Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


O Desquitado, parte 1

Em cima do criado mudo, do lado da minha cama repousa o exemplar de "A Vida Como Ela É..." em edição lindíssima da AGIR que eu leio sempre um pouquinho antes de dormir.  Aí, hoje de manhã eu acordei com essa história na cabeça. A história é minha, e qualquer semelhança com o estilo não é plágio e sim homenagem.

"O DESQUITADO"

 Quem conhecia Olegário sabia que se tratava de um coitado. O sujeito era uma dessas figuras tísicas de braços finos que ninguém jamais imaginaria erguendo a voz em algum eventual momento de destempero. Os amigos da repartição achincalhavam Olegário e lhe davam apelidos jocosos, dentre os quais o mais popular era "Bananão". Olegário não protestava , talvez amparado na terrível consciência de que de fato sua fraqueza era algo consolidado. E em segredo, atribuía às mulheres da sua vida seu comportamento reprimido  e num sorrido amargo se reconhecia como um fracote. Um fracote assumido, repetia macambúzio, como se o reconhecimento do seu status de humilhado representasse um  último fio de dignidade na sua existência de banana.

A Mãe

Olegário era filho único de dona Euzébia e diante da viuvez precoce, a mãe  o submeteu, desde pequeno à toda sorte de super-protecionismos. Dona Euzébia controlava todos os passos do filho único e diante daquela figura autoritária, Olegário sucumbia numa espécie de resignação bovina. Foi Dona Euzébia que impôs a Olegário o curso de Direito quando o filho chegou na idade madura. Foi Dona Euzébia quem arranjou o emprego na repartição do primo Tavares, a quem Olegário secretamente odiava, por suspeitar das conversas aparentemente intímas demais que mãe e primo travavam ao pé do ouvido quando ele virava as costas.  

Dona Euzébia comprava as roupas do filho, controlava as amizades, impunha casaquinhos nos dias de meia-estação e determinava o horário de chegada quando eventualmente ele saia pra sinuca.

-Quero você aqui no máximo dez e meia! E sem bafo de cerveja!

E Olegário,  que  já era homem feito,  quando  entrava pela porta, dez e meia em ponto, tinha o hálito cheirado pela mãe, que depois lhe dava um  um beijo agradecida e o colocava na cama.

Maria Angélica

Quando Olegário se apaixonou por Maria Angélica, uma conhecida da recepcionista da repartição, tentou de maneira prudente manter o romance em segredo, mas Dona Euzébia, que conhecia o filho melhor do que ninguém cercou de todos os lados.

-Eu te conheço, meu filho. Aí tem dente de coelho.

-É uma moça, mãe..., respondeu Olegário com o fio de voz característico.

-Batata! Trás a menina aqui amanhã.

Com a falta de força habitual, Olegário deu um suspiro e comunicou a imposição materna à  Maria Angélica, que naquela altura dos acontecimentos estava decidida a se casar com o "bananão". A mãe de Maria Angélica já havida dado a recomendação certeira à filha.

- Pra casar escolhe o marido banana. Se o homem fiel nasceu morto, o homem banana infiel foi abortado antes da concepção.

O Encontro

A antipatia entre as duas mulheres foi mútua logo no primeiro momento. As duas eram muito parecidas no seu autoritarismo e nesse dia, a voz de Olegário praticamente não foi ouvida, a não ser pra dizer "sim, meu bem" ou "sim, mamãe". Depois que Olegário deixou Maria Angélica dentro do bonde e voltou pra casa, Dona Euzébia esperava o filho na sala com uma recomendação veemente:

-Não é mulher pra você, meu filho.

Homem, afinal

A princípio, Olegário deu o suspiro da resignação bovina, mas à noite, na cama, ao se recordar do belo rabo de Maria Angélica, tomou a decisão. Na manhã seguinte, ainda que abatido pela falta de sono, declarou num fio de voz que iria se casar com Maria Angélica, não se importando com a falta de consentimento materno. Dona Euzébia fez toda a sorte de chantagens emocionais, chorou e se descabelou, mas Olegário pensava nas ancas da namorada e na carona do desejo reprimido, sustentou sua firme posição. Por fim Dona Euzébia, envelhecida e triste, deu a benção contrariada.

-Casa meu filho. Mas palavra de mãe,  escuta o que eu digo. Tu serás infeliz ao lado dessa mulher...



Escrito por Leonardo Cortez às 13h51
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O Desquitado, parte 2

Casado

Olegário e Maria Angélica casaram-se no religioso numa cerimônia discreta onde só os familiares e os colegas mais chegados de repartição  eram os convidados. Maria Angélica era uma mulher carnuda e corpulenta e suas proporções abundantes contrastavam com a franzinice do marido raquítico. Um espectador desavisado poderia supor que no altar a noiva vestia fraque e o noivo,  véu e grinalda. Mas Olegário demonstrava felicidade e um olhar de quem declarava independência , principalmente quando era dirigido à uma  chorosa Dona Euzébia, que durante a cerimônia se consumiu em lágrimas de desgosto e não de emoção.

De início, a vida de casado parecia harmoniosa. Olegário engordara, estava mais seguro e era visto com freqüência nas rodas de sinuca, muito embora voltasse pra casa invariavelmente dez e meia, sem por uma gota de álcool na boca. Aos amigos chegados, ele dizia num fio de voz que nunca se sentira tão livre como no casamento, muito embora Maria Angélica controlasse todos os seus passos e seus horários exatamente como fazia mãe. Inebriado pelas noites de amor que a mulher lhe proporcionava, Olegário se submetia ao controle da esposa de bom grado. A mãe, vez por outra,  aparecia no apartamento do casal e na ausência de Maria Angélica, repreendia em segredos os hábitos truculentos da mulher. Olegário, surpreendentemente, não se fazia de rogado e retrucava sem perdão.

-Vai cuidar da tua vida, Dona Euzébia.

E diante daquele filho que ela não mais reconhecia, só restava a Dona Euzébia o desabafo reprimido pra si mesma, enquanto as lágrimas de desgosto faziam nova excursão por suas faces enrugadas.

-Enfeitiçado!

A agressão

Algum tempo depois, Olegário surgiu na repartição de olho roxo. Questionado pelos amigos que ainda lhe davam apelidos maldosos do porquê do ferimento, Olegário foi incisivo.

-Briguei na rua.

Meses depois, um inchaço na boca chamava a atenção dos colegas. A desculpa foi ainda mais esfarrapada.

-Caí da escada, olha o azar.

Durante meses, Olegário vinha trabalhar com um novo hematoma aparente. Os boatos de que Olegário apanhava da mulher ganharam força e chegaram ao ouvido de Dona Euzébia. Entre desesperada e orgulhosa, ela foi ter com o filho numa exigência contundente.

-Larga dessa mulher. É um pedido que a sua mãe lhe faz!

Mas Olegário, que de fato, apanhava da mulher como um cão sarnento, não deu ouvido às  súplicas da progenitora, declarando numa pose de Dom Pedro de botequim.

-Da minha vida cuido eu!

Tragédia

Numa quinta-feira, talvez vitimada pelo desgosto de ver seu filho cada vez mais estuporado, Dona Angélica sentiu uma vertigem e caiu no meio fio. Olegário foi avisado na  repartição  por Maria Angélica e o casal entrou esbaforido na Santa Casa de Misericórdia. O médico foi ter com ele, seco e taxativo.

-Tua mãe teve aneurisma. Um troço irreversível. O coma é só uma questão de tempo. Eu se fosse você encomendava as flores. Bye, bye.

E diante daquela pusilanimidade abjeta do médico, Olegário ficou sem ação. A notícia da morte eminente da mãe operou em sua mente um turbilhão de idéias que a voz não conseguia exprimir. Com seus braços fortes, Maria Angélica tentou consolar o marido, oferecendo um abraço de conforto. Mas nesse momento, a voz de Olegário soou com firmeza inédita, pra espanto da esposa.

-Maria Angélica, eu quero o desquite.

E a palavra desquite ficou ecoando no salão abobadado da Santa Casa, enquanto Maria Angélica não sabia se chorava ou dava um tapa na boca do marido.



Escrito por Leonardo Cortez às 13h49
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O Desquitado, final

 

Livre

Naquela noite, Maria Angélica tentou bater no marido como de costume, mas Olegário se mostrou tão convicto da sua decisão que a matrona violenta se transformou numa cocotinha indefesa e submissa. Desesperada, se ajoelhou diante das pernas fininhas do marido declarando em altos brados pra vizinhança ouvir.

-Olha que eu me mato!

-Pois é um favor que me faz!

Na semana seguinte, ele estava de mudança pra casa da sua mãe, que em coma irreversível,  aguardava a chegada da morte no leito da enfermaria da Santa Casa. Mandou dar os móveis e as roupas velhas pra caridade, pintou as paredes de cores vivas e instalou uma cama de casal no antigo quarto da matriarca. Na primeira oportunidade, contratou uma prostituta e se lançou a uma noite inteira de delírios inomináveis. Na manhã seguinte, Maria Angélica bateu à sua porta, deu de cara com a menina de programa e engolindo uma humilhação insuportável fez a última súplica desesperada.

-Volta pra mim...

-Fora!, gritou Olegário batendo a porta na cara da, agora,  ex-mulher.

Na repartição era outro homem. Um colega piadista tentou resgatar o seu passado de banana numa piada inconveniente e recebeu um soco na boca, que apesar de ter sido dado por um sujeito de braços finos, pegou em cheio no dente, exigindo reparos odontológicos de emergência. Agora,  Olegário era respeitado, ficava na sinuca até alta madrugada e bebia cerveja com a resistência de um camelo. Numa noite quebrou uma garrafa de pinga na quina da mesa e,  segurando o gargalo mortal,  ameaçou um inconveniênte de plantão.

-Vem que eu te mato!

E os antigos amigos repetiam, num misto de admiração e reverência.

-Quem te viu e quem te vê...

Final

Um dia, quando Olegário estava na repartição, mascando um palito e segredando  obscenidades aos colegas admirados,  a recepcionista, que era casada e que estava de caso com Olegário, lhe passa do telefone.

-Telefone pra ti. Da Santa Casa.

“Empacotou”, foi seu primeiro pensamento, na carona de uma certa culpa por não visitar a mãe moribunda havia uns seis meses.  Do outro lado da linha, o médico pusilânime anunciava:

-Tenho que te contar uma bomba. Mas toca pra cá pra ver com os próprios olhos!

Olegário teve um mal pressentimento e com o coração aos pinotes tomou o primeiro bonde. Chegando no salão abobadado, o médico estava eufórico..

-Tua mãe acordou esta manhã! Um milagre inexplicável e eu vou te dizer, rapaz. A velha tá nova! Nova!

Imediatamente, Olegário empalideceu. A voz firme ganhou aquele velho e conhecido timbre fino e tísico quando ele perguntou:

-Como é possível?

Na enfermaria, Dona Euzébia (que parecia dez  anos mais moça), o abraçou, reconhecendo naquela figura frágil o seu filhinho querido de sempre. Olegário sabia que não teria alternativa. Procurou na Santa Casa o primeiro telefone público e discou pausadamente o velho e conhecido número. Quando a voz feminina atendeu do outro lado, ele, num fio de voz, quase que implorava:

-Volta pra mim, Maria Angélica...



Escrito por Leonardo Cortez às 13h48
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Volta ao Lar

Ontem fizemos a primeira leitura pública de "O Rei dos Urubus" no Centro Cultural São Paulo. Muito boa  a sensação de começar a  socializar um troço que foi uma aflição só minha durante todos esses meses.  Porque a realidade é que tem uma hora que eu me enjôo de mim mesmo e quero mais é que outras pessoas compartilhem da obra aflita nem que seja pra dar umas risadas e esquecer do assunto meia hora depois. Agora o mal e o bem já foram feitos, a peça saiu do computador, tá na boca dos atores , tá na fila dos editais, tá na roda de debate, tá na cabeça de quem escutou a leitura de ontem , se esqueceu ou se indignou. Tá desovada. Na na carona do alívio tem a perspectiva da comunhão, da diversão, da fossa e da revolta que fazem do teatro o mais aflitivo prazer da minha vida.  Por enquanto sigo em frente ao lado desses bravos e amorosos companheiros Gansos, Gui, Valter, Jabá, Glau, Fabi. Obrigado por darem voz aos agoniados ecos da minha angústia. Ela passa quando eu escuto.  

Escrito por Leonardo Cortez às 03h57
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Back to the egg

Tamo em janeiro, começo do ano e  eu estou otimista à beça. Acho que é uma sensação resultante do alívio de ter sobrevivido ao final do ano passado, quando toda a euforia do consumismo natalino contrastava com a minha miséria financeira. Estive enfurnado em meia dúzia de amigos secretos  e em todos eles acabei comprando presentes mequetrefes que certamente decepcionaram todos os que tiveram a infelicidade de serem presenteados por mim. Meu carro quebrou no final do ano e o conserto foi uma fortuna. Pra viajar pra praia tive que pagar o licenciamento e o IPVA. Mudei de casa. Pagamos reforma, mudança, o escambal. Recebi um convite da Prefeitura pra fazer uma leitura dramática da minha peça nova no Centro Cultural São Paulo. Agradeci imensamente e quase não acreditei quando eles disseram que eu ainda iria receber um cachê, desde que eu quitasse o CCM que eu tava devendo pro município. Eu nem sabia o que era o CCM. Até hoje eu não sei direito o que é CCM. O que eu sei é que o que eu estava devendo é praticante o mesmo valor que a prefeitura vai me pagar pela minha leitura dramática. Como sou um bom pagador, a leitura tá confirmada pra dia 24, às 18:00h.  

Enfim, a coisa tava tão preta em dezembro que quando eu fui convidado pra fazer dois trabalhos por uma agência de eventos,  aceitei sem pestanejar. Um dos trampos  foi no centro de convenções de um hotel cinco estrelas pros funcionários de um banco.  O RH da instituição promoveu sei lá que palestras de fim de ano pros funcionários e aparentemente num gesto de compensação pelo aborrecimento, contratou uns atores e umas modelos pra simular um cassino depois do jantar de confraternização que os atores infelizmente não tiveram acesso. Alias, a dona da agência de eventos foi categórica no ato da contratação: "Ator da nossa agência não pede comida pro cliente." Por isso tive que ser esperto e roubei uns croquetes na cozinha quando ninguém tava vendo.  

Fui chamado pra ser o animador do cassino e sem saber direito o que isso significava, peguei um microfone e soltei em altos brados algo como: "vamos jogar, minha gente, que eu falei com Polícia Federal e a jogatina tá liberada!" Imediatamente uma representante do banco me puxou de lado pra dizer que aquele tipo de piadinha pegava mal. Quando me devolveram o microfone, eu esclareci que os prêmios das apostas eram os brindes com o logotipo do banco o que gerou grande decepção nos funcionários já exauridos pelas palestras desinteressantes. Por sorte, antes mesmo do jantar,  os garçons já tinham começado a servir as bebidas. Isso facilitou a beça o meu trabalho de animador já que a euforia etílica se encarregou de tornar cada piadinha infame a coisa mais engraçada do mundo. Pensando bem, acho que eu não estava tão mal, porque quando o chefe do RH,  que já estava pra lá de Bangladesh com o uisque,  tomava o meu microfone pra fazer  algum comentário engraçadinho, os funcionários, mesmo os mais bêbados,  não riam com tanta sinceridade. Uma hora,  o chefão pediu silêncio ao microfone pra fazer uma nova demonstração da sua inabilidade humorística. Como tava todo mundo muito entusiasmado por causa das biritas e principalmente por causa das modelos que distribuíam as apostas na mesa do carteado,  ninguém deu atenção pro cara. Ele pediu silêncio inutilmente umas três vezes e como o cassino continuava pegando fogo ele mandou o DJ desligar o som ambiente e deu um baita esporro na sua equipe, o que gerou um silêncio constrangedor.  Aí , pra espanto de todo  mundo , ele emendou uma piadinha referente à mini-saia de uma das modelos e desceu do palquinho, glorioso. A piadinha da mini-saia rendeu uns "ré-ré-rés" aqui e ali, mas quando entregaram o microfone de volta pra mim o clima tava tão carregado que eu não sabia o que dizer. Puxei de canto a dona da agência e comuniquei num cochicho a minha aflição. Então ela disse:

-Você é o animador. Então anima...

Dias depois fui o apresentador de uma  entrega de prêmios pros funcionários do escritório administrativo de uma grande loja de departamentos. A festa de  confraternização, promovida e concebida pelo RH,  foi numa pizzaria e dessa vez, me serviram um pedaço de pizza antes de eu entrar em cena. Então, alimentado, me lancei ao desafio de apresentar os prêmios jocosos que incluíam as categorias  “Maior Puxa-Saco do Ano”, “Tarada Número 1 do  Escritório”  e  “Hálito Mais Fedido”. Achei que a agressividade das categorias poderia atrapalhar o resultado cômico da minha performance, mas pra minha surpresa, o mundo coorporativo aparentemente adora esse tipo de brincadeira e cada prêmio entregue rendia um festival de gargalhadas. Quando a “cerimônia de premiação” terminou, o  cara que recebeu o prêmio “Molhadinho 2006” , justamente por ser o cara que mais suava no escritório, me cumprimentava eufórico.

-Você é muito engraçado!   

E enquanto eu me enxugava, pensei que se eu tomasse uma birita, talvez achasse um pouco mais engraçado aquele meu final de ano repleto de inofensivas desgraças...



Escrito por Leonardo Cortez às 16h45
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