Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


O Último Cigarro

Era alta madrugada de domingo para segunda e tudo estava absolutamente silencioso , aliás,  como espera-se  que seja em tal horário. E mesmo assim, Tavares estava mais do que acordado. Estava vestido e penteado porque sua vontade de fumar era imensa e para saciá-la , ele estava disposto a enfrentar o frio , o escuro e o medo da cidade grande pra comprar um maço. Tavares morria de medo da noite, ainda mais no seu bairro que ficava repleto de sombras e tipos esquisitos depois que escurecia. Mas  já não agüentava mais. A faxineira havia removido as últimas bitucas do cinzeiro e não adiantava pedir um cigarrinho filado para o porteiro da  noite, afinal ele não fumava, apesar de beber às escondidas e dormir na guarita depois das duas da manhã. Já eram quase três e tudo o que Tavares pensava era em saciar o vício até porque  desde às nove horas da noite do dia anterior ele não fumava nenhum. Achou que seria fácil parar de uma vez. Superestimou sua força de vontade. Havia passado um dia tenso, mas suportável. Engoliu quatro chicletes nas horas de crise, mas agora os chicletes tinham acabado. O cigarro também, e era desse último que Tavares era escravo. Então,  uma nova crise compulsiva o impulsionou pra fora do seu seguro lar.

Elas vinham em ondas insuportáveis. Duravam alguns minutos e depois o abandonavam. Se houvesse a possibilidade de relaxar entre uma onda e outra talvez Tavares pudesse dormir e pensar no assunto somente no dia seguinte. Mas junto vinha  a ansiedade. Ele era por  natureza um ansioso. Tomava chá de erva doce todas as noites antes de dormir, por recomendação da mãe. Parou porque o chá  o obrigava a levantar-se para ir ao banheiro no meio da madrugada , interrompendo o sono reparador. Então ele voltava  a ter insônia e só um cigarrinho o acalmava. Agora não tinha chá, não tinha cigarro, não tinha sono. Só tinha medo. Medo e novas compulsões.

Botou o pé pra fora do prédio para estranhamento do porteiro ensonado que sabiamente não fumava, não tinha ansiedades e que por isso voltou a dormir na guarita depois que Tavares saiu.

Andou alguns metros e a escuridão e o silêncio o deixaram ainda mais angustiado. Um gato cruzou seu caminho, miando com esganiço e causando no pobre dependente profunda impressão. Era um  homem muito impressionável e nervoso. Depressivo e pessimista. Cansado de tudo em geral. Jovem ainda, mas muito  solitário. Trabalhava no banco, pagava aluguel. Gostava de cinema para onde sempre ia sozinho pois  não tinha namorada. Pra última prostituta, pagou oitenta reais e se sentiu no lucro porque ela concordou em abater vinte por cento pela rapidez com que ele terminou o serviço. Tavares era o tipo do sujeito que  tirava vantagem da própria incompetência. E era nisso que ele estava pensando enquanto caminhava as oito quadras que o separavam da loja de conveniência onde encontraria o maço salvador.

Foi quando notou que estava sendo seguido. De princípio,  acreditou que o vulto do outro lado da rua fosse conseqüência do medo que o fazia suar apesar do frio de quase dez graus daquela madrugada. Mas o vulto não era a ilusão. Um homem o perseguia , de início sorrateiro, mas posteriormente com passos rápidos, como um leopardo que caça um coelho. Tavares começou  a correr e percebeu, horrorizado,  que seu algoz fazia o mesmo.

Nesses horríveis momentos a vontade de fumar foi algo compreensivelmente secundário. Tavares estava apavorado. Chegou a gritar no meio da rua, mas tudo era deserto e ninguém o ouviria. E mesmo se o ouvissem, quem botaria a cara pra fora de casa numa noite como aquela?   Era a materialização de seus piores pesadelos. Poderia ser simplesmente um assalto.  Daria seus dois reais e oitenta centavos que levava no bolso , o assaltante iria embora e tudo voltaria  à paz da madrugada. Mas Tavares tinha uma convicta crença pessoal.

Sabia que seria assassinado .

Tavares havia lido dias antes que o espírito sabe o dia em que irá desencarnar. E mesmo sendo o mais mundano dos homens, ele assumiu para si mesmo que tinha alguma sensibilidade para os aspectos espirituais da vida. Então,  nessa hora,  ele teve a confirmação de que era um iluminado. E a certeza de que seria morto o fez correr o mais rápido que pôde. Mas é claro que não conseguiu correr muito porque seu fôlego não era bom, de modo que os passos de seu perseguidor cresciam à medida em que os quarteirões eram vencidos. Tavares visualizava sua vida do começo ao fim. Tudo uma bobagem. Fizera somente merda e agora iria ser assassinado só porque não conseguiu dormir sem um cigarrinho. Um motivo idiota, alias,  como ele. Merecia morrer. Não faria falta ao mundo. Era um traste.

 Então, parou de correr.

 Sentiu-se como o suicida que se debruça no parapeito do vigésimo andar. Não estava morto ainda, mas bastava um empurrão. Parar de correr foi como aceitar seu destino desafortunado. Na verdade, correria mais um pouco se tivesse fôlego. Não era o caso.

Durante um tempo esperou bufando que a morte lhe cutucasse as costas com seus dedos esqueléticos. O silêncio da noite era cortado somente por sua respiração ofegante que construía nuvenzinhas que saiam da sua boca. Se estivesse calmo, fingiria estar fumando um cigarro imaginário, como fazia na infância , quando seus pulmões não nutriam a nefasta dependência. Lembrou-se  dos tempos de criança. As brincadeiras, o colo da mãe. Como queria estar no colo da mãe. Foi dela que roubou os primeiros cigarros que fumava às escondidas com os amigos de adolescência. Foi por causa da mãe que tudo começou. Nada como um colinho pra compensar tanto prejuízo. Das primeiras tragadas à dependência que o levou para a rua deserta ,  na alta madrugada, com um frio do cão e um maníaco que certamente estaria nas suas costas com uma faca,  esperando que ele se virasse para apunhalá-lo no coração, pois assim se morre mais rápido. Tavares estava  parado no meio da rua , sem fôlego pra correr pra frente e sem coragem para olhar pra trás. Já não se ouviam passos e somente um gato cruzou novamente seu caminho.

Então, em meio às nuvenzinhas, Tavares começou a chorar.

E no meio do choro resolveu empreender uma atitude. Seria um homem, morreria dignamente. Encararia o algoz e pediria pra morrer. Seu último desejo?

Um cigarro.

Tal qual os condenados dos filmes que ele assistia no cinema. Não aceitaria morrer sem um último cigarro. Que seria fumado com o maior prazer já sentido por um fumante. Fumado na certeza de o último cigarro não faria a mínima diferença no seu tempo de vida, ao contrário dos cigarros anteriores.  Seu último cigarro seria um atestado de vida, pois enquanto a brasa ardesse,   Tavares permaneceria vivo. Não! Do último cigarro não morreria! Seria o único, dos mais de sei-lá-quantos mil cigarros que fumara na vida que seria fumado sem culpa. O que iria matá-lo era uma faca, um revolver, uma corda. O maníaco teria livre escolha da arma, desde que concedesse o último cigarro. Ah, o ultimo cigarro. Uma nova onda de compulsão varreu Tavares.

Então ele se virou.

E viu que às  suas costas não havia ninguém. Era um solitário naquela rua. O que explicaria então o vulto, o som dos passos, aquela perseguição insuportável, aquela certeza da morte? Tavares começou a rir, fascinado com a capacidade de sua imaginação e decepcionado por sua precária clarividência. Enxugou o suor que escorria da sua testa, apalpou os dois e oitenta que tinha no bolso e calculou que faltava pouco mais de três quarteirões para a loja de conveniência. E quando deu meia volta, deu um grito de terror.

Exatamente à sua frente,  estava o vulto que o perseguira. Certamente o terrível psicopata tinha contornado o quarteirão para surpreender a vitima na próxima esquina.  Era um tipo aterrorizante. Cabelos revoltos, roupas desgrenhadas, um olhar ensandecido, uma barba por fazer. O homem caminhava em sua direção com uma respiração ofegante. Tavares sentiu suas calças se molharem. Sua voz não sairia para pedir um último cigarro. Morreria ali, mijado e na fissura. Então o homem falou:

-Amigo, tem um cigarro? Tô doido por um, mas a loja de conveniência tá fechada.

A princípio, Tavares não entendeu o que o homem dizia. Boquiaberto, olhou a pobre figura a sua frente, que agora parecia um velho muito frágil e inofensivo. Aquele aspecto aterredor era simplesmente o retrato de um sujeito fissurado, como ele. E sem dizer uma palavra, lançou-lhe um olhar piedoso, deu-lhe as costas e voltou pro seu apartamento como se nada tivesse acontecido. Tirou suas calças molhadas e deitou-se na cama. E enquanto o sono não vinha, ficou pensando se deveria parar de fumar ou comprar o maço de manhãzinha,  como todo o fumante normal. Antes de adormecer, porém, teve uma última  certeza.

 Era mesmo um idiota.



Escrito por Leonardo Cortez às 01h47
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O Assalto- 1ªparte

 

 

 

Quando Adonis chegou em casa com a testa sangrando a mãe quase teve um ataque. Dona Lígia era uma mulher muito nervosa, e quando o assunto era violência urbana, ela costumava se descontrolar no discurso. Exigia a pena de morte pros malfeitores que apareciam na televisão e depois que roubaram a sua correntinha de ouro dentro do metrô, a indignação durante os telejornais havia aumentado a níveis estratosféricos. O filho nessas horas dizia:

-Se acalma , mãe, que um dia a senhora tem um infarto vendo essa televisão.

E dona Lígia se controlava, pra depois conferir pela oitava vez se a porta de casa estava de fato, trancada. E agora, aparecia o filho com aquele corte na testa.

-O seu nariz tá inchado, meu filho!

Apesar do filho ter sido agredido na testa, Dona Lígia cismou com o nariz. Adonis argumentou que o seu nariz sempre tinha sido daquele jeito, mas a mãe insistia que o filho, além da porrada na testa, tinha levado um soco no nariz.

-Você é meu filho, eu conheço o seu nariz.

Não conhecia, porque quando Adonis mostrou a sua foto de primeira comunhão no porta-retrato em cima do bufê, Dona Lígia teve que reconhecer que o filho sempre fora narigudo, mesmo quando tinha onze anos de idade.

-Como é que isso foi acontecer, meu filho?

Dona Lígia se referia á agressão e não ao nariz, obviamente.

-Foi muito rápido, mãe. O tio Rony tinha acabado de voltar do banco com o dinheiro do pagamento dos funcionários. Então, entrou um sujeito mascarado e rendeu todo mundo!

-Minha Nossa Senhora! Que horas foi isso?

-Três da tarde. É sempre nessa hora que a gente dá a comida que sobrou do almoço pros mendigos que fazem plantão na porta do restaurante.

-O assaltante não era um dos mendigos?

-Não, ele tava bem vestido, mãe...

-Vestido como?

-Não sei, não reparei.

-E como é que você sabe que ele tava bem vestido se não reparou no que ele tava vestindo?

-Mãe! Todo dia eu dou comida pra mendigo. Eu reconheço um mendigo sem precisar reparar na roupa dele.

-Mas me conta. O sujeito tava armado?

-Ele disse que tava.

-Mas você não viu a arma.

-Não porque a arma tava escondida embaixo da blusa.

-E como é que era a blusa?

-Eu não reparei na blusa, mãe!

-Repara na arma, mas não repara na blusa. Eu não te entendo, meu filho!

-Mas por que essa obsessão com a roupa do sujeito?

-Eu quero saber se era um dos mendigos!

-Não era um mendigo, saco!

-Essa gente é mal agradecida! Você dá a comida de graça e depois eles te assaltam. É por isso que eu não dou esmola. Essa história de caridade estimula a violência!

-Chega! Eu vou tomar um banho!

-Desculpa, meu filho. Conta o resto que eu não te interrompo mais. È que eu estou muito nervosa...

-O assaltante perguntou onde era o escritório. Eu disse que era nos fundos.

-Mas você não deveria ter falado, meu filho!

-O cara tava armado, mãe!

-Era blefe!

-Como a senhora sabe?

-Quando levaram minha correntinha no metrô eu tive a certeza que era aquele volume debaixo da blusa era o dedo do rapaz!

-Então porque a senhora entregou a correntinha?

-Porque na hora eu fiquei na dúvida!

-Mas a senhora falou que teve certeza.

-Certeza eu tive quando ele pegou a minha correntinha com as duas mãos. E em nenhuma delas tinha arma nenhuma.

-Ele pode ter colocado a arma na cintura, antes de pegar a sua bolsa.

-E por que ele precisaria das duas mãos pra pegar a minha correntinha? Era uma correntinha pequena. Ele fez aquilo pra me mostrar que ele tava desarmado. Pra me humilhar. Além de assaltada, eu fui feita de idiota. Essa gente não vale nada...

Mãe e filho ficaram nesse diálogo durante um tempo até que foram interrompidos pela campainha. Dona Lígia ficou tão sobressaltada com aquela visita inesperada que não reparou que o filho Adonis também se mostrou estranhamente perturbado.

-Quem será a essa hora?

Era o tio Rony, o dono do restaurante assaltado.

-Quero falar com o Adonis, aquele fillho da puta!

-Ôpa, mais respeito que a mãe dele sou eu!

-Eu dou um emprego pra esse moleque, Lígia, e o desgraçado abre as portas do meu estabelecimento pra um assaltante de merda roubar o salário dos meus funcionários!

-Isso é um absurdo!, protestou Adonis, sem muita convicção.

-Um absurdo mesmo! Por que que o meu filho facilitaria o assalto no dia do pagamento, se ele mesmo é um  funcionário do seu restaurante?

-Porque ele é cúmplice do crime!

-Mas eu fui agredido pelo assaltante!

Era um bom álibi e o tio Rony ficou sem palavras. Ele havia testemunhado a agressão. O assaltante ia saindo com o dinheiro e inexplicavelmente virou-se para o sobrinho e lhe desferiu um soco na testa. Na realidade, o sobrinho não despertaria nenhuma suspeita, se uma das funcionárias não tivesse identificado o assaltante como o mesmo cara com quem Adonis estava conversando dias antes durante uma partida de sinuca no bar da esquina.

-Como é que você explica isso, Adonis?

-O assaltante tava mascarado, como é que ela reconheceria o sujeito?

-Porque o sujeito da sinuca mancava de uma perna, exatamente como o assaltante que te agrediu.

 

(continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 03h12
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O Assalto -2ª parte

(continuação...)

 

Dona Lígia ficou furiosa com aquela insinuação e começou a gritar em altos brados que não iria admitir que o filho fosse acusado de roubo dentro da sua própria casa.  No fundo, Dona Lígia sabia que o filho era explorado pelo tio empresário. Apesar do emprego oferecido pelo tio na camaradagem, Adonis fazia hora extra e nunca recebia adicional ao salário de fome. Dona Lígia sempre guardou numa grande mágoa do irmão porque seu  filho não usufruia de qualquer tipo de protecionismo no restaurante em função do grau de parentesco. E agora, aquelas acusações nefastas. Era o fim da picada e por isso ela pediu que o irmão se retirasse.

-Escuta, Lígia. Eu poderia ter vindo aqui com a polícia. Mas o moleque é meu sobrinho. Eu só quero o dinheiro de volta. Depois,  eu ponho uma pedra no assunto.

-Meu filho não é ladrão!

-É cúmplice do ladrão!

-Eu exijo provas!

Foi quando tocaram a campainha. Adonis sabia que a mãe não deveria atender,  mas não conseguiu falar nada, petrificado pelo horror. Quando Dona Lígia abriu a porta, o Alemão entrou mancando.

-O Adonis está?

Adonis ainda tentou uma comunicação não-verbal com o amigo, algo como “pica a mula, idiota”, somente com o movimento de sobrancelhas, mas o Alemão não entendeu. E antes que o Alemão pudesse esboçar qualquer reação,  o tio Rony lhe tomou a sua sacola e tirou lá de dentro o punhado de notas destinadas aos funcionários.

-Ahá!

O Alemão também ficou petrificado. O combinado era encontrar com o Adonis no apartamento pra fazer o rateio do assalto. Adonis ficaria com trinta por cento por ter fornecido a data do pagamento e facilitado a entrada no restaurante e o Alemão ficaria com os setenta por cento restantes, porque a tarefa dele era a  mais perigosa. Em prantos, Adonis confessava tudo. Dona Lígia estava chocada, mas ainda teve forças pra perguntar:

-Mas porque o Alemão te deu um soco na testa?

-Foi o álibi, dona..., respondeu o Alemão,  antes de levar de Dona Lígia um surpreendente tabefe na cabeça.

-Você podia ter batido com menos força, moleque.

O tio Rony,  no fundo,  não sabia como agir. Agora ele estava até com uma certa pena do sobrinho. Órfão de pai, o Adonis sempre foi um desencaminhado. Meses antes, a mãe pediu pelo amor de Deus um emprego pro filho no restaurante. Ele se sentiu bem ao ajudar o moleque, mas pau que nasce torto nunca se endireita, ele pensou. E num gesto que ele considerou magnânimo, deu meia volta e saiu porta afora depois de dizer:

-Nunca mais apareça mais no meu restaurante, rapaz.

Dona Lígia olhou pra Adonis, que ainda chorava copiosamente. Mandou o Alemão ir embora e se dirigiu à cozinha. Voltou com uma bolsa de gelo e colocou na testa do filho. Depois, cobriu Adonis de beijos, como não fazia desde que ele tinha quatro anos de idade.

 



Escrito por Leonardo Cortez às 03h11
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As Três Irmãs- Uma Novelinha

dedicado à  Maria Regina

 

E o tempo passou, e os amores e as dores vieram e se foram para as três irmãs que agora viviam na iminência de se tornarem somente duas, porque Isaura , justamente a Isaura , que era a mais nova, que tinha sido a mais bonita na juventude e que por incrível ironia , foi a única que ficou solteira, pois bem, justamente a Isaura estava à beira da morte, consumida por súbita e aparentemente incurável doença.

 Melina e Dolores, as irmãs saudáveis e casadas ficaram numa desolação sem par.  Na juventude, as três foram as famosas Três Irmãs da Rua Candeias onde moraram durante anos no velho sobrado número cinco, aos pés do qual inúmeros pretendentes soltaram vozes desafinadas nas serestas que o velho  Olavo Silveira,  pai das três, fazia questão de interromper utilizando-se de baldes d´água. Eram lindas, as três irmãs, cobiçadíssimas numa época em que os galanteios eram muito mais respeitosos do que nos dias de hoje. Melina , por exemplo, sucumbiu aos encantos de um   jovem pracinha que,  antes de embarcar para a Itália na Segunda Guerra Mundial, jurou para sua amada que se morresse nos campos de batalha, morreria feliz porque levaria consigo a lembrança do rosto mais bonito que jamais vira na vida. O pracinha não morreu. Voltou pro Brasil e casou com a Melina. Hoje , ele é o seu Antenor, a quem Melina chama de Totó, mas nunca na frente dos vizinhos, porque o seu Antenor é o síndico do prédio onde moram, e por isso precisa ser muito respeitado.

Dolores viveu dividida entre muitos amores, todos rapazes garbosos, mas acabou se casando, por ironia do destino, com o mais feio de todos eles, o dentista Otávio, que na época era um estudante de odontologia fascinado pelo sorriso da garota, que ele sempre considerou perfeito. Dolores ainda  lembra de uma época em que Otávio se esforçava para fazê-la rir o tempo todo, um hábito que ele não deixou de cultivar , mesmo depois que Dolores foi obrigada a substituir, aos sessenta e três anos, todos os seus  alvos dentes  por uma dentadura , por causa da gengivite. Foi Otávio que confeccionou a prótese, o que deu motivos pra novas piadas. A primeira coisa que ela ouviu o marido dizer depois que colocou a dentadura foi “esse meu sorriso é lindo”. 

Mas Isaura nunca casou e é bem verdade, muito mais por conta de suas altas exigências em relação aos homens do que pela falta de pretendentes. Foram dezenas, ao longo dos anos, e Isaura, na alto-suficiência,  nunca se entusiasmou com ninguém. Isso só foi acontecer bem mais tarde, quando ela, já quarentona, envolveu-se com seu chefe na empresa telefônica pela qual se aposentou. O chefe prometeu mundos e fundos, mas nunca largou a esposa e os filhos. Essa experiência amargurou muito a Isaura, que desde então vacinou-se contra o sexo masculino, ainda que as más línguas digam que de vez em quando ela se deitava com o Duarte, um velho amigo da família, que era casado com uma mulher inválida e que por isso vivia se lamentando. O fato é que, quando o Duarte morreu, a Isaura chorou à beça. E continuou vivendo sozinha, num apartamento comprado a muito custo com o salário da telefônica e finalmente arrendado na ocasião da aposentadoria, quase como um passaporte para uma velhice tranqüila.

E talvez tenha sido, porque não? Isaura foi feliz sozinha até onde isso era possível. Visitava os sobrinhos, que agora tinham filhos que ela tratava como netos, porque sempre tivera muito jeito com as crianças. E não só com as crianças,  mas também com as plantas e com os gatos. Seu apartamento era uma festa da biologia, com samambaias, trepadeiras e vasos de violeta, além de um casal de gatos siameses castrados, Fiedka e Frederico, que Dolores comprou numa feira de animais porque achava que a irmã era uma pessoa muito solitária. Mas Isaura não era. Falava com as irmãs todos os dias e sabia de tudo o que acontecia com a família, que nessa altura do campeonato já era enorme com os filhos, netos e bisnetos nascidos ao longo das décadas. Além disso, toda a semana as três irmãs se reuniam religiosamente em pelo menos duas ocasiões. A primeira era religiosa de fato. Iam as três à missa e depois voltavam falando mal do padre Artur, a quem elas consideravam um péssimo orador, principalmente por fazer as homilias consultando um bloquinho de anotações. A outra ocasião era a feira. Sempre fizeram a feira juntas, mesmo depois que  Melina teve um derrame e por isso começou a mancar da perna esquerda.

E um dia, depois que Isaura se queixou de dores pelo telefone com Dolores, deu a comida dos gatos e regou as violetas, depois de tudo isso, ela passou pó de arroz e saiu pra comprar pão pros sobrinhos -netos que moravam na rua de baixo e  sempre tomavam lanche às quatro da tarde. E não é que bem na frente do porteiro ela viu tudo preto, não conseguiu nem dar boa tarde pro seu Jonas e caiu  estatelada junto à portaria?  O seu Jonas, que adorava a dona Isaura, principalmente depois que ela comprou remédio caro de bronquite pro filho de dez anos, socorreu a senhora e até foi com ela dentro da ambulância. Quando a Melina e a Dolores entraram esbaforidas na sala de espera do pronto-socorro, o seu Jonas tava lá, chorando, o coitado.

Os médicos foram céticos quanto a recuperação. Devido à idade avançada, etc, etc. Melina e Dolores não conseguiam se controlar. Seu Totó chegou a se afastar por dois  dias do cargo de síndico para dar apoio a sua mulher . O Otávio cancelou todas as consultas , só pra ficar do lado da Dolores. Na verdade, foram só duas, já que o Otávio tinha muito pouco rabalho no consultório desde que começou a apresentar uma discreta tremedeira nas mãos, que foi suficiente para que ele, em duas ou três ocasiões, aplicasse a anestesia destinada a gengiva no céu da boca de algum pobre paciente. As irmãs se revezavam no hospital. Vez por outra, entravam no quarto e conversavam com a irmã entubada e inconsciente, achando que aquilo poderia ser de alguma ajuda. Mas Isaura não se mexia. Apenas dormia. Profundamente.

 

(continua...)

                                                 



Escrito por Leonardo Cortez às 19h58
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As Três Irmãs (continuação..)

                                                                        

(continuação...)

 

Isaura não morreu. Ao contrário das expectativas sombrias dos médicos.  Mas continuava dormindo. Assim, depois de algum tempo, com muito tato, o Seu Totó deixou transparecer sua preocupação com a esposa.

-A sua irmã...

-O que que tem , Totó?

-Sei não. Já faz duas  semanas. E o plano de saúde não cobre todas as despesas.

-Ai, meu Deus...

A Melina ligou pra Dolores. O Otávio já tinha comentado. As duas ficaram apavoradas.

-Tá ficando uma  fortuna.

-E a Isaura?

-O quadro ainda é estável.

-Ai meu Deus...

As duas foram conversar com o médico. Uma situação lamentável, mas era necessário uma perspectiva mais concreta dos dias que restavam à irmã pra se fazer um plano orçamentário. O médico, no entanto, foi evasivo:

-Não se pode prever. Ela pode morrer amanhã. Ou em um ano.

E depois de longas noites de insônia, a Dolores decidiu que era hora de alugar o apartamento da irmã. Ou vender, se surgisse boa proposta. Na verdade, a sugestão tinha sido do Otávio, mas ele pediu para que a mulher assumisse a responsabilidade, afinal a irmã era dela. A Melina ficou chocada. Mas entendia a situação. Então fez a contraproposta:

-A gente vende a mobília. Se faltar dinheiro a gente vê o que faz.

Era prático. A mobília da Isaura, comprada muitas décadas antes, podia valer um bom dinheiro nos antiquários. A Melina recomendou um um colega da adolescência, que trabalhava no ramo e que parecia confiável. O Seu Fonseca tinha feito o clássico com as irmãs e segundo a Melina,  tinha arrastado um bonde pra Isaura sem conseguir nunca sequer um sorrisinho da donzela. Ele lamentou muito a situação que motivava o reencontro, mas deixou claro que isso não aquilo não poderia ser motivo de barganha nas negociações com os móveis, porque afinal, nos negócios não existem espaços para as emotividades. O Seu Fonseca tinha mais de oitenta anos e adorava tudo o que era velho, apesar de ser quase cego e não conseguir mais distinguir um criado mudo da sua mulher a não ser pelo tato. E foi tateando que ele orçou tudo por uma merreca decepcionante. Talvez por algum recalcado sentimento de rejeição em relação a Isaura, talvez por pura  e simples avareza,  o fato é que não houve choro nem vela. E a Milena, que nessa altura já andava com a pressão a treze por oito em virtude do stress concordou em vender tudo pro Fonseca, mesmo sob os protestos do Otávio, do Antenor, e da Dolores. Enfim todo mundo achou que a  Melina tinha sido enganada, mas evitaram comentar isso depois de consumado o negócio  porque ela andava muito sensível. Mas o Totó , que era marido, não resistiu.

-Acho que você vendeu barato...

-Eu não sou muambeira pra fazer pechincha! É a minha irmã quem está lá vegetando! Você acha que é fácil? Esse maldito condomínio! Se não fosse por essa porcaria você ia lá e me ajudava, seu cretino!

Totó decidiu não tocar mais no assunto.

Os móveis seguraram a onda por um tempo, mas nem tanto. O seu Antenor, o cretino, resolveu lutar contra a fama de pamonha e até pra mostrar mais participação e aliviar sua barra com a esposa, analisou minuciosamente o contrato do plano de saúde. Era um convênio da empresa pela qual a Isaura tinha se aposentado. Plano-família, econômico. Pagava internação, mas não os medicamentos. O Otávio sugeriu decretar moratória. Dizia: “Desligar os tubos não vão desligar. Ninguém provoca eutanásia porque recebeu calote”. A corretora do plano de saúde respondeu que processava a família. Aí, o Otávio recuou.

A Dolores um dia convocou a irmã e o cunhado e anunciou que a solução era vender o sítio de Caçapava. A Melina empalideceu. O sítio de Caçapava guardava grandes lembranças da infância e elas tinham prometido pro velho Olavo Siqueira que jamais iriam vender o sítio. O Antenor, que tinha isenção sentimental, argumentou que patrimônio era pra ser vendido na necessidade. A bem da verdade ninguém pisava em Caçapava havia anos, e a única coisa que lembrava a existência do pequeno pedaço de terra era o salário do caseiro que o Otávio sempre bufava pra pagar. A Melina então ponderou:

-Se a gente manda o caseiro embora vai ter que pagar direito trabalhista. E o pobre homem nunca recebeu um tostão de férias ou décimo terceiro.

-E o sujeito vai cobrar? O cara é analfabeto!

-A Justiça do Trabalho sempre dá ganho de causa pro empregado.

Decidiram vender o sítio desde que o caseiro e sua situação irregular entrassem no pacote. Quando o Otávio e a Dolores foram pra Caçapava ver como andavam as coisas, voltaram chocados. O caseiro tinha morrido e o primogênito do velho tinha se instalado na propriedade com seus quinze filhos , mais uma porção de primos , tios e sobrinhos.

-É um acampamento do MST!,  vociferava Otávio.

-Tem que tirar na marra, gritava o Antenor.

Chamaram o Rubens, primo de segundo grau e o advogado da família. Nessa altura do campeonato a Melina já tava com a pressão quinze por dois, e por duas ocasiões se sentira mal depois do almoço. A Dolores decidiu fazer uma cotização familiar. Todos seriam responsáveis pelos gastos com a Isaura, pelo menos até a desocupação e venda do Sítio de Caçapava. Convocou-se todos os tios, sobrinhos netos e afilhados. Quem podia mais, dava mais. O problema é que ninguém podia nada. O genro de Dolores, inclusive aproveitou pra pedir dinheiro emprestado pro sogro. O próprio Rubens , apesar de ser da família, não abriu mão dos honorários, propondo receber cinqüenta por cento, o que já era pouco. A situação ia ficando alarmante. Já não se pagava o convênio há alguns meses e o convênio disse que iria solicitar a penhora do apartamento da Isaura, que  enquanto isso , indiferente à confusão, dormia em seu coma plácido.

 

(continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 19h54
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As Três Irmãs - Final

 (continuação...)

                                                               *

Um dia, Melina passou mal e caiu na sala. A pressão foi a níveis estratosféricos quando ela descobriu que pra ir a feira ia ter que deixar de ir ao cabeleireiro. Foi internada no mesmo hospital que Isaura. Como ela freqüentemente ia visitar a irmã, todos os médicos a conheciam. Seu Antenor chegou esbaforido e antes de perguntar da mulher adiantou-se para a menina do guichê.

-Ela tem Golden Cross. Cobertura total!

Melina saiu no mesmo dia. Mas antes da alta, foi com Dolores até o quarto de Isaura e decidiram ter com a irmã moribunda uma conversa sincera. Apertaram a mão inerte como sempre faziam, e sentadas à beira da cama começaram o desabafo.

-Isaura. É hora de você tomar uma decisão.

-Pois é minha querida. Sua indefinição tá matando suas irmãs.

- Ninguém sabe mais se reza pra você ir ou pra você ficar.

-Fora as despesas!

-Chiu!

-Nós sempre fomos muito francas umas com as outras!

-Tá bem , tá bem.

-Eu entendo a sua resistência. É o certo pelo duvidoso. A cama do hospital ou a vida eterna se houver!

-Dolores!

-Não se pode garantir nada!

-Eu falo que esse padre Arthur é um incompetente. Abalou a sua  fé!

-Isaura . Eu quase fui na sua frente por causa do nervoso que eu tô passando.

-Pressão desesseis por sete.

-Dezessete por seis.

-Credo.

-Pra você ver. Isaura. Você é nossa irmã e a gente te ama. Mas, por favor. Se você não morre logo, não vai sobrar um tostão pro funeral!

-Dolores!

-Eu tô sendo franca!

E pra encurtar a história, alguns dias se passam e acontece o milagre. Isaura acorda  depois de quase um ano de coma e o melhor de tudo: acorda achando que tinha ido pro hospital fazia dois dias . Os médicos pedem pra que não seja contada a verdade porque na primeira fase da recuperação é necessário o mínimo de preocupações. 

 A alegria deu lugar ao pânico. Todos os móveis tinham sido vendidos, as plantas tinham morrido e os gatos tinham sido largados na Cidade Universitária. E ainda: havia dois meses, o Seu Antenor tinha alugado o apartamento. Cogitaram despejar o inquilino. Seu Antenor, que entendia um bocado de contrato de aluguel disse que não podia despejar os inquilinos antes de vinte e quatro meses. O Otávio, piadista, arrematou um “Alguém faz a Isaura dormir de novo!”  que não provocou risada de ninguém. A Dolores inclusive fez cara de enfado. O casamento não ia bem e ela estava pensando em divórcio. Isso aos setenta anos de idade. Resolveram ser sinceros com a Isaura. Ninguém tinha culpa daquilo tudo.

E foram todos ao Hospital. A Isaura tava ótima e achou todo mundo muito envelhecido. A Dolores, que era a mais próxima, tomou a iniciativa:

-Isaura. Teu apartamento foi alugado!

Isaura empalideceu. Que traição. Dois dias no hospital e...

-Fora onze meses e dez dias.

Isaura estava confusa. Começou a ter palpitações. Chamaram os enfermeiros. Situação desagradável.

Mais tarde , já restabelecida e conformada, Isaura anunciou :

-Vou morar em Caçapava, no velho sítio de papai. Reformo tudo e coisa e tal.

Todos suspiraram. O sítio tinha acabado de ser vendido para o próprio filho do caseiro a preço de banana. Foi o que ele pediu pra não entrar com um processo trabalhista pelas explorações sofridas pelo pai enquanto vivo.

Então a Isaura foi morar com  a Dolores e com o Otávio, porque na casa da  Melina e do Antenor não tinha mais espaço. Hoje em dia,  elas continuam indo a feira e falando mal do padre Arthur . Os sobrinhos netos estão felizes porque a tia avó voltou a trazer pão às quatro da tarde e a casa da Dolores nunca teve tanta planta.  Só tem um problema. O Antenor é alérgico a pelo de gato e a Isaura trouxe um da rua pra morar com eles. Ela morre de saudades da Fiedka e do Frederico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Leonardo Cortez às 19h53
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recebi esse e-mail

e pedi autorização pra publicar.

 

"Léo:

 

Acabei de chegar da apresentação. A gente deveria ter ido mesmo tomar aquela cerveja, mas eu inventei par mim mesmo que seria melhor dormir um pouco depois de tanta noite em claro. Mentira. Não preguei o olho e tô te escrevendo à quatro da manhã.  O teatro não dá conta de segurar o meu ânimo. Ele é uma mina que dá pra você  num dia e no dia seguinte não te liga nem retorna seus telefonemas. Depois ela volta,  dá pra você de novo e some outra vez, porque sabe que você vai estar lá sempre, pensando na próxima apresentação.  Ontem eu me sentia verdadeiramente feliz e realizado e hoje já estou bastante melancólico.  Meu Deus, foi apenas o segundo dia e me deu um vazio monumental. Talvez uma antecipação do que vai ser meu estado emocional semana que vem, quando o turbilhão da estréia  vai ter se dissipado e eu vou ter que voltar a olhar pras minhas contas atrasadas e pro meu  desemprego filha da puta.

Ok, tivemos uma apresentação difícil. Seria de qualquer maneira, já que tinha muito pouca gente no teatro. Agora estamos nos distanciando da euforia da estréia , que é maravilhosa , mas tão enganadora. Obviamente seria difícil sentir-se na plenitude do primeiro dia, aquele clima de vitória pessoal tão grande, concretizada de maneira tão íntegra  e competente. Estava tão feliz hoje na coxia. Olhei o cenário do Ferrara e pensei que eu era absolutamente viciado em teatro. A peça terminou e o pavor se instalou de volta porque uma coisa é saber que você precisa do teatro e outra coisa  é não saber se o teatro precisa de você.

Hoje me  senti bem desconcentrado, apesar de ter feito tudo o que estava ao meu alcance em matéria de aquecimento pra que isso não acontecesse. Muitos desacertos nos tons, uma ou outra escorregadela de texto que geram interiormente um estado de total desespero maravilhosamente dissimulado porque ser ator, desgraçadamente,  é aprender a fazer isso.  Acabei olhando pra Jú na platéia e ela estava com uma cara de fossa. Horror. Uma mulher com tanto conteúdo, enfastiada por nossa causa. Quase perdi o texto. Eu queria muito que ela soubesse que não foi minha culpa. Que eu simplesmente não consigo ser tão legal assim todos os dias em cena. Porque eu não tenho técnica. Deve ser isso.   

Mas o pior foi a sensação de estar de novo fazendo mal às pessoas através do teatro,  apontando uma coisa que é muito triste, mesmo que através da comédia. Me sinto como se estivesse fazendo piada com câncer, sabe?  Não tem graça. Porque às vezes a vida não tem graça.

Meu pai assistiu a peça hoje e veio me cumprimentar de um jeito bem estranho. É claro que ele jamais vai assumir que se sentiu incomodado , mas eu sei que ele se sentiu. Merda, eu amo meu pai, não queria deixá-lo magoado com  nada. Mas,  infelizmente,  eu me inspirei nele pra compor o personagem, todos aqueles trejeitos e aquele tique com o ombro. Meu pai não é otário e eu sou um puto de me apropriar dos trejeitos do meu pai pra fazer comédia. De maneira geral, eu sinto, e sinto muito que isso aconteça, que muita gente vai acabar se deprimindo com essa peça, que fala de gente que tinha esperança e depois virou um nada. Eu mesmo acho que eu só interpreto esse personagem decadente pra expurgar de mim o pavor da minha própria e visível decadência. Existe, claro,  um projeto nobre, que é esse de despertar a reflexão, a consciência em quem assiste. Mas, caramba, parece que isso acontece com tão pouca gente.

Bom, aí vem a Pri e me cumprimenta no camarim com uma cara de bunda, depois de eu ter ligado pra ela, depois de eu ter convidado a mina com o maior carinho. Não sei porque eu gosto da Pri. Definitivamente eu  sinto que desperdiço meu afeto a partir do momento que eu percebo que ela não sente nenhum afeto considerável  por mim, pois,  se sentisse, se daria ao trabalho de dizer algo bem mais consistente do que o “Legal” que ela expressou depois de  assistir uma obra que tomou nossa vida durante meses a fio.  Não estou pedindo , veja bem, que ela goste da peça. Mas o afeto genuíno  se reflete pela consideração de inclusive dizer que não gostou e do porque.Talvez dê um pouco de trabalho, você tem articular pensamento, desperdiçar uns minutos a mais, mas isso a gente faz com quem a gente gosta de verdade.

Ok,  eu tenho muita dificuldade de lidar com quem não gosta do meu trabalho. Principalmente quando não se é levada em consideração toda a suadeira envolvida pra botar nossas obras de pé. Porra, já fizemos tantas!  O fato é que quando alguém assiste minha peça com cara de bunda eu tenho vontade de falar umas verdades, dar um esculacho, sei lá. Mas não quero ficar com a fama de louco. Não pega bem no mercado e pode atrapalhar na hora de arranjar um novo trabalho.  Então eu me seguro. Mas prometo que não convido mais a Pri pra peça nenhuma.

Aos poucos eu vou envelhecendo e entendo porque os velhos desbocados que dizem tudo o que pensam. Não é fácil carregar esse turbilhão e ficar quietinho o tempo todo. Não sei se eu consigo chegar no estágio do velho desbocado. Mas é só porque eu acho que morro antes da terceira idade.

Léo. Por que eu estou te escrevendo tudo isso? Sei lá. A gente é amigo. Eu lembro daquele porre que você me socorreu. Tô retribuindo com um desabafo.

 

Abraço, irmão"

 

 

 

 



Escrito por Leonardo Cortez às 15h22
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