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Mais dois contos desenterrados
O ALMOÇO DE DOMINGO
Depois de seis anos, a Ana Luísa decidiu que já era mais do que na hora de terminar o relacionamento com o Pompeu, seu primeiro namorado sério e o único homem com quem ela tinha, com a liberdade da expressão, dividido os mesmos lençóis. Pompeu, obviamente ficou arrasado. Tinha a plena convicção de que a sua procura pela mulher ideal havia terminado depois de conhecer a Ana Luisa. Mas a vida é assim mesmo e deveria continuar para ambos. Uma relação termina e que sobram são as lembranças e a certeza de que tudo contribuiu para o amadurecimento pessoal. Fora o luto natural da perda, tudo acabaria bem no final.
Isso se não fosse a família de Ana Luísa.
Pompeu era o xodó da casa. Tinha sido incorporado ao seio daquele lar e era tão querido por todos que a represália à decisão de Ana Luísa foi bem mais violenta do que ela poderia imaginar. O pai, seu Alberto, que tinha a companhia de Pompeu toda a santa tarde de domingo para assistir ao futebol não importava o jogo, ficou furioso:
-Um menino de ouro, gritou , enquanto pensava com quem mais poderia comentar sobre a burrice dos esquemas táticos do futebol brasileiro. Dona Amélia, a mãe de Ana Luísa, teve que chorar as escondidas no quarto. Pompeu era o filho que ela não tivera e era o único, dentre todos os familiares que almoçavam aos domingos que elogiava rasgadamente seu risoto. Em lágrimas , ela pensou que havia perdido o gosto de cozinhar para sempre. A mãe de Amélia , a Vó Tetê, como era chamada a senhora Teresa , sentiu sua solidão triplicar , uma vez que só o Pompeu dava ouvidos as suas histórias sobre o finado Alfredo, em momentos onde todos se retiravam da sala , por não agüentar as nostalgias da velha. (continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 22h51
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Na verdade, aquilo sempre tinha incomodado Ana Luísa. A vaga sensação de que a família gostava mais dele do que dela . Não era algo que perturbasse seu sono naturalmente. No entanto, quando comunicou a decisão, viu horrorizada, que talvez estivesse certa. Mas suspirou, pensando que afinal de contas a filha era ela e que o tempo se encarregaria de curar tantas chagas.
Mas não curou.
Durante meses , o clima foi de velório aos domingos, mesmo que Ana Luísa estivesse cada vez melhor, sentindo-se cada vez mais livre e independente como mulher. Pompeu volta e meia era citado como exemplo de bom rapaz e de boa companhia em frases como “Se o Pompeu estivesse aqui ele diria...” ou “O Pompeu que estava certo quando. ..”. Um dia, Ana Luísa pediu encarecidamente que não ficassem evocando a memória do “ex ” na sua presença. O que passou, passou e etc. A Vó Tetê ainda tentou argumentar que o rompimento não era motivo para que o rapaz deixasse de freqüentar a casa, mas Ana Luísa achou aquilo um absurdo e disse de maneira enérgica para a família aceitar os novos tempos. Todos consentiram, muito a contragosto. E o silêncio se instalou na mesa até o fim da refeição.
Um dia, Ana Luisa anunciou que estava namorando de novo com um sujeito chamado Betão , que ao ser apresentado à família no tradicional almoço de domingo causou a todos uma impressão péssima. Na ocasião inclusive, Vó Tetê jurou ter visto o rapaz consumindo drogas no banheiro, o que foi estranho, uma vez que o Betão trancou a porta quando entrou no recinto. A mãe se lamentou com o marido sobre o novo namorado que nem mesmo elogiou o frango servido naquela refeição. É bom acrescentar que o frango era de rotisseria, porque ela havia perdido o gosto de cozinhar, mas mesmo assim a pobre mulher ficou ofendida. E quando Betão falou que não gostava de futebol, caiu definitivamente em desgraça com seu Alberto. Mas Ana Luísa, que estava num movimento de emancipação individual, não se importou. E foi com o namorado para a praia num fim de semana qualquer. (continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 22h49
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Era a chance que a família há tanto tempo aguardava.
Sem nenhum escrúpulo, convidaram Pompeu para o almoço de domingo. O rapaz, que andava deprimido e macambúzio porque além de sentir a falta da menina também era apegadíssimo à família dela, aceitou. E todos tiveram um domingo como nos velhos tempos. A ausência de Ana Luísa sequer foi sentida e na segunda-feira todos sorriam e cantarolavam como se a luz voltasse a incendiar aqueles pobres e solitários corações.
Desde então, todo mundo da casa começou a incentivar as viagens de fim de semana de Ana Luísa. Seu Alberto inclusive alugou um apartamento em Ubatuba , a pretexto de servir de refúgio para a família, mas a família nunca ia. Deixavam o apartamento a disposição da filha que foi umas três vezes e depois enjoou , sem saber que na sua ausência, seus entes queridos usufruiam da alegria de estar com aquele que não mais simplesmente o ex-namorado: era sim, o filho, o neto , o amigo querido e inseparável daquela gente.
Um dia , claro , aconteceu.
Ana Luisa marcou de acampar com o Betão, mas no domingo de manhã os dois brigaram e ela voltou mais cedo sem avisar. Surpreendeu os familiares às gargalhadas com as deliciosas histórias do Pompeu, enquanto seu Alberto punha as cervejas do futebol pra gelar. Ana Luísa ficou chocada com a presença do “ex ” na casa. O pai chegou a pronunciar um “não é isso que você está pensando , minha filha”. Mas Ana Luísa se sentiu traída e começou a fazer uma cena. Pompeu, muito educado, foi se retirando , mas aí o seu Alberto resolveu ser enérgico.
-Você fica , Pompeu. Se alguém tem que sair é ela.
Ana Luísa ficou sem ação . Não sabia o que dizer. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela saiu porta afora. Dona Amélia ainda fez menção de sair atrás da filha mas foi contida pelo olhar de autoridade do marido. Em prantos, ela buscou refúgio nos braços de Pompeu.
À mesa, dona Tetê voltou ao seu bordado, enquanto internamente sorria.
É claro que graças ao tempo, sempre ele, a situação foi contornada. Ana Luísa firmou um trato implícito: liberaria a área depois das onze no domingo e assim durante um tempo, tudo transcorreu harmoniosamente. E um dia, quando Ana Luísa, já separada do Betão, resolveu retornar àquela mesa no almoço , o coração de Dona Amélia se encheu de esperanças de que Pompeu e a filha pudessem se entender novamente. E o fantástico é que isso aconteceu! Os dois reataram e marcaram casamento, que foi todo patrocinado pelo seu Alberto.
Estão casados até hoje e os almoços de domingo continuam. O que o ninguém sabe é que Ana Luísa tem um amante que antes mesmo de casada ela elegeu como o homem da sua vida, o Ronaldo. O Pompeu inclusive sabe disso e nem liga . Só faz uma exigência.
Ela não pode convidar Ronaldo para o almoço dominical.
Escrito por Leonardo Cortez às 22h48
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A CRISE
O homem chegou em casa cansado, mas sorridente.
-Tô morto. O que tem para jantar?
A mulher não respondeu. Os olhos dela estavam inchados. Ele estranhou.
-Tá gripada , outra vez?, ele perguntou com inocência.
-Isso é hora?, ela perguntou com amargura.
-Reunião até tarde. Você sabe como é o Doutor Mendonça...
-Não seja cínico.
Ele suspirou. Já fazia tempo que ela andava estranha. Sempre lacônica, parecia infeliz. Antes era um poço de sorrisos. Recebia o marido eufórica, sempre tinha uma coisa boa para oferecer de jantar. Isso quando não jantavam fora. Agora já fazia três meses que ela andava macambúzia. No início, ele tentou o dialogo. Ela culpou o estresse e quis começar a fazer análise. Ele foi contra , mas ela insistiu. Então ele encerrou o assunto. Decidiu pagar a terapia e um dia, o estresse passava.. Três meses depois e a fossa continuava, tão rotineira que ele até tinha se acostumado. Naquele dia, entretanto, ele se assustou. Nunca tinha visto a mulher assim. E lá iam sete anos de casamento.
-Você sabe, você sempre soube que infidelidade é uma coisa que eu não tolero!
-Mas do que você está falando?, ele disse, tentando ser compreensivo, mas já um pouco impaciente com aquela nova cisma da mulher.
-Eu não tolero!
Ele se sentia numa cena de novela de quinta categoria .
-Escuta, que palhaçada é essa? Eu nunca te traí.
-Cala a boca. Agora acabou ! Para mim chega!
O homem até achou graça. Considerava-se um marido exemplar. Nunca se esqueceu de um único aniversário, seja o dela , seja o do casamento. Concordaram em não ter filhos até conhecerem o Taiti, o que fariam no final do ano. Passagem paga desde maio. Nunca tinha faltado nada em casa. Até plano odontológico ele financiara para a mulher, quando ela só precisava fazer um canal.
-Aproveita e faz um clareamento que tá precisando, ele disse na ocasião.
E agora, aquela cena.
-Fora daqui.! Não fala comigo! Não fala comigo!
Ele começou a se preocupar seriamente. Não podia conceber a idéia de ser expulso de casa. Tentou por isso, argumentar. A esposa soluçava . Aos trancos ela falou dos porquês da suspeita. A velha estória da amiga que o tinha visto não sei aonde, com não sei quem, não sei quando.
-Pelo amor de Deus , isso é uma mentira! (continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 22h36
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Ela não quis ouvir. Passara uma tarde de agonia e desespero. No auge da raiva fizera as malas do marido. Elas estavam preparadas no quarto.
-O apartamento é meu, ouviu? Você leva suas coisas e essa mesinha de Bali que eu sempre detestei! Mais nada! Mais nada.
Fora ele que comprara a mesinha de Bali para ela , anos antes , e ela jurou ter adorado a exótica peça decorativa. Agora a verdade aparecia. Ela detestava a mesa e ele era expulso de casa, justamente agora que o apartamento estava quase quitado. Ele começou a chorar. Injustiça. Ela chorava também . Ele jurou inocência , ela não quis ouvir. Há muito tempo que ela suspeitava e o telefonema da amiga só tinha confirmado tudo.
-Você arruinou minha vida. Mas ainda tenho tempo de sair da merda!
-Você tá nervosa. Precisando de tratamento!, ele apelou, se esquecendo que ela estava na terapia há três meses.
-Tô deprimida por tua causa! Mas aprendi na terapia a não ter medo de ser sozinha, cara!
Maldita terapia, ele pensou.
-Traição eu não tolero!, ela gritou , dessa vez bem alto , pra todos os vizinhos escutarem. (continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 22h34
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Ele negava. Ela perdeu o controle e bateu nele. Ele se defendeu . Ela chorava copiosamente. Ele jamais podia imaginar que um dia passaria por uma situação como aquela . Uma novela do SBT. E finalmente , quando ele viu que a coisa era séria, que ela estava decidida e sabendo que amava aquela mulher e que não poderia viver sem ela, num rompante de insanidade, ele anunciou.
-Eu saio desse apartamento. Mas não será pela porta e sim pela janela!
Ela riu histericamente.
-Se mata. Será um alívio para mim!
Então, no ápice do seu desespero , ele pegou suas malas e se debruçou no parapeito . Por um segundo pensou que se matar seria uma tremenda estupidez, ainda mais agarrado às suas malas. Mas depois , mais uma vez mergulhado em seu delírio, sentiu-se um faraó do Egito , que tem que morrer com seus pertences para que tenha o que vestir na vida eterna . Pôs um pé para fora e vendo que bastava um impulso para a morte certa , respirou fundo. Treze andares. Morreria por amor . A cena deixaria de ser novelesca para se transformar numa grande cena trágica shakespeareana, ainda que ninguém tenha se jogado do décimo terceiro andar em nenhuma peça de Shakespeare.
-Uma fofoca me custará a vida. Adeus!
Ele titubeou. Tinha medo de morrer. Por sorte, a mulher o deteve.
-Pelo amor de Deus! Sai daí!
Se abraçaram às lágrimas.
-Eu nunca te traí.
-Eu acredito...
Dormiram juntos de mãos dadas. Acordaram aliviados , como se a vida dos dois recomeçasse a partir daquela manhã.
Mais tarde, do trabalho, ele ligou para a amante e cancelou o motel que os dois haviam planejado. A mulher estava desconfiando e ele precisava de um tempo. Uma semaninha. Coisa pouca.
Escrito por Leonardo Cortez às 22h32
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Mais um conto rápido sobre o passado
Ele já tinha sido um galã. Anos antes, a beleza tinha ajudado à beça. Houve um tempo em que , de fato, ele era famosinho, mas um belo dia tudo ficou insuportável e agora ele era um escritor gordo que morava sozinho numa quitinete no centro da cidade e vivia de bar em bar falando mal de todo mundo principalmente daqueles que não gostavam daquilo que ele escrevia. Normalmente , ele voltava sozinho pra casa e botava no papel todas as histórias sórdidas que colecionava ao longo das noites de bebedeira. Tavam ali as putas, os mendigos, os alcólatras, os drogados e principalmente, ele mesmo, disfarçado sob algum pseudônimo, normalmente como protagonista, porque por trás daquele espírito contemplativo da humanidade sórdita, sobrepunha-se uma vaidade incontrolável que sempre o colocava no centro dos seus enredos.
Era um sujeito relativamente conhecido. Alguns livros publicados e um blog com trocentos mil acessos. Por isso, quando a menina linda, dos seus dezenove anos veio até ele no bar dizer que era sua fã, ele se comportou como se aquilo fosse algo trivial no meio das suas bebedeiras: um assédio feminino. Mas não era. Da sua beleza de juventude tinham sobrado poucos resquícios. O escritor agora era gordo e repulsivo. Fumava às pampas e tinha perdido um dente. Por isso , não sorria nunca, e todo mundo atribuia esse comportamento à sua profundidade filosófica, sem saber que no fundo, ele tinha uma certa vergonha do sorriso estuporado. Os amigos da mesa, todos artistas, atores, dramaturgos e fodidos, se calaram diante da aproximação da beldade, quase numa reverência silenciosa à beleza da moça. Um deles a convidou pra sentar. Ela puxou uma cadeira e se sentou do lado do escritor. O escritor ofereceu um cigarro . Ela disse que não fumava e sorriu o sorriso de dentes perfeitos que de certa maneira humilhou aquela orda de desdentados.
Ela adorava o escritor. Tinha lido tudo. E fazia comentários no blog. "Então é você..." reconheceu o escritor que já havia ignorado as dezenas de observações bastante inocêntes feitas pela moça para os seus textos que sempre versavam sobre a falência e a podridão das relações humanas na sociedade contemporânea. A menina não chegava a ser inteligênte, mas a sua beleza tornava qualquer bobagem que ela dizia algo tão interessante quanto uma citação de Proust. E quando ela perguntou pro escritor qual era o seu signo, ele estava tão apaixonado que, sem querer, sorriu, revelando o buraco no meio daquele exército de dentes amarelados.
Uma hora depois , ela estava na quitinete do escritor. Achou fascinante aquele mafuá que ele chamava de apartamento. Ela teve sede e ele só tinha água da torneira. Ela disse que queria tomar um banho e ele disse que o chuveiro estava queimado. Foi aí que ela quis ela beijar o escritor, inebriada por aquela miséria tão sedutora. Mas antes, tomou fôlego e falou, numa tacada só, como se estivesse desabafando.
-Você não se lembra de mim, mesmo, não? Eu era aquela menina que você desclassificou quando foi jurado do Concurso Miss Simpatia do programa Sabadão da Felicidade. Dez anos depois e olha eu aqui...
O escritor percebeu uma ponta de ódio na descrição daquele episódio do passado. Num lampejo de agilidade verbal, ele emendou algo como "Se eu fosse jurado hoje, você ganhava de lavada...", mas a menina não riu da piadinha. E ainda disse:
-Minha mãe te odeia até hoje...
O escritor ficou um minuto sem saber o que dizer. O olhar da menina era puro e repentino ressentimento. Então ele anunciou que ia comprar cigarros. E não voltou mais pra casa naquela noite.
Escrito por Leonardo Cortez às 23h16
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carnaval
Eu já me senti absolutamente deprimido no meio da euforia coletiva. Já senti inveja da celebração dos anônimos, na certeza de que nenhum deles tinha a mínima idéia do que se passava dentro de mim, mesmo porque ninguém estava mesmo interessado nas minhas chatices no meio da ocasião festiva. Eu já fiquei sentado quando a multidão gritou no gol. Já fiquei parado quando todo mundo saculejava na rave. Já ri por educação enquanto todo mundo gargalhava depois da piada. Já senti muitas vezes que as coisas que eu mais gosto na vida volta e meia me aborreciam. Já fiquei meia hora trancado no banheiro pra não ter que falar com ninguém na festa. Já saí no meio, já saí à francesa, já sai batendo porta e fazendo escandâlo e já fiquei outra porção de vezes à contragosto só pra não parecer mal-educado pras mesmas pessoas que não faziam a mínima idéia do que se passava dentro de mim, mesmo porque elas não se interessavam. Já achei a cachoeira um saco, o por-do-sol sem graça, o nascer do sol uma amolação. Já voltei chorando pra casa, já almocei sem fome e já passei fome faminto. E em todas as vezes em que isso aconteceu, olha a coincidência, eu estava sem a Glaucia.
Escrito por Leonardo Cortez às 22h08
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