(continuação...)
De qualquer maneira, sempre me lixei pra julgamento moral. Juízo de valor não me interessa. A mulher tinha entrado no circuito, escolhido essa vida, eu tava cagando pro sofrimento eventual de quem era o objeto da notícia. No começo da carreira de modelo ela mesma me ligou pessoalmente pedindo pra eu fazer falso flagrante dela com o novo namorado jogador de futebol. E o casamento com o Giordano teve cobertura maciça da minha revista. Que inclusive pagou a lua de mel dos dois em troca das fotos. E não foi lua de mel no Guarujá! Tamo falando de uma viagem pra África do Sul numas cidades que a mulher com certeza sequer tinha ouvido falar na vida. Eu estive com a Alicinha nas glórias e nas tragédias. Eu fui uma espécie de anjo trágico daquela infeliz, seja lá o que isso signifique.
Por isso, quando fiquei sabendo da notícia do divórcio da Alicinha eu quase caí da cadeira! Noticiamos imediatamente. O Giordano tinha saído de casa. Separação bombástica, milhões envolvidos no divórcio. Motivo alegado: incompatibilidade de agendas. Comentei com meus colegas: “nesse mato tem coelho”. Publicamos a versão oficial na certeza de que a verdade seria muito mais rentável. E foi.
Quando a ex-empregada doméstica da Alice veio me procurar dizendo que tinha uma bomba e que queria dinheiro, eu respondi que sim, que tava interessado. Paguei dois mil pela notícia que a menina veio trazer. Pouco pela dimensão da coisa. Mina de ouro. Segundo a empregadinha, Alice Brandão tava de caso com o seu segurança particular, conhecido como Jessé. O marido tava desconfiado da traição, tinha tido discussões homéricas com a ex-esposa, tinha demitido o Jessé. Saiu de casa em seguida, tava deprimido, tomando remédio, contratando os advogados. Botei um fotógrafo de tocaia da Alicinha e dois dias depois a confirmação: fotos do Jessé fazendo cafuné na socialite na saída do cabeleireiro. E como a gente tinha ética, chamamos a Alicinha na redação antes de publicar a matéria, no intuito de não assustar ninguém.
-Escuta aqui, Alicinha. Isso é informação jornalística. Não dá pra censurar a imprensa, eu disse, enquanto a copeira servia um cafezinho e a Alicinha via as fotos com aquela expressão trágica de quem sabe que tá condenada..
-Vocês querem desgraçar a minha vida! Vocês não sabem o que eu estou passando! O Giordano é violento, seus desgraçados! Se vocês publicam isso eu to f...
Alicinha desfilou o rosário de lamentações e evocou a época em que a redação tinha com ela uma relação harmoniosa. Bons tempos em que a Alicinha vendia revista sem precisar se envolver em algum escândalo. Era só a mulher a parecer em alguma festa que o vestido já garantia capa. Mas o tempo é implacável. E agora todo mundo precisava de um escândalo novo. De qualquer modo, eu tranqüilizei a moça. Prometi abafar ocaso. Ela quase me beijou na boca, sem saber que a minha palavra não vale porra nenhuma.
Na realidade, a culpa não foi totalmente minha. A revista ia mal das pernas. Fracassos editoriais, equívocos nas pautas, a crise do mercado, concorrência desleal. Os anunciantes faziam pressão. Quando o representante do patrocinador soube que a gente tava com o caso do Jessé com a Alicinha engatilhado, exigiu a publicação. Pensei: foda-se! Publicamos o escândalo agora e daqui a um mês a gente faz outra capa com essa mulher, dizendo que ela superou a depressão e tá agora em outra , com outro namorado mais novo e que o Giordano e o Jessé são coisa do passado. Autorizei a publicação da matéria, que inclusive era assinada por mim, porque eu sou homem que assume o que faz. .
Um homem que fez a revista vender que nem água naquela semana.
Minha carreira foi aos píncaros. O anunciante na mesma semana renovou o contrato com a revista. O dono da editora, o Senhor Alcides Figueira me repassou uma porcentagem de vendas dos exemplares da semana e a Sofia, uma executiva deliciosa a quem há tempos eu assediava sem sucesso, finalmente deu pra mim. Mesmo sendo casada. Com o dono da editora, o Senhor Alcides, diga-se de passagem.
Ok, eu sei que eu mereço as pedradas que eu levei. Talvez esse relato seja um alerta. A única manifestação de bondade de um ser humano abjeto. Minha bondade consiste em contar a minha história pra que outros não passem o que passei. Mas olhando pra trás, não sei se faria diferente. Não evoluí espiritualmente de maneira significativa através da dor. E não que eu não tenha apanhado pouco. Acho que é porque eu sou ruim, mesmo. (continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 15h49
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