Dentro da cela- conto
Aqui dentro faz frio à beça e eu tenho tempo de sobra pra pensar em todas as merdas que eu fiz na vida. Não cabe a mim ser filósofo ou poeta ou qualquer outra coisa que envolva essa habilidade de olhar pra vida e tirar conclusões profundas. Eu deixo isso à cargo de quem vai ler essa história. Só tô escrevendo porque tá frio pra burro e com toda essa gritaria, ninguém dorme aqui dentro.
Quando eu era bonitão, eu tinha um amigo que me invejava. Ele não dizia claramente, claro, porque ninguém assume esse tipo de coisa assim a torto e à direito. Mas ele me invejava. Eu ganhava mais do que ele , tava melhor estabelecido na empresa e casado com uma gostosa. Essas coisas impressionam nos dias de hoje.
O meu amigo era um pouco idiota. Não que ele fosse burro, ou coisa que o valha. Só era meio idiota, assim, sem cultura, sem assunto, sem senso de humor. Eu dizia isso pra ele: “vai se informar, vai ler, vai rir um pouco, tomar um porre.”. Era um cara dos números, trabalhava na contabilidade. Eu sempre tive preconceito com os contadores. Meu último contador me fudeu na minha declaração de imposto de renda e a grande vantagem de estar preso é que eu não preciso mais pagar um contador pra administrar a minha vida financeira.
Esse meu amigo nunca arranjava mulher. Eu arranjava várias, apesar de noivo da gostosa. Sempre fui um babaca. Deve ser por isso que fiquei amigo daquele bostão. Eu dizia isso na cara dele. “Tú é um bostão!”. Ele ria, o palhaço.
Um dia, o bostão disse que tava amando. Perguntei quem era o cara. Eu gostava de insinuar que ele era viado. Pra ser sincero, esse meu amigo tinha mais é que me odiar. Mas ele gostava de mim, o que prova que realmente ele era meio idiota. Mas voltando ao assunto, ele disse que queria me apresentar a nova namorada. Pensei : “vamos ver o shape da tribufú.” Caí do cavalo. A menina era linda.
Linda demais. Nem vou perder meu tempo descrevendo, porque não consigo. Imagina a menina mais bonita que você viu em toda a sua vida. Ela era mais. Chamava Marlene. Chama ainda. Não morreu. Meu amigo, sim. Alias, é por isso que eu tô preso. Matei meu amigo. Por causa dela.
Ok, já contei o final. Eu sou um bosta como escritor. Mas não tô escrevendo isso pra ninguém achar que eu escrevo bem ou coisa que o valha. É que tem um cara aqui do lado meio louco e ninguém dorme com esses gritos. Bate um puta vento que eu não sei de onde vem, já que tudo aqui é fechado. Tem dias que eu tenho um medo filho da puta , mas eu me controlo pra não chorar. É por isso que tem gente que apanha aqui dentro. Chorou, apanha.
Meu amigo pediu a Marlene em casamento e me chamou pra padrinho. A essa altura, eu tava realmente apaixonado por ela, mas segurei a minha bronca. Pensei: fica na sua, palhaço, que essa história passa. Depois, achava que aquela obsessão toda pela Marlene podia ser válvula de escape pra não assumir que a minha mulher era uma chata de galocha.
O que tem de engraçado no episódio do casamento é que eu, como padrinho, tive que ficar no altar. E quando a Marlene entrou na igreja, durante uns segundos eu fiquei pensando que seria ótimo se o noivo fosse eu. Quase um delírio, sabe como é? Na realidade, aquilo me entristeceu pra burro, a ponto de eu começar a chorar. Todo mundo achou lindo, um padrinho tão emocionado. Porra, eu tô chorando só de relembrar isso, o que pode ser perigoso pra mim aqui dentro.
Depois do casamento, esse meu amigo começou a ficar rico pra caramba. Esses caras que mexem com número geralmente sabem como aumentar a conta bancária. Meu contador, por exemplo, trocava de carro todo ano. Ficava atento nessas coisas de indíce de rentabilidade e o escambal. Tenho certeza que ele me extorquia, mas não dá pra provar nada porque ele sempre aparecia com uma desculpa em números e só quem entende de números é que consegue dialogar com esses tipo de gente. Enfim, esse meu amigo começou a ficar com o rei na barriga. Na carona disso, tratava mal a mulher. Batia na menina, essas coisas. Eu sabia de tudo porque frequentava a casa e a Marlene adorava conversar comigo. Eu nunca tentei nada. Ficava na minha. Na ausência do marido, ela chorava no meu ombro. Isso me deixava louco, mas eu me segurava, afinal, porra, eu era o padrinho do casamento!
Aí, ele veio me segredar que tava comendo a secretária. Eu disse que ele era um bosta, que devia dar valor pro que tinha em casa. Ele tentou me bater e eu acertei a boca dele com um soco. Os dois tavam bêbados. A gente bebia pra caralho naquela época. Eu, muito mais , desde que tinha me divorciado. E quando eu contei tudo pra ela, a Marlene disse que sabia e que mesmo assim não conseguia largar o cara. “Você sabe o que é o amor?”, ela perguntou e eu pensei “é agora”, mas fiquei na minha. E quando eu olhei pra Marlene, eu percebi que ela aparentava pelo menos vinte anos a mais do que devia. Que aquele rosto lindo era a cara de uma velha e que o cigarro tava acabando com aqueles dentes. Mesmo assim, eu queria dizer que amava, mas a voz não saia. Foi triste pra burro e, de novo, eu tô chorando, mas ainda bem que agora todo mundo tá dormindo aqui dentro.
Quando ela ligou em prantos, eu não entendi nada, mas fui correndo pro apartamento do casal. Quem abriu a porta foi ele. Bêbado pra caralho. A Marlene tava toda ensanguentada num canto da sala. Ele perguntou o que que eu tava fazendo ali e eu nem respondi. Fui logo socando. O cara tava bêbado, bêbado apanha fácil. Não foi a intenção, mas o cara bateu a cabeça na quina da mesa. A Marlene ficou desesperada. Pegou o marido no colo, aos berros. Foi nessa hora que eu disse que amava. Ela não ouviu. Depois chegou a polícia, eu nunca mais falei com ela e agora, merda, tão batendo na porta e, meu Deus, eu não consigo parar, eu não consigo...
Escrito por Leonardo Cortez às 02h19
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100 Fundos
Semana que vem começam as filmagens de 100 Fundos , a série que eu escrevi e que vai ser exibida no canal Ideal. Conseguimos o financiamento pra três episódios. Na realidade, a verba disponível é suficiênte pra fazer só o piloto, mas apertando o cinto e contando com um monte de amigo que vai topar fazer a parada na faixa, a gente consegue fazer três episódios que vão compor o que a gente vai chamar de primeira temporada. Assim, saímos desse limbo do universo dos pilotos que não vão pra frente e damos ao espectador a possibilidade de sentir a pegada da série de maneira mais clara e sedutora. Pra resumir, temos em cena a epopéia de quatro caras na faixa dos seus trinta e poucos que não conseguem se adequar às imposições do mundo capitalista e globalizado. Todos estão sub-empregados, obrigados a lidar com a imensa distância existênte entre os sonhos do passado e a realidade do presente. Uma série sobre a inadequação, que claro, procura abordar o tema com humor. Um dos meus sócios na parada , o Fernando, disse que o que eu escrevo é sempre dramático pra caramba. Concordo com ele. Meu olhar costuma ser muito atento ao sofrimento humano e a minha escrita reflete isso. A graça surge do inconformismo desses personagens em aceitar a sua condição de desamparo. Por mais que eles se ferrem, existe a crença inabalável de que dias melhores virão. No mais, estão lá as relações familiares implodidas, a solidão da terceira idade negligenciada pelo mercado de trabalho, as disputas mesquinhas de poder que revelam o lado patético do ser humano e a sobrevivência da amizade e do amor, quase como bóias de salvação na busca de um sentido pra essa jornada insana e solitária que é a vida. 100 Fundos, em síntese, sou eu e a maior parte das pessoas que eu conheço em cada piada. A gente se ferra, mas segue rindo. Melhor assim, né?
Escrito por Leonardo Cortez às 00h19
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