Repercussão
Comprei a Veja no sábado pra ver o que o crítico da Vejinha havia escrito sobre a minha peça. Ok, isso aqui vai parecer discurso de ressentido, porque o cara me deu duas estrelas. De qualquer maneira, vou me colocar dizendo o seguinte: não acho que o meu texto é construído em cima de esteriótipos e nem acho que o elenco é irregular, conforme tava escrito. Pra mim, isso são duas grandes bobagens, então, desculpa falar, eu não posso levar muito à sério a opinião da Vejinha.
Ninguém precisa gostar da minha peça. Tenho certeza que é um texto que desperta amor e ódio dependendo de quem assiste e tudo bem, a vida é assim. A categoria dos jornalistas pode se sentir ofendida e talvez tenha sido esse o caso do crítico. Mas a peça não fala somente de jornalistas ou do mundo da televisão. É um texto sobre a opressão do mundo coorporativo, que sufoca o indivíduo em nome das metas e da produtividade. Eu sei do que estou falando, meu amigo: tô no olho do furacão como todo mundo que tem que pagar as contas. Escrevi "O Rei dos Urubus" porque pra mim é absolutamente necessário extravazar essa minha indignação incontida, procurando sempre ser muito honesto comigo mesmo em cada linha da minha dramaturgia. E acho um pouco chato ter que aceitar quietinho um argumento como "elenco irregular", mesmo porque acredito piamente que uma das grandes virtudes da montagem é o nosso trabalho de interpretação.
Talvez a avaliação da Vejinha atrapalhe um pouco a trajetória comercial da peça, já que pode criar uma certa resistência em quem consulta o guia. Paciência. Não vai ser por isso que a gente vai deixar de fazer o teatro que a gente acredita. E não vai ser por isso que a gente vai deixar de fazer a peça com a mesma paixão.
Tem gente com opiniões diferentes da Veja. A Maria Lúcia Candeias, que é crítica e doutora em Teatro pela UNICAMP, publicou a seguinte matéria no "Aplauso Brasil":
DRAMATURGIA NOTA DEZ
SÃO PAULO - Quem gosta de uma peça bem escrita, com personagens bem traçados e uma ótima história, não deve perder O Rei dos Urubus. Está em cartaz no Centro Cultural, no porão, Espaço Cênico Ademar Guerra. É tão bom que a gente nem se lembra que os acentos são alternativos. Mesmo assim, o texto de Leonardo Cortez mereceria espaço mais requintado.
Trata-se de crítica aos meios de comunicação e seus telespectadores, ou seja, de nós todos. Tudo feito com extrema sensibilidade, inteligência e humor.
Além das qualidades literárias cabe ressaltar o teatro propriamente dito, que apresenta direção impecável de Marcelo Lazzaratto. Tudo é bom: atores (Daniel Dottori, Gláucia Libertini, Guilherme Jorge, Djair Guilherme e o próprio autor) estão excelentes.
O mesmo pode ser dito da cenografia simples, adequada e de muito bom gosto (do ator Djair). Os figurinos masculinos de Daniel Infantini caem lindamente.
A trilha de Gabriel Miziara também foi escolhida em harmonia com tudo o mais. A iluminação leva a assinatura de Wagner Freire o que é garantia de qualidade.
Os únicos senões ficam por conta do traje da atriz, muito discutível, afinal só ela está deselegante, e do nome da montagem. Como já disse, trata-se de uma crítica a todos nós, mas eu, particularmente, não me sinto e nem identifico os outros como urubus. Será que Leonardo se referia apenas aos donos de emissoras e jornais?
Não percam, até o momento, me parece o melhor espetáculo do ano.
O Rei dos Urubus
Onde: Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000 – ao lado do metrô Vergueiro) Quando: De 08/02 a 23/3 sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 20h Quanto: R$7,50 a R$15,00
Informações: (11)3277-3611
*Maria Lúcia Candeias é doutora em teatro pela USP e professora colaboradora da UNICAMP
Escrito por Leonardo Cortez às 15h00
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