gritos e sussurros
Eu tenho uma vizinha que grita. De madrugada, ela sai andando pela rua de pijama e vive colocando o lixo dela na porta da minha casa. Até aí tudo bem, a gente tolera. O problema é que ela grita. E como se isso não fosse pouca coisa, a filha da vizinha que agora mora com ela depois do divórcio ( foi a outra vizinha que comentou maldosamente), também grita. A loucura da filha se manifesta na maneira como ela se comunica com a mãe: sempre aos berros, mesmo quando ta demonstrando carinho pela progenitora. “Cê sabe que eu te adoro, mãe!” ela declara num tom de voz mais adequado à ofensa que ao carinho. Com a chegada da filha, agora a casa do povo que grita fica sempre cheia. Volta e meia aparecem umas tias, uns primos e uns cachorros. A família toda é bi-polar. Se eles não estão comemorando alguma idiotice, estão discutindo por alguma bobagem, sempre naquele tom de voz que pode ser escutado com nitidez lá na torre de controle aéreo de Congonhas. Até aí, tudo bem, se as manifestações bipolares não acontecessem invariavelmente de madrugada. Isso tem conturbado sutilmente as minhas noites, conforme dá pra imaginar. Ontem, depois que a filha divorciada da vizinha que grita começou de novo a gritar com a neta da vizinha que é portanto a filha dela, uma menininha que tem seis anos de idade e com uma grande chance de enlouquecer na vida adulta, pois bem, no meio da gritaria, eu resolvi dar um grito também, depois de muito confabular com a Gláucia. “Grito, ou não grito?” . A Gláucia sussurrou: “grita, mas grita baixo pra não acordar a Clara...”. O problema é que é difícil gritar baixo. O grito é uma manifestação sonora de altos decibéis por definição. Senão, a gente nem chama de grito. Bom , eu tentei gritar baixo algo como “Silêncio!”. Saiu uma espécie de sussurro histérico, daqueles que a gente ouve na “Bruxa de Blair”. Não funcionou e o pau continuou comendo na família que se ama gritando. Na segunda tentativa , a impressão foi que a mulherada simplesmente ficou ainda mais animada naquele festival de xingamento e choradeira. O meu terceiro grito, dessa vez dado em altos brados, funcionou. Elas se tocaram e ficaram quietas. Infelizmente a Clara acordou. Difícil gritar baixo e ser ouvido só por quem merece.
Escrito por Leonardo Cortez às 00h39
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