overnight
Um dos grandes obstáculos que eu vou ter que enfrentar pra ficar rico é esse meu raciocínio numérico similar ao dos gorilas. Já escrevi sobre isso por aqui. Minha conta bancária é um Deus nos acuda, e a coisa só não é pior porque entra muito pouco dinheiro lá dentro. Posso até dar a sorte de ganhar algum dinheiro na vida mas vai ser uma dor de cabeça enorme calcular o indice de rentabilidade das aplicações. Hoje em dia, tudo o que eu faço quando me sobra grana no final do mês é colocar tudo na poupança, rezando pra que o governo não me confisque nada com algum argumento númerico que eu sei que eu não vou entender.
Pra piorar as coisas, eu, que já tive muita dificuldade em decorar o número do meu CPF, acabei sendo obrigado a abrir uma empresa. Eu sou autônomo, e hoje em dia todo autônomo tem que ter empresa que é pro governo extorquir a gente com mais eficácia. Eu não entendo nada de empresa. Eu sempre achei que empresa era um lugar onde eu teria uma mesa, um computador e com sorte, uma secretária boazuda. Até pouco tempo atrás, eu pensava que pessoa jurídica era o sujeito que trabalhava num fórum ou algo do gênero. Eu demorei alguns anos pra entender que a sigla LTDA significa limitada. Eu sei. Eu sou um ogro dentro dessa vida moderna contábil.
Aí, o meu contador fala de DARFS, COFINS, IOR, procuradoria e tudo o que eu faço é rezar pra que ele não esteja me passando a perna. Ainda bem que eu tô sempre na pindaíba, então, mesmo que o meu contador me passe a perna, ele não vai lucrar muito com isso. Um dia, eu sento com ele e ele vai me dizer tim-tim por tim-tim o significado de todas as siglas e porque as porcentagens são oscilantes, crescentes, decrescentes e o escambau. Um dia, eu vou saber calcular minha restituição. Um dia, eu tomo tudo de volta do governo e esqueço essa nostalgia dessa coisa que eu nunca tive, que é a carteira assinada , o vínculo empregatício, a cesta básica e outros benefícios. Eu sou esse autônomo analfabeto em contabilidade que vive nessa perpétua tensão de achar que todo mundo tá me passando a perna. Eu vou aprender, eu vou estudar , eu vou me esforçar. Eu sei que eu consigo, afinal, se eu consegui passar de ano em física na época da escola, então, tudo é possível.
Ok, o colégio era estadual, mas a professora de física era exigente...
Escrito por Leonardo Cortez às 00h17
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fim
Fizemos a última apresentação de Escombros na quinta-feira passada. Noite memorável, porque tudo deu certo, o teatro tava cheio de amigos e ainda por cima tomamos um baita porre de comemoração na casa do Gui depois da peça. Como é bom poder tomar porre de comemoração. Fica todo mundo falando alto, dizendo que se ama e contando piada. Dois dias depois, a gente recolheu o cenário lá nos Parlapatões e levamos tudo pro sítio. Terminou a peça. Muito bom poder acabar as coisas. Quero muito poder acabar as coisas que eu me proponho a fazer nessa vida. È uma meta. Não deixar nada inacabado pra poder começar tudo de novo, como sempre.
Vai chegar um dia em que eu não vou ter mais forças pra recomeçar do zero. Eu penso nesse dia: tô lá, refestelado na poltrona , pensando que o trabalho foi encerrado e que agora é preciso fazer alguma coisa nova, mas não tenho energia pra isso. É quando a morte vai bater à porta. Então, eu vou dizer: “Ok, eu vivi pra isso, não? Não dá pra reclamar de nada. Fiz o que eu achei correto, tratei bem as pessoas, tentei aprender o máximo possível pra passar alguma coisa boa pra quem conviveu comigo, mas agora, acabou. Atravessei com dignidade esse caminho tortuoso e se tem algumas pessoas que lembram boas histórias sobre a minha pessoa, então tá de bom tamanho, tchau”.
Morrer é uma coisa bem aborrecida, mas deve ser melhor chegar no fim sabendo que quase tudo foi concluído. Melhor que isso, só se eu morrer como o Marlon Brando no final do Poderoso Chefão. Um enfarte fulminante , enquanto eu brinco com o meu neto no meio da horta. Vai ser uma delícia morrer brincando com o meu neto, ainda mais se o meu neto pensar que aquela história de não levantar do chão faz parte da brincadeira.
Escrito por Leonardo Cortez às 23h06
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