Paulo Autran
De vez em quando eu ligo pro Paulo Autran. Se eu digo: “É o Leonardo, Paulo...”, ele pergunta: “O Vieira?”. Então , eu tenho que dizer que é o Leonardo Cortez senão ele não reconhece pela voz. O Paulo não tem muita paciência de conversar pelo telefone. Ele sempre pergunta como está o meu filho, eu sempre digo que é filha e que ela está linda. Então eu pergunto: “Vamos tomar um café um dias desses, Paulo? Ele responde: “Claro. Me liga pra combinarmos...” e desliga em seguida, antes que eu possa dizer que liguei justamente pra combinarmos.
Tenho que ser rápido pra conversar com o Paulo Autran. Ele tá sempre na correria. Quando eu trabalhei junto com ele em Curitiba a gente pôde conversar bastante, o que foi uma grande honra. Eu sou fã do Paulo Autran. É o nosso maior ator. Ponto. “O Avarento” é uma montagem bem mal dirigida que só vale por ele. E isso não é pouca coisa, acreditem. Tentei fazer um documentário sobre o Paulo, mas o projeto degringolou. Uma merda, porque o Paulo merece um documentário. O Paulo é o Nelson Freire do teatro, pombas!
Lá em Curitiba a gente dava uns passeios. Um dia ele me levou pra conhecer o Teatro Guaíra. O teatro tava fechado. Ele bateu na porta, o segurança quase teve um troço.
-Eu queria mostrar o teatro pro menino, é possível?
Entramos imediatamente. De repente, ele silenciou, como quem está dentro de uma igreja.
-Perceba a grandiosidade desse teatro.
Eu percebia. Ele ficou em silêncio. Trocentas mil lembranças daquele palco. Então ele pescou uma:
-Aqui eu fiz o Julgamento de Otelo...
O Guaira lotado, o Paulo de Otelo, aquela ovação toda. E naquela hora, o Paulo em silêncio, no silêncio do teatro que era um mundo de lembranças.
Aquele silêncio ia ficar lindo num documentário...
Escrito por Leonardo Cortez às 14h15
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