Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


Santa Catarina

Blumenau tem um festival de teatro universitário maravilhoso. Participei de cinco edições na época a faculdade e foi em Blumenau que eu me apaixonei pela Glaucia. A beleza da cidade contribuiu porque a gente ficava passeando o dia inteiro antes de assistir as peças da noite. Conheço um monte de gente por lá. E claro, tô chocadíssimo.

A Defesa Civil de Santa Catarina abriu várias contas correntes em vários bancos para receber dinheiro. Você deve ter conta num desses:

- Caixa Econômica Federal: agência 1877, operação 006, conta 80000-8

- Banco do Brasil: agência 3582-3, conta 80000-7

- BESC: agência 068-0, conta 80000-0

- Bradesco: agência 0348-4, conta 160000-1

- Itaú: agência 0289, conta 69971-2

- Santander: agência 1227, conta 430000052

O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ 04.426.883/0001-57.



Escrito por Leonardo Cortez às 04h18
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Sobre o Rei

Caro Rodrigo:

Lamento que a nossa peça não tenha correspondido às suas expectativas como espectador e crítico. Mas te digo que de fato não me preocupei como dramaturgo em ser engraçado pra caramba nos primeiros 20 minutos. Alias,  não me preocupei essencialmente em ser engraçado em nenhum momento durante a confecção do texto.  Acho que o humor em "O Rei dos Urubus" , quando acontece, surge em função do patético e da mediocridade moral retratada através dos personagens. Não é um humor de gargalhadas, eu concordo, mas não foi a isso que eu me propus quando escrevi a peça.

Entendo sua repulsa ao cigarro, mas quero te dizer que colocar o Gilberto fumando em cena foi uma opção da direção que, acredito, reforça o aspecto abjeto e o repulsivo do personagem.  Poderíamos ter nos apoiado em outros elementos, mas a encenação se constrói a partir de escolhas e essas escolhas, pode ter certeza,  foram pensadas pra que a comunicação com o espectador fosse sempre direta e eficaz.  Lamento também que você tenha se incomodado com o linguajar violento  da dramaturgia a ponto de anotar o número de palavrões do texto ao mesmo tempo em que acompanhava a nossa peça.  Pode acreditar que os  palavrões e expressões desagradáveis não estão ali por acaso já que  eles fazem parte do espírito predatório que move as relações entre os personagens. Eu poderia, como dramaturgo, ter utilizado uma linguagem mais suave, mesmo porque eu já percebi que palavrão vira pretexto pra que, de cara, muita gente se coloque contra o texto. Mas a questão é que “O Rei dos Urubus” fala sobre pessoas que, por imposição de um sistema e escravas da própria fraqueza,  extrapolam  os limites éticos e morais, mergulhando num tipo de desespero que não dá brechas pra educação e pro bom comportamento.    E discordo completamente quando você questiona o espírito crítico da Cia dos Gansos. Estamos há dez anos na batalha aqui em São Paulo e certamente pagamos o preço por expor de maneira tão contundente a nossa visão de mundo nas nossas tragicomédias. Tenho plena consciência de que o grupo, pelas características dos seus atores, poderia se lançar na confecção de espetáculos mais comerciais, o que não fazemos em função das nossas inquietações  políticas e artísticas. Talvez você possa considerar a nossa discussão pouco profunda ou talvez possa discordar do nosso ponto de vista, mas sugerir que o nosso grupo é alienado é realmente algo que não trás credibilidade à sua crítica . E por fim,  lamento que você se refira a mim, de maneira preconceituosa, como  um ator “pseudo-global”, obviamente numa tentativa de diminuir o meu trabalho de intérprete. Quanto a isso, quero te dizer que , de fato, tenho muito orgulho de tudo o que fiz na televisão até hoje, mesmo porque, em  todas as vezes  que estive a serviço desse veículo como ator, procurei exercer o meu ofício com toda a dedicação e dignidade, como alias,  sempre faço cada vez que me proponho ao exercício da interpretação.
É isso, Rodrigo. Quis te responder porque acredito que  você é um cara que leva a sério o teatro, assim  como eu. Por aqui, seguiremos com o espetáculo,  essencialmente porque “O Rei dos Urubus”, desde a sua estréia,  vem polarizando opiniões e fomentando a reflexão, o que, te garanto, sempre foi o maior objetivo da Cia dos Gansos de Teatro e o meu maior objetivo como dramaturgo.

Um abraço

Leonardo Cortez



Escrito por Leonardo Cortez às 03h44
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Retomada

De chofre, quero dizer que fico lisonjeado com os apelos pela minha volta à esse blog moribundo. A vida moderna tem sido inimiga da escrita, mas vou tentar ser um pouquinho mais disciplinado daqui pra frente. Nem tudo está perdido. No meio das turbulências, consegui escrever uma peça nova que a gente leu lá no Letras em Cena no último dia 17. Junto comigo, os amigos de sempre compartilhando esse momento que é puro pânico pro dramaturgo: a primeira leitura pública do texto. Fiquei muito feliz com o que disseram de "Rua do Medo". Me animei à beça pra montar e é preciso um puta ânimo pra se fazer teatro hoje em dia. Ando sobrevivendo com toda a dignidade, como diz o Milaré. E dia 18 de dezembro eu lanço o meu primeiro livro,  o que tem me deixado numa espécie de euforia irrepresável. Ele sai pela Editora Candombá e se chama "Trilogia Canalha" contendo os textos integrais de "O Crápula Redimido", "Escombros" e "O Rei dos Urubus", três das cinco peças encenadas pela Cia dos Gansos que em 2009 completa dez anos de vida (putz!). Lembro de como surgiu o "Crápula Redimido", nos idos de 2002. Eu sentei em frente ao computador sem nenhuma idéia do que eu iria escrever, aliás, como acontece muitas vezes. Então,  a frase "Deram pra Getúluio três meses de vida" surgiu, como se o espírito do Vianinha tivesse soprado alguma coisa no meu ouvido. A partir da frase, veio um conto inteiro, que só virou peça porque eu tava tomando uma cerveja com o Zé e no meio do papo, ele disse que a história virava teatro. Revisei o texto por causa do livro e descobri que preciso montar a peça de novo. Tem um monte de coisa pra fazer daqui pra frente. E por enquanto, eu deixo vocês com esse conto, desenterrado e ainda vivo, na certeza de que os inéditos vão surgir, independentemente da boa vontade do Vianinha.



Escrito por Leonardo Cortez às 03h03
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O Crápula Redimido

O CRÁPULA REDIMIDO

Deram para Getúlio três meses de vida. Os médicos foram curtos e grossos. Falência pancreática. E Getúlio , que sequer imaginava qual a função do pâncreas no organismo , teve que se contentar com a única recomendação: ir pra casa e aproveitar a vida. No seu desepero de condenado, Getúlio até achou graça. Pensou que morrer era uma notícia deprimente e que até superar a depressão,  já estaria morto.

Decidiu contar tudo a mulher, que claro, ficou chocadíssima, mas não tão chorosa e inconsolável como ele imaginou que ela poderia ficar. Mas antes de condenar a atitude da pobre mulher é bom que se considere que Getúlio não era flor que se cheire como marido. Aliais, pelo contrário. Há algum tempo, inclusive,  que a esposa cogitava a idéia do divórcio. Por uma irônica coincidência , ela havia decidido comunicar sua decisão de se separar no mesmo dia em que ele falou da sua doença. Ele disse : “quero te contar uma bomba!” e ela disse “que bom, porque eu também.” Agora,  ela agradecia a Deus por ter deixado ele falar primeiro. Não suportaria a idéia de ter pedido o divórcio a uma pessoa desenganada. E depois , o que custava esperar três meses?

Getúlio sabia que seu casamento já tinha ido pras cucuias desde a época em que estava sadio. E não dava a mínima pra isso. Quem conhecia Getúlio depois de dez minutos de convivência sabia que para ele, ter uma amante era algo absolutamente natural. E ele tinha várias. E nenhuma sabia das outras. Getúlio amava e enganava, porque se sentia melhor assim. Enganar as pessoas fazia parte da sua natureza que englobava ainda outros desvios . Por exemplo, Getúlio explorava os empregados da sua empresa, além de humilhá-los sempre que tinha uma oportunidade. Sua mãe tinha sido internada num asilo, onde ele jamais havia posto os pés. Seus filhos eram dois desencaminhados na vida e ele mal se preocupava com isso , a não ser quando eles lhe pediam dinheiro. No resto do tempo ele era ranzinza , egoísta , orgulhoso e trazia consigo um pouporri de defeitos que poderia torná-lo objeto de uma tese sobre a fraqueza do caráter humano. Enfim, um canalha, como tantos outros..

Mas a proximidade da morte opera milagres até na personalidade mais ignóbil. Pela primeira vez, Getúlio se pelava de medo. Não da morte ou da doença. Mas do inferno, ou seja lá o que for que lhe aguardava. Pelo seu histórico de vida, não devia ser nada bom o que o além lhe ofereceria pela frente. E isso porque ele era ateu. Ou pelo menos pensou que fosse. Sua agonia e medo de ser castigado resultaram numa demonstração de fé às avessas. Agora ele acreditava no poder divino. E não pelo amor a Deus. Mas pelo medo.

Superando seu orgulho, mandou chamar um padre no escritório, para estranhamento dos funcionários. O padre ouviu a história do pobre homem e sugeriu , na sua sabedoria clerical, que Getúlio usasse seus últimos dias de vida para praticar o bem. Certamente seus medos desapareceriam. Aproveitando o ensejo, ele sugeriu que Getúlio começasse pela doação de fundos às obras assistenciais da igreja. Como um paciente que é obrigado a tomar um remédio amargo por recomendações médicas, Getúlio consentiu e mesmo a contragosto, deu ao padre uma soma merreca na primeira vez que fez uma caridade na vida. E a partir desse dia, Getúlio resolveu ser bom. Ou pelo menos tentou.

Decidiu começar pelas pessoas que estavam a sua volta e que ele tinha prejudicado, pedindo inicialmente desculpas. Primeiro, contou a sua mulher das amantes que tinha e dos inúmeros casos extra-conjugais que havia sustentado nos quase quinze anos de casamento. Foi um momento muito difícil para Getúlio. Não que ele estivesse arrependido das peripécias sexuais porque não era da sua natureza se arrepender desse tipo de coisa. Sua dificuldade foi justamente falar a verdade, porque essa era uma atitude com a qual ele não estava mais familiarizado. Getúlio ficou impressionado como falava a verdade com a dificuldade quem estava mentindo , ao contrário da facilidade que sentia ao falar a mentira como se estivesse sendo sincero. Agora ele gaguejava, suava , não encontrava palavras para abrir seu coração. Aos trancos, porém , conseguiu. A mulher ouviu a confissão em silêncio. Compreendeu as intenções do iminente falecido. E então contou, num misto de desabafo com crueldade, dos amantes que tivera na mesma proporção e falou tudo sem gaguejar, deixando o pobre marido desenganado num abatimento sem precedentes. De qualquer forma, Getúlio se sentiu merecedor da represália e por conseqüência , um pouco mais aliviado. Mas ainda havia muito a ser feito no pouco tempo que lhe restava.

No dia seguinte chamou ao escritório o Tavares, seu assessor direto com quem ele exercitava diariamente seu poder de maltratar e humilhar um ser humano. Tavares, que era pai de quatro filhos e tinha a pensão de duas ex-esposas pra pagar, sempre ouvia as ofensas do patrão em silêncio. Já tinha sido chamado de pulha, incompetente, brocha, imbecil, jumento, energúmeno, cretino e outros adjetivos de mais baixo calão sem nunca ter retrucado uma única vez. Quando foi chamado ao escritório, seu único medo era o de ser demitido, já que as ex-esposas ameaçavam ir à justiça caso a pensão atrasasse de novo como no mês anterior. Surpreendentemente, foi recebido com um sorriso e pela primeira vez Getúlio perguntou por sua saúde. Era uma pergunta invejosa, mas Getúlio se esforçou para parecer sincero. E gaguejando, o patrão pediu desculpas pelas ofensas ao seu mais infeliz empregado, prometendo um aumento para o semestre seguinte. Getúlio sabia que estaria morto até lá e que o aumento não viria, mas omitiu o fato ao Tavares, que nesse momento, lutava para aplacar uma discreta culpa que se manifestava em seu espírito. Sim , pois só o Tavares sabia que dentro de dois meses, ele daria um golpe nas finanças da empresa, fugindo posteriormente para a Suíça, onde livre das humilhações do seu chefe e das ex-esposas, poderia finalmente gozar uma vida plena. Pensando nisso , Tavares sorriu. Ignorando a traição eminente, Getúlio pensou que fazer o empregado sorrir era uma atitude que lhe dava prazer. Mas não tanto prazer quanto xingá-lo logo pela manhã. Por isso , ele não resistiu e disse:

-Agora tire esse sorriso estúpido da cara e chame a Dona Rosa pra mim!

Dona Rosa era a secretária recém contratada. Getúlio ficou sabendo, através da moça que servia cafezinho, que a coitada tinha um filho asmático e era mãe solteira. O tratamento era caro e a menina vendia produto da Natura pra completar o orçamento. Achando a menina jeitosa, Getúlio chamou-a em sua sala e sem delongas fez a proposta escabrosa:

-Você sai comigo de sexta e eu financio o tratamento do moleque.

Rosa ficou ofendidíssima. Era moça de família e sua dignidade não estava à venda.

-Blá, blá, blá...,arremedou o patrão. Te dou uma semana pra pensar no assunto. Agora fora daqui!

No dia seguinte, com cara de choro, a menina topou. Depos daquele dia, passaram-se seis semanas na rotina da hora extra de sexta-feira. Por isso, quando Rosa foi chamada por Tavares, ela pensou que se fosse acontecer alguma coisa por fora do combinado, o pagamento deveria ser adicional. Já tinha o discurso engatilhado e uma camisinha na bolsa quando ouviu:

-Dona Rosa , não quero mais sair com a senhora de sexta feira e mesmo assim, tá aqui um cheque que vai garantir a saúde do seu menino por mais um ano.

Era como se um anjo falasse através daquela boca que ela sempre teve nojo de beijar. Rosa olhou o cheque e a grana era razoável. Mas a culpa que ela sentiu foi maior que a cobiça.

-Não posso aceitar porque eu menti o tempo todo! Nem filho eu tenho! Usei o dinheiro do tratamento para comprar roupa! Roupa!

Getúlio ficou chocado. Jamais imaginara uma verdade tão indecente.

-E por que só agora você me fala uma coisa dessas?, ele perguntou , tentando recobrar a respiração.

-Para o canalha, as mentiras. Pro santo, somente a verdade.

Então, ele pensou em tomar o cheque, mas ao ponderar as palavras do padre, mudou de idéia.

-Pega o cheque e renova teu guarda -roupa. Mas de agora em diante eu vou querer happy- hour duas vezes por semana, porra!

Rosa saiu da sala em êxtase, comentando em voz alta que ainda existia gente boa no mundo e Getúlio pensou com seus botões que uma coisa era estar redimido e outra era ser feito de otário.

Na semana seguinte pegou sua Mercedes e foi para a casa de repouso onde a mãe estava internada. A velha não o reconheceu, a princípio. Já fazia quinze anos desde a última visita, quando ele sequer chegou a descer do carro, acenando para a mãe da janela e dizendo que estava atrasado para uma reunião de trabalho. Agora Getúlio estava ao pé da cama da mãe octogenária e entre gaguejos, pedia perdão por tantos anos de ausência.

-Não se preocupe, meu filho. Eu mal senti sua falta.

O filho ignorou a grosseria, disse que amava a mãe e que estava arrependido.

-Não fale besteiras. Você não está arrependido de nada. Se veio até aqui foi porque está querendo alguma coisa., disse a mulher num sopro de voz.

Getúlio contou que estava desenganado, com a mesma doença que vitimou seu pai, que ele nem mesmo chegou a conhecer .

-Seu pai não morreu disso, meu filho. Eu inventei essa história. Na verdade seu pai fugiu de casa, assim que você nasceu...

Getúlio ficou sem ar. Tantas revelações faziam com que ele tivesse a nítida sensação de que o pâncreas se dissolvia como mingau em seu organismo. Insensível a isso, a mãe continuava, como se, assim como o filho, quisesse expurgar seus fantasmas no fim da vida .

-Mas a culpa não foi dele. Foi minha. Porque quando eu fiquei grávida, pra ser sincera , eu não sabia se ele era o pai...

Getúlio, mais uma vez sem ar, teve um lampejo de esperança ao pensar que poderia reencontrar um pai que ele sempre acreditou que estivesse morto. E perguntou a sua mãe quem era seu pai verdadeiro. A resposta porém, o deixou estarrecido.

-Não se dê ao trabalho de perguntar, meu filho . São pelo menos seis possibilidades diferentes.

E o pobre crápula , que não havia chorado nem quando soube que ia morrer, pela primeira vez em muitos anos , chorou.

-Pelo menos eu te amo, filho, disse a mãe, sem convicção.

Saindo do asilo, Getúlio cogitou o suicídio. Mas sua obra ainda não estava terminada. Ainda haviam os filhos. Ele ainda poderia ser um pai de verdade, poderia aconselhar, encaminhar os meninos. No entanto, escolado, ele perguntou antes à mulher se os filhos eram dele de fato.

-Pra ser sincera, existe a possibilidade de um não ser, disse a mulher que nesse momento parecia se vingar, principalmente das vezes em que tinha apanhado.

-Qual dos dois? Qual dos dois?, gritava Getúlio sentindo a doença progredir.

-Não digo! Depois você exclui o coitado da herança e eu quero o bem dos meus filhos.

-Entro com um processo! Vou pedir o DNA!

-Eu vou pra justiça! Entro com um recurso e nos próximos seis meses fica tudo empacado!

Getúlio não tinha saída. Não poderia esperar tanto. Deprimido, foi buscar consolo no colo de uma das amantes, Dolores, que era a única pessoa no mundo que o amava de verdade, apesar de apanhar sempre que se viam. Dolores ficou em estado de choque com a notícia da doença terminal. Disse que queria morrer junto com ele, mas Getúlio deu-lhe uma bofetada como de costume, mandando ela não falar besteiras. Amaram-se como se fosse a última vez e Getúlio disse que queria passar com ela seus últimos dias de vida. Dolores deu uma leve risadinha de resignação:

-Durantes anos eu esperei você largar tua mulher. E quando você larga é só para passar três meses.

Aquilo que Getúlio conseguiu livrar da esposa em matéria de patrimônio ele vendeu e depositou numa conta no nome de Dolores. Entrou nesse bolo a empresa e alguns imóveis. Tavares se matou depois que soube que a empresa tinha sido vendida e que seu golpe financeiro tinha ido pro beleléu. A esposa entrou com uma ação na justiça, mas dessa vez a morosidade da lei conspirou contra ela. Vivendo seus últimos dias ao lado de Dolores, Getúlio mandou chamar o padre da paróquia pois ainda sentia medo do castigo divino.

- Tentei ser bom com as pessoas que eu maltratei, padre. Mas o que eu decobri é que os outros são tão ruins quanto eu.

O padre nem se preocupou em falar nada sobre as conseqüências dos nossos próprios atos. Tampouco se preocupou em promover a misericórdia divina ou a infinita bondade do Criador. Apenas lembrou Getúlio de que as obras de caridade ainda estavam emperradas e que uma doação substancial certamente poderia salvar sua alma. Então Getúlio comprou a salvação com uma creche que levou seu nome e morreu em paz.





Escrito por Leonardo Cortez às 02h39
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