Inédito
Entre uma estação e outra ela entrou no vagão e foi como se o céu tivesse promovido uma sinfonia exclusivamente pra ele. Não que fosse linda. Um sujeito desatento sequer ligaria para aquela moça mirrada, cabelos negros e um olhar cabisbaixo. No entanto, ele pensou: é ela! A espera tinha acabado, era o fim das experiências frustradas, dos encontros desastrados, dos sábados solitários e dos almoços na casa da mãe aos domingos, quando ele era exaustivamente aconselhado pela velha a encontrar uma boa moça. Encontrei, mãe! No vagão do metrô, quatro e meia da tarde de uma quarta-feira que não prometia nada além de ser um dia a menos na minha vida.
Ela.
Jeans e blusinha de cambraia. Ele nem sabia que a blusinha era de cambraia, nem sabia que tipo de tecido era cambraia, mas pensou que uma blusinha daquela delicadeza só podia ser feita de cambraia. Quero tirar sua blusinha de cambraia, me deitar no sol da tua praia. Soraia. Agora a moça era Soraia e ele se sentia inspirado. A poesia fazia parte da sua vida novamente. Por um momento, ele se esqueceu da rotina pé-no-saco, do trabalho imbecil, do chefe idiota, das contas atrasadas, do carro roubado e da mãe que falava pelos cotovelos e nem cozinhava tão bem. Antes ele dizia que não tinha mais idade. Não casei e já passei dos quarenta. E no entanto, agora, Soraia, sua praia, cambraia. Era preciso falar com ela, sentada no fundo do vagão. Ele encarava a moça fixamente. Esse nariz! Quem esculpiu esse nariz? Essa boca, esses seios. Quem esculpiu esses seios, ele se perguntou e nesse momento ela olhou pra ele, pra depois abaixar os olhos. Não posso assustar a moça, ele pensou, sabendo que seus pensamentos estavam se traduzindo num olhar faminto que só pode assustar uma moça solitária num vagão de metrô. É preciso elevar o espírito. É preciso transmitir amor nesse olhar. Amor. Amor! É o que eu sinto desde que te vi e isso foi só há dois minutos, menina. Amor, acredite, Afrodite, um beijo se me permite, Judite. Olha pra mim, mas olha agora, agora que eu sou um deus, porque qualquer criatura ordinária encarna o divino quando ama desse jeito.
Ela olhou de novo. Dessa vez, quem abaixou os olhos foi ele. Quando ele olhou de novo, ela seguia olhando. O que que é isso? O que foi que eu fiz? O que está acontecendo? Alegria suprema, nem me declarei e já sou correspondido. Será que você sente o mesmo, Maria? É maior que nós dois? Foi Deus quem nos colocou nesse vagão às quatro e meia da tarde? Eu tava com uma enxaqueca do inferno, pedi pra sair mais cedo do trabalho. De onde veio a enxaqueca que me colocou nesse trem a essa hora? Não foi o inferno, nem minha vida infernal que me deixaram com dor de cabeça. Tratá-se obviamente de uma enxaqueca celestial porque me colocou no seu caminho, Fabiana, e agora eu sinto esse pavor, esse pavor, Leonor... por favor. Desde que te vi, tudo o que me toma é essa taquicardia violenta. E ela só piora se você segue me olhando, se eu abaixo os olhos e você me olha de novo. Meu Deus, eu morro com essa moça da cambraia me olhando desse jeito, esse anjo. Anjo! Celeste, Solange, Soraia, (ela se levanta) te amo, Claudia, Márcia, Sônia, (vem até ele) mais do que isso, preciso de você pra me salvar dessa existência mesquinha que eu vivo desde que deixei de acreditar que fosse possível, Dolores, Amanda, Julia, Mariana, Julia, Fernanda, Odara, Renata, (senta ao seu lado) socorro, ou melhor, posso morrer agora, que eu morro feliz, Beatriz!
-Prazer, Luciana...
O trem abre as portas. Estação final. Estão só os dois no vagão, ambos corajosos como nunca naquela firme resolução de simplesmente não sair.
Escrito por Leonardo Cortez às 00h18
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feliz aniversário.
Eu tava no supermercado, e passando no caixa me deparei com a visão aterredora: tava lá a Sacha (putz, isso é nome?) na capa da Caras e a chamada dizendo que ela comemorou o aniversário ao som do bonde do tigrão, ou sei lá o que. Aí fiquei pensando: será que o cara que produz uma matéria como essa sabe o que está fazendo? Será que ele tem noção da imbecilidade de uma notícia dessas? Concluí que é impossível alguém escrever um troço desses sem saber que está promovendo uma ode à cretinice. Essa constatação deu um aspecto dramático pra história toda. Eu imagino o editor da Caras gritando com o seu repórter que quer o aniversário da Sacha na capa da edição dessa semana. O repórter ainda argumenta: "A Sacha, de novo?". O editor explode: "A Sacha, porra! A mina é pré-adolescente! Daqui a pouco ela tá anunciando a perda da virgindade com exclusividade pra nossa revista, temos que preparar o terreno!". O repórter suspira. Ele tem dois filhos, a ex-mulher tá cobrando pensão, a mãe tá doente e o plano de saúde não cobre os exames. Ele não pode perder o emprego, então precisa escrever a matéria. Aquele livro de jornalismo investigativo que ele quer publicar sobre os meninos do morro viciados em crack tem ficar pra depois porque agora é preciso escrever sobre a Sacha e o Furacão 2000. É preciso dizer que meninas de seis a nove anos dançaram em poses sensuais na boquinha da garrafa durante a noite inteira enquanto os pais cheiravam cocaína nas baixelas de prata numa salinha do lado, restrita aos fotógrafos.
Ele entrega a matéria e o editor obviamente veta a parte da cocaína. O resto, tá nas bancas...
Escrito por Leonardo Cortez às 22h25
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