Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


A MORTE DO PAPAI NOEL

 Cheguei na Escolinha Mundo Feliz por volta das dez da manhã e encontrei a diretora do estabelecimento nervosíssima.

-Mataram o Papai Noel quase na hora do recreio!, ela disse roendo as unhas.

-Onde está o cadáver? perguntei.

-No meio do pátio! E agora? Quem é que vai entregar os pirulitos, merda...

Indiferente à histeria da pedagoga, fui ao locl do crime e me pus a analisar o presunto natalino. A morte havia sido provocada por uma espécie de objeto perfurante e pelos meus cálculos, o Papai Noel deveria ter perto de um metro e setenta distribuídos em aproximadamente sessenta e dois quilos. A barba postiça estava descolada do rosto e por trás da peruca grisalha, escondia-se um tufo de cabelos pretos.

-Obviamente este homem não é o Papai Noel verdadeiro, exclamei triunfante, mas um silêncio reprovador não correspondeu ao que eu  imaginava que poderia ser uma demonstração de entusiasmo diante da minha perspicácia. Foi quando uma voz gélida se fez ouvir no meu cangote. Era o delegado Trajano, figura sempre presente em cada homicidio investigado pela minha divisão.

-É claro que esse não é o Papai Noel verdadeiro, seu idiota. Esse homem é um ator contratado.

Eu teria dito ao Trajano sabia muito bem que o verdadeiro  Papai Noel  morava na Finlândia, mas acabei me calando quando percebi , horrorizado,  que o Trajano ostentava na cara uma espécie de dermatite repulsiva que deixava o aspecto da sua epiderme similar à superfície do planeta Marte, só que com umas crateras mais profundas.

-Desenvolvi uma pequena alergia à mariscos,- ele disse, notando a minha expressão de asco- o que é estranho, já que eu nunca comi marisco na minha vida. De qualquer modo, estou feliz porque hoje meu cachorro finalmente me reconheceu e por isso não fui mordido na perna logo pela manhã, como tem acontecido nos últimos quatro dias...

Pobre Trajano. Olhei para aquela figura triste e comecei a refletir sobre as injustiças que a vida comete com aqueles que perderam o bonde da auto-confiança. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu teria chorado se ele não tivesse chutado a minha canela com toda a força, dizendo algo como “tá olhando o quê, babaca?”.

-Qual o verdadeiro nome do Papai Noel?, perguntei, dando início às minhas investigações.

-Santa Claus!, respondeu o Trajano numa gargalhada e foi nessa hora que eu comecei a suspeitar que além de doente da pele, o Trajano estava completamente bêbado.

-O nome dele é Alaor, disse a diretora da escola. É um ator indicado por uma das professoras e que há alguns anos presta serviços aqui pra escola. No dia da aviação, ele vem vestido de Santos Dummont; no dia crianças, ele vem de Palhaço Pororoca e na Páscoa desse ano, ele apareceu vestido de cachorro pra entregar os ovos.

-De cachorro?

-Ele disse que era uma tradição muçulmana, mas eu desconfio que ele inventou isso porque não arranjou uma fantasia de coelho a tempo.

Olhei para o pobre Alaor, vestido de Papai Noel, inerte no chão. A visão da figura pueril natalina, furado no pescoço como um peru que precisa ser recheado, me trouxe lembranças amargas da minha infância em Piracicaba, quando, ao lado de meus cinco irmãos, vi o  Tio Juquita, fantasiado de bom velhinho, morrer durante a festa de natal depois que ele resolveu fazer uma saída triunfal pela janela da sala,  esquecendo que morávamos no nono andar. Mais uma vez, meus olhos se encheram d´agua e mais uma vez o Trajano chutou a minha canela, me fazendo relembrar através da dor, que a minha obrigação naquela escolinha era solucionar um crime bizarro.

-Onde está a professora que recomendou o trabalho desse coitado?

-É a tia Ruth. Ela está brincando de Corre-Cotia com as crianças do maternal na sala de jogos eletrônicos. Temos um cassino ludo-terapêutico aonde as crianças aprendem a apostar a dinheiro, num processo educacional que facilita o aprendizado da matemática.

-Me poupe desse discurso metodológico! Quero colher o depoimento dessa tia imediatamente!

-Mas quem é que vai cuidar dos alunos?, preocupou-se a diretora.

-Eu cuido, se ofereceu Trajano, enquanto urinava no tanque de areia do playground. A diretora suspirou e minutos depois, a Tia Ruth chegava ao local do crime. A professora do maternal era uma mulher robusta, dos seus quarenta e tantos anos, que fisicamente me lembrava algum personagem do cinema moderno. Depois de uma análise mais cuidadosa, concluí que o personagem era o “Alien” daquele filme com a Sigourney Weaver. Tia Ruth veio até mim, segurando pela mão quinze crianças em fila indiana, que obviamente começaram a chorar quando viram o Papai Noel assassinado. Eu perguntei à Tia Ruth se não lhe parecia uma irresponsabilidade trazer um grupo de quinze crianças para uma cena como aquela e ela respondeu que, como alguns alunos queriam fazer xixi e o banheiro ficava no caminho entre a sala de aula e o cadáver, ela não poderia fazer nada.

-Desde quando você conhece o Alaor?

-Desde que ele foi contratado pela minha família pra fazer um telegrama animado na festa surpresa de aniversário do meu avô de noventa e seis anos. O trabalho dele foi muito criativo e meu avô teria adorado se não estivesse em coma.

-Como você definiria a sua relação com esse homem, Tia Ruth?, continuei o inquérito.

-Exclusivamente sexual, isenta de envolvimento afetivo. Mas essa loucura durou pouco tempo, ela respondeu.

-O que é sexual?, perguntou uma linda menina ruiva de tranças, antes de ser abordada pelo Trajano , que sugeriu que a criança fosse brincar em outro lugar, na tentativa de preservá-la daquela conversa inapropriada pra menores. A menina ruiva, no entanto, aparentemente se assustou com o aspecto dermatológico do meu amigo e lhe deu uma mordida na perna.

-A relação de vocês dois durou pouco tempo, por que?, perguntei após alguns minutos de profunda reflexão.

-O desgraçado se apaixonou por uma estudante de odontologia durante um congresso sobre pasta de dente onde ele foi contratado pra interpretar uma caixa de fio dental!

Eu não precisava ouvir mais nada. Triunfante, subi no escorregador e anunciei, na corona da minha euforia:

-Crianças, quem matou o Papai Noel foi a Tia Ruth!

A criançada começou a gritar alegremente! O Trajano, que nesse meio tempo havia sido amarrado junto à uma carteira por cinco meninos que o chamavam de “Ogro da Floresta”, ficou tão entusiasmado com a rapidez com que solucionei o caso que vomitou no chão. Infelizmente, o vômito atingiu o desenho da amarelinha e duas meninas começaram a chorar.

-Como você deduziu isso em tão pouco tempo?, perguntava a diretora, visivelmente atraída sexualmente por mim, o que de certa forma me assustou, já que ela tinha perto de oitenta anos de idade.

-Obviamente é um crime passional. A Tia Ruth é uma mulher carente e seus atributos físicos não provocam, digamos assim, uma corrida por um número de senha. Ao se ver trocada por uma estudante de odontologia, ela não teve dúvidas. Atraiu o pobre Alaor para mais um trabalho na escola e o atacou com uma tesoura sem ponta e um compasso, enquanto ele ajeitava a barriga postiça.

-Eu bem que achei estranha essa insistência da Tia Ruth em chamar o Papai Noel no mês de setembro, disse a diretora, enquanto desabotoava os oito primeiros botões da sua blusa de cambraia na tentativa de valorizar o seu decote,  que começava na altura da barriga.

-Me leva presa! Eu me entrego! Matei mesmo e agora eu não tenho mais motivos pra viver!, berrava aos prantos a Tia Ruth. E foi nesse momento que o Trajano se aproximou com o bafo de onça.

-Eu levo a moça pessoalmente à delegacia, pode deixar, Inspetor Fonseca...

Eu deveria ter desconfiado que alguma coisa estava errada quando, ao invés de algemar a moça , o Trajano deu-lhe um beijo na boca. Depois disso, meu amigo delegado desertou e os dois fugiram juntos. Nos dias que se seguiram, eu coordenei pessoalmente as buscas, mas como o Trajano conhece o modus operanti da corporação, por enquanto todas as tentativas de prender a Tia Ruth tem sido infrutíferas. E de vez em quando, inclusive, ela me liga, dizendo que vai se vingar e que eu vou comer capim pela raiz mais cedo do que eu penso. Eu não tenho medo desse tipo de ameça, mas fico um pouco aborrecido quando a ligação é a cobrar, três da manhã.
 

 



Escrito por Leonardo Cortez às 03h56
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A MORTE NO BANHEIRO MASCULINO

Cheguei ao local do crime, o banheiro masculino de um bar gay de quinta categoria, tarde demais, uma vez que a vítima já tinha sido assassinada. Depois de dominada a frustração, fui verificar o cadáver, que aparentemente estava morto. Mesmo assim, cutuquei-lhe a barriga, ainda na esperança de que ele se levantasse e gritasse algo como “surpresa”, mas, infelizmente, nada aconteceu. À minha volta, uma horda de homens fantasiados como os integrantes do Village People se aproximavam perigosamente da minha retaguarda. Alguns choravam, gritando coisas como “me belisca forte, Mona!”, enquanto outros telefonavam pras suas mães de celulares revestidos de bichinhos de pelúcia. Foi nessa hora que, às minhas costas, uma voz soturna me causou sobressalto.

-Não adianta. Eu mesmo fiquei durante alguns minutos fazendo cosquinhas nos pés da vítima. Se ela não estivesse morta, certamente teria dado alguma risada.

Virei-me e dei de cara com o delegado Trajano, velho conhecido de outras empreitadas criminalísticas. Trajano era um tipo asqueroso, que sempre estava comendo alguma coisa ao mesmo tempo em que mascava um palito de dente e fumava um cigarro. Fumante inveterado, Trajano era conhecido por nunca tirar o cigarro da boca, mesmo em situações inapropriadas como durante suas aulas de ioga e na hora de escovar os dentes. Minha relação com o Trajano andava abalada desde que  investigações sobre denúncias de corrupção policial o apontaram como o principal articulador de uma rede de propinas que visava encobrir o tráfico ilegal de lingeries. Chamado a depor no inquérito, eu acabei confessando no meu testemunho que, de fato, há muito tempo eu suspeitava que ele usava sutiã, o que se confirmou no dia em que saímos juntos pra jogar squach e trocamos de roupa um na frente do outro no vestiário. Um dia, no corredor da corregedoria, o Trajano tentou me bater com um macaco elétrico, o que perdoei, talvez por me sentir um pouco culpado pelo fato de estar namorando na época a sua filha única de dezessete anos, embora a menina ainda não soubesse disso.

-Esse homem levou doze facadas, disse Trajano, dando uma tragada profunda no seu cigarro ao mesmo tempo em que abocanhava um hot-dog com batata palha, sem maionese.

-Doze facadas, concordei. Creio que podemos descartar a hipótese do suicídio.

Senti olhares de admiração sendo lançados à minha pessoa pela legião de homens presentes. Inclusive, alguém alisou a minha nádega esquerda antes que eu pudesse impedir. Minha fama no departamento havia se consolidado ao longo de todos aqueles anos devido a minha perspicácia e senso apurado de observação. Eu ainda estava deitado nos louros da glória por ter solucionado o misterioso caso da velha avarenta da Rua Treze, típico caso de duplo homicídio onde a vítima foi morta duas vezes porque o assassino não queria correr o risco de ter que voltar no dia seguinte pra terminar um serviço mal feito. Abri espaço por entre os presentes, ouvindo coisas como “poderoso” e “necessário” e tentei encontrar o melhor ângulo pra fotografar a cena do crime. Infelizmente, constatei consternado que havia esquecido a minha câmera digital em casa e receoso de que o Trajano pudesse espalhar por aí que eu sou um investigador relapso, coloquei meu bloquinho de anotações na altura da vista e fiquei fazendo “clic” com a boca de maneira discreta. Acho que meu truque funcionou. Inclusive porque um dos frequentadores do bar chegou do meu lado e sussurrou algo como "me fotografa?" no meu ouvido.  Foi quando eu identifiquei algo estranho no corpo:

-Espere! Esse homem está sem as calças!, disparei, rápido como uma Magnum nove milímetros.

O banheiro ficou tomado pelo alvoroço. Todos se acotovelavam pra verificar o objeto da minha descoberta e no meio da confusão, passaram a mão a minha bunda de novo, dessa vez na nádega direita. Trajano ficou tão puto por não ter reparado num detalhe tão relevante às investigações, que depois de tragar a salsicha, acabou engolindo o seu cigarro.

-Quem foi a última pessoa a ter contato com esse homem?, perguntei.

-Eu, bofe...

Imediatamente o garçom da espelunca se apresentou. Um sujeito de cabelo descolorido, esquálido e tísico, que durante todo o depoimento, inexplicavelmente ficou tentando alcançar o próprio cotovelo com a língua, obviamente sem sucesso.

-Eu fui ao banheiro, bofe, como sempre faço todos os dias, principalmente quando estou apertado. Foi quando eu vi um sujeito com uma aparência terrível e repulsiva. Seus cabelos estavam desgrenhados e seu olhar transparecia desespero e solidão. Ao mesmo tempo, existia naquela figura algo sedutor e enigmático, o que muito me atraiu. Caminhei na sua direção e aparentemente, ele correspondeu à minha iniciativa. Foi só quando eu bati com a testa no espelho é que percebi que na verdade eu estava diante do meu reflexo.

-Entendo. E daí?

-Foi quando esse homem, que agora está morto,  me abordou, perguntando qual era o número do meu manequim.

-Por acaso você reparou se ele estava usando calças?

-Eu sempre reparo se um homem está usando calças, mesmo porque minha mãe é costureira, mas curiosamente, nesse caso, eu não posso afirmar com precisão.

-E essa calça, é sua?

-Claro que é. Não reparou como ela me cai bem?

-Talvez caia melhor depois que a sua mãe fizer a barra.

-O que que o senhor está insinuando?

-Senhores, prendam esse garçom. Foi ele que matou esse homem!, afirmei, triunfante.

Todos os homens começaram a se comportar histericamente e no meio da confusão passaram a mão na minha bunda de novo. Dessa vez,  eu me virei rapidamente e constatei,  horrorizado, que quem tava me bolinando o tempo todo era o Trajano. Resolvi ignorar o fato bizarro pra responder à pergunta que era feita aos gritos, enquanto plumas e lantejoulas voavam pelo ambiente: como eu havia solucionado o crime?

-A motivação do crime foi a vaidade, senhores e... senhores. O fascínio do garçom pela sua própria imagem é característico de um comportamento psicótico narcisista. A vítima, um sujeito corpulento, de quadris largos e dorso fino provavelmente era um sujeito que nunca ficava satisfeito com suas calças.

-O Darci tava sempre reclamando do caimento das suas calças!, confirmou um homem discreto, de mais ou menos um metro e noventa, peludo e que vestia cinta-liga cor de framboesa.

-Quando o finado Darci reparou nas calças do garçom - continuei- eles decidiram , numa troca de olhares, ir até o banheiro, na tentativa de estabelecer uma típica troca pantalônica. O garçom, aparentemente, ficou satisfeito com o modelo, principalmente porque a sua mãe costureira poderia fazer os eventuais ajustes pra que a peça lhe servisse perfeitamente. A vítima , no entanto, não gostou de saber que a braguilha da sua nova calça não iria fechar com facilidade e, após se despir,  quis imediatamente desfazer o acordo. Entorpecido pela própria vaidade, o garçom recusou-se. Uma luta corporal violenta aconteceu, finda a qual, o garçom sacou a faca outrora destinada a cortar o pato, desferindo os doze golpes que, ao que tudo indica,  causaram o óbito!

-Está bem, eu confesso!, gritou o garçom.  Nunca uma semi-bag me caiu tão bem! Eu mataria pra continuar vestindo essas calças! E matei mesmo!

Na saída, enquanto o corpo era encaminhado para o IML e o garçom era preso, o Trajano me puxou de lado e disse que admirava meu trabalho e que gostaria de acabar com os mal-entendidos existentes entre nós dois. Eu disse que tudo bem e aí ele ofereceu o seu apartamento pra gente tomar uma bebida. E foi nessa hora que eu saí correndo a toda velocidade.



Escrito por Leonardo Cortez às 04h17
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