Adnólia e a Grande Chance
Adnólia é mulher simples, mãe de três filhos, que mora longe pra burro, que apanha do marido, que trabalha de copeira, que acorda cedo e toma ônibus lotado. É importante saber que no consultório dentário onde Adnólia trabalha de copeira, o que ela mais gosta de fazer é folhear na sala de espera, a revista “Nosso Mundo”, onde as depressões se resolvem nas viagens à Europa, onde os dentes são brancos mesmo nos fumantes compulsivos e onde não se sabe quando termina o sofá e começa um vestido. Adnólia adora “Nosso Mundo” e se transporta pra lá até que algum cliente com a boca estuporada lhe peça um cafezinho.
Cortamos para os bastidores da revista “Nosso Mundo” , precisamente para a sala de reuniões , onde executivos apavorados discutem a repercussão das críticas recebidas pela revista na mídia marginal. Para horror dos anunciantes, a revista é acusada por membros da esquerda radical intelectualizada de ser o ícone da futilidade brasileira, uma referência no estabelecimento das distâncias entre as classes sociais.
-Tamo fudido, porra!, grita o editor-chefe.
Ele sabe o que está falando. Pega mal prum anunciante associar seu nome à uma publicação que é apontada como o manifesto do vazio da humanidade.
Uma agência publicitária é contratada e Andrew Robert, o publicitário do ano, de pronto propõe iniciativas socias ligadas ao nome da revista.
-O futuro da publicidade está no fomento de campanhas sociais. A empresa preocupada com o social é sempre bem vista, mesmo que fabrique bomba atômica. Bota lá que a creche é patrocinada pela “Taurus” que o povo vai ver um revólver com outros olhos!
Exemplificando , Andrew sugere a distribuição de cestas básicas incrementadas com biscoito champanhe e lata de pêssego em caldas com o logotipo da “ Nosso Mundo” nas comunidades carentes. Um slogan anunciaria a pretensão humanitária da revista:“Cestas Básicas ‘ Nosso Mundo’ . Não é porque você não é do ‘ Nosso Mundo’ que não pode comer o que é bom”.
A idéia, no entanto, é vetada. Além do alto custo dos biscoitos champanhe, não haveria possibilidade de divulgação da campanha sem o registro fotográfico da distribuição , o que significaria fotos de mães desdentadas recebendo agradecidas as cestas e etc. Mesmo colocando celebridades e socialites distribuindo as cestas, o registro fugiria dos padrões editoriais da revista . Ainda assim , Andrew Robert não se faz de rogado e insistindo no apelo social como forma de salvar a imagem da publicação , propõe o plano B.
-Se não podemos levar “Nosso Mundo” aos pobres , vamos trazer os pobres para “ Nosso Mundo”, declarou em meio à estupefação geral, que durou somente até a explicação ser dada, quando a euforia se instalou assim como a certeza de que contratar Andrew Robert era mais uma decisão acertada da Editora.
O plano era simples: uma promoção nacional, onde o prêmio seria um dia vivendo no mundo de “ Nosso Mundo”. Limosine, hotel, comida pra comer com seis talheres e o escambal. Um concurso de proporções arrebatadoras , cujo vencedor ou a vencedora sairia do autor ou autora da melhor frase cujo tema era a pergunta:
“Por que você merece entrar em “Nosso Mundo?”
Houve cenas de euforia na sala de reuniões até que o Editor-Chefe, um homem de visão, atentou para o fato da promoção soar “exclusivista”. Afinal, escrever uma frase significaria sonegar aos analfabetos a oportunidade de entrar em “ Nosso Mundo” . De pronto, como se já houvesse cogitado a possibilidade, Andrew Roberts acrescentou à pergunta um adendo em parênteses :
(Se você não souber escrever , faça um desenho) .
Então, todos comemoraram e Andrew Roberts passou aquela noite na companhia de dois garotos de programa pagos pela revista, no hotel Handsor, cuja campanha publicitária ele mesmo havia criado anos antes, imortalizando o célebre slogan: “Handsor. O único seis estrelas, porque a sexta é você”.
Adnólia foi uma das muitas pessoas que se extasiaram diante da generosidade repentina da publicação e deu tratos à bola para escrever algo competitivo. Mas como Adnólia sabia escrever mas não sabia o que escrever , a promoção se tornou uma fonte de martírio para a pobre copeira. Passar um dia em “ Nosso Mundo” era tudo aquilo que ela poderia esperar da vida e quando marido se encheu daquela cisma da mulher que a cada meia hora lhe pedia sugestões para uma boa frase, Adnólia recebeu um belo dum tabefe, dado inclusive com uma força maior do que a de costume, por dois motivos:
1-Naquele dia o Francisco tinha bebido bem mais do que o habitual.
2-Naquele dia o Francisco tinha descoberto que iria perder o bar, motivo pelo qual ele bebeu mais do que o habitual .
Adnólia perdeu dois dentes com a agressão e ficou especialmente transtornada pelo fato de não poder rir na eventualidade de ser fotografada pelos flashes da revista caso ganhasse a promoção. Ao expor, de maneira obviamente exaltada, essa preocupação para o marido, Francisco retrucou dizendo que ela jamais iria para mundo nenhum que não fosse aquele mesmo que ela vivia. E cambaleando, se estatelou na cama , em busca do sono reparador que o prepararia para novas bebedeiras no dia seguinte.
Alguns dias se passaram e Andrew Robert se inquietava na sua sala. A idéia da frase começava a parecer equivocada. Na redação choviam cartas com frases e desenhos , mas nada parecia realmente mostrar o quanto “Nosso Mundo” era importante para quem estava escrevendo. O glamour e o conforto representados pelo universo da revista de certo atraiam a massa dos desabonados, mas não havia em nenhuma das cartas o apelo emocional que Andrew e a revista buscavam. Um desempregado dizia que queria entrar em “Nosso Mundo” para levar de lá umas quentinhas para a família que passava fome. Outra mulher descrevia a alegria que iria sentir se pudesse pelo menos uma vez calçar um sapato salto alto, desde que a revista financiasse uma prótese para uma das suas pernas , amputada depois de uma infecção contraída num hospital público. Tudo era deprimente e de mal gosto e os editores e anunciantes começavam a ficar impacientes. Foi quando o estagiário Haroldo , que fazia publicidade na ESPN, adentrou a sala do chefe com uma carta. Extasiado, ele quase que gritava:
-Achamos a vencedora! Achamos a vencedora!
Andrew fechou a agenda onde ele procurava o telefone de Eduardo, o garoto de programa por quem ele tinha especialmente se interessado numa ocasião remota e tomou a carta das mãos de Haroldo, não sem antes notar, pela primeira vez, que o estagiário tinha ombros largos que o agradavam. Ao ler a frase, seus devaneios sexuais se dissiparam momentaneamente . Diante dos seus olhos, com letras trêmulas, podia-se ler:
“Por que eu mereço entrar, eu não sei. Mas matei meu marido quando ele disse que eu não tinha chance”.
Adnólia era a vencedora. Um ícone que simbolizava a mulher que não permite que seus sonhos sejam destruídos. Uma mulher que gostava tanto de “Nosso Mundo” que era capaz até de matar por um dia fora da sua realidade desgraçada. Uma mulher que materializava e comprovava a importância de “Nosso Mundo” na vida de quem não fazia parte de “Nosso Mundo”. Uma frase contundente, oriunda de uma atitude radical. Os editores e executivos se abraçavam. Andrew Robert abraçou Haroldo de felicidade, deu um tapa malicioso na bunda do estagiário e depois pediu pra secretária localizar Adnólia, que nessa altura já estava presa. Foi na delegacia que ela recebeu a notícia da sua vitória . Acabou não conseguindo o hábeas corpus e até hoje de vez em quando ela chora pensando que poderia passar vinte anos presa numa boa se pudesse passar apenas um dia em “Nosso Mundo”. O advogado fala que vai tentar um novo recurso, mas o julgamento só sairá no ano que vem.
Infelizmente ano que vem, a revista terá fechado. O que é um final bem otimista pra esse conto.
Escrito por Leonardo Cortez às 02h20
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|