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Eu tenho que publicar essas coisas aqui!
As pessoas assistem a minha peça, saem entusiasmadas, dão feed-backs sensacionais e no entanto eu não tenho porra nenhuma de espaço na imprensa. Deve ser porque a peça fala mal à beça da imprensa, daí o ressentimento. Vou pagar auxílio insalubridade pra quem for fazer a divulgação da nossa próxima temporada. Quem sabe, eu tenho resultados melhores.
Por enquanto, além da Maria Lúcia Candeias e do carinha da Veja, nenhum outro crítico apareceu. Também não apareceu ninguém do prêmio Shell, nem do prêmio CPT, nem de prêmio nenhum, o que tira a legitimidade da premiação. Se é pra premiar os melhores, então a Comissão Julgadora tem que assistir todos os espetáculos e não só as peças dos amiguinhos, porra! É isso. Eu não sou amiguinho de ninguém, pra mim o caminho é um pouco mais tortuoso. Então eu publico o que estão escrevendo sobre "O Rei dos Urubus" aqui e no blog da Cia dos Gansos (ciadosgansos.blogspot.com). E aproveito pra lembrar que esse final de semana é o último. Dessa temporada, claro.
SOBRE A PEÇA TEATRAL "O REI DOS URUBÚS", DE LEO CORTEZ
Saí siderado da peça "O Rei dos Urubus" do dramaturgo e ator Léo Cortez que está sendo representada no Centro Cultural São Paulo.
A força dramática e a eficiência dramatúrgica do texto inusitado que descreve os bastidores, às vezes o próprio set televisivo em pleno ar ao vivo de um canal jornalístico de televisão em que os os protagonistas e os coadjuvantes ( se é que os há) são os próprios jornalistas imersos em sua paixão doentia comum: a do sucesso de audiência, os altos índices que perseguem numa verdadeira "briga de foice de elevador" (para reciclar uma expressão antiga). A verdadeira carnificina psicológica e verbal que eles empreendem no dia a dia de sua atividade em torno de um programa de cunho jornalístico sensacionalista sobre personagens reais de dramas do momento, sempre histórias patéticas de paixões clandestinas testemunhadas por personagens humildes, logo acuados, ameaçados pelos protagonistas do escândalo por um lado e pela verdadeira chantagem dos jornalistas por outro. Paralelamente os jornalistas duelam entre si nos bastidores do programa e às vezes no próprio programa em pleno ar, numa verdadeira meta-linguagem teatral, pela liderança do programa e o "prestígio" decorrente dessa posição na hierarquia jornalística, sempre abaixo, na verdade, de um poderoso chefão da empresa, a palavra final e o verdadeiro cérebro demoníaco por trás de tudo isso, e que no entanto não aparece senão por referência e citações, pois representa, no fundo, a propria idéia das força diabólica invisível e inacessível que manipula os cordéis da nossa sociedade. O personagem representado pelo ator e dramaturgo autor da peça, Léo Cortez, se sobressai pela pujança de sua atuação, na expressividade neurótica vociferante e gesticulante (na medida certa numa grande atuação). Ele nos faz recordar o ator Jack Nicholson em seus melhores momentos de personagens neuróticos. Faz lembrar também certos personagens de Nelson Rodrigues a quem aliás o dramaturgo Leo deve alguma coisa, no mínimo pela admiração que sua geração tem pelo genial Shakeaspeare tupiniquim, grande mestre da chamada carpintaria teatral, que aliás Léo Cortez maneja com surpreendente maturidade, embora seja autor jovem.
Como eu dizia, Léo Cortez como ator é hipnótico, não deixa nosso olhar desviar-se de sua atuação sarcástica e corrosiva, cheia de nuances que vão da vociferação paroxística aos trejeitos sutis da exaustão de si próprio. Também o ator Daniel Dottori que faz o sobrinho do chefão que aliás se revela ao final o verdadeiro "rei dos urubus", pois o personagem Robério encarnado pelo autor passa surpreendentemente ao papel de vítima, morrendo no palco em plena apoplexia ( boa palavra antiga para o nossos atuais enfarte ou derrame).
Também devo ressaltar a atuação da única atriz na peça, Glaucia Libertini, que faz a jornalista apresentadora do nefasto programa, e que vestida com o característico mau gosto dessas peruas televisivas, está perfeita na sua desfaçatez e no seu "à vontade frente às cameras", mas que trai sua fragilidade ou vulnerabilidade nos bastidores dominados pelas feras masculinas, mais cínicas que ela, a diva do programa.
Quero pois parabenizar o diretor Marcelo Lazzaratto, os excelentes atores, e saudar Léo Cortez, esse excelente autor jovem do nosso teatro paulistano, que à frente de sua "Companhia dos Gansos" veio para ficar com seus textos de crítica social ácida, embora humorística, que como na sua fantástica peça anterior reduz a "escombros" a edificação das construções burguesas sobre a areia de suas mentiras, preconceitos e veleidades.
GUILHERME DE FARIA
(Guilherme de Faria é artista plástico, escritor e poeta cordelista. Como editor lançou pelas suas artesanais Edições do Pavão Misterioso", prefaciou e ilustrou a poetisa gaúcha Alma Welt (vide Contos da Alma, editora Palavra&Gestos), na Livraria da Vila (da Alameda Lorena ) , na Livraria Cultura e no IMS (Instituto Moreira Salles).
Escrito por Leonardo Cortez às 17h57
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Essa é da Lucia Velt
Querido Leo
Aqui vai uma apreciação minha da tua magnífica peça:
SOBRE A PEÇA "O REI DOS URUBUS", DE LEO CORTEZ
Estando em São Paulo, assisti maravilhada e ao mesmo tempo estarrecida a peça de Leo Cortez, " O rei dos urubus", no Centro Cultural São Paulo. O impacto foi enorme. Este autor paulistano vem se notabilizando a cada nova criação sua, como um dramaturgo que expressa através de tragicomédias (como ele mesmo as classifica) a sua visão cáustica, sarcástica, irônica, e até mesmo trágica, da vida interna do universo corporativo das grandes cidades ( poderia se passar em qualquer grande cidade do mundo), e também da classe média decadente, envolvida no turbilhão de suas ambições frustradas e de seus pecados ocultos logo escancarados de maneira bombástica e escandalosa na mesma medida de sua hipocrisia e repressões. Ao dizer isso me reporto à sua peça anterior, 'Escombros", onde uma família burguesa implode por dentro, minada por seus crimes motivados por uma corrupção íntima que lhe é inerente na medida dos seus valores distorcidos por uma ambição desmedida e uma inveja que lhes corroe o caráter até não ser possivel mais ocultar a sua podridão, que literalmente explode em cena, demolindo as próprias paredes físicas de seu "lar doce lar". No final dessa comédia nada divina não sobra pedra sobre pedra, produzindo a necessária catarse no público, que sai aliviado mas com ainda os últimos reflexos do seu "riso de nervoso". Posso estar me excedendo na subjetividade mas, na ocasião notei, à saida, que o publico tem, se esgueirando para fora, dificuldade de se entreolhar, pois com olhos esquivos denunciava sua identificação íntima com esses mesmos pecados de sua alma burguesa.
Mas voltando a este notável "Rei dos Urubús", devo dizer que me espantei com o conhecimento intuitivo que este artista viceral tem do universo corporativo apodrecido do jornalismo sensacionalista, do tipo "mundo cão" de uma empresa de televisão, onde os jornalistas se entre-combatem e se destroem na corrida pelos melhores índices de audência, pelos quais são literalmente capazes de matar, ou pelo menos de destruir reputações, mas sobretudo de arrastar suas vítimas na lama de um um ridículo ou um patético constrangedor. Os personagens, nesta farsa trágica, adquirem dimensões arquetípicas, e nisso consiste a grandeza do autor, pois alternam posições definidas nesse tabuleiro de um jogo de paixões, histérico, em que a marca da neurose contemporânea da ambição profissional está muito bem expressa. O personagem título, acaba se revelando apenas no final da peça, pois aquele com quem o público identifica o epíteto sardônico ( "rei dos urubus") acaba se revelando uma das vítimas fatais desse embate interno nos bastidores (às vezes frente ao público na meta-linguagem do espetáculo, ou nas vísceras da tv em convulsão como que repleta de gases mefíticos, diante de nós, expectadores perplexos para aquém das cortinas, isto é, das câmeras.
Só me resta recomendar ao publico amante do bom teatro que não perca essa obra-prima contemporânea do nosso teatro, de um autor que vem acumulando merecidos prêmios e o aplauso da crítica a cada nova performance desta "Companhia dos Gansos", uma das raras compainhas estáveis de repertório próprio e autoral que os paulistanos podem desfrutar.
LUCIA WELT
Escrito por Leonardo Cortez às 11h32
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Um scrap da Angel
Essa mensagem foi escrita pela Angel. Não conheço a menina, mas com certeza ela tem bom gosto. E a peça vai até esse final de semana lá no Centro Cultural São Paulo. Claro que depois a gente volta. Sempre foi inconcebível pra mim fazer só uma temporda com qualquer peça. Uma temporada só não é suficiente pra gente se divertir como merece.
"Olha, como posso dizer??? Simplesmente fui ver a peça e virei mais uma fã dentre as muitas e muitos que voces estao cativando... quero dizer que adorei o espetáculo "o rei dos urubus" pois nao foi superficial ou apelativo como muitos que ja assisti, a crítica feita ao sensacionalismo é verdadeira, as cenas são super dinamicas, o texto criativíssimo e o elenco...putz... os cinco muito bons atores, amei todos sem distinção. Realmente um trabalho impar e que estou triste por só ir até a proxima semana, já assisti duas vezes e ainda quero assistir denovo!!
Gostaria de estar informada dos proximos trabalhos da Cia dos Gansos, quero acompanhar todos se possivel... gostei muito do trabalho de voces.
Parabens a todos, voces sao otimos!!! Um grande beijo."
Escrito por Leonardo Cortez às 23h02
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Mensagem do Danilo
Recebi essa mensagem e trancrevo por aqui, porque a vida é boa quando isso acontece:
Cara:
Desculpa a liberdade, mas eu tinha que te escrever: to no primeiro ano de Comunicação e ter visto tua peça foi muito do caralho. A história é muito foda: puta texto, puta direção. Gosto pra caralho de teatro, mas é raro ver uma peça que eu goste de verdade. Já tinha visto outras peças do Marcelo Lazzaratto, mas essa é a melhor. Primeiro porque ele conseguiu fazer cada ator dar um show de interpretação. O cara que faz o Trombone e o Cândido quase me fez mijar de rir. Você com aquela coisa meio corcunda, a Solange, enfim, ta todo mundo bem! Aquele puto da Vejinha dizer que o elenco é irregular só mostra que a Vejinha é uma bosta de revista, pelo menos é o que eu acho. Bom, mas o que interessa é o Rei dos Urubus! Velho, você falou o que tava entalado na minha garganta e o engraçado é que você falou mostrando, o que eu quero dizer é que pra mim é bem mais legal quando eu vejo uma peça que me faz pensar e ainda me diverti pra caralho. E o final é genial,velho. O Valdemar entregando a canalhice do tio! Um soco no estômago. Tamo entrando agora nesse mercado e ta todo mundo ligado que a canalhice rola solta. Quero te dizer que vou acompanhar o trabalho da cia dos gansos e não vou perder nenhuma peça.Vocês são foda! Enfim, precisa te dizer essas coisas, porque saí meio eufórico do centro cultural. Parabéns cara,seu texto arrebenta.
Abraço
Danilo Santorini
Escrito por Leonardo Cortez às 16h47
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Gabriel
Eu disse:"pode ir, meu filho, que a gente aguenta..."
Era mentira. Mas a gente teve que mentir pra ele poder ir com calma.
Eu, a Glaucia e a Clara temos um anjo da guarda particular.
Escrito por Leonardo Cortez às 02h24
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Casting
Hoje ligaram da agência e me chamaram prum teste. O roteiro tá no e-mail. É um típico comercial que exige que o ator diga o texto daquele jeito sereno e símpático, com um toque de humor e sedução. É preciso dar um sorrisinho no final, naquelas de transmitir confiança. É um texto pra ser dito por um ator muito bem apessoado e articulado, que consiga encarnar o cara que sabe o que de fato é importante na vida, no caso, um cartão de crédito Master Card. Não sei se vai rolar, pessoal. Tá difícil pra mim fazer esse papel e com certeza eu vou perder de novo pro Cadu Torres. Não ando nada sereno, nem simpático, pelo contrário. Meu cotidiano se constrói na administração perpétua dessa ansiedade monstro que eu sinto diante desse futuro profissional incerto e nebuloso. Tá muito difícil chegar na produtora de barba feita e com aquela simpatia típica desses caras que fazem uma porção de comercial pra ganhar a vida. Não tô a fim de fazer a barba nem de cortar o cabelo, meu velho. Não tô afim emagrecer, nem de fazer exercícios. Eu queria conseguir escrever uma peça de três atos e trinta personagens e ficar aqui nesse escritório durante pelo menos oito meses, botando a fuça pra fora de casa só pra ir pro parquinho com a Clara. Claro que eu não posso me dar à esse luxo, porque ninguém me sustenta, muito embora eu ande tentando convencer a Glaucia a fazer isso por mim. Não sei porque, mas ela não me leva à sério quando eu digo que só quero reaparecer daqui a um ano, gordo e cabeludo na festa de casamento de algum ex-colega de faculdade. Eu ia adorar ouvir dos amigos coisas como "você sumiu, você tá diferente e etc...", enquanto espero na fila do bufê pra repetir a sobremesa pela terceira vez. Todo mundo quer sumir de vez em quando. Eu sumo, paradoxalmente, quando apareço por aí com a barba feita e com o cabelo cortado na fila de espera de algum teste de comercial. O Cadu Torres pode até puxar um papo comigo pra tentar dar uma amenizada naquele tédio todo, mas pode ter certeza de eu não estou ali, meu querido...
Escrito por Leonardo Cortez às 01h38
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Independência
O Museu do Ipiranga é um dos lugares mais bonitos de São Paulo. A produção da novela escolheu o Museu do Ipiranga pra filmar a última cena do último capítulo. Não vi as imagens, mas tenho certeza que ficou lindo. No final, o elenco todo ficou dançando naquele clima despedida e foi bem emocionante. Eu geralmente sou bem duro nessas horas porque nessa carreira não dá pra ter apego com nada porque tudo sempre acaba. Mesmo assim, não deu pra segurar uma lagriminha no meio de tanto abraço e no final das contas tô bem feliz de ter feito o meu trabalho durante todos esses meses sem brigar com ninguém e sem me aborrecer além da conta com nada. Fora que foi ótimo ter convivido com tanta gente bacana durante tanto tempo.
Algumas pessoas eu não resisti e abracei com um pouco mais de força.
Escrito por Leonardo Cortez às 00h55
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