O Parceiro do Rei
B. sente muito sono. Perdeu a hora porque demorou pra dormir. A velha insônia. Está atrasado. Certamente vai levar um esporro do doutor Walter, o patrão impiedoso. Mais um, alias. O terceiro no mês e ainda estamos no dia sete. B. está deprimidíssimo, trancafiado em seu carro enquanto o transito parado e o calor infernal parecem caprichosamente estar mancomunados para agravar sua triste situação . B. pensa nas desculpas que vai inventar. Um acidente na marginal, uma morte na família, um pneu estourado. Nada vai colar, ele sabe. Usou essas desculpas em atrasos anteriores e nem assim escapou de levar humilhantes repreensões. B. tem muito ódio do Dr. Walter, principalmente porque ele o repreende na frente do resto da equipe para dar o exemplo. B. poderia simplesmente mandar seu chefe às favas e dizer que entre a merda do emprego e o inferno ele prefere a segunda opção porque lá o patrão é mais simpático. Mas depois, ele reflete sobre a sua condição de assalariado, submisso a um trabalho que não gosta justamente porque, entre outras coisas, seu carro é zero e ainda existe trinta e duas prestações a serem pagas. Agora, o antigo sonho de consumo realizado parece ser um fardo para B. Nada mais resta a não ser a sinceridade. Quando chegar na repartição pedirá pelo amor de Deus desculpas, jurando que é a última vez enquanto reza para que o chefe compreenda que todos tem direito de ter problemas emocionais que causam insônia.
O problema emocional:
B. conheceu Rosa no cinema. Ele nunca acreditou que pudesse conhecer um grande amor dentro de uma sala de cinema. Ia sem ninguém por falta de companhia. Sentia-se sempre solitário e depressivo nessas circunstâncias, mas o escuro da sala e a ficção na tela aplacavam a tristeza. Entrava depois do filme começado. Sempre. Não queria ser visto entrando sozinho. Tinha vergonha da sua solidão. Saia assim que subiam os créditos. Olhando para o chão. Sem falar com ninguém. Depois chegava em casa e ligava para mãe pra contar do filme. No dia em que conheceu a Rosa, ele estava especialmente frágil. Por isso, chorou muito no final, quando a protagonista morria. Subiram os créditos e ele ainda chorava. Perdeu o controle. Se identificou com a moça. Queria morrer também. Então a Rosa entregou um lenço.
-Filme lindo, não?
B. enxugou as lágrimas no lenço, mas teve vergonha de assoar o nariz. Iria sair ranho a beça e o lenço ficaria imprestável. Deu um fungada, agradeceu e concordou. Disse que adorava aquela atriz. Olha só. Ela também adorava. Conversaram sobre a filmografia do diretor. Tomaram um café. Ao voltar para casa, ligou para mãe, mas não comentou do filme e sim da moça. Estava apaixonado. E ficou antevendo grandes alegrias com Rosa, sua futura companheira ns sessões de cinema dali por diante.
B. leva uma buzinada de uma Kombi dirigida por um gordo suado que gesticula palavrões atrás dele. Distraiu-se no transito, o farol abriu e seu carro zero não saiu do lugar. B. pensa em descer do carro e chutar a porta da Kombi do motorista estressado. Gritaria que não era palhaço pra ouvir buzinaço de Kombi velha dez horas da manhã, principalmente dirigida por um filha da puta. Mas B. engata a primeira e segue a vinte por hora do fluxo lento do trânsito de São Paulo.
Tão lento que B. tem tempo de sobra para pensar sobre a sua triste situação. Semanas sem dormir direito. No mês anterior B. pediu Rosa em casamento. A moça desconversou, disse que era cedo demais e desde então nunca mais foi a mesma. Ele até tentou retirar o pedido, assumindo a precipitação. Ela aproveitou o ensejo pra dizer que estava confusa. Ele propôs um cineminha para esfriarem a cabeça e ela concordou desde que fosse sem ele. Então B. percebeu que tinha perdido o jogo. E ficou pensando que deveria mudar de atitude, porque até então tinha sido bonzinho demais. Que deveria falar pra Rosa que com os sentimentos de um homem não se brinca e que ela estaria sendo uma perfeita idiota desprezando o amor de alguém que não mediria qualquer esforço para fazê-la feliz. Reforçaria a palavra idiota. “Você é uma idiota”, gritaria. Queria colocar a palavra palhaço no seu discurso, “Eu não sou palhaço, minha filha”. A cabeça martelava adjetivos pra serem usados contra Rosa. Insensata. Imbecil. E no auge da raiva: vagabunda. Mas B. não conseguiu falar nada pra Rosa, a não ser “Por que? Por que?”.
B. liga o som do carro e a rádio toca “Detalhes” do Rei Roberto Carlos. B. suspira no solo de flauta. No dia anterior, ele ligou para Rosa e ela disse que estava de saída com seu novo namorado, um cara da rua dela que devia ser cabeludo como cara da música. Ele pensou em chamá-la de vagabunda, piranha e outros adjetivos que não saiam da sua cabeça. Nem um mês de rompimento, sua vaca! Mas acabou pedindo desculpas por ser inconveniente.
B. pára em mais um semáforo, enquanto os vendedores e flanelinhas assediam os motoristas estressados. E no instante em que o Rei canta “se alguém tocar seu corpo como eu...” um vendedor de caju enfia a cara dentro do carro, o que causa um terrível susto num sujeito em adiantado estágio de depauperação emocional.
-Vai caju hoje, chefia?
Sobressaltado, B. sente um profundo desejo de mandar o vendedor enfiar o caju na bunda. O vendedor, no entanto, desconhece a intenção de B. e enfia o caju no seu nariz.
-Sente só o aroma, chefia.
B. respira fundo. Não para sentir o cheiro do caju, mas para recuperar-se do sobressalto. Acaba sentido o cheiro do bafo de pinga do vendedor e tem vontade de gritar algo como “nunca mais me dê um susto desses, seu bebum!”. Ao invés disso, ele polidamente diz “hoje não, obrigado”, enquanto reza pro semáforo abrir.
O fato inesperado:
-Aumenta o som. É o Rei, Roberto Carlos.
Algo se acendeu no vendedor de caju. Ele está eufórico com a música. O semáforo abre, mas o trânsito não anda. Buzinas ecoam atrás dele. B. olha no retrovisor. Agora é uma mulher buzinando. Pensa em descer do carro e chamá-la de vaca também. Não tem tempo. O vendedor enfia a mão dentro do automóvel e aumenta o som a sua revelia. B. considera a atitude uma invasão de privacidade. O vendedor está nitidamente bêbado e B. dessa vez está prestes a ser violento não somente no plano das idéias. O som alto toca os últimos acordes de “ Detalhes” e os carros não andam. Então o vendedor diz, com sua voz macilenta.
-Quem toca a flauta sou eu.
B. tem vontade de rir. O que é uma surpresa para ele, em face da sua depressão profunda. Sua vontade é dizer “não seja ridículo. Você é um vendedor de caju”. Mas ele diz:
-Sério?
-Eu toquei com Roberto Carlos, meu querido.
Então B. olha para o vendedor e sente por ele um misto de pena e inveja. Pena da sua miséria e inveja da sua imaginação que, ao contrário da sua, podia criar coisas maravilhosas como uma parceria musical com o Roberto Carlos. B. compra uma caixa de caju por cinco reais e o trânsito finalmente flui. Enquanto ele se distancia daquela esquina, até que acha engraçada toda a situação e pensa que vai comentar o episódio com alguém na hora do almoço. Vai ser bom variar o assunto com os colegas durante as refeições porque nessas horas ou se fala mal do Dr. Walter. ou da comida.
Mas B. não vai almoçar com os colegas. Ao chegar ao escritório será comunicado da sua demissão pelo chefe enfurecido. Pensará em gritar “graças a Deus eu estou livre dessa porra!” mas, ao invés disso, vai acabar implorando por uma nova oportunidade, que será negada pelo Dr. Walter que o chamará de relapso, incompetente e outros adjetivos que ele grita sem nenhuma repressão. B. nem se despedirá dos colegas. Perceberá que nunca gostou de nenhum deles e que nenhum deles vai sentir sua falta. Ele ainda vai passar no RH e entrará no carro, sem a mínima idéia do que poderá fazer da sua vida.
Minutos depois, B. está no trânsito novamente. Completamente transtornado. Pensa em Rosa, nas trinta e duas prestações, em tudo o que poderia ter dito pro chefe e em tudo o que poderia ter feito para mudar a sua vida, agora definitivamente arruinada. Passa pela mesma avenida onde comprou a caixa de caju. O vendedor mentiroso ainda está lá. B. abre o vidro e joga a caixa de caju em cima dele gritando “seu mentiroso do caralho!”. Depois acelera seu carro novo cujas prestações ele não conseguirá mais pagar em direção a um poste.
Dias depois, o seguro vai atestar a perda total do veículo.
B. acorda no hospital onde ele tem o convênio que meses depois será cancelado pela inadimplência. As duas pernas estão quebradas, uma vértebra foi esmagada e um corte profundo na testa é uma ilha de sangue no meio de um hematoma. Os médicos dirão que foi milagre ele ter escapado com vida.
B. pensa que está morto.
Agora, ele está na casa da mãe e não há nada a fazer na sua imobilidade a não ser assistir televisão. Um psiquiatra que atende a domicílio fala pra mãe que depressão é normal, ainda mais nos dias de hoje. São receitados alguns remédios que B. tomará com indiferença. Durante dias não falará com ninguém e nem vai sentir vontade de comer. Apenas assistirá televisão.
(continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 03h06
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O Parceiro do Rei- Continuação
E só sairá da sua letargia quando, num desses programas que mostram os arquivos da televisão brasileira, ele reconhece o vendedor de caju, trinta anos mais novo, tocando flauta na música “Detalhes” junto com o Roberto Carlos.
Sua primeira iniciativa depois do acidente é pedir que a mãe o leve, de cadeira de rodas, para a esquina onde o vendedor de caju trabalha. A mãe, resignada, obedece. Os dois rondam a avenida, percorrem as imediações, mas não localizam o vendedor. B. pede informações para os flanelinhas de plantão. Tudo o que eles sabem é que de vez em quando o vendedor tem crise convulsiva e é mandado pras Clínicas. A mãe vai com B. até lá. Na recepção, ele não sabe como localizar o sujeito. Então, B. descreve o tipo para a recepcionista.
-Ah, o Parceiro do Rei...
Ela fala ironicamente, como se acreditasse que a história da parceria fosse mesmo um delírio. B. é encaminhado ao ambulatório onde estão dezenas de indigentes, alcoólatras e drogados, a maior parte deles no fim da linha. O cheiro e a desordem são terríveis. A pobre mãe empurra resignada a cadeira de rodas do filho. É quando ele localiza numa maca o Parceiro do Rei. Machucado e inconsciente. Teve convulsão na rua, dirão os médicos. Caiu no chão. Bateu a cabeça. Uma coisa normal de acontecer nesse estágio da doença.
B. se aproxima do vendedor. Irá pedir desculpas. Dizer que viu o show, que agora acredita. Perguntará se ele pode fazer alguma coisa. Vai dizer ao pobre moribundo que vai usar a imprensa para promover um reencontro do Rei com seu antigo parceiro. Despertará a atenção da opinião pública sobre a indiferença com que o Brasil trata seus artistas. E irá agradecer porque agora ele tem um ideal para lutar. Um grande artista da música vai deixar de vender caju na rua.
No entanto, B. não poderá dizer nada. Ao se aproximar do Parceiro do Rei, percebe que o sujeito não respira. Ele chama as enfermeiras, que chamam o médico, que constata o óbito. O médico pergunta se B. é parente. Diante da negativa, pergunta se falecido tem documento e as enfermeiras dizem que não. O corpo será encaminhado ao departamento de necrópsia da Universidade de São Paulo , onde será usado nas aulas de anatomia do curso de medicina se ninguém tomar uma providência.
E B. toma a providência. Chama um jornalista, amigo da faculdade. O cara localiza a família. Providenciam um enterro. No dia do velório, meia dúzia de gatos pingados em volta o caixão. E antes que o padre venha encomendar o corpo, aparece uma coroa imensa de flores. É do Roberto Carlos.
“Saudades, bicho.”
B. tem uma crise de riso. Todo mundo olha feio, mas ele não liga.
E no futuro, quando B. estiver preso num engarrafamento, mais uma vez atrasado para seu novo emprego, pensando mais uma vez em outra namorada que fatalmente vai lhe trazer problemas, pois as mulheres são assim, ele vai lembrar da história do Parceiro do Rei que morreu como indigente numa maca de hospital.
E não vai adiantar dizer aos colegas na hora do almoço que quem estava na maca era um grande músico brasileiro.
Ninguém vai acreditar.
Escrito por Leonardo Cortez às 02h58
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Maracujina
A mulher volta e meia dizia:
-Com esse seu gênio, um dia você acaba tendo um enfarto.
O Ernesto ficava puto quando a mulher falava esse tipo de coisa. Na realidade, não era difícil ele ficar puto e era por isso que a mulher avisava toda a hora do perigo do enfarto, gerando um ciclo vicioso de irritação. Tudo era pretexto pra explosões em casa com a mulher. Perguntar sobre como havia sido o seu dia era sempre um risco. Normalmente, o dia tinha sido uma merda pro Ernesto. O chefe era um bosta, os colegas da repartição eram uns idiotas e o Ernesto tinha especial implicância com o Alfredão, o funcionário piadista que tinha mania de ser engraçado às custas do mau humor do colega. O Ernesto ficou puto quando o Alfredão colocou nele o apelido de TPM. "Chegou o TPM!". "Não esquece dos relatórios, TPM!". “Já almoçou, TPM?". A repartição caia na gargalhada e o TPM ficava puto. O que justificava o apelido.
Ele bem que tentava se controlar, mas o povo do trabalho não deixava. Volta e meia, o Ernesto explodia: “Vamos ter respeito, porra!”, e aí todo mundo fazia "huuuu" porque ninguém levava aquelas explosões à sério. E era nessa falta de respeito que o Ernesto pensava todo dia de manhã, enquanto seu carro ficava parado no congestionamento. O congestionamento deixava Ernesto bem puto e de vez em quando ele esmurrava a direção, que inclusive trazia algumas marcas das suas crises nervosas. Olhando bem de perto, era possível ver as marcas das unhas que se cravavam no volante com toda a força cada vez que o carro parava num cruzamento. A irritação era maior quando Ernesto estava atrasado, o que não era raro acontecer. Como ele invariavelmente brigava com a esposa pela manhã, muitas vezes acabava perdendo a hora. Numa das brigas matinais, Ernesto chutou a poltrona da casa e quebrou o dedo mínimo do pé. Teve que faltar ao trabalho pra ir ao Pronto-Socorro e no dia seguinte, quando chegou com o pé engessado ao trabalho, recebeu do Alfredão um xarope de Maracujina embrulhado pra presente. A repartição explodiu em gargalhadas e o Ernesto, sem nenhum senso de humor, mandou o Alfredão à merda, motivando um novo e irritante "huuuuu". O Alfredão não era nada original nas suas piadas construídas às custas do azedume do colega, por isso desde esse dia, volta e meia ele deixava o xarope sobre a mesa de Ernesto, gerando sempre o mesmo efeito: gargalhadas de uns e irritação no outro.
E não adiantava reclamar pro chefe, porque o chefe, um tipo careca e fanho, que poderia ser alvo de piadas muito mais engraçadas mas que estava imune à verve corrosiva do Alfredão justamente por ser o chefe, era um dos que mais se divertia com o mal humor do Ernesto. Na realidade, olhando de perto, poderia se dizer que o nervosismo daquele homem salvava o dia daquela dezena de funcionários infelizes que tinham um cotidiano de trabalho infeliz, aliviado somente nos momentos em que tripudiavam do pobre TPM.
Foi quando começaram as demissões. Primeiro, surgiu um boato de conteção de despesas. O Seu Olívio, que tinha sessenta e sete anos e trabalhava na contabilidade foi o primeiro a ser mandado embora. Ninguém se alarmou tanto, mesmo porque o chefe fez questão de dizer, com a sua voz fanha, que se tratava de uma aposentadoria compulsória. Fizeram até uma festinha pro seu Olívio no seu último dia. Cantaram parabéns e ofereceram uma plaquinha de metal. O Alfredão, animadíssimo, aproveitou a ocasião pra distribuir outros prêmios pro resto dos colegas. A dona Isaura, recepcionista solteirona, recebeu um pacote de camisinhas.
-Nunca se sabe quando um milagre pode acontecer!, disse o Alfredão, em voz alta.
Mas ninguém riu. A dona Isaura, discretamente, saiu pra chorar no banheiro enquanto o chefe tossia disfarçando o constrangimento. Alfredão não se fez de rogado e, na carona das cinco latinhas de cerveja consumidas durante a confraternização, seguiu com aquela premiação improvisada.
-Pro Marcondes, esse pacote de drops, que ninguém agüenta o bafo de onça!
O Marcondes nem foi receber o prêmio. Ninguém achava que o Marcondes tinha mau-hálito e de novo, não foi ouvido um único risinho, nem do Chico, o office-boy que fumava maconha escondido na garagem e que por isso normalmente ria de qualquer coisa. A premiação seguiu num festival de constrangimento e o Alfredo sentia que a platéia lhe escapava irremediavelmente. Olhou para o chefe e percebeu que estava a ponto ser expulso de cima daquela mesa que servia de palco improvisado. Era preciso uma grande e certeira piada final. E num misto de euforia, embriaguez e desespero, o Alfredão anunciou:
-Tem o prêmio do TPM!
Como mágica, a platéia se acendeu. Era como se, num espetáculo mambembe, fosse anunciada a presença do Tom Cavalcanti como convidado especial. E as gargalhadas explodiram, terríveis e infalíveis quando o Alfredão sacou, mais uma vez, o xarope de Maracujina. E enquanto o chefe passava o lenço por cima da careca que sempre suava quando ele tinha acessos de riso, o Ernesto, claro, ficava bem puto, de novo.
Na semana seguinte, a dona Isaura apareceu chorando, encostada no bebedouro. Nada a ver com as camisinhas. Ela tinha sido mandada embora e dessa vez não houve festinha de despedida. Dez dias depois, foi a vez do Almeida e logo na seqüência, quem foi pra rua foi o Chico, que inclusive estava chapado quando recebeu a notícia e por isso apareceu no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido. O clima estava péssimo na repartição. O chefe fumava cada vez mais dentro da sua sala e no meio daquela névoa todos os funcionários imaginavam a suas respectivas batatas assando. O Ernesto sabia que seria o próximo. Era o mais impopular, ninguém gostava dele e ele não gostava de ninguém. Ernesto tinha bons motivos pra ficar, mais uma vez, puto da vida. Um funcionário exemplar como ele, em vias de ser mandado embora por pura falta de carisma.
Mas estranhamente, uma sensação de paz começou a se apoderar do seu coração. No final das contas, fora o fato de ter que aturar a mulher o dia inteiro, ficar desempregado não era uma coisa que o afligia tanto. Ele pensou numa nova existência, simples e feliz, numa vida no interior, junto dos bois e das vacas, respirando ar puro enquanto via o sol nascer. E calculou que o FGTS daria pra comprar o terreno em Bragança e que a sua mulher, aquela chata, não iria achar ruim mudar de vida, mesmo porque a vida dela também era uma merda. E quando o Alcides do RH puxou o Ernesto de canto e segredou que o chefe havia solicitado a sua papelada, (“Vai se preparando, rapaz...”) o Ernesto ficou praticamente eufórico.
Nesse dia, pela primeira vez, Ernesto voltou pra casa assobiando no carro e nem ficou puto quando o congestionamento se estendeu à sua frente, tal qual as artérias entupidas de um safenado. Nos dias que se seguiram, Ernesto era um poço de tranqüilidade e bom humor. Todo mundo estranhava aquele comportamento, que foi inclusive interpretado por alguns como uma ironia perversa diante da fossa generalizada que havia se instalado na repartição desde o início das demissões compulsórias. Ernesto cantarolava e não se abalou nem no dia em que o Alfredão, num último esforço pra descontrair o ambiente, escondeu o papel higiênico do banheiro.
-E agora, Alfredão? Vou ter que limpar a bunda com o teu último relatório?, ele disse alegremente, pra estranhamento e frustração de todos os funcionários que esperavam uma nova crise de nervos pra se divertirem um pouquinho.
E quando o chefe chamou o Ernesto e o Alfredão pra sua sala enevoada, o Ernesto levantou-se da cadeira como um adolescente que recebe entrada VIP num puteiro. Olhou pro Alfredão, que nos últimos dias não fazia mais nenhuma piada justamente porque estava apavorado pela perspectiva de ser também mandado embora e pensou que seria idílico nunca mais ver aquele sujeito na sua vida. A repartição silenciou enquanto Ernesto e Alfredão se dirigiam à chefia. E todo mundo estranhou aquele sorriso lotado de tártaro que Ernesto ostentava, num claro contraste com os olhos marejados daquele outro funcionário, outrora tão piadista.
-Senta aí os dois, disse o chefe com cara soturna.
Ernesto e Alfredão obedeceram. O chefe foi direto ao assunto com aquela voz fanha, que em outros tempos deixava o Ernesto muito irritado.
-Como vocês sabem, o escritório tá em crise e eu preciso fazer mais uma demissão.
Alfredão começou a suar descontroladamente. Já tinha na manga o discurso do humilhado. As fotos dos filhos estavam no bolso. Ele as mostraria pro chefe em meio ao choro convulsivo. Tinha passado dos quarenta, onde iria achar um emprego como aquele, e etc...
-Chamei vocês aqui porque eu vou demitir o Marcondes.
Os dois funcionários se entreolharam. Alfredão trazia no semblante uma indisfarçável expressão de alívio, mas o Ernesto, meio puto, prontamente perguntou:
-Por que o Marcondes?
-Nada pessoal. O Marcondes é uma besta tão grande quanto qualquer um de vocês. Pesou no final das contas aquela piada do Alfredão sobre o mau-hálito. De fato, o Marcondes tem um bafo filho da puta. Isso foi decisivo na minha decisão.
Alfredão não sentia culpa nenhuma. Tinha dois filhos e uma ex-mulher que fazia da sua vida um inferno com aquela história de pensão alimentícia todo mês.
-E por que o senhor nos chamou aqui?, perguntou Ernesto.
-Porque eu tô de saco cheio desse clima de merda. E daí que estamos em crise? A vida continua! Eu quero festinha de despedida pro Marcondes e quero ver, de novo, o Alfredão tripudiando do seu mau-humor. Vai comprar a Maracujina, Alfredão. Entrega pro Ernesto. E você, Ernesto, quero te ver uma pimenta, porra! Como nos velhos tempos! Você anda cantarolando até quando tem que fazer hora extra em véspera de feriado! Que porra é essa? Cadê aquele mau-humor que deixava todo mundo feliz aqui dentro? Que que eu posso fazer pra te deixar putinho de novo?
-Reduz o salário dele, respondeu prontamente o Alfredão.
-Cala a boca, idiota!, retrucou ainda sob o impacto da indignação o Ernesto.
-Boa, boa, vibrava o chefe, enxugando a careca em meio a uma gargalhada. Esse tipo de relação que vocês estabeleceram é importantíssima no ambiente corporativo. Um é a escada pro humor do outro. Comédia sempre foi fundamental, porra! Não leva a mal, Ernesto. É pelo bem comum e pro seu próprio bem, porque desse jeito você garante o seu emprego, compreendeu?
Ernesto se levantou, quase sem ar. De todas as humilhações colecionadas ao longo daqueles anos, aquela era a maior. De repente, tudo ficou claro. Ele era o palhaço involuntário daquela equipe, que fazia com o Alfredão a dupla cômica do escritório! Todos os seus apelos por dignidade e respeito eram motivos de chacota. O chefe era sempre o primeiro a rir. E agora seria o primeiro a apanhar. Porque naquele momento, um simples esporro seria motivo de riso, outra vez.
Os funcionários invadiram a sala atraídos pelos gritos de dor de Alfredão. Ele tentava inutilmente estancar o sangue que jorrava do seu nariz enquanto o chefe jazia desacordado no chão. Ernesto foi correndo até a garagem, pegou o seu carro e saiu pela última vez do prédio. Sentia-se liberto e vingado, mesmo que a custa da violência, que era uma coisa que normalmente o irritava. Seu coração estava aos piparotes e ainda ao volante, ele telefonou pra mulher anunciando que ela poderia fazer as malas porque os dois iriam pra Bragança naquele mesmo dia. Estava feliz e eufórico. A mulher, no entanto, cortou-lhe o barato, dizendo que naquela noite a sua sogra era esperada pro jantar.
E foi nesse momento que Ernesto teve o infarto.
Escrito por Leonardo Cortez às 05h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|