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Memórias de um Jogador Mediano parte 1
Quem vê essas fotografias que enfeitam as paredes do meu restaurante não tem a noção do que o futebol foi pra mim. É bem verdade, fui um jogador mediano, daqueles que quase ninguém se interessa por saber a trajetória. Vez por outra me assisto como coadjuvante em algum vídeo dos grandes momentos do futebol, sempre levando um drible de algum jogador mais bem afortunado pelo destino. No entanto , tenho dentro de mim a mais absoluta certeza de que fui , de todos os jogadores que já jogaram futebol um dia , um dos mais apaixonados. E, não posso negar, como todo apaixonado que não vê seu amor correspondido, um dos mais tristes. Amei a bola , mas não soube acarinha-la. Não foi por falta de boa vontade.
Desde pequeno jamais me imaginei fazendo outra coisa. Foi uma surpresa constatar meu talento gastronômico que me levou a ter esse restaurante. Mesmo sendo o dono do estabelecimento, não deixo de por a mão na massa. Marcação cerrada em cima dos garçons vagarosos ou do cozinheiro que não acerta no tempero. Ainda assim, às vezes me sinto melancólico quando fecho a conta dos meus clientes empapuçados, afinal não tenho dúvidas que meus melhores momentos como empresário do ramo da alimentação nunca chegarão aos pés dos meus piores como jogador, ainda que hoje eu tenha dinheiro e um patrimônio invejável. Alguns clientes puxam prosa comigo vez por outra. Começam dizendo que me viram jogar, mas é tudo pretexto pra depois começarem a chover os comentários sobre as grandes jogadas que os adversários fizeram em cima de mim. O chapéu que levei de Fulano, a bola por baixo das pernas que levei de Ciclano e etc. Pobres mortais. Não percebem a minha grandeza. Nunca entenderam que mais vale ser um bobo dentro das quatro linhas do que um espectador passivo fora delas. Amigos, eu fiz parte do espetáculo. Por isso roam-se de inveja.
Porque eu tive meus grandes momentos e mesmo que ninguém se lembre, eu marquei gols! Foram dois, mas foram meus. É uma boa média pra quem é zagueiro. Marquei o dobro disso em gols contra, o que também é uma boa média, já que eu joguei por vinte anos. Conheço zagueiros que fizeram muito pior em muito menos tempo, muito embora estes tenham tido o bom senso de desistir a tempo de não apanharem da torcida. Isso nunca aconteceu comigo. Sempre fui mais rápido na hora de fugir. Vinte anos percorrendo o Brasil, meu amigo. Muitas histórias pra contar. Marquei gols de placa em minhas conquistas amorosas. Eu tinha que ser muito rápido. Se a menina me visse jogando , certamente perderia o interesse por mim. Um dia , após uma partida, uma mulher me abraçou e disse: “Você foi o melhor”. Jamais esquecerei esse gesto de minha mãe, que Deus a tenha. Por isso , o prato mais caro da casa chama Camarão à Dona Risoleta, que diga-se de passagem, cozinhava mal pra burro, apesar de ser uma mãe muito devotada e com certeza muito paciente , por aceitar ser ofendida em quase todas as partidas em que eu atuava.
Mas, voltando aos amores de juventude, numa partida disputada em Birigui , uma menina da torcida disse que jamais tinha visto um jogador como eu. Hoje ela é minha esposa, Jacira, e eu a considero a mulher mais linda do mundo, mesmo quando ela está usando os seus óculos fundo de garrafa , já que tem doze e meio de hipermetropia.(continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 21h09
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Memorias de um jogador mediano parte 2
Sou um homem rico e realizado dentro do ramo dos restaurantes, mas as lembranças ainda me atormentam. Lembro até hoje do malfadado dia em que tive que parar de jogar futebol. Fui discutir a renovação do meu contrato com a diretoria e pedi o dobro do que eu estava ganhando, o que já não seria muita coisa. Então, o presidente do clube me ofereceu o dobro do que eu tava pedindo pra eu ir embora. Recusei, dizendo que se eu ganhasse metade do que eu ganhava ficava no clube sem problemas. Não adiantou. A ingratidão sempre fez parte da vida de um jogador. Vide o que fizeram com o Wanderleison. Aposto que ninguém lembra do Wanderleison, porque o mundo é ingrato! Um jogador como ele , esquecido! Foi com muito prazer que eu o empreguei como garçom, mesmo que como garçom ele seja um belo perna de pau.
Ainda hoje disputo minhas peladas com a turma dos veteranos . Grandes craques do passado ainda jogam por lá, com toda a vitalidade que ainda lhes resta com os seus oitenta anos de média. Eu ainda estou nos quarenta , mas rendo mais jogando com o pessoal da terceira idade. Eles jogaram numa época em que o futebol era coisa pra artistas. Nada da violência de hoje em dia. Mesmo na minha época a coisa já não era fácil. Quando joguei em Alagoas, disputei uma partida tão violenta que ela teve que ser interrompida antes mesmo da bola ser colocada em jogo. E falando em violência , quero dizer uma coisa que ninguém sabe, a não ser minha mulher e meu filho, que quando escutam essa história inexplicavelmente saem da mesa e se recusam a comer o resto do almoço: eu nunca fui expulso na minha carreira. Tudo bem , isso não é um mérito muito grande para alguém que raramente entrava em campo como titular, mas acredito que sou merecedor de um prêmio fair- play.
Está bem, eu confesso que não é fácil chegar a conclusão que fui um jogador ligeiramente mal sucedido. Mas entendam. O futebol sempre foi tudo pra mim. O futebol é tanto pra tanta gente. Tudo que fiz foi dar vazão a minha paixão, como um menino feio que se encanta com uma professora e por isso se esforça pra tirar boas notas , mesmo sendo burro e não conseguindo ir além da nota 4,5. O que eu quero dizer é que eu não me arrependo de nada. Não me arrependo de ter ido jogar na terceira divisão, de ter tentado dar aquela bicicleta e cair em cima da minha omoplata que até hoje é torta porque calcificou errado, de ter dado a bola de presente pro Nunes fazer aquele gol quando faltavam dois minutos pro fim do jogo, de ter batido aquela falta sem amarrar direito a minha chuteira , o que a fez ser arremessada com a velocidade de uma bala bem na testa do nosso técnico que estava no banco de reservas, enfim, não me arrependo de nada!
E agora, com licença que o cliente da mesa trinta e dois está reclamando que a sopa de peixe está sem sal. Obviamente é um imbecil, que não entende nada de Cabeças de Bagre.
Escrito por Leonardo Cortez às 21h08
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2027
Fiz um desenho de como eu vou estar em 2027, aos cinqüenta e dois anos. Vinte anos me separam dessa idade, o que não parece muita coisa e isso é bem assustador. Eu lembro com muita clareza do que aconteceu vinte anos atrás: o Brasil perdeu do Chile na Copa América por 4 a 0 e o Piquet foi tri-campeão do mundo de Formula 1. Eu tava na quinta série e levei um soco no estômago do Samuel, o maloqueiro que sempre zoava comigo na escola. Ano passado, cruzei com o Samuel na rua. O cara agora é um homenzarrão de trinta e poucos anos, mas a cara de moleque continua a mesma. Pensei em falar com ele, relembrar os velhos tempos, mas fiquei com medo de ser zoado de novo e levar outra porrada. As memórias de vinte anos atrás são fresquíssimas o que prova que o tempo voa.
Tô ficando velho e daqui vinte anos eu não vou ser mais esse gatinho, pode ter certeza. Minha genética não é das melhores, minha pele não é a do tipo viçosa, até hoje eu tenho espinha. Daqui vinte anos talvez eu tenha me livrado da oleosidade excessiva, mas as rugas, que já estão dando o ar da graça hoje em dia, só vão piorar. Isso sem falar nas manchas dermatológicas e na barba grisalha. Do meu cabelo, que sempre foi ralo, não esperem que vá sobrar muita coisa. E se a minha tendência pra obesidade se confirmar, eu vou ter que dar graças a Deus por não ter um enfarte fulminante cada vez que subir um lance de escada.
Olhando o desenho que eu fiz, realmente não dá pra ficar muito entusiasmado com os efeitos do tempo sobre mim. Bom, ninguém fica. Então eu dei uma caprichada em alguns detalhes. No meu olhar tem uma certa serenidade idiota, fruto de algum pensamento sábio que contesta momentaneamente a certeza de que tudo piora. Os lábios esboçam um meio sorriso, talvez porque a Gláucia, minha esposa matrona, irá preparar panqueca pro almoço, ocasião onde iremos recapitular a lista de convidados das nossas bodas de prata. Eu apoio o rosto sobre o punho e pareço estar descansado, apesar das preocupações com a Clara que tá na Europa no esquema "mochila" me ligando uma vez por semana pra pedir dinheiro. Os cabelos que sobraram estão cumpridinhos, o que mostra que eu ainda vou cultivar alguma rebeldia. Minhas sobrancelhas estão duas vezes mais grossas, meu nariz é imenso e continua alérgico, tem dois tufos de pêlos nascendo nas minhas orelhas e eu to vestindo uma camiseta velha de algodão numa segunda feira à tarde. Pois é. Eu não sairei de casa nesse dia de 2027. Vou trabalhar lá no escritório que eu montei no nosso sítio, onde eu e a Glaucia moramos já há algum tempo. Tô escrevendo uma peça nova. A vigésima segunda da carreira. No fundo do desenho, em cima de uma estante, eu desenhei uns trofeuzinhos que eu vou receber ao longo dessas duas décadas. Tão lá o prêmio Shell, dois Kikitos, um Candango, a chave da cidade de Pindamonhangaba, etc...
Aos cinqüenta e dois anos eu vou ser feio, mas bem sucedido.
Escrito por Leonardo Cortez às 02h09
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