Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


A Diferença que um Dia Faz

Eu tenho um amigo que eu queria ver mais vezes. Com quem eu compartilhei coisas maravilhosas fazendo teatro. Com quem eu estive em um monte de viagens, farras e festas. Olho pra trás e ele sempre estava por lá. Mas de repente, ele enveredou por outros caminhos e já não era mais possível acompanhá-lo. De repente, a gente não se entendeu mais. A culpa deve ter sido minha, porque ele é bem mais inteligênte do que eu. Amizade é convivência e a gente não convive. Sobra só esse baita afeto e a esperança de que um dia, a gente se entenda de novo.

Escrito por Leonardo Cortez às 00h32
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epitáfio

Todo ano esse inferno de carnaval. Essa batucada , essa suadeira, essa alegria toda. Que inferno! Se me pagarem mil reais pra ir atrás de um trio elétrico eu não vou. Eu já morri, como diz o Caetano. Não vou!

Maior respeito com quem vai. Eu juro que eu já tentei compartilhar dessa alegria toda. Vesti a fantasia,  fui pra avenida. Entrei no bloco, frequentei o salão. Mas sempre fui chato. Me cansei nos primeiros quinze minutos de bum-bum-baticumdum. Não consegui pegar mulher nenhuma, arrumei briga na fila do banheiro, tomei cerveja quente e passei mal. Minha quarta-feira de cinzas sempre foi uma celebração: agora o ano começa.

O canaval dura tempo demais. A Globo exibe os sambas-enredo, faz matéria em todos os jornais, conta a história da escola de samba omitindo os subsídios do tráfico de drogas e do jogo do bicho pra que a milionária estrutura dos desfiles funcione com todo mundo ganhando dinheiro, menos o povão. Omite que quem faz a festa na avenida é a industria da prostituição e do turismo sexual.

O carnaval nem começou e já faz tempo que a gente tem que aguentar as sub-celebridades se preparando pra serem "rainhas" de bateria de comunidades que elas só frequentam nos ensaios abertos aos fotógrafos da revista Caras. Aí,  sai na capa da Contigo a Cicarelli com uma chamada onde se lê: "A Volta Por Cima" e a explicação: depois de todos os escândalos, a menina é eleita a musa do carnaval. Eleita por quem? Quem determina quem é a musa do carnaval? Ninguém pediu o meu voto porque eu sou um Zé Povão. Ninguém quer saber minha opinião sobre as musas do carnaval, mas se a Cicarelli acha que ser musa do carnaval é dar a volta por cima , então eu digo que,  pra mim,  isso é o fundo do poço!

O fundo do poço, sua chata! 



Escrito por Leonardo Cortez às 00h10
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O PORTEIRO

 

Alta madrugada e Salustiano se encolhe na cadeira na tentativa minimizar os efeitos do frio de quase dez graus. Como em qualquer noite gelada é bem improvável que alguma viva alma apareça, e a maioria dos moradores já dorme o sono dos justos depois que adentraram com seus carros na garagem que  Salustiano abre ao apertar o botão verde de dentro da guarita gélida. Não lhe é permitido dar um cochilo mesmo que o silêncio sepulcral, o vazio e  a monotonia sejam catalisadores de um sono praticamente insuportável. Ainda está fresco em sua memória a noite em que adormeceu na guarita e foi surpreendido pelo interfone, onde do outro lado a síndica, avisada por outro morador, lhe passou uma descompostura  anexada  a uma severa ameaça de demissão. Desde esse episódio,  a síndica não confia mais no porteiro e vez por outra  desce à portaria sob nenhum pretexto, apenas para se certificar que Salustiano não sucumbiu ao que ela acredita ser uma vagabundagem inerente. As inspeções acontecem  a cada duas horas pelo menos até a uma da manhã, quando a velha senhora, aposentada, mãe de dois filhos casados e viúva lá se vão seis anos, sobe para finalmente dormir. É quando Salustiano relaxa um pouco  e tenta em vão melhorar a  imagem do canal cinco na mini-tevê, mesmo sabendo que ela jamais pegará melhor do que sempre pegou, por mais que ele posicione a antena em qualquer posição possível.

É enorme o contraste entre a tevêzinha  e  o monitor gigantesco instalado pela empresa de segurança por onde Salustiano pode acompanhar toda a movimentação do prédio desde a garagem até o interior dos elevadores , passando pelos corredores e  o hall de entrada. A taxa do  condomínio triplicou de valor após a instalação dos equipamentos , mas ninguém reclama , já que nunca mais houve qualquer tentativa de assalto dentro do edifício. Encolhido na guarita, sob o frio de dez graus e um tendo como opção de lazer um filme reprisado numa micro-tela preto e branca, Salustiano olha fixamente pro vazio. Sua cabeça não está no frio, no filme ou na síndica, mas na mulher grávida e no orçamento incompatível com as novas e enormes despesas.  Um suspiro de preocupação cria uma nuvem de fumaça que sai da sua boca. É quando um sujeito bem apessoado irá tocar o interfone do lado de fora do prédio.

-Eu vou no apartamento da Marisa, 287. (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 14h39
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Salustiano interfona e do 287 a moça atende ensonada e estranha a visita do novo namorado  a altas horas.  Mas não compartilha o estranhamento como o porteiro e autoriza a entrada do cidadão, que não é o Roberto-namorado e sim um assaltante que sabendo como se chama o namorado  de Marisa por algum subterfúgio, utiliza  o nome para adentrar ao edifício. O que Salustiano espera é  acompanhar o sujeito pelo monitor  do hall até o elevador, do elevador para o corredor , do corredor para o apartamento. É sempre uma distração. Mas no caso do novo namorado,  a rota acaba sendo diferente. O fulano inicialmente se dirige ao porteiro e lança um sorriso cordial, numa atitude que segundo seu raciocínio de porteiro,  poderia anteceder  algum comentário sobre o frio.  Mas o homem não diz nada e  ainda sorrindo , tira de dentro da jaqueta uma pistola trinta e oito  que   petrifica Salustiano  de tal modo que o frio, a tristeza, o sono  e  a solidão serão  esquecidos e somente  a imagem da mulher e do filho farão parte de seus pensamentos daquele momento em diante.

Com muita calma,  o assaltante ordena que Salustiano abra o portão para a entrada de mais dois camaradas e a garagem para a entrada de uma van. Nos próximos minutos ele ficará junto com Salustiano enquanto os colegas tratam de invadir silenciosa e aleatoriamente os apartamentos abastados padrão classe média alta que compõe o edifício. E enquanto isso acontece, o Roberto, ou quem antes se dizia chamar Roberto , puxa um dedinho de prosa, para aliviar a tensão do momento.

-Fica tranqüilo. É só não fazer bobagem que não sobra para você.  Nem tua televisão a gente quer levar. Aliais, aproveita e me conta o filme...

-Eu não tava vendo o filme...

-Então começa a assistir. E vai me contando o que tá vendo.... (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 14h38
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Com um trinta e oito apontado na cabeça, Salustiano robóticamente descreve  o que assiste, enquanto o assaltante  olha em volta para se certificar se a barra tá limpa.

-A moça entrou no quarto...

-Fala baixo!

-Tá deitando na cama...

-Gostosa?

-Cortaram prum cara no carro.

-Sempre cortam na parte boa. Muda de canal.

-Só pega o cinco.

-Tem câmera na guarita?

-Na guarita não.

-Vai me contando...

-Tem um  advogado no tribunal...

Salustiano começa a sentir uma certa alegria no relato do filme, na certeza de que o relato em pormenores garantirá sua sobrevivência. Descreve o modelo do carro, a roupa da velha e independentemente da televisão ser preto e branca , ele dá cores ao cenário.

-Uma casa azul, com detalhes em verde...

O porteiro sussurra freneticamente até mesmo quando entram os comerciais. Num momento, se atreve  até a comentar que  o sabão em pó anunciado é o mesmo que a mulher dele usa, mulher que inclusive está grávida e etc. O assaltante aparentemente não liga para nada que Salustiano fala. A idéia é fazer o assalto da maneira mais discreta possível. Até o momento em que os assaltantes adentrarem os apartamentos, somente o porteiro saberá que existe algo errado. Após as invasões consumadas, as famílias serão trancafiadas  nos banheiros e  as linhas telefônicas cortadas. De acordo com o plano , até  que o contato com  a polícia seja feito, eles já  estarão longe do prédio. (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 14h38
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Mas tudo vai por água abaixo graças a implicância da síndica  com Salustiano. Decidida a flagrar o zelador cochilando, ela programa seu despertador para o meio da madrugada  e após colocar o roupão, escuta os sons suspeitos produzidos pelos discretos gatunos que com muita perícia estão no corredor  a arrombar a porta do vizinho. Aterrorizada , ela testemunha os movimentos pelo olho mágico   e controlando os tremor frenético de suas mãos , consegue ligar para o 190, que responde com extrema eficácia, fazendo a polícia chegar ao local com o estardalhaço de sempre em questão de poucos minutos. As sirenes avisando a chegada eminente do comboio policial deixaram o pseudo-Roberto em pânico  e  então , Salustiano pode comprovar que nesse tipo de momento crítico a frase “ A casa caiu” de fato é pronunciada pelos malfeitores .  Da guarita, ele observa a van saindo  a toda velocidade da garagem, deixando o comparsa Roberto para trás. Este, após um movimento de corrida  inútil em direção à van acaba voltando  e pegando Salustiano pelo pescoço. Toda aquela calma e formalidade dão lugar ao desespero de ser pego novamente. O sujeito já foi preso outras vezes e  agora não quer cumprir de novo a via crucis da algema , camburão , porrada, cela, porrada etc. Por isso, aponta a arma para cabeça do porteiro e aos berros anuncia que só sai dali  se tiver todas as garantias de um tratamento decente. Mas as negociações não duram muito. Enrolam o sujeito até que chegue  a tropa de elite. Um atirador altamente treinado faz a mira certa no cerebelo e  estoura a cabeça do assaltante antes que ele possa apertar o gatilho e matar Salustiano. O porteiro terá feito mentalmente , antes disso, todas as preces e promessas que podem ser feitas quando se acredita estar vivendo seus últimos momentos. Banhado de um sangue que não é seu, Salustiano é levado, em estado de choque, numa ambulância  e dias depois receberá  em sua casa, a notícia da sua demissão do cargo de porteiro assinada  pela síndica . Ao prestar depoimento, ele terá que provar que não era comparsa do crime  e que não facilitou  a entrada  dos bandidos no edifício.  Terá muitas dificuldades de achar outro trabalho até ser aceito finalmente na construção civil, às vésperas do nascimento do primeiro filho.

Não foi à toa que Salustiano chorou muito quando o menino nasceu.  Um menino lindo, aliais.



Escrito por Leonardo Cortez às 14h37
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Variant

O problema de Brasília é que ela fica muito longe. O problema de Brasília é que ela fica no meio do nada. No meio do seco, do cerrado. Lá não tem sombra, não tem árvore, não tem esquina e nada é perto. Sem carro, você morre em Brasília. Quando eu fui pra lá, me disseram que tinha uma agência bancária depois da caixa dágua. Parecia perto porque dava pra avistar a  caixa dágua de onde eu tava e então eu segui a pé até lá. Meia hora depois,  eu ainda tava andando. Me deu uma baita sede e eu perguntei onde tinha um bar pra tomar uma coca. Aí me disseram que o bar mais próximo era do lado do banco que ficava perto da caixa dágua.

Brasília é praticamente uma metáfora do que é a política no Brasil.  Lá você se cansa, você se perde, e mesmo que você saiba qual é o caminho certo, você anda e não sai do lugar. Brasília é foda. Nada funciona na cidade planejada e é justamente por isso que ela tem que ser a sede do poder. A cidade-metáfora, isolada do mundo. A gente fica com vontade de fazer uma passeata, jogar uns tomates nos deputados, mas aí vê que Brasília é longe à  beça. E uma vez estando lá, pode ter certeza que a quitanda mais próxima vai estar perto da caixa dágua.

Depois que eu voltei de Brasília, comecei a ter sérias suspeitas de que ela foi construída pro governo ficar mais à vontade,  sem o povo por perto enchendo o seu saco.



Escrito por Leonardo Cortez às 23h16
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03 de fevereiro

Daqui a alguns anos, quando a minha filha entrar na adolescência, ela provavelmente vai me achar um  chato. Eu vou tentar ser o mais legal possível, mas talvez isso aconteça. Paciência. Os adolescêntes também são bem chatos às vezes e então não existe outra alternativa senão cortar o barato e ser um chato com eles também.

Honestamente, eu tô entusiasmado com o desafio de educar minha filha. Vou fazer o melhor possível, vou tentar dar alguns bons exemplos e fundamentalmente tudo isso vai estar amparado nesse amor insano que eu sinto por ela. Acho que é um projeto que tem tudo pra dar certo, muito embora eu possa errar à beça, na carona da inexperiência. De qualquer forma, a adolescência me preocupa um pouco, porque é nessa fase que a gente tem dar uma negligênciada nos pais e, consequentemente, fazer um monte de bobagem. Eu sei disso porque fiz todas as bobagens possíveis nessa fase e fiz tão bem feito que os meus pais não souberam de metade delas. Eu tenho medo de não saber das bobagens da minha filha adolescente, eu tenho medo de saber das bobagens da minha filha adolescênte, assim como eu tenho medo da eventual chatice e da eventual tristeza característica dessa fase da vida.  Eu mesmo fui um adolescente muito chato e muito triste, mais triste do que chato, e essa tristeza era uma chatice pra muita gente, inclusive pros meus pais. Eu não quero que a minha filha seja triste. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance pra que a cuca dela seja ótima, mas o mundo representa uma concorrência muito grande e no final das contas, quanto mais preparada minha filha estiver pro mundo, maiores as chances dela ficar triste de vez em quando porque conhecer o mundo é saber que nada é fácil e esse tipo de constatação, convenhamos,  entristece um bocado qualquer um. 

Então, minha filha, eu espero, nesses anos que antecedem a sua adolescência,  ter sabedoria pra continuar aprendendo sobre a arte de não levar a vida tão à sério e compartilhar isso com você. Vai ser parte do meu aprendizado te ensinar uma porção de coisas e te consolar numa porção de choros. Eu sei que vou continuar a fazer as minhas bobagens e quando isso acontecer, me perdoe porque é provável que você também acabe fazendo as suas e aprenda com isso, assim como eu. E se, no auge da sua chatice adolescente,  você achar que o seu pai não tem mais nada de novo a te dizer, mesmo assim, eu vou te dar de novo o mesmo velho abraço e dizer de novo que te amo, te amo  e te amo, mesmo que você ache um pouco chato ouvir isso pela milhonésima vez.  



Escrito por Leonardo Cortez às 00h22
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