a 06/10/2007
  23/09/2007 a 29/09/2007
  09/09/2007 a 15/09/2007
  02/09/2007 a 08/09/2007
  19/08/2007 a 25/08/2007
  12/08/2007 a 18/08/2007
  05/08/2007 a 11/08/2007
  29/07/2007 a 04/08/2007
  15/07/2007 a 21/07/2007
  01/07/2007 a 07/07/2007
  24/06/2007 a 30/06/2007
  17/06/2007 a 23/06/2007
  10/06/2007 a 16/06/2007
  03/06/2007 a 09/06/2007
  27/05/2007 a 02/06/2007
  20/05/2007 a 26/05/2007
  13/05/2007 a 19/05/2007
  06/05/2007 a 12/05/2007
  29/04/2007 a 05/05/2007
  22/04/2007 a 28/04/2007
  15/04/2007 a 21/04/2007
  08/04/2007 a 14/04/2007
  01/04/2007 a 07/04/2007
  18/03/2007 a 24/03/2007
  11/03/2007 a 17/03/2007
  04/03/2007 a 10/03/2007
  25/02/2007 a 03/03/2007
  18/02/2007 a 24/02/2007
  11/02/2007 a 17/02/2007
  04/02/2007 a 10/02/2007
  28/01/2007 a 03/02/2007
  21/01/2007 a 27/01/2007
  12/11/2006 a 18/11/2006
  05/11/2006 a 11/11/2006
  22/10/2006 a 28/10/2006
  15/10/2006 a 21/10/2006
  01/10/2006 a 07/10/2006
  24/09/2006 a 30/09/2006
  10/09/2006 a 16/09/2006
  03/09/2006 a 09/09/2006
  27/08/2006 a 02/09/2006
  20/08/2006 a 26/08/2006
  13/08/2006 a 19/08/2006
  06/08/2006 a 12/08/2006
  30/07/2006 a 05/08/2006
  23/07/2006 a 29/07/2006


Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog