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Quebra-Cabeças
Ele era dono de um sebo, obcecado por quebra-cabeças. Pra preencher as longas horas de tédio enquanto ninguém entrava no seu estabelecimento, ele se dedicava à montagem daqueles quebra- cabeças de milhares de peças que depois eram emoldurados e pregados nas paredes. As paredes do sebo eram forradas das centenas de quebra-cabeças que ele tinha montado ao longo de anos e que agora exibia como troféus pra muito pouca gente, já que muito pouca gente entrava no sebo.
Tarde dessas, quando ele estava como de hábito se dedicando ao seu maior hooby, uma cliente apareceu. Perguntou sobre algum livro, mas logo se interessou pelo quebra-cabeça.
-Quantas peças?, ela perguntou.
-Esse tem só quinhentas. Coisa simples. Meu maior desafio é esse aqui.
E aproveitando o interesse da moça, ele mostrou uma caixa enorme, lacrada, onde repousavam as dez mil peças de uma linda paisagem nevada.
-As paisagens nevadas são as mais difíceis porque as peças são muito parecidas umas com as outras...
Ela concordou e disse que também adorava quebra-cabeças.
-Qual seu nome?
-Maria Rita.
E depois de dizer o nome, Maria Rita deu um sorriso onde os dentes se encaixavam perfeitamente um com outro, conforme ele reparou pra seu secreto encantamento.
No dia seguinte, Maria Rita apareceu de novo e no meio de uma conversa boba, tomou a liberdade de tentar encaixar algumas peças do quebra-cabeças que ele montava em cima do balcão. Ela era ótima com quebra-cabeças e naquele dia, encaixou quase cinqüenta peças. Não há dúvida que ela teria terminado o serviço se não tivesse que voltar pra casa antes das seis da tarde.
-Casada?, ele perguntou antes dela se despedir.
Ela hesitou. Baixou os olhos e disse quase num murmúrio:
-Separando...
Durante semanas, ela continuou passando no sebo mais ou menos no mesmo horário, começo de tarde. Ela sempre o ajudava na montagem dos quebra-cabeças, tudo em meio a animadas conversas. A grande caixa da paisagem nevada permanecia intacta, como um desafio final. Por enquanto, os dois compartilhavam a confecção de outras paisagens: cenas da Europa, sítios arqueológicos e lugares idílicos. Cada montagem consumada era pretexto pra um novo sonho compartilhado. Ela ria e montava cada vez mais rápido como se fosse urgente recolocar as peças no lugar e num dia, depois de concluída a pirâmide do Egito, eles se beijaram. Ele trancou a porta do sebo e tirou a roupa de Maria Rita. Declarou seu amor, mas Maria Rita não falou nada. O semblante fechado, apesar de linda, nua, no meio dos livros velhos e dos quebra-cabeças emoldurados.
(continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 23h32
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Ela disse que voltava no dia seguinte, mas não apareceu.
Nem no dia seguinte, nem no outro, nem no outro. Ele percorreu a vizinhança, dava a descrição, mas ninguém conhecia a menina. Ele nunca tinha se preocupado em perguntar especificamente o seu endereço, se contentando quando ela dizia que morava “nas redondezas”. Depois de algumas semanas de saudade dilacerante, ele se desesperou. Vagava pelas ruas atrás de Maria Rita e deu pra beber. O sebo foi à falência e ele vendeu o seu acervo de livros antigos pra um carroceiro que reciclava papel. Todos os quebra-cabeças emoldurados foram queimados numa grande fogueira e ele se refugiou no velho apartamento onde morava sozinho desde a morte da mãe. O apartamento tinha pouquíssima mobília. Um sofá, duas cadeiras, uma mesa de jantar e em cima da mesa, a grande caixa do quebra-cabeças de dez mil peças da paisagem nevada. O desafio final que ele jurou vencer, antes de dar cabo da própria vida, pulando pela janela.
Ele demorou seis meses pra montar o quebra-cabeças da paisagem nevada. Como não comia direito, tinha vertigens e dificuldades pra se concentrar. Muitas vezes dormia com a cara na paisagem inacabada e acordava com o rosto tatuado pelos contornos das peças. Às vezes, se enjoava daquela brancura da neve e sentia vontade de desistir, mas lembrava que a finalização daquela tarefa era o passaporte pro fim da sua vida desgraçada e por isso continuava.
Até que um dia, aconteceu: depois de colocada a última peça e vendo que a paisagem nevada se apresentava gigantesca ante seus olhos em todo o esplendor das suas dez mil peças, ele se sentiu, pela primeira vez em todos aqueles meses, liberto e feliz. Pular da janela já não fazia parte dos planos, Maria Rita era uma lembrança distante e recomeçar pareceu-lhe possível.
No dia seguinte, tomou banho, fez a barba e saiu de casa. Andou o dia inteiro, numa satisfação enorme. Depois de idas e vindas preenchidas por pensamentos de esperânça, ele voltou pra casa e com grande horror descobriu que a porta estava escancarada e que o seu apartamento tinha sido invadido Ao entrar, tudo estava intacto a não ser o quebra cabeça da paisagem nevada, totalmente desfeito, as peças amontoadas no centro da mesa. Ele se ajoelhou diante do trabalho destruído e chorou num misto de raiva e incompreensão. Então, sentiu a mão de Maria Rita sobre seu ombro. Ela estava muito mais magra e envelhecida. Ele bombardeou a menina de perguntas, mas não obteve resposta nenhuma. Em silêncio, ela sentou-se à mesa e começou a separar as peças do quebra-cabeça. Em seguida, encaixou uma peça com outra.
Ele ficou algum tempo observando o grande amor da sua vida e depois, começou a ajudá-la.
Escrito por Leonardo Cortez às 23h30
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Woody
Quem me conhece sabe que nessa altura do campeonato eu já assisti o novo filme do Woody Allen. De cara, digo que não achei grande coisa. O que não invalida a minha admiração perpétua pelo cara. Manhatan, Annie Hall, Memórias e Broodway Danny Rose seguem no topo da lista. Crimes e Pecados, Tiros na Broodway e Todos Dizem Eu Te Amo vem na carona. Revi Hanna e suas Irmãs e A Outra recentemente e não me arrependi. Woody Allen continua o fino.
É como diz o Zé: ver um novo filme do Woody Allen todo ano é como reencontrar um velho amigo. Ele tá bem e continua mandando lembranças.
Escrito por Leonardo Cortez às 22h20
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Mais um conto pra você, Regina
CARTA À SÔNIA
Mais um dia em que eu acordo sem você , Sônia. Ao menos tenho dormido, principalmente depois que meu estomago deixou de me atacar. O antiácido que você me recomendou é ótimo, quero dizer, pelo menos no que diz respeito à azia. O remédio tinha várias contra-indicações, mas mesmo assim tomei o comprimido. Dentre as reações adversas especificadas na bula, estavam taquicardia , sonolência e erupções na pele. Tive as três , além de um formigamento inexplicável na perna direita. Liguei para o dr. Olavo, mas ele se recusou a falar comigo. Eram 3:15 da manhã , mas em geral é justamente nessa hora que o pé formiga. Preciso ligar na hora, porque senão não consigo descrever em detalhes os sintomas. É o velho problema de memória que me ataca desde que...droga, não me lembro! Ontem, quando fazia o café, observei uma leve tremedeira na mão direita , mas preferi não criar alarde e resolver o problema utilizando a medicina alternativa que você me ensinou. Sentei junto à varanda e tentei me colocar na posição de lótus, o que foi impossível visto que tenho aquele antigo problema de hérnia no joelho. Dessa forma sentei numa cadeira, fechei os olhos e tentei aspirar com o máximo de serenidade ioga possível . Eu digo tentei , porque você sabe que já é de longa data os problemas que tenho no nariz . Meu desvio de septo está cada vez pior, de modo que ao tentar aspirar , o ar não veio . Entrei em pânico e só não tive uma apnéia porque imediatamente abri a boca e respirei por ali, evitando o pior. O único problema é que na minha aflição, levantei de sobressalto da cadeira, batendo com a cabeça no batente da janela e criando na testa um galo de grandes proporções. Pensei que seria prudente uma compressa de gelo, mas meu senso de alto proteção me alertou a tempo , trazendo à minha memória a lembrança do dia em que me utilizei desse artifício para diminuir o inchaço proveniente de uma topada que dei no dedão e, conseqüentemente , apanhei um resfriado.
E falando em resfriado, lembrei ontem do dia em que nos conhecemos. Eu estava justamente acometido de um, quando me arrastei à farmácia em busca de uma aspirina. Você estava junto ao balcão , linda, segurando duas ampolas de injeção que dentro de instantes seriam aplicadas em suas doces e delicadas nádegas. Sua expressão era de medo e receio, mas a minha experiência em injeções e afins foi o suficiente para consolá-la, além de constituir o pretexto perfeito para iniciarmos uma conversa. Seu remédio era o mesmo que eu já havia tomado há poucos dias , numa coincidência arquitetada de maneira marota por um destino que quer juntar duas almas que se amam , ainda que aprisionadas em corpos doentes. Eu disse que a picada não doía e você sorriu aliviada. Eu dei um espirro e você disse "saúde", enquanto limpava os perdigotos que caprichosamente se acumularam nas lentes dos seus óculos. Eu falei: “ Tenho Buscopan no meu apartamento” e naquela noite fizemos amor no meu quarto que eu mesmo tinha esterilizado. O resto é história, Sônia.
Voltei a sentir aquelas tonturas que eu havia sentido na nossa ultima viagem à Bahia . Achei esquisitíssimo , porque dessa vez , eu não comi acarajé e meu intestino, no geral, tem funcionado bem . De qualquer maneira, achei prudente tomar um sal de frutas, caso o problema fosse digestivo. Entretanto esqueci que estava de jejum e o resultado é que minha úlcera piorou. Tomei um copo de leite com Nescau, ignorando a minha alergia à chocolate. Em minutos, pintas vermelhas se alastraram pelo meu corpo, me deixando com um aspecto de turista alemão em férias. Não me desesperei, porque dessa vez as pintas não coçaram como daquela vez no Rio de Janeiro (lembra? você esfregando freneticamente aquela pomada mentolada no meu corpo, enquanto eu gemia de dor e prazer. Você me abraçou nua, e juntos nos lambuzamos numa sessão de libertinagem alopática que só terminou quando eu desloquei o maxilar). Tomei um antialérgico americano que meu primo trouxe dos Estados Unidos, mas como a bula estava em inglês, ignorei as contra-indicações. Somente depois de acordar do desmaio é que, com a ajuda de um dicionário Michaelis, constatei que o medicamento não deveria ser tomado por hipertensos. Pelo menos as pintas vermelhas desapareceram.
O que não desaparece , Sônia é essa saudade que me oprime o peito e que certamente está contribuindo para a queda do cabelo , mesmo que eu acredite que meus problemas hormonais tenham influencia nesse processo. Sônia, essa carta é uma súplica. Minha maior doença é o amor que sinto por você e contra isso nem os antibióticos tem surtido efeito. Olho para o retrato que tiramos no hospital e vejo que você é o meu único e eficaz tratamento. Eu te perdôo a impaciência. Não sou um hipocondríaco como você me chamou, mas serei um hipocondríaco se assim você quiser, meu amor. Volte pra casa, que estou te esperando com aquela bolsa de água quente que eu coloco sobre seu útero pra te aliviar da cólica menstrual. Volta Sônia!
E por favor, passa na farmácia no caminho e me compra Bicarbonato de Sódio que o meu já acabou.
Escrito por Leonardo Cortez às 00h00
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