Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


O Rei dos Urubus- Conto, nova versão

Me formei jornalista e logo de cara, minha tia me arranjou um estágio num jornaleco pra fazer coluna social. Achei ótimo o estilo de vida. Fazia plantão nas festas, descolava uns croquetes e um vinho branco na surdinha e ainda botava o papo em dia com os colegas desocupados, enquanto a gente esperava acontecer a próxima notícia estúpida. Aí, fui prosperando porque eu tenho senso de oportunidade. Troquei de jornal, fui chamado pra ser jurado de programa de tevê e dali a pouco,  todo mundo me conhecia. Um mundo de idiotas me telefonando pra aparecer no jornal, puxando o meu saco, aquela porra toda. E eu, permutando favores, que não sou otário. Uma nota aqui em troca de um favor acolá, isso quando não liberavam uma grana eventual.  Uma vez comi uma atriz e custou quase nada, duas linhas num site de quinta categoria. O universo das celebridades é formado, em essência,  por cretinos completos. Falo isso com conhecimento de causa. Eu mesmo fui uma celebridade com PHD em cretinice. E poderia ter sossegado quando finalmente fui promovido a editor  pelo Dr.Alcides, dono da editora, que sempre foi com a minha cara e que por isso, comia na minha mão. Depois,  eu comecei a comer a mulher dele e isso é um detalhe importante pra entender o que aconteceu comigo nesses últimos tempos.   O fato é que eu tava no auge quando despenquei feito uma jaca. A culpa foi minha. A velha imprudência da juventude, paradoxalmente falando. Eu tava ambicioso pra burro, tinha lido a frase do Pessoa que diz que em cada lago  a lua toda brilha  porque alta vive. Depois entendi que eu não sou um lago, eu sou um pântano! Mas chega de metáfora, que metáfora é coisa de viado.  

Voltando à vaca fria, quem ouviu falar da Alice Brandão sabe que a mulher era garantia de ibope naquela época. Ex-modelo, casada com  empresário, a Alice ficou famosa pelas festas e pelos escândalos, cada um  mais saboroso pra imprensa marrom  que o outro. Minha carreira deu um belo salto quando eu cobri com exclusividade o dia em que ela tomou um porre monumental, enfiou o Porche no poste e ainda agrediu o policial que foi fazer a ocorrência. Primeira página e muita revista vendida. Outra vez,  ela fez uma lipo malsucedida e sumiu do mapa por causa do inchaço. Foi idéia minha tocaiar fotógrafo na frente da casa de praia pra tirar  foto da ex-modelo sequelada. Ela ainda caiu em depressão depois da publicação da revista, o que gerou mais matéria rentável. A Alice me ajudou a virar editor, eu reconheço. Talvez eu devesse ter sido mais atencioso quando ela veio me procurar na redação, implorando pra que a gente calasse a boca em relação à última bomba sobre a sua vida amorosa que tava prestes a estourar na imprensa. Mas, porra: quem ia ficar quieto , sabendo que uma mulher como aquela tava de caso com o próprio segurança?
 
Publiquei na sexta-feira. No domingo, o marido empresário tirou sua arma do fundo do armário e descarregou o tambor na ex-mulher, guardando a última bala pra dar um tiro na própria boca. A mídia marrom foi ao delírio com a seqüência macabra. A nossa revista faturou em cima até alguém concluir que o crime passional tinha sido desencadeado pelo furo jornalístico promovido por mim. Um dia, quando cheguei na editora, meus colegas de profissão estavam em peso esperando pelo meu carro. Pipocavam os flashes enquanto eu era bombardeado com perguntas sobre a ética no jornalismo e se eu me sentia em algum nível culpado pelo o que tinha acontecido. Minha argumentação foi incisiva.A imprensa é livre e blá, blá, blá! Se tava todo mundo com síndrome de Madre Tereza de Calcutá, a culpa não era minha. Mas o fato é que me pegaram pra Cristo, dizendo que eu era o símbolo da falta de ética e decoro do jornalismo nacional. Paradoxalmente e sem nenhuma ética, diga-se de passagem, devastaram a minha vida. Descobriram e divulgaram em larga escala e em todos os veículos de comunicação em massa as minhas pautas vendidas e o meu caso com  a mulher do Dr. Alcides. Não foi surpresa quando comunicaram minha demissão.  Minha mulher me expulsou de casa e, um dia, quando a minha mãe voltava da feira, ela foi agredida por um grupo de senhoras moralistas. Até pra velha o negócio fedeu, coitada...

Fiquei numa fossa da porra e numa noite, tomando um porre num bar,  um sujeito me abordou. Não reconheci de cara por causa da bebedeira, mas depois de um soco no estômago, tudo ficou mais claro. Eu tava apanhando do Jessé, o segurança da Alice Brandão. Que gritava aos prantos que eu tinha arruinado a única chance dele ser alguém na vida. Apanhei um bocado naquela noite  e só não morri de pancada porque alguém chamou a polícia. Chamaram a imprensa e no dia seguinte eu tava de novo, em todos os jornais, como o jornalista decadente, símbolo da corrupção da mídia nacional e que agora tomava porres e porradas em botecos fétidos da cidade. Fiquei uns dois meses em sair de casa, até que o dia em que bateram na minha porta sem nenhuma delicadeza, chamando pelo meu nome num tom de voz que só podia significar muito mais violência à vista. Obviamente, eu me recusei a abrir, o que foi inútil porque logo em seguida a porta estava sendo arrombada a pontapés. Fui arrastado pra dentro de um carro por uns cinco brucutus a chutes e socos no estômago e antes de apagar, pensei: “Tô morto e que se foda. Chega dessa existência de merda, onde eu fiz tudo errado  e nem sequer to arrependido”. Acordei num sofá de couro, na sala de estar da casa de campo do Dr. Alcides. O mesmo sujeito cuja mulher eu comera nos meus tempos de glória. Dum canto da sala, ele me olhava com um sorriso meigo. Depois , aproveitando que eu estava amarrado , deu um tapa na minha cara.

-Eu, por mim, tinha te dado um tiro - disse o Dr. Alcides - mas minha mulher tá sofrendo, a vaca. Se apaixonou por você. Pediu pelo amor de Deus, pediu pelos nossos filhos. Tudo que essa vagabunda me pede, eu faço. É assim,  desde que a gente se casou, o que que eu posso fazer? Então, em troca da sua vida, você vai me fazer um favor.

Em silêncio, eu ouvi a proposta bizarra:

-Quero fazer um programa de televisão. Uma coisa meio submundo. Gente pobre e gente rica, unidas na desgraça, compreendeu? Todos os podres, todos os escândalos. O que interessa é o mundo cão, que brasileiro é chegado num barraco. Fizemos pesquisa de opinião e o âncora tem que ser você! Você é o representante maior da escrotidão da nossa mídia! O programa é pura carniça! E você é o Rei dos Urubus! O Rei dos Urubus!

Então, eu voltei à cena. Publiquei um livro, fui capa de revista, declarei ter superado a depressão. A mulher do Dr. Alcides dorme em casa duas vezes por semana, e com o consentimento do marido. Já o meu programa, “O Vício da Vida”, estreou com um ibope nas alturas. Pudera. No primeiro programa, um convidado especialíssimo: Jessé. Que inclusive me pediu perdão. Ao vivo. Com lágrimas nos olhos, o puto...

 



Escrito por Leonardo Cortez às 02h31
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Cascabulho- nova versão

Eu estava numa depressão da porra, me sentindo um cascabulho de merda e dando graças a Deus porque, fora isso,  estava tudo bem. Era uma dessas tardes quentes de verão,  onde qualquer esforço físico como levantar da cama te faz suar em bicas, de modo que eu estava deitado, usufruindo dos benefícios do ventinho gerado pelo meu ventilador mequetrefe. E pensava como a minha vida era sem sentido e como toda aquela fossa era reflexo do festival de erros que tinha começado a partir do momento que eu dei os meus primeiros passos com um ano e meio de idade e andei descalço na direção de um formigueiro, sem saber que eu era alérgico à picada de inseto. Infelizmente,  depois desse incidente eu ainda dei muitos tropeços na vida. Muitos com conseqüências mais desgraçadas do que um ataque hipoalergênico.

A cagada mais recente foi ter esquecido do aniversário da Vanessinha. Justamente da Vanessinha, minha namorada mais atenciosa,  que me promoveu uma festa-surpresa quando eu fiz trinta anos, muito embora ela tenha se confundido com a data, aparecendo no dia seguinte gritando “surpresa!” enquanto eu guardava os restos do bolo numa tapeaure. Lembro dessa festinha como se ela tivesse acontecido mês passado, o que não é estranho, porque foi exatamente no mês passado que a festinha aconteceu. Poucos convidados e muitas ausências. Meus pais deram uma passadinha rápida porque disseram que estavam atrasados pra pagar uma promessa em Aparecida do Norte, o que foi uma desculpa esquisita,  já que os dois não acreditam em Deus. Dos amigos, o Bocomoco foi o único que justificou a ausência, num telegrama onde ele dizia que não poderia  comparecer porque certamente estaria doente no dia do meu aniversário. Desconfiei que aquilo era  conversa pra boi dormir, mas mesmo assim respondi  dizendo que não havia problema e que ele seria bem vindo nas festas-surpresas dos anos posteriores, desde que ele não mandasse telegramas sobre a festa-surpresa  na semana anterior à festa surpresa porque esse tipo de atitude normalmente  estraga a surpresa de uma festa- surpresa.
 
Ok, sempre fui impopular e isso não é algo que me incomode, a não ser quando eu apanho em função disso. Desde o colégio,  eu sempre paguei o preço por falar aquilo que me vinha na cabeça. No começo, eu achava que esse aspecto autêntico da minha personalidade incomodava os hipócritas de plantão. Depois, a maturidade me fez perceber que eu só falo bobagem, mesmo. A minha relação com as mulheres nunca foi fácil. Nunca fui um Alan Delon e além disso, recentemente um endocrinologista confirmou que, graças à um problema gástrico, eu tenho um bafo filho-da-puta, o que eu já suspeitava  desde que recebi de alguns colegas da faculdade o apelido de “Boca de Bueiro”. Foi por isso que eu comecei a comprar drops todos os dias no supermercado, acreditando que o consumo desse produto poderia me dar maiores chances com o sexo feminino. E eu estava certo. A menina do caixa me deu bola. Seu nome? Vanessinha.
 
Cento e doze quilos. Um mundo de prazeres em cada dobra daquele corpo que eu nunca cansei de desejar. Com a Vanessinha eu aprendi tudo na cama. Das posições mais libidinosas até coisas mais simples e singelas de um relacionamento amoroso, como dormir agarradinho com ela, o que eu fazia quase todas as noites com  a ajuda de um snorkel. Aquela mulher foi  na cama uma espécie de mãe pra mim e quando eu disse isso pra ela, inexplicavelmente ganhei um tapa. Foi quando incorporamos a violência nas nossas relações sexuais, o que nos conduziu à noites idílicas e delirantes que terminaram no dia em que eu dei entrada no hospital com um politraumatismo maxilar, ocasionado por um orgasmo múltiplo que a Vanessinha nunca havia experimentado.
 
Essa era a nossa relação e era nisso tudo em que eu pensava enquanto o meu corpo suado grudava no lençol encardido em função daquele calor do inferno. Erguendo os meus trêmulos dedos em direção ao telefone, disquei mais uma vez, sabendo que, mais uma vez,  a ligação cairia na secretária eletrônica e que mais uma vez eu iria implorar por perdão, o que seria mais uma vez inútil porque já fazia duas semanas que eu deixava recados naquela caixa postal e ela nunca retornava, a não ser uma vez, pra dizer pra eu não ligar nunca mais. Foi nesse dia que eu explodi:

-Pô, Vanessinha! É por isso que a gente está terminando? Por causa de um esquecimento de data?

Então, ela enumerou oitenta e cinco itens que faziam de mim o sujeito mais insuportável do planeta. Não lembro de nenhum deles a não ser do setenta e seis, onde ela dizia que eu nunca prestava atenção nas coisas que ela dizia. Depois, ela bateu o telefone na minha cara, me condenando àquela depressão profunda, que eu só havia sentido antes na adolescência, quando fui flagrado pelos meus pais  fumando maconha na companhia da Elizete, minha boneca inflável  que eu havia comprado pelo telemarketing com o dinheiro da mesada.

Foi quando bateram na porta. Levantei com dificuldade e perguntei quem era. Aquela voz de tenor que eu conhecia tão bem se fez ouvir do outro lado:

-Vanessinha!

Tentei manter o orgulho.

-Vai embora! Você me fez sofrer demais!

Não esperei dois segundos e a porta foi arrombada. E antes que eu pudesse me recuperar do susto, a Vanessinha me agarrou pelos braços e  me ergueu a meio metro do chão:

-Chega de profundidade! Nossa relação agora vai ser só carnal!

Com os dentes, ela rasgou meu pijama e me jogou com  toda a violência na cama, infelizmente com péssima pontaria, já que fui parar em cima da escrivaninha. Antes de perder os sentidos, eu ainda senti as minhas costelas estalando com o peso da Vanessinha sobre mim. Duas horas depois, eu dava entrava na emergência da Santa Casa com hemorragia interna e algumas fraturas.

Felicíssimo, diga-se de passagem.



Escrito por Leonardo Cortez às 00h46
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A MORTE DO ELEFANTE

Não foi fácil entrar no Gran Circo do Professor Figueroa, depois que fui chamado às pressas para investigar a morte do elefante. Logo na entrada, um grupo de anões evangélicos tentou me converter usando uma edição de bolso da Bíblia e o argumento de que a morte do elefante aliada à alta do dólar era o prenúncio do juízo final. Ao adentrar ao picadeiro, o cenário era dantesco. Um grupo de palhaços existencialistas refletia sobre a impermanência da matéria enquanto duas irmãs siamesas discutiam agressivamente, já que depois daquele crime, uma queria se internar num monastério enquanto a outra estava decidida a virar stripper. No centro do picadeiro, o cadáver paquidérmico jazia indubitavelmente morto, perfurado por doze tiros , que aparentemente, eram os causadores do óbito. Abri caminho entre os palhaços no momento em que um deles afirmava algo como “Deus está morto”, enquanto esguichava água de um daqueles óculos de brinquedo e quando cheguei ao lado daquele imenso corpo, me veio imediatamente a lembrança do meu finado Tio Leopoldo, obeso mórbido, que morreu ao escorregar da balança e bater a cabeça no chão enquanto comemorava a perda de doze quilos em trinta dias depois de  uma dieta a base de fibras. Pensei em contar essa história para a mulher barbada na tentativa de puxar um papo já que, desde a minha entrada no circo,  ela me lançava olhares libidinosos, mas preferi ir direto ao assunto, aproveitando a aglomeração em volta do cadáver.

-Muito bem, vou perguntar só uma vez: quem foi que matou o elefante?

Normalmente eu uso essa primeira estratégia investigativa. Pergunto em voz alta quem é o assassino na esperança de que ele se apresente de uma vez,  pra que todo mundo possa voltar mais cedo pra casa. Raramente essa estratégia dá certo, mas a tentativa nunca me custou nada. Foi quando aquela velha voz soturna se fez ouvir às minhas costas.

-Você continua o mesmo idiota de sempre, Fonseca...

Virei pra trás, e o Trajano, mais uma vez, estava na minha frente. Ele continuava sendo o delegado da nossa divisão, encarregado das investigações criminais preliminares que normalmente não serviam pra nada, mesmo porque tudo o que o Trajano costumava fazer quando chegava ao local de um crime era ficar repetindo o tempo todo “para trás, para trás”, mesmo que não houvesse nenhum curioso por perto. Eu nunca me dei muito bem com o Trajano e as coisas pioraram sensivelmente depois que do episódio da Professora Ruth, sua namorada criminosa que eu fui obrigado a botar na cadeia. Achei, inclusive, que a  corporação iria afastá-lo do cargo, principalmente depois que ele baleou dois ex-colegas durante a tentativa de fuga da moça. Na delegacia, no entanto, ele disse que tudo não havia passado de uma brincadeira, e pedindo desculpas, perguntou se as coisas não poderiam continuar como antes. À princípio, a corregedoria relutou, mas quando o Trajano garantiu que a limpeza do banheiro seria sua responsabilidade, ele não somente  teve seu emprego de volta como também ganhou a antecipação do dissídio da categoria. Ainda estava fresco em minha memória nosso último diálogo, quando ele disse que me odiava e que queria me matar. Lembro que respondi algo como “tudo bem , mas espero que isso não signifique que a gente não possa ser amigos...”. E agora, os ossos do ofício nos colocavam frente a frente, mais uma vez. Por isso, tentei ser o mais profissional possível e falei, com um ar sereno:

-Trajano, o elefante morreu. Parece que temos aqui um crime da pesada...

O picadeiro explodiu em gargalhadas enquanto o Trajano, que estava tentando parar de fumar havia dois minutos, acendeu uma bituca que estava apagada num monte de esterco, recaindo imediatamente.  Normalmente eu era avesso à piadas no ambiente de trabalho, mas naquele dia eu me sentia pleno e inspirado, na carona da paixão pela minha nova namorada, uma sueca ninfomaníaca que me fazia ver estrelas, principalmente quando incorporávamos nas nossas peripécias sexuais objetos eletrônicos que ela secretamente importava da Coréia. Numa das primeiras noites, eu tive parte da minha genitália eletrocutada. Depois, conseguimos estabilizar a voltagem dos aparelhos, e naquele momento , nossa relação seguia numa curva ascendente de luxúria e delírios.

-Chega de piadas e vamos ao trabalho, seu palhaço!, gritou o Trajano, sem perceber que os palhaços se sentiram ofendidos e discretamente arregaçavam as imensas mangas com babados. E antes que a coisa ficasse preta, mais uma vez eu me encarreguei de descontrair o ambiente.

-Trajano, sua camisa está suja de café, eu disse, enquanto apontava para o centro do seu peito. E quando o Trajano olhou para baixo, imediatamente, eu lhe desferi um “chubaba” que levou a platéia à loucura.

-Ok, vamos deixar as nossas diferenças de lado, meu caro colega delegado. Traga até aqui o Professor Figueroa, dono do circo. Talvez ele tenha alguma informação valiosa...

Contrariado por receber ordens minhas e talvez mal-humorado por eu ter abaixado suas calças quando ele se virou de costas, Trajano foi buscar o Professor. Minutos depois, o dono do Gran Circo estava à minha frente, junto com a sua esposa, Dona Julieta. O Professor era um tipo obeso como tio Leopoldo e seu comportamento era extremamente suspeito, a começar pelo fato de que ele dizia o tempo todo “não fui eu, não fui eu”, o que depois ele atribuiu à uma crise de flatulência. Do seu lado, sua esposa, igualmente adiposa, chorava descontroladamente.

-Como o senhora descreveria a sua relação com o elefante falecido?, perguntei à Dona Julieta, enquanto lhe oferecia um copo d´agua.

-Éramos amigos! O ciúme do Figueroa é injustificável!

-Eu flagrei essa vagabunda beijando o elefante! - gritou o Professor Figueroa, subitamente acometido por uma crise de emocional.

-Ok! Confesso! Eu beijei! Mas eu beijei achando que o elefante era você!

-Essa quando bebe, vira uma putana!

Imediatamente, o professor Figueroa começou a dar uns tabefes na esposa, mas ninguém interferiu porque, até onde eu soube, tava todo mundo acostumado com aquele tipo de cena. Mesmo assim, eu subi no mastro do picadeiro e disse em altos brados:

-Mais um crime solucionado, meus senhores. Foi um crime passional! Louco de ciúmes, o Professor descarregou sua arma e...

Eu me preparava para terminar o discurso e receber as boas e velhas palmas de reconhecimento à minha rapidez e perspicácia quando ouvi um estampido e senti uma ardência no meu peito. Minha boca se encheu de sangue e nessa hora eu pensei que a coisa poderia ser um pouco mais séria. De fato, era mesmo. O Trajano tinha me dado um tiro no peito.

-Isso não é pela Ruth, ou pelas piadas infames! O que você fez comigo foi muito pior! Antes de você, eu era somente um delegado medíocre, mas a sua idiotice colocou uma lente de aumento na minha própria incompetência! Você é um deboche de Deus na minha vida!

Caí estatelado no chão e ainda pude ouvir o Trajano gritar por socorro enquanto ele era espancado pelos anões evangélicos e pelos palhaços existencialistas. Fui encaminhado com vida ao hospital, mas faleci na ambulância. Agora, estou na espectativa pra ver como será o meu funeral. Acho que o mínimo que a corregedoria pode fazer é pagar as despesas. Além, é claro, de não aceitar o pedido de desculpas do Trajano.



Escrito por Leonardo Cortez às 02h20
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