Encontro
Foi um pouco chato encontrar com ela depois de tanto tempo. Na verdade, ela bem que tentou disfarçar quando me viu. Deu aquela abaixada de olhos e se eu tivesse abaixado os olhos também nada daquilo teria acontecido. Mas eu insisti, de modo que , quando ela olhou de novo, eu tava olhando pra ela ainda. Aí ela fez aquele arzinho de surpresa e falou algo como:
-Ôpa...
Se depois de tanto tempo a primeira coisa que alguém te diz quando te vê é “opa”, então definitivamente esse reencontro não vai valer a pena. Ok, pode ser um “opa” sorridente, o que livra um pouco a barra do “opa”. Alias qualquer coisa que uma mulher me diga sorrindo me deixa um pouco lânguido, mesmo que seja algo como “eu vou te encher de porrada, seu viado”. O fato é que ela disse um “opa” bem desanimado e naquela altura eu já sabia que tinha cometido um erro ao ter me dirigido à ela. Eu poderia responder com um silêncio gélido aquele “opa” chinfrim. Ela iria me achar mal educado, ou deprimido, mas seria melhor do fazer a pergunta que eu fiz:
-E aí?
Me arrependi na hora de ter dito “e aí?” . Odeio quando me perguntam “e aí?”, essa pergunta típica que a gente faz quando não tem nada pra perguntar. Jesus Cristo já disse pra não fazer com os outros o que não queres que te façam, mas eu fiz! Perdão Senhor. Perguntei “e aí?”. Então ela respondeu:
-E aí.
Assim. “E aí.”. Como quem tá afirmando. Eu quis matar a menina. Como é que alguém responde um “e aí?” com um “e aí.” Um “e aí?” não é como o “tudo bem?” que pode ser respondido com um “tudo bem” . Um “e aí?” é uma intimação. Subentende-se que eu esteja intimando o meu interlocutor a dizer alguma coisa. Um “e aí” é praticamente um pedido de socorro: “não sei mais nada sobre você. Acho que nem lembro seu nome. E aí? Diga alguma coisa interessante. Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus!”
-Tudo bem?, ela pergunta.
-Tudo bem, eu respondo.
Mas nada está bem. As coisas estão péssimas. Eu não queria ter entabulado esse papo cretino, tá na cara que ela também não. A gente nunca foi amigo naquele trabalho de tanto tempo atrás. Eu tenho a sensação de que ela me achava um idiota na época. E agora a gente está aqui, perguntando cretinices e usando a mesma frase na resposta. Eu quero sumir. Sumir! Posso sair correndo. Agora! Dar um grito e correr pro banheiro. Ela vai pensar que eu enlouqueci. Dane-se! Ela já me achava um idiota! È isso! Já avistei o banheiro. Um, dois e...
-O que você anda fazendo?
Era o que eu temia. Odeio dizer o que eu ando fazendo nesse tipo de situação. Não que eu ande fazendo bobagens ou algo que eu me envergonhe, mas tá na cara que ela não vai se interessar pela minha resposta. Mas eu digo. Conto os detalhes da minha última peça pra ver se ela dá um grito e sai correndo pro banheiro. Mas ela não grita e pro meu desespero, começa a me contar o que ela anda fazendo!
Nessa altura eu tô suando frio. Eu percebo que ela sente a mesma coisa que eu, que ela me acha desinteressante, que ela preferia não estar ali. Ela achou um saco essa história de que eu continuo fazendo teatro e o escambal. Ela inclusive me interrompeu pra dizer que ela está “trampando” numa produtora. E daí?, eu penso. Fazendo um documentário sobre os índios da periferia. A periferia invadiu o campo e uma reserva indígena tá ameaçada. O crescimento desordenado, o desrespeito à cultura indígena, a câmera HD, o diretor que é o máximo! Ela é apaixonada pelo diretor, o Pupo. Agora nada mais importa. A minha cara de tédio, o meu bocejo contido, ela não me olha. Ela só tem olhos pro Pupo e pros índios da periferia!
E antes que eu saia gritando pro banheiro, eu digo que tenho que ir. Ela tira o cartão da bolsa e me entrega, dizendo que a produtora faz uns castings e que daqui a pouco eles iam precisar de um ator engraçado pra fazer um “job”. Por isso ela pede o meu telefone. Eu não tenho cartãozinho, então ela anota o número no celular.
Ela nunca me ligou. Acho que não peguei o “job”...
Escrito por Leonardo Cortez às 01h03
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