Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


Fitness

Todo mundo na novela é malhadinho e lá dentro eu sou o único da minha geração com essa pança. As minas malham, os caras malham e tudo o que eu faço pra não virar um boi é abrir mão, com muito sacrifício, das sobremesas. De vez em quando eu corro, mas ultimamente só porque eu tô sempre atrasado pra chegar no trabalho. Eu juro que tentei, já gastei dinheiro à toa me inscrevendo em academia, mas lá pelas tantas me dá um tédio mortal e eu simplesmente não aguento sequer passar na porta. Me irrita o barulho da esteira, me irrita o som ambiente e as pessoas com aqueles i-pods ouvindo trance. Me irrita as conversas sobre alimentação e o instrutor dando instrução. O instrutor sempre acha que eu sou um vagabundo, ignorando que a minha vida é esse festival de percalços que só um batalhador convicto teria coragem de enfrentar. Mas o instrutor está alheio aos meus problemas. Ele fica dizendo coisas como "deixa essa preguiça de lado", ou "hoje você não escapa dos abdominais", sem saber que a minha peça tá falida, que meu contrato tá acabando e que a Glaucia anda nervosa porque eu nunca recolho a minha roupa suja do chão. E depois de quinze minutos extenuantes naquela bicicleta ergométrica do inferno, ele vem dizer que na semana que vem vai aumentar a série, ignorando o fato de que eu estou mais suado que a parte de fora do copo de chopp que ele diz que eu tenho que parar de tomar se quiser perder esses pneus. Também me irrita ficar suado, porque aí eu tenho que tomar banho no vestiário e não tem nada mais desagradável do que tomar banho em vestiário, principalmente se o vestiário é masculino. Vestiário sem cabine no chuveiro, eu também acho desagradável. Acho desagradável que me vejam pelado e fiquem avaliando o tamanho da minha pança e de outras partes da minha anatomia.  Desagradável essa coisa de armário. A chave sempre emperra no cadeado, as coisas sempre caem lá de dentro quando você abre a porta e do seu lado sempre tem um cara que passa na cara uma colônia enjoativa. Sempre tem alguém conversando em voz alta durante o banho e o papo fica ensurdecedor porque todo vestiário tem eco. Acho um saco o eco, acho um saco papo de vestiário. Eu quero sair de lá voando, mas antes eu tenho que me enxugar e nunca tem um lugar onde eu me sinta confortável pra apoiar minha perna enquanto eu passo a toalha na minha coxa. O meu pavor de pegar uma micose naquele ninho de fungos que é o chão do vestiário me faz esquecer qualquer bem-estar que o exercício possa ter me fornecido. Tudo o que eu quero de uma academia é sair dali. Sair! O meu futuro é sedentário, eu sei. Daqui a pouco eu vou ficar com aquele shape de tiozão moderninho. Vou deixar o cabelo crescer, amarrar tudo num rabo de cavalo ralo e nesse momento, o único papel que eu vou poder pleitear é o do Wood, ou do Stok, quando fizerem uma adaptação pra tevê dos personagens do Angeli.  

Aí eu lembro daquela história do Vinícius de Morais sentado na beira da praia, vendo o sol nascer depois de mais uma balada insandecida pra sua terceira idade. Na frente do Vinícius, estavam um monte de velhinhos fazendo Ioga e se sentindo bem á beça com isso. O Vinícius olha pro seu colega, aponta os velhinhos e totalmente bêbado diz algo como: "Fulano: me faz jurar que eu nunca vou fazer esse tipo de coisa na vida..."



Escrito por Leonardo Cortez às 01h10
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Conto minúsculo

Antes do vô Euzébio bater com as dez, ele pediu, já no leito de morte,  pra ser cremado. A vó Loreta achou aquilo um saco , mas concordou. Quando as cinzas vieram, ela espalhou tudo pelo sítio, conforme o pedido o marido. Mas resmungou durante muito tempo.

-Essa história de ser cremado, que coisa mais chata. Morro de inveja das minhas amigas viúvas que tem túmulo pra visitar aos domingos...



Escrito por Leonardo Cortez às 01h16
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Pobre Moacir

Fui cortar o cabelo noutro dia com o mesmo cabelereiro de sempre, o Moacir. Corto o cabelo com o Moacir há uns seis anos e o cara só acertou o corte quando eu pedi pra passar máquina quatro. Fora isso, os penteados sempre ficaram péssimos, o que de fato, não me deixava muito aflito, mesmo porque meu cabelo é uma droga. Nunca reclamo de corte nenhum porque eu sempre achei que chegaria na minha idade careca, portanto, sigo no lucro. O fato é que o Moacir morreu. Fiquei sabendo quando entrei na barbearia e perguntei pelo sujeito. Quem deu a notícia foi o dono do estabelecimento, o Amadeu. Curioso, porque eu sempre achei que o dono era o Moacir.

-Todo mundo achava isso, porque o Moacir era muito falastrão, segredou o Amadeu. E continuou:

-Eu sou o dono dessa barbearia há cinco anos, mas nunca ninguém soube!

Existia um tom de secreta satifação na voz do Amadeu. Aquele ressentimento enrustido típico de quem sofreu calado durante todos aqueles anos diante do convívio com uma figura tão carismática quanto o Amadeu.

-Todo mundo só queria cortar o cabelo com o Moacir! Era foda...

E diante daquele desabafo, nada mais me restou a não ser pedir pro Amadeu tirar as pontas, o que ele fez com muito capricho, enquanto dava detalhes sobre o falecimento do funcionário.

-Morreu de derrame. Também, aquele ali não se cuidava...

O Amadeu corta bem à beça o cabelo. Mas o Moacir tinha um papo mais agradável, realmente...



Escrito por Leonardo Cortez às 01h02
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blog dos gansos

Esse texto o Jabá publicou no blog da Cia dos Gansos. O blog tá bem bacana com um monte de posts que contam a história do grupo, além de links com fotos e vídeos que estão no You Tube. O endereço é http://ciadosgansos.blogspot.com.

O PÚBLICO

Termina o espetáculo e a gente levanta para bater palmas. Não importa se a gente gostou ou não daquilo tudo. As palmas marcam o final da peça e pronto. Bateu palma, pode ir embora.

Por isso quando eu estou numa peça não vejo as palmas como indicativo de que a platéia gostou do que fizemos. Eu olho uma outra coisa: a sensação de maravilhamento. As pessoas demoram a sair do teatro. Ficam olhando para o palco, esperando que a gente apareça. Querendo entender como foi que aquilo tudo aconteceu.

Nós atores, quando vamos assistir a outros atores, subimos no palco depois da peça, entramos nos bastidores, vamos ao camarim e abraçamos o outro. Profanamos esse espaço sagrado, mas parece que temos alguma autoridade para isso.

Gente que não é de teatro não sobe no palco.

Parece que tem algum tipo de mágica ali.

Quando a mágica funciona, a gente fica olhando para o lugar onde ela aconteceu tentando entender qual o segredo daquilo tudo.

Isso é que é bonito.

 

Djair Guilherme

 



Escrito por Leonardo Cortez às 23h52
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De volta

Meu computador deu mais um pau pra variar e ficou quase dez dias na mão do Jabá. Agora ele parece saudável,  além de muito mais silencioso. O problema tava na fonte,  conforme o Jabá me explicou. O fato é que eu tava acostumado a ficar escrevendo com aquele som de ventilador ao fundo, o que de certa forma explica a minha dor de cabeça cada vez que eu ia dormir. Agora tudo está calmo nesse escritório, que nada mais é do que o meu reino particular, onde estão todas as recordações das peças que eu fiz e toda a papelada que um dia eu prometo organizar. A Gláucia tem um certo receio de entrar aqui dentro. È impossível não pisar em alguma coisa e basta fuçar um pouco atrás de alguma pilha de papel pra encontrar uma barata. Fora que eu  tenho que dividir o espaço com a pilha de roupa pra passar e com os produtos de limpeza. Isso aqui é uma esbórnia, reconheço, mas me sinto bem a beça por aqui. Quase sempre a Clara aparece. Ela gosta de ficar no meu colo, rabiscando o verso dessa porrada de capítulos velhos do “Dance, Dance, Dance”, que estão aqui pra serem rabiscados mesmo. Às vezes, ela se anima e rabisca o monitor e o teclado. Eu não ligo. Meu monitor ta todo rabiscado, quase como uma metáfora concreta de que a minha vida está nas mãos dela, o que muito me alegra. Vamos indo muito bem com o Rei dos Urubus lá no CCSP. A casa lota quase todo dia, mas como todo quase todo mundo paga meia entrada, estamos ainda contabilizando os prejuízos. É bem provável que eu tenha que colocar dinheiro do meu bolso no final das contas e quer saber? Vou fazer isso com o maior orgulho. Vou continuar pagando pra fazer teatro até quando isso for necessário e obviamente, possível. Pra mim, não resta outra alternativa a não ser fazer teatro pro resto da minha vida.

Essa semana a novela acaba. Temos cenas terríveis pra dar conta. Aquela história toda de casamento, velório, batizado e esse monte de evento que invariavelmente reúne o elenco todo pra todo mundo fazer figuração ou dizer duas ou três frases. Não é fácil, meu amigo, mas pelo menos a gente tem um bom pretexto pra bater papo com gente interessante. Tá todo mundo aterrorizado com o fim do contrato, inclusive eu, obviamente. Tem muito ator no mundo e o mundo não precisa de tanto ator assim. É também por isso que eu faço as minhas peças. Pelo menos pra minhas empreitadas, eu sou absolutamente indispensável.   

Assim que eu recolher as minhas coisas no camarim, o meu irmão estréia o programa dele na Band. Uma mina de lá chegou pra mim e perguntou se eu estava deprimido de sair, enquanto o meu irmão tá entrando. Porra. Ela não sabe que eu amo o meu irmão e só posso estar feliz à beça por ele estar se dando bem? Esse papo de competição me dá no saco! O Rafael batalhou pra cacete o espaço dele e tá colhendo os merecidos frutos. E o melhor de tudo é que depois eu posso pedir dinheiro emprestado, porque ele é mão aberta à beça. A vida é feita desses ciclos profissionais e graças à Deus,  quando um acaba, normalmente outro começa. Tô nessa fase intermediária de certa apreensão, mas muito afim de, por enquanto,  ficar com a Clara no colo enquanto eu passo as minhas tardes revisando as peças pra publicação do livro que sai até agosto. Temos várias viagens com “Escombros” pelo PAC e uma trajetória com  o “Rei” que ta só no começo. Fora a peça nova, que já está na cabeça, afinal eu tenho que começar a plantar o prejuízo de 2009.

E quando eu penso que vou ficar em casa o dia inteiro escrevendo nesse moquifo enquanto a Clara rabisca as minhas coisas , me dá um baita conforto.    



Escrito por Leonardo Cortez às 23h39
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