Segunda Feira ao Sol
E agora, um momento onde eu mostro que tô fazendo do meu ócio uma coisa construtiva: acabei de ler "A Revolução dos Bichos" do Orwell. Bom pacas, mas o "1984" ainda é o fino. Também terminei, numa tacada só, mais um romance noir do David Goodis, "Sexta-Feira Negra". É bom, mas o "Atire no Pianista" é melhor. O Valtinho me apresentou o "The Office" e quem não viu não sabe o que está perdendo. Comprei a primeira temporada, descolei a segunda pirateada e tô no aguardo da terceira porque o troço é sensacional. A babá da Clara tá de férias, então eu ainda não consegui assistir nenhum filme do Oscar a não ser o "Volver". Na carona disso, andei revendo Almodóvar no DVD. "Tudo Sobre Minha Mãe" e "Fale com Ela" são sensacionais, mas a "Flor do Meu Segredo" continua o favorito.
De resto, eu tenho que dar conta das sete caixas do Seinfield que eu comprei num desses arroubos consumistas irresponsáveis. E continuo ouvindo Beatles e Paul McCartney, pra desespero da Glaucia que não aguenta mais os mesmos CDs. Aí, eu argumento que a gente não precisa gastar dinheiro com CD já que eu sempre escuto a mesma coisa. Não sei se ela concorda ou simplesmente se enche, mas o fato é que ela sempre sai da sala quando eu boto o "Venus and Mars" pra tocar pela octagésima vez.
Escrito por Leonardo Cortez às 23h44
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Mais do mesmo
Eu tenho uma amiga diretora de teatro que diz que não quer mais saber de dirigir peça nenhuma porque ator é um bicho insuportável. Bom, eu não sei com qual tipo de ator ela tem trabalhado ultimamente, mas concordo que quando a gente convive com algum ator sério demais, que leva o seu processo à sério demais e que acha que a sua profissão é um sacerdócio sagrado demais e que por isso sofre demais cada vez que se lança num processo, bom, essa convivência pode ser , reconheço, bem desagradável. E nada contra os CDFs da nossa profissão, mas essencialmente, meu amigo, é preciso acima de tudo, sentir uma baita alegria na realização do ofício. Mesmo sofrendo eventualmente. É preciso buscar esse sadomasoquismo saudável e concluir que é uma delícia sofrer em nome da arte. Também é conveniênte uma certa dissimulação no seu sofrimento, porque senão fica chato pra quem tá fazendo teatro com o sujeito. O teatro é arte de compartilhar a cena e compartilhar a cena com quem tá absorto no seu sofrimento individual acaba se tornando um troço bem desgastante. E num dado momento, a coisa toda tem que se tranformar em prazer, porque senão o resultado artístico vai acabar refletindo a chatice do ator sofredor e quem vai sofrer com isso é a platéia.
O teatro me dá um prazer inominável e aliás é só por isso que eu insisto nesse troço insano. E não que isso signifique irresponsabilidade. Pegar o desafio no laço e domar o bicho pode eventualmente dar alguma dor de cabeça mas no final, o que me sobra sempre é o prazer. Eu vi esse prazer no Paulo Autran. A par dos oitenta e muitos anos , ele realmente adora estar em cena. Claro que é mais fácil sentir alegria quando você sabe que dá conta do recado. Mas cabe ao ator se conhecer minimamente. Mesmo porque, muitas vezes, esse sofrimento perpétuo nada mais é do que um recado de Deus dizendo: "Filho. Desce daí..."
Escrito por Leonardo Cortez às 23h10
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Esqueci do título
Eu queria ter uma memória mais eficiênte. Tem milhares de coisas que eu li, vivi ou presenciei das quais só me restam vagas sensações subjetivas. É um saco. Às vezes, eu tô numa roda, rola um assunto x e eu fico com aquela sensação de que eu teria uma boa história pra ilustrar e incrementar o papo , mas que eu já esqueci. Então, eu me agarro às sensações que ficaram impregnadas em algum lugar e normalmente invento alguma coisa. Não se iludam com as histórias que eu conto. Oitenta por cento é tudo inventado. Talvez porque eu tenha essa a sensação que aquilo que eu invento é mais interessante do que aquilo que eu vivi de fato.
Me vem algumas frases aleatórias. Outro dia eu citei uma pra Glaucia sobre essa história de esquecer as coisas: "tudo em mim evapora". Foi o Pessoa quem escreveu. Não lembro do resto do texto. Saco. Ficou só a frase. E em cima dela a gente conversou longamente, tecendo as nossas próprias observações poéticas. E a conversa, honestamente , foi ótima.
Eu sou ótimo pra esquecer os roteiros dos filmes que assisto, por melhores que eu os considere. A vantagem é que eu posso rever os filmes e ainda assim , me surpreender. Posso reler os livros e descobrir que agora eles me dizem coisas completamente diferentes das coisas que eles me disseram tempos atrás e que eu já havia esquecido. Minha falta de memória é minha amiga, às vezes. De vez em quando eu me irrito com os meus esquecimentos, mas a vantagem é que é um sentimento passageiro, uma vez que eu preciso de muito pouco esforço pra me esquecer dessa irritação.
Escrito por Leonardo Cortez às 22h45
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O Pai
De longe, o som do motor anunciava a visita inoportuna. O velho estranhou, principalmente por causa do horário. Já passava das onze e como de costume, ele já estava na cama, dedicado à leitura de mais um romance, antes que o sono ficasse insuportável. Há muito tempo a sua rotina era a mesma: o dia inteiro no sítio, a meia dúzia de galinhas, os três porcos, as refeições que ele mesmo preparava, os escritos datilografados por ele (e que ninguém lia) e os romances. Dezenas deles, amontoados pela casa, espalhados pelos cantos numa biblioteca anárquica. Poderia se dizer que seria impossível localizar algum título naquela esbórnia, mas o velho sabia exatamente onde estava qualquer um dos seus livros, mesmo aqueles que ele jamais havia lido, e que não eram poucos.
O som do automóvel era familiar. O caquético Volkswagem do único filho. O filho que era um dos poucos elos de ligação do velho com o mundo exterior. O banco, o supermercado e as livrarias eram as únicas instituições ainda toleradas depois do seu grito de independência social. Tivera duas lojas falidas, um casamento desfeito e dezenas de internações pra se livrar do vício da bebida. Agora, ele tinha uma garrafa de uísque para o porre final. Há dez anos não bebia, mas o uísque Red Label estava guardado como um troféu no fundo da gaveta da cômoda, atrás das cuecas. O velho sabia que seu fígado já tinha idos pras cucuias e que um único copo bastaria pro porre monumental. Na sua idade, não teria mais forças pra parar. A garrafa de uísque seria a última. Morreria do porre e não de doença e ter o aparente controle do seu próprio fim significava pro velho uma espécie de consolo pra essa coisa chata que é, afinal de contas, o final da vida.
A saúde ia bem, surpreendentemente, apesar dos excessos cometidos nas setenta e poucas primaveras de existência. Nos últimos anos, ele simplesmente havia se isolado. Quando a mãe morreu, lhe deixou a pensão e o sítio. Agora, o velho tinha onde morar e como comprar a comida e os livros. A solidão não incomodava. Tinha convivido demais com gente demais e pensava consigo: “Pelo menos aqui sozinho não encho o saco de ninguém!”. O filho era a sua única preocupação eventual. Ficava longos períodos sem receber uma visita ou um telefonema, mas quando isso acontecia, invariavelmente as notícias não eram boas. A última ligação veio da delegacia. O filho tava preso por furto e não era a primeira vez que isso acontecia. O velho foi até lá, pagou a fiança, tentou desajeitadamente abraçar o filho. O filho deu um tapinha nas costas do pai e saiu andando. A mãe tinha morrido faz tempo e agora ele só tinha o pai no mundo. O que não era grande coisa pra nenhum dos dois.
Agora o filho estava ali, no meio da noite, no velho sítio que ele raramente visitava. Suando em bicas, num olhar que era um misto de desespero e desconsolo. O velho apareceu na soleira da porta. O filho simplesmente disse:
-Eu matei um cara, pai. Ele mereceu.
E abrindo o porta-mala do carro, revelou o cadáver. O velho não disse nada. Maquinalmente foi até o quarto dos fundos e pegou duas pás. Durante quarenta minutos, os dois cavaram a cova rasa sem que nada fosse dito um para o outro. Depois de enterrado o cadáver, o filho olhou pro pai, deu-lhe um novo tapa nas costas suadas pelo esforço, entrou no carro e desapareceu na escuridão.
O velho entrou em casa, tirou as roupas enlameadas e entrou no chuveiro. Depois do banho, vestiu o pijama, deitou-se na cama e pegou o romance. Leu duas páginas, deu um bocejo e deixou o livro de lado. Olhando o vazio, pensou no Red Label. E depois de calçar os chinelos, foi até a cozinha pegar o copo.
Escrito por Leonardo Cortez às 18h17
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