Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


Encontro

Foi um pouco chato encontrar com ela depois de tanto tempo. Na verdade, ela bem que tentou disfarçar quando me viu. Deu aquela abaixada de olhos e se eu tivesse abaixado os olhos também nada daquilo teria acontecido. Mas  eu insisti, de modo que , quando ela olhou de novo, eu tava olhando pra ela ainda. Aí ela fez aquele arzinho de surpresa e falou algo como:

-Ôpa...

Se depois de tanto tempo a primeira coisa que alguém te  diz quando te vê  é “opa”, então definitivamente esse reencontro não vai valer a pena. Ok, pode ser um “opa” sorridente, o que livra um pouco a barra do “opa”. Alias qualquer coisa que uma mulher me diga sorrindo me deixa um pouco lânguido, mesmo que seja algo como  “eu vou te encher de porrada, seu viado”. O fato é que ela disse um “opa” bem desanimado e  naquela altura eu já sabia que tinha cometido um erro ao ter me dirigido à ela. Eu poderia responder com um silêncio gélido aquele “opa” chinfrim. Ela iria me achar mal educado, ou deprimido, mas seria melhor do fazer a pergunta que eu fiz:

-E aí?

Me arrependi na hora de ter dito “e aí?” . Odeio quando me perguntam “e aí?”, essa pergunta típica que a gente faz quando não tem nada pra perguntar.  Jesus Cristo já disse pra não fazer com os outros o que não queres que te façam, mas eu fiz! Perdão Senhor. Perguntei “e aí?”. Então ela respondeu:

-E aí.

Assim. “E aí.”. Como quem tá afirmando. Eu quis matar a menina. Como é que alguém responde um “e aí?” com um “e aí.” Um “e aí?” não é como o “tudo bem?” que pode ser respondido com um “tudo bem” . Um “e aí?”  é uma intimação. Subentende-se que eu esteja intimando o meu interlocutor a dizer alguma coisa. Um “e aí” é praticamente um pedido de socorro: “não sei mais nada sobre você. Acho que nem lembro seu nome. E aí? Diga  alguma coisa interessante. Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus!”

-Tudo bem?, ela pergunta.

-Tudo bem, eu respondo.

Mas nada está bem. As coisas estão péssimas. Eu não queria ter entabulado esse papo cretino, tá na cara que ela também não. A gente nunca foi amigo naquele trabalho de tanto tempo atrás. Eu tenho a sensação de que ela me achava um idiota na época. E agora a gente está aqui, perguntando cretinices e usando a mesma frase na resposta. Eu quero sumir. Sumir! Posso sair correndo. Agora! Dar um grito e correr pro banheiro.  Ela vai pensar que eu enlouqueci. Dane-se! Ela já me achava um idiota! È isso! Já avistei o banheiro. Um, dois e...

-O que você anda fazendo?

Era o que eu temia. Odeio dizer o que eu ando fazendo nesse tipo de situação. Não que eu ande fazendo bobagens ou algo que eu me envergonhe, mas tá na cara que ela não vai se interessar pela minha resposta. Mas eu digo. Conto os  detalhes da minha última peça pra ver se ela dá um grito e sai correndo pro banheiro. Mas ela não grita e pro meu desespero, começa a me contar  o que ela anda fazendo!

Nessa altura eu tô suando frio. Eu percebo que ela sente a mesma coisa que eu, que ela me acha desinteressante,  que ela preferia não estar ali. Ela  achou um saco essa história de que eu continuo fazendo teatro  e o escambal. Ela inclusive me interrompeu pra dizer que ela está “trampando”  numa produtora. E daí?, eu penso. Fazendo um documentário sobre os índios da periferia. A periferia invadiu o campo e uma reserva indígena tá ameaçada. O crescimento desordenado, o desrespeito à cultura indígena, a câmera HD, o diretor que é o máximo! Ela é apaixonada pelo diretor, o Pupo. Agora nada mais importa. A minha cara de tédio, o meu bocejo contido, ela não me olha. Ela só tem olhos pro Pupo e pros índios da periferia!

E antes que eu saia gritando pro banheiro, eu digo que tenho que ir. Ela tira o cartão da bolsa e me entrega, dizendo  que a produtora faz uns castings e que daqui a pouco eles iam precisar de um  ator engraçado pra fazer um “job”. Por isso ela  pede o meu telefone. Eu não tenho cartãozinho, então ela anota o número no celular.

Ela nunca me ligou. Acho que não peguei  o “job”...



Escrito por Leonardo Cortez às 01h03
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06 de junho

Escombros reestréia no Espaço dos Parlapatões dia 06 de junho. Estou empolgadíssimo porque sempre achei que a peça merecia mais uma temporada em São Paulo. A gente foi muito bem no Centro Cultural, participamos da Viagem Teatral do Sesi, a Maria Lucia Candeias botou a peça nas nuvens e o escambal. Depois, como sempre acontece, um foi arranjando um trampo aqui e ali e tudo foi ficando dificílimo. Mas agora Escombros pode alvorecer em grande estilo, finalmente. Vai ser ótimo voltar a  ver a Glau fazendo a Nolinha. Vai ser ótimo poder contar essa história de novo. Por enquanto, palmas pra minha velha raça presenteada porque insisti à beça nesse espetáculo quando todo mundo já tinha se cansado.

Raça também é importante.



Escrito por Leonardo Cortez às 22h38
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quinze horas

Hoje o Jabá me comoveu. Ele nem sabe disso, porque eu sou duro na queda e não demonstro. Mas quando ele disse que ia comigo na reunião pra que eu não levasse aquela bucha toda sozinho, pô, o cara me comoveu. Depois,  eu fui na reunião sozinho. O Jabá vai ser pai daqui a pouco, tem que ficar com a esposa. No meio da reunião eu lembrei do Jabá. E perdi o raciocínio durante a minha colocação mais importante.

Escrito por Leonardo Cortez às 00h01
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limão à gosto...

Quando eu liguei a televisão, o Palmeiras tava ganhando de 2 a 1. Pensei comigo: "é hoje que eu vejo meu time ganhar finalmente". Então o Flamengo empatou logo em seguida. Pensei: "fudeu. Continuo o mesmo pé-frio". Mas insisti. E o Palmeiras venceu por 4 a 2. Não muda nada a minha vida, mas o que é o futebol,  senão essa pinga sem ressaca?

 

E falando em pinga sem ressaca, na Fórmula 1 parece que o Massa ganhou de novo. Mas o que importa é que o Rubens Barrichello fez outra excelente corrida com aquela carroça da Honda e chegou em décimo. De novo, na frente do Button, o companheiro de equipe, o que atesta que o brasileiro ainda está em forma. Infelizmente, dessa vez o Takuma Sato chegou na frente do nosso herói. Em Mônaco tem mais!

 

O circuito de Barcelona é um lixo. Ninguém ultrapassa ninguém e as corridas de lá normalmente são entediantes à beça. Cochilei no meio da prova e quando acordei, o Papa já estava rezando a missa. O Papa é simpaticíssimo e fala português fluentemente, o que massageia o ego de uma  nação cuja auto-estima tá sempre baixa. Tá certo que o português fluente e a simpatia do velhinho não aliviam o fato dele ser contra a camisinha e contra os gays, mas o que é a Igreja Católica senão essa espécie de madrasta da humanidade, que existe só pra ser desobedecida?

 

Dias atrás o frio voltou pra alegria de todo mundo que tem um casaco no fundo do armário e não sofre de reumatismo. Minha rinite alérgica eclodiu numa sinfonia de espirros e assoadas e ainda assim, cada milhonésimo da baixa temperatura foi recebido por mim com a alegria de quem sentiu que o efeito estufa ainda não decretou o final do nossa espécie. Infelizmente durou pouco e hoje já tava todo mundo usando regata lá no Parque Morumbi, onde a Clara foi roubar baldinho de areia das outras crianças, porque roubaram o baldinho dela lá na pracinha da Chácara Santo Antônio.

 

Os problemas de produção da minha peça andam colocando o meu casamento em risco. A Gláucia não agüenta mais ouvir as minhas reclamações e diz que se eu continuar sendo tão chato e obsessivo com o teatro das duas uma: ou ela abandona a carreira de atriz ou ela se divorcia. Com muito tato, eu  a convenci de tomar uma decisão sobre isso depois da nossa estréia. Na sexta,  tive uma longa reunião orçamentária com o Zé. Ao final de três horas de elaboração de três tipos diferentes de orçamento, com  previsões reais, otimistas e pessimistas, a gente chegou à conclusão de que mesmo sem um tostão a gente vai produzir uma peça de trinta mil reais. Já foi o suficiente pra eu conseguir dormir depois de duas noites de insônia. Pena que a Clara acordou com pesadelinho às três da manhã...

 

E vamos voltar a fazer “Escombros” lá nos Parlapatões. Estou eufórico e com insônia de novo. Palpitações esporádicas, dores de cabeça estranhas, a rinite alérgica me causando apnéia e um monte de doce que a gente ganhou de presente em Poços de Caldas pra me engordar enquanto eu padeço dessa ansiedade. Ainda bem que o Rubinho, o Papa e o Palmeiras me consolam. E eu só escrevi essa frase pra dar um sentido no texto como um todo.

 

Não funcionou...



Escrito por Leonardo Cortez às 00h21
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