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programa da peça
Nâo gosto de escrever texto pra programa, porque acho que tudo o que eu quero dizer já tá dito na peça. Mas é sempre bom aproveitar a oportunidade pra agradecer. Então escrevi isso :
"O que eu lembro é que quando a gente fez a primeira leitura na casa do Gui eu estava num poço de apreensão, naquela expectativa e esperança de que o meu entusiasmo com a peça contagiasse todo mundo. E de novo, o amparo e as sugestões dos velhos e bons amigos foram fundamentais no aprimoramento de um texto que pretende comunicar as aflições e questionamentos deste que vos escreve e daqueles que estarão em cena daqui a pouco.
Só chegamos aqui porque cada um contribuiu com o seu melhor para erguer uma obra que deixou de ser só minha desde que a gente fez aquela leitura. Aos atores-amigos, fica aqui o registro de cada emoção represada ao ver que os meus personagens estão vivos por causa de vocês. Ao Marcelo Lazzarato, que antes mesmo de aceitar ser o diretor dessa montagem foi um grande incentivador da minha trajetória como dramaturgo, mais uma vez a minha gratidão, inclusive pela amizade. À Glaucia, porque ela é simplesmente fundamental na minha vida, ao Zé Roberto, pela lucidez e talento, ao Vitão e à Ju, por toda a labuta e por gerenciarem as nossas incompetências administrativas, enfim, a todos vocês, o meu muito obrigadíssimo, de novo.
Curiosa coincidência: somos na maioria, todos jovens pais nessa equipe e temos em comum esse exercício diário de mostrar pros nossos filhos que é bom à beça estar por aqui. Principalmente quando estamos em boa companhia, fazendo o que a gente acha que é certo.
Leonardo Cortez"
Escrito por Leonardo Cortez às 02h14
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Rei dos Urubus, na véspera
Minha nova peça é um pouporri das minhas angústias. Tá tudo lá, meu amigo: a agonia diante do mundo opressor coorporativo, a solidão do lider, o desamparo da juventude, a crise diante do humor vazio e vaidoso, a minha birra contra quem faz documentário oportunista e etc. Tá tudo lá. De novo, sem floreio, com aquela verborragia de sempre, sem muita poesia que eu não levo jeito pra coisa. Mas tudo muito pensado, muito analizado, muito discutido comigo mesmo. Uma jornalista assistiu o ensaio e disse que as reuniões de pauta não são como as reuniões retratadas na peça, que a televisão não é daquele jeito e que as pessoas não são assim. Pois eu digo: o meu esforço como dramaturgo é transcender a vida real, buscando, nesse amontoado de situações-limite, conseguir retratar o sofrimento humano de maneira quase alegórica e pretensamente atemporal. Não se trata de uma peça sobre a televisão, ou sobre a baixaria da televisão. É uma peça sobre o ser humano desesperado, escravo das suas fraquezas, submetido a uma estrura de trabalho desumana, que prioriza o lucro e a produtividade em detrimento das relações e dos valores morais e éticos. E pretendi falar sobre tudo isso com humor, porque o humor é decorrencia tragicômica da mesquinharia que cerca e rege o comportamento desses personagens. Estamos em vésperas de estréia. Ensaiamos com muita raça e responsabilidade. Temos , dentro do grupo, esse discurso comum, conquistado após muita reflexão sobre o trabalho. Eu posso dizer categoricamente , que é um trabalho honesto. Eu posso dizer, categoricamente, que sei o que estou fazendo. A peça não tem redenção. Não tem final feliz. Talvez isso desagrade algumas pessoas. Mas a minha esperança é que a redenção aconteça depois, quando o espectador sair do porão do CCSP com a sensação de que não quer nada daquele universo pra si.
Estou muito confiante de que isso vai acontecer.
Escrito por Leonardo Cortez às 01h49
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03 de fevereiro
Hoje você fez dois anos, minha filha. Quisera eu saber escrever poesia pra tentar te dizer o que isso significa pra mim. Não nasci com esse talento, meu amor, mas prometo que vou te apresentar algumas pessoas que manjavam dessa arte. Quero sentar contigo na varanda e te ler alguma coisa do Drummond, do Manuel Bandeira e de outros poetas que podem ser entendidos pelas crianças quando falam de coisas singelas. Mas você é ainda muito pequena. Deixa o papai tentar ser poeta do jeito dele, ok, te pegando no colo toda a vez que você pedir, mesmo que eu sinta dor nas costas porque agora você tá bem mais pesada. Quero te dizer baixinho no seu ouvido que te amo, te amo, te amo. Quero te dizer baixinho, antes de você dormir, que você é a poesia da minha vida e que nesses dois anos cada choro, cada balbucio, cada sorriso, cada música que você canta e cada passo que você dá me faz acreditar que tudo faz sentido nesses meus trinta e três anos de vida. Cada dia é um dia que vale a pena ser vivido quando estou ao seu lado e que cada passeio se torna mágico quando você procura minha mão, buscando a segurança pra desbravar novos horizontes. O mundo é tão bom, minha filha. Existe tanta coisa pra você conhecer, tanta gente pra você amar e seu pai tem tanto carinho pra te ofertar e é por isso eu tenho que te dar esses abraços urgêntes logo pela manhã. Não sou o mesmo de dois anos atrás. Sou melhor, mais rico, mais forte. Sou seu pai e esse é o maior orgulho de toda a minha vida.
Escrito por Leonardo Cortez às 00h51
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"Essa história é podre, Robério! E não dá pra passar perfume na carniça..."
Escrito por Leonardo Cortez às 02h30
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