Conversas com o Paulo
Escrito em 2004.
Acabamos de almoçar e ainda à mesa , Paulo Autran me passa um sabão acerca da minha condição física:
“Você não está gordo, mas eu percebo pela sua papada, que você tem a tendência. E um ator gordo é uma coisa muito triste, ainda mais na sua idade.”
Argumento que já emagreci um bocado, mas tenho que estar sempre me vigiando. Mas antes que eu possa concluir o raciocínio, ele me interrompe:
“Vamos pedir a sobremesa?”
“Mas você acabou de dizer que eu preciso emagrecer, Paulo!”
“Mas esse é um restaurante muito bom. Faça regime, mas não seja bobo, menino!”
*
Saímos para um passeio por Curitiba. Passamos em frente ao Guaíra e ele propõe uma visita ao teatro. Claro que ninguém barra o Paulo Autran na entrada. Entramos pela platéia e eu faço um comentário a respeito do cenário de uma ópera que está sendo montado no palco. Paulo me interrompe, com o olhar de encantamento:
“Repare na grandiosidade desse teatro”
Olho em volta. Setecentas cadeiras vazias na platéia mais trezentas acima, no mezanino. Volto para Paulo. Existe uma ponta de emoção na sua voz:
“Aqui eu fiz o ‘Julgamento de Otelo’ interpretando o próprio. Lá pelas tantas o advogado dizia que Otelo estava morto. Então me levantei e gritei indignado: ‘Eu estou vivo!!!’ Então, o teatro lotado veio abaixo”.
Através de seus olhos eu vejo a cena toda.
*
Tomamos café na casa de Paulo Autran. Ele adora Hamlet. Nunca fez a peça, mas adora o texto.
“E o engraçado é que as pessoas pensam que o monólogo do ‘Ser ou não ser’ é feito com a caveira na mão. A cena da caveira é com o coveiro, uma coisa completamente diferente”.
“Uma situação um pouco inverossímil”, arrisco um palpite.
“Inverossímil, mas genial. Não há um único ser humano no mundo que não tenha parado pra pensar que aquela pessoa que o fez rir ou chorar irá se transformar num monte de ossos. Não há uma única pessoa que não tenha pensado que ela mesma vai se tornar um monte de ossos um dia. É por isso que quando eu vejo alguém dar tanta importância a tanta bobagem, eu tenho vontade de dizer: ‘minha filha, você não é nada. Mas não se ofenda , porque eu também não sou nada. Aliais, se ninguém é nada, então pra que levar a vida tão à serio?”
*
Entramos numa livraria em Curitiba. Paulo é interpelado por várias pessoas que o cumprimentam com respeito. Pra todo mundo Paulo reserva um sorriso, ainda que vez por outra se irrite com algum eventual pedido de autógrafo ou uma fotografia.
“As vezes eu me sinto como a atração do circo” ele me resmunga depois de dispensar, com muita elegância, algum fã inoportuno.
Ao passar diante da sessão de livros de teatro, ele se depara com uma coleção de textos dramatúrgicos consagrados. Na edição de “Édipo Rei” está estampada na capa uma foto onde ele está interpretando o personagem na histórica montagem de Flávio Rangel. Então, ele comenta:
“Colocaram minha foto na capa desse livro e não me fizeram sequer um telefonema pedindo a minha autorização...”
“E você pensou em processar a editora, Paulo?, pergunto, já meio indignado.
“E como é que eu posso processar uma editora que está lançando livros de teatro? Seria um contra-senso, por isso, eu resolvi esquecer o assunto!”
E ainda me deu um livro da coleção de presente.
*
Na noite da estréia do espetáculo de natal, saímos pra jantar depois da peça junto com equipe. Algazarra imensa, um monte de gente na mesa e só o Paulo Autran fumando. Eu, doido pra fumar, sem meu maço de cigarros, mas segurando as pontas pra não pedir cigarro filado. Lá pelas tantas, o Paulo comenta:
“Impressionante os dias de hoje. Ninguém mais fuma. Eu sou minoria absoluta!”
E eu, aproveitando a deixa e bancando o gentil :
“Tudo bem, Paulo. Eu vou te acompanhar. Posso pegar um cigarrinho teu?
“De jeito nenhum! Não vá fazer uma idiotice dessas! Comecei a fumar na sua idade e até agora não parei! De burro aqui nessa mesa já basta eu!"
*
Estamos num táxi em Curitiba, depois de um jantar onde falamos um bocado sobre o trabalho do ator. Estou a fim de ouvir metodologias e então pergunto como ele vê a construção do personagem:
“Acho o estudo fundamental, obviamente. O ator tem que ter cultura pra entender o seu personagem, pra entender o que se passa com o sujeito, a época, a política, entender o autor, o que o autor quer dizer. Mas se ele não der espaço para que a sua intuição se manifeste, ele pode estar perdendo a oportunidade de enriquecer o seu trabalho. Eu sou um ator muito intuitivo. Tenho confiado a minha intuição ao longo desses anos. E raramente ela me trai. Talvez isso seja um dos elementos que constroem o talento. Não que ele seja suficiente. Talento sem vocação é como bicicleta sem pedal. Pode até andar ladeira abaixo, mas depois acaba parando. Conheço muito ator de talento sem vocação. E muito ator de vocação sem talento. Aliais, posso dizer, sem sombra de duvidas, que quando isso acontece, a vocação sem o talento, é uma coisa muito, muito triste...”
Escrito por Leonardo Cortez às 11h56
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