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A Professora
A PROFESSORA
(para Reca)
É só perguntar para quem testemunhou o episódio! Eu não tinha feito nada para levar um beliscão. Conversava e só. Como todos os outros. Ignorava os berros da pobre pedagoga , como todos os outros. Mas só. Não ofendi, agredi, briguei ou maltratei ninguém. Era somente uma criança, entende? E levei um beliscão. Só eu! Se houvesse um espancamento geral, se todos fossem escorraçados a pontapés. Mas não. Todos voltaram inteiros para casa e somente eu voltei marcado, com um hematoma que demorou dias para sair. Sem dúvida, foi em mim que aquela mulher canalizou toda a sua frustração vocacional. Uma vida de sonhos, uma carreira construída na esperança de formar o futuro do país , na esperança de implantar um pensamento crítico no indivíduo em formação. Um sacerdócio assumido, condenado ao fracasso por causa de meia dúzia de pirralhos cuja insolência seus berros não aplacaram. Por isso, suas unhas afundaram no meu braço e eu vi estrelas. Senti a dor suprema, que dói mais fundo quando vem na carona da humilhação. Naquele dia, a professora Elenira me fuzilava com um olhar psicótico:
-Você não me ouviu quando eu mandei calar a boca?
Agora, o silêncio era sepulcral na sala de aula.
-Você é surdo ou eu sou uma palhaça? ela gritava enquanto agredia - Você é surdo ou eu sou uma palhaça?
"Você é um demônio! Tire suas patas de mim, sua psicopata!", pensei em responder, ainda que vinte e tantos anos depois do ocorrido. Na hora não disse nada . Estatelado de dor, medo e humilhação.
-Você é surdo ou eu sou uma palhaça?
Eu precisava dar uma resposta porque o beliscão se tornava cada vez mais violento. Então, ponderando que chamá-la de palhaça iria piorar a situação e não tendo outra alternativa, respondi agonizante:
-Eu sou surdo.
Deveria ter dito: “Larga o meu braço, louca!”. Ou “Nenhuma das anteriores, vaca!”, mas essas respostas eu só formulei no mês passado. O fato é que Dona Elenira, quando ouviu minha resposta, achou que eu tinha sido insolênte e foi acometida por espécie de síncope:
-Moleque! Seu moleque!
Quando finalmente ela soltou meu braço, a condenação veio em seguida:
-Hoje, você não lancha!
(continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 00h29
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E sem nenhum constrangimento, ela tomou-me a lancheira cujo conteúdo -um pão com banana e suco de uva – eu jamais , jamais pude provar. Com o canto do olho eu observava o testemunho silencioso dos meus amiguinhos. Alguns riram, discreta e sadicamente enquanto as lágrimas escorreram na minha face humilhada. Uma criança, somente uma criança, meu Deus...
Décadas depois, eu a reencontrei num restaurante, no meio de um almoço com os meus clientes. Enquanto eu dissertava sobre a elevação cambial, ela entrou sozinha, sentou-se à mesa e pediu um cardápio. Vinte anos mais velha e mais feia. Imediatamente, o episódio ressurgiu em cores vivas na minha memória e eu praticamente salivei no desejo por um pão com banana. Perturbado, eu não resisti. Pedi licença aos meus clientes e fui até ela, que me recebeu sorrindo.
-Fui seu aluno, professora, disse com o maxilar travado por um sorriso amarelo.
Ela não me reconheceu.
-Agora sou representante comercial. Aqueles são meus clientes. E a senhora, ainda leciona?
Essa era uma pergunta crucial. Talvez eu pudesse salvar o braço de alguém. Me preparava para dizer que por pouco a minha vida não tinha sido arruinada por causa do beliscão e do lanche confiscado. O suor corria na minha testa e a minha cabeça parecia que ia explodir. Confesso que enlouqueci. A palavra vingança ecoava no meu cérebro. Sim. Sou um perfeito imbecil. É só observar a maneira como eu lambo as botas dos meus clientes para realizar grandes negócios. Um sujeito como eu é bem capaz de tomar a liberdade de revidar, ainda que tardiamente aquela agressão beliscando o braço de uma velha e confiscando posteriormente sua sopa de mandioquinha que acabava de chegar . Não me importaria o escândalo ou o que os clientes iriam pensar de um representante comercial que é capaz de agredir velhas em lugares públicos, roubando-lhe o almoço enquanto dá sádicas gargalhadas . Mas antes disso, a professora Elenira respondeu.
-Não leciono desde que meu marido morreu. Aliás a gente sempre almoçava aqui. E hoje faz dez anos que a gente se sentou nessa mesa pela última vez.
Conversamos mais uns dois minutos. Na despedida, dei um abraço na professora Elenira. Minha querida professora Elenira. Os clientes acharam lindo.
Escrito por Leonardo Cortez às 00h28
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Run, Forest!
Quando me chamaram pra fazer o teste do longa e não tinha texto pra decorar , eu fiquei com o pé atrás. Quando eu cheguei no teste e o cara que ia dirigir o teste disse que era pra eu ser "eu mesmo" diante da câmera, eu fiquei com dois pés atrás. E quando ele começou a fazer umas perguntas idiotas sobre a minha vida pessoal com o intuito de me desconcertar e "me revelar" diante da câmera, o primeiro impulso foi sair correndo. Mas aí eu fiquei e definitivamente não fui "eu mesmo". O meu "eu" verdadeiro não estaria ali de boa vontade, respondendo pergunta cretina só pra mostrar que o meu verdadeiro "eu" serve sob medida pra algum personagem daquele longa que certamente o meu verdadeiro "eu" não vai fazer.
Então eu me pergunto se o barato de ser ator não é justamente a capacidade de criar dentro de si e revelar ao mundo personalidades absolutamente distintas do seu verdadeiro eu. Esse é o barato da coisa. Essa é a arte que a gente se propõe a executar, mas alguns cineastas não acreditam que isso seja mais possível. Por isso eles querem atores que caiam feito luvas no papel, sem dar ao ator a possibilidade de se debruçar sobre a criação num processo que poderia até, eventualmente, colaborar pra riqueza do trabalho final. Eles acham que a colaboração do ator pode acontecer quando ele diz com as próprias palavras a falas do diálogo pra tudo parecer mais "espontâneo". Então eu digo: espontaneidade assim pra mim não vale.
O Bortollotto falou e eu assino embaixo: essa história de colocar ator dizendo o texto com as próprias palavras assassina a arte do diálogo. É bem verdade que, muitas vezes, é o diretor do filme que escreve o roteiro e justamente por saber que o seu roteiro não é lá grande coisa, ele não se importa quando o ator se lança nessa modinha de ficar modificando e adequando a fala pra que ela se encaixe melhor na sua boca e no seu estilo de interpretação. Eu, como dramaturgo, fico obviamente puto quando vejo um ator metendo um caquinho no texto que eu escrevi. Não que seja uma obra shakespereana, mas pombas, a fala ali foi pensada, meu velho. Tem uma musicalidade, tem uma função e eu juro que tô tentando ser um cara responsável quando escrevo coisas pra outras pessoas dizerem por mim no palco. Ao mesmo tempo, acho lindo quando o ator bota uma pausa inusitada, quando dá um respiro sem obviedade, ou quando ele quebra a palavra no meio, surpreendendo o espectador. Acho lindo quando isso acontece em cima do texto apropriado, estudado, apreendido, introjetado. Essa é a arte do ator, pombas!
Parece que a tendência é ninguém mais se preocupar em construir personagem. No paupérrimo universo criativo do cinema nacional você já tem que ser o personagem que o diretor acha que tá pronto na sua própria cabeça de diretor. Deve ser porque normalmente o diretor não tem a manha de dirigir ator, então, é mais fácil quando o cara vem pronto de casa, vem pronto da vida. E mesmo quando isso acontece, o diretor ainda chama pro set o “diretor de ator” que nada mais é do que um sujeito que faz pro diretor do filme um trabalho que nem deveria existir se esse mesmo diretor do filme fosse capaz de estabelecer um diálogo mínimo com um ator decente.
Então, da próxima vez, quando rolar um teste desse tipo pra mim, eu espero que seja pra um personagem muito mal-humorado, muito de saco cheio dessa história de não atuação, dessa história de desconstrução, dessa história de livre apropriação do texto pra conseguir passar espontaneidade. Porque é exatamente essa irritação que eu sinto quando eu sou testemunha dessa mania chata de achar que a vida real, por si só, é arte.
Escrito por Leonardo Cortez às 23h06
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Conto de Terror
Minha mente doentia vagueia por regiões pantanosas e inomináveis quando estou especialmente perturbado. Dia desses, eu me encontrava nesse limbo mental e surgiu esse conto de terror. Não passe dessa frase se seu estômago é fraco. Ok, você passou. Mas deixa o estomazil por perto...
AS VELHAS
Reuniam-se as três velhas na hora do chá para comentar da saúde.
-Hoje estou que não posso com a enxaqueca!
-E eu que não viro mais o pescoço pra esquerda?
-Minha joanete tá que tá.
E serviam-se de chá.
Um dia, uma delas disse:
-Conheci um médico supimpa. Deu jeito na minha enxaqueca!
-Qual o nome do santo?
- Dr. Praxedes Tavares. Sinto-me nova!
- Me dá o telefone que esse pescoço me mata!
(continua...)
Escrito por Leonardo Cortez às 01h12
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Na outra reunião , euforia:
-Tô curada do pescoco. Olhem só: Direita....
-Oh!
-Esquerda!
-Oh!
-Santo Praxedes!
-Será que ele cura joanete?
-Tira o pé da mesa!
-Cura tudo!
-Me dá o telefone!
No dia seguinte, a da joanete não veio.
-Será que ela foi?
-Disse que ia. Mas nunca se sabe.
-Liga pra ela.
Telefonaram. Atendeu a neta. Voz de choro.
-Vovó morreu. Depois de ter se consultado com o Dr. Praxedes.
-Que horror!
A menina continuou.
-Mas prenderam o filho da puta! Descobriram que ele envenenava as clientes . Minha avó foi a terceira senhora que morreu depois da consulta.
Nesse momento batem na porta. Adentra na sala a terceira velha.
-Tô curada da joanete! Vocês tinham razão. O homem é um santo!
Escrito por Leonardo Cortez às 01h10
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O Céu Pode Esperar
Quando eu escrevi " O Crapula Redimido" tinha uma cena onde um pastor evangélico sacaneia o protagonista. Quando a gente fez uma leitura dramática lá no Rio, veio uma mulher muito piedosa e disse que, um dia, Deus ia tocar no meu coração pra que eu enxergasse a verdade sobre a Igreja Evangélica. Bom, a coisa mais burra é discutir religião e quem leva isso às ultimas consequências acaba amarrando bomba em volta do corpo. De qualquer maneira, naquele dia o que eu disse pra mulher foi a minah posição de sempre e que vale pra todo mundo, inclusive pra Igreja Católica. Dinheiro não tem nada a ver com espiritualidade, moçada! Se a igreja tá acumulando patrimônio e dando vida de marajá pra pastor, aí tem coisa errada. Eu acredito na fé dos pastores miseráveis. Se eu vejo o cara pregando de pé descalço, debaixo do sol ou embaixo da marquise, na fé desse sujeito eu acredito. Não me venham com terno de linho, carro importado, propriedade em Miami e arroubos de euforia calcada na prosperidade ostensiva porque isso não combina com o discurso original.
Porque tá lá, e eu nem sou estudioso pra saber de cor que "é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no Reino dos Céus".
Escrito por Leonardo Cortez às 00h52
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O Céu Pode Esperar, parte 2
E por falar nesse assunto, deu no Jornal da Band que um cara fulo da vida com o barulho da cantoria de uma igreja evangélica pegou o revolver e entrou atirando no meio do culto. Por sorte, Deus tava presente lá dentro e ninguém se machucou. Antes de mais nada é bom que se diga que nada justifica a violência, nem mesmo a cantoria evangélica.
Pensando bem...
Não. Nada justifica a violência. E vamos mudar o rumo dessa conversa...
Escrito por Leonardo Cortez às 00h22
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Pára!Cêtámal!
Não tenho plano se saúde. Se me acontecer alguma coisa, me encaminhem pra Santa Casa que a minha mãe trabalha lá e aí eu consigo passar na frente da fila. Tenho que ser muito prudente nas minhas saídas de casa. Lá no Rio eu tropecei numa corrente, cai com o queixo no chão e pra não ter que ir no Milguel Couto, acabei parando num hospital particular da Barra da Tijuca que me cobrou quinhentos reais por três micropontos que não deixaram cicatriz. Pelo menos o serviço foi bem feito.
Tenho que ficar atento com a saúde. Tudo aparentemente tá funcionando bem, pelo menos no ponto de vista físico. Vez por outra eu sinto uma pontada no abdomem que a Glaucia diz que são gazes. Vez por outra eu tenho dor de cabeça o que aparentemente acontece ou porque eu passo tempo demais tentando racionalizar as minhas angústias, ou porque eu não uso óculos de leitura . Mas eu sei que não vai ter jeito. Quando a prosperidade chegar, eu vou ser obrigado a fazer plano de saúde. Da mesma maneira que vou ter que providênciar a minha Previdência Privada. O que não impedirá que eu tenha o seguinte devaneio, antes de preencher o primeiro cheque:
Se todo mundo que pudesse pagar plano de saúde e prividência privada, simplesmente não pagasse, os urubus da saúde e da previdência iam morrrer de fome e o governo talvez se sentisse um pouco mais pressionado pra resolver a situação. Normalmente quem pode pagar é quem apita mais e se os donos do apito resolvem pro governo um problema do governo, então sem dúvida, o governo se sente mais confortável pra negligenciar necessitados como eu, que por enquanto reclamam e esperneiam indignados, mas que daqui a pouco podem prosperar e quebrar mais esse galho pra eles.
E agora, pausa proTylenol.
Escrito por Leonardo Cortez às 10h56
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