Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


ainda

A jovem atriz se encantou com o pintor. Achava ele ótimo nas cores, composições e principalmente na cama. O pintor era mais velho e amava loucamente. Morava num pardieiro, entre tintas e telas. Ele tinha uma habilidade enorme de tirar a roupa da menina ao mesmo tempo em que se despia e abria espaço na cama, afastando o gato e os restos de comida que repousavam por ali. Ela tinha vinte e poucos anos, ele tinha trinta e muitos e foi amor a primeira vista. A família da menina foi contra, mas acabaram cedendo quando a menina anunciou que tava indo morar no pardieiro. Como a família era tradicional, o pai disse que bancava a cerimônia de casamento. O pintor disse que festa de casamento era uma coisa pequeno-burguesa, mas que topava por causa da comida. Durante a cerimônia, os convidados repararam que o smoking tinha manchas de tinta. Depois descobriram que era o molho de mostarda. O pintor encheu a cara e vomitou na festa do próprio casamento. A menina achou lindo. Transgressor. Um artista pode tudo.

A menina tentou transformar o pardieiro num lar depois do casamento. Como o gato só dormia se fosse na cama e no meio dos dois, ela levou o bicho pra Cidade Universitária e o deixou por lá. Cinco dias depois,  o gato estava de volta, o que foi um mistério porque o pardieiro ficava a dois ônibus e um metrô de distância do campus. Um dia, os pais da menina anunciaram que iriam fazer uma visita. Ela fez questão de arrumar tudo pra chegada dos pais e pela primeira vez lamentou que o pardieiro não tivesse cadeiras o que obrigaria seus progenitores a se sentarem no chão. O pintor achou a preocupação pequeno-burguesa, mas segurou o comentário porque ela andava se irritando quando ele chamava alguma coisa de preocupação pequeno-burguesa. Quando os pais chegaram, era nítido o desalento dos velhos. Eles olhavam a mesma filha que anos antes namorava o Rubens,  que era filho de desembargador,  agora casada com aquele traste. E se perguntavam se o grande equívoco não tinha sido mandar a menina pro intercâmbio no Canadá, ocasião onde ela conheceu um grupinho de teatro amador e encasquetou que queria ser atriz, mesmo com aquela voz de taquara. O pintor se esforçou pra ser simpático, mas a visita ficou tensa depois que o pai recusou a água de torneira oferecida pelos anfitriões. Na saída do pardieiro,  a mãe, num misto de maldade com esperança, sussurrou no ouvido da filha:

-Encontrei o Rubens no clube. Ele te mandou um beijo.

Bom, hoje  a menina virou mulher e  tá casada com o Rubens. Leva uma vida de dondoca e a paixão pelo pintor virou um folclore familiar, um lembrança remota de uma época em que ela era tão porra-louca que até teatro ela fazia de vez em quando. Ela nunca mais ouviu falar daquele sujeito. Parece que ele ainda mora no pardieiro, com dois novos gatos, porque aquele anterior ela levou pro sítio da família em Minas Gerais pra ser devorado pelos rootwilers. Parece que ele namora com uma universitária fascinada por aquele talento todo que ainda se manifesta na hora de tirar a roupa e afastar os gatos do ninho de amor. E parece que a universitária está mesmo apaixonada, ainda sem saber que, depois de casada com o artista, tudo o que ela vai desejar é um bom e velho burguês como marido.



Escrito por Leonardo Cortez às 01h20
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Sonho

Estou no meio de uma estrada deserta sem saber de onde estou vindo ou para  onde estou indo. Os carros passam por mim, mas tenho muita dificuldade de pedir carona porque inexplicavelmente me faltam os polegares. Isso não me incomoda tanto quanto o fato de eu estar, também inexplicavelmente,  sem calças. Um caminhão avança no sentido contrário. Faço gestos desesperados com a minha língua que atraem a atenção do motorista. O caminhão para e quando a porta da boléia se abre, quem está no volante é a Ana Maria Braga numa versão mais velha, se é que isso é possível. Espantada com a minha língua que continua pedindo carona, mesmo contra a minha vontade, ela me pergunta se, na minha opinião, é possível tomar uma bebida fumengante num só gole. Eu respondo que não, sob pena de queimarmos as nossas orelhas. Ouvindo essa resposta,  ela atira no meu rosto o conteúdo de uma xícara de café que estava guardada dentro do porta-luvas. Sinto uma grande ardência nos pés, o que é estranho porque o café fervente me atinge as orelhas. Mesmo assim, agradeço a delicadeza e tento cumprimentá-la , antes de perceber,   aterrorizado,  que agora estou sem as mãos. De novo isso não me incomoda tanto quanto o fato de eu estar  ainda sem calças e, agora, de pantufas felpudas, como decorrência das queimaduras do café. Peço desculpas especificamente pelas pantufas, que me parecem inconvenientes pra o  ambiente da boléia, mas ela diz que não se incomoda,  uma vez que também está sem calças .

Foi nessa hora que eu acordei, empapado de suor.



Escrito por Leonardo Cortez às 00h15
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