eu e o Romário
Um amigo meu me chamou pra jogar futebol de segunda à noite com uns amigos dele. Não conheço ninguém da turma, só o meu amigo. Fui muito bem recebido, principalmente por estar com a grana na mão pra interar no pagamento do aluguel do campinho. Fazia uns três anos que eu não jogava. Minhas chuteiras de futebol society estavam mofadas no fundo do armário. Usei o meião preto que eu roubei do figurino da Floribella e como não tenho shorts, tive que vestir um bermudão jeans que atrapalha os meus movimentos. Pra completar o uniforme, uma camisa da seleção brasileira que eu comprei na Copa de 2002. Fiquei ridículo naquela roupa. E foi ridícula a minha performance.
Eu já jogava mal pra caramba quando era mais novo. Agora que eu tô mais velho e mais gordo, meu desempenho é patético. Toda aquela simpatia dos novos companheiros deu lugar à sensação de que agora tinha um jogador café-com-leite no time. Depois de cinco minutos de jogo, o meu fôlego acabou. Meu domínio de bola tava bizonho. Recebi um passe junto à linha lateral e a bola escapou por baixo do meu pé. Fui dar um chute de esquerda, porque nos bons tempos eu chutava muito bem de esquerda e a bola foi parar à 50 metros do gol. O povo de lá joga naquele esquema com um time de fora. Cada jogo dura dez minutos e quem ganha, fica pro próximo. Meu time perdeu boa parte das partidas e entre um jogo e outro ninguém falava comigo no banco de reservas.
Nesses rachões sempre tem aquele babaca que leva a pelada à sério. É o cara que quando chuta pra fora grita um palavrão de inconformismo. É o cara que orienta a marcação e grita coisas como “raça, time!”. Pois é. Tinha um cara assim jogando lá. Ele ficava puto cada vez que eu errava e lá pelas tantas a gente quase saiu na porrada. Ainda bem que a gente se controlou, mesmo porque ele era bem mais forte do que eu.
Então veio a última partida. Que estava zero a zero quando a bola expirrou dentro da área e eu , com certa dificuldade por causa da bermuda jeans, toquei pro gol quase em cima da linha. Gol! Vibrei discretamente como se fazer um gol fosse algo corriqueiro pra mim. Mas naquele momento, só eu sabia que aquele seria meu último gol. Ontem eu me despedi dos gramados. Preciso ter noção do ridículo antes que alguma tragédia aconteça. E não tô falando do medo de apanhar do babacão que leva o jogo à sério. Tô falando do meu joelho que depois do jogo começou a doer como se eu tivesse sido submetido à uma sessão de tortura promovida pelo Jack Bauer.
Escrito por Leonardo Cortez às 16h05
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