Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


Constantine - final

E o  que se seguiu naquela noite foi o reencontro de Constantine com  a fêmea descontrolada  daqueles dias longínquos em Paris. As roupas arrancadas numa velocidade proporcional ao desejo. Posições inimagináveis e obscenidades catalãs  sussurradas por Giuliano conduziram Constantine a estágios de prazer que ela jamais havia experimentado.  No auge da loucura, os gritos e urros primais acordaram os vizinhos. Obviamente alguém reclamou, com pancadas na parede, mas não é difícil  imaginar que por trás da indignação do sono interrompido não existisse no vizinho ensonado a  secreta inveja típica de quem não sabia  amar daquele jeito.

 Constantine voltou a casa da irmã no dia seguinte e  a encontrou de malas prontas e firme no intuito de voltar ao Brasil naquele mesmo dia. Seu casamento era uma farsa e tudo o que ela queria era recomeçar a vida em sua terra natal. Só então Constantine saiu de seu torpor sexual. A noite passada ao lado de Giuliano estaria condenada a ser uma lembrança do passado. Voltaria ao Brasil, reencontraria Eduardo e retomaria sua vida de futilidades e monotonias. Desesperada, voltou ao apartamento de Giuliano e lançou-se a uma última tarde de amor.  Giuliano propôs que ela ficasse. Constantine recusou. Havia os filhos, a casa, o marido, sua psicanálise,  a irmã que precisava do seu apoio e além disso, agora ela não podia mais contar com seu  pai, que  estava morto. Ou seja, não haveria quem a resgatasse daquele delírio catalão.

Constantine embarcou com a irmã naquela mesma noite. No avião foi assombrada por dúvidas cruciais. Olhando Nicole  macambúzia, ela sentia por ela um misto de pena e admiração. Pena pelo seu estado emocional depauperado, admiração por sua coragem de jogar tudo para o alto. No meio de uma turbulência, que chacoalhou  o avião a ponto de Constantine pensar na própria morte, ela decidiu contar ao marido a relação extra- conjugal. Seguiria-se o divórcio e a plena liberdade para fazer da sua vida o que bem quisesse. Poderia voltar a Barcelona, e viver intensamente a paixão por Giuliano. Poderia enfim gozar a vida e entender o significado da palavra plenitude. Poderia pensar em si mesma como mulher, livre para viver de acordo com seu desejos e ambições.

Possibilidade de fim numero 1:

Eduardo espera a esposa no aeroporto. Está avisado que a irmã viria junto. Sorri carinhosamente para as duas e naquele dia é tão atencioso que até fala que estava com saudades. Abraça Constantine e nem percebe que,  discretamente, a esposa derruba lágrimas que são uma mistura de gratidão e arrependimento. Voltam pra casa. À noite, terão um agradabilíssimo jantar num lugar caro e refinado. 

Possibilidade de fim número 2:

Eduardo recebe as duas no aeroporto tremendamente mal-humorado. Tem uma reunião dali a uma hora  e aquela história de buscar as duas pode acabar com seu dia. Eduardo acha a cunhada uma chata e recebê-la como hóspede durante alguns dias vai ser um saco! Cumprimenta secamente a mulher e ao invés de manifestar alegria, tece o rosário dos problemas da empresa que não podiam esperar para serem resolvidos. Constantine sua frio, por debaixo de sua fina camisa de seda que poucas horas antes havia sido despida por um homem que soube valorizá-la como mulher. Ela quer contar tudo. Humilhar Eduardo, que já tivera a pachorra de namorar uma garçonete. No entanto se calará. Irá manter o casamento e como vingança, ocultará do marido  a verdade única , absoluta e indelével de que sua esposa sabe que ele é um corno manso.

Em ambas as possibilidades, Constantine permanecerá triste por mais algum tempo.

 



Escrito por Leonardo Cortez às 02h11
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Constantine - parte 3

O jantar foi um pouco tenso. Pablo e Nicole não se falavam à mesa, nitidamente envoltos na nuvem negra da crise. Constantine, pertubadíssima pelo efeito devastador do charme de Giuliano, não conseguia exercitar o melhor da sua intelectualidade. Giuliano era um anfitrião atencioso e educado. Seu penne com porpetas ao molho siciliano era digno de grandes elogios, apesar de Nicole não tocar na comida. Aliais,  esse foi o pretexto para uma grande crise. Ao ser indagada por Giuliano se gostaria de outro o prato, Nicole  resmungou, num lampejo de incontida sinceridade,  que gostaria de outra vida. Pablo riu  sem graça e cochichou que não era de hoje a  mulher andava um pouco nervosa. Nicole respondeu num riso amargo que não estava nervosa e sim cansada. Pablo, já um pouco impaciente,  emendou a seguinte frase: “Cansaço? Histeria mudou de nome...” e deu uma risadinha amarga, interrompida quando  Nicole jogou cinematograficamente o conteúdo da taça de vinho no rosto do marido que,  chocado,  levantou sôfrego e bateu a cabeça no lustre de cristal, o que gerou um corte profundo na cabeça calva e o estrago definitivo do jantar cordial. Constantine e Giuliano correram para buscar gelo e ataduras que controlassem o sangramento de Pablo enquanto num canto Nicole gritava por desculpas dizendo que era a depressão, era a depressão.

Pois bem, a busca pelos apetrechos de primeiros socorros uniu Constantine e Giuliano. Ela ficou encantada com a organização de seu estojo de primeiros socorros, colocado caprichosamente dentro de um armário no banheiro limpo e impecável. Ele ficou encantado com a destreza com que ela fez o curativo em Pablo. Ela se encantou com  o arsenal de pílulas e antidepressivos que Giuliano possuía em seu estojo e ele se encantou com o vasto conhecimento que Constantine ostentava sobre o assunto. Decidiram em comum acordo ministrar analgésicos e antiinflamatórios para Pablo e um tranqüilizante a base de Risperdona para Nicole. Constantine estava em êxtase. Jamais havia compartilhado algo de maneira tão profunda com um homem. Ao atender o casal em crise , ambos tiveram a sensação de realizar uma grande obra em comum, como um médico e sua enfermeira ,  que depois de se apaixonarem ,  resolvem fundar um hospital   no coração da África para atender os habitantes miseráveis das tribos somalis. Ela havia lido sobre Albert Sweitzer. E pensou que Giuliano poderia ser seu Albert Sweitzer. Até  bigode era parecido.

 Levaram a irmã e Pablo para casa e decidiram que o melhor era deixar os dois a sós para se entenderem , já que ambos estavam igualmente deprimidos e dopados. Depois, do lado de fora do apartamento do casal em crise, Constantine não se reconheceu ao aceitar o convite de Giuliano:  voltar ao apartamento e terminar o penne.

Ela foi . (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 02h10
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Constantine- parte 2

Constantine ficou chocada com tudo o que ouviu de Nicole.  Procurou consolá-la, recomendou uma viagem ao Brasil e uma consulta com o psiquiatra da sua filha que procurou tratamento quando descobriu que sofria do mesmo problema de falta de libido, isso com desesseis anos de idade. Falou das maravilhas dos remédios psiquiátricos, propôs passeios no Park Guell, incendiou o grande apartamento situado próximo a Praça de Espana com uma luz que não possuía. Sim, porque Constantine se identificou com a irmã, embora ocultasse o fato para não aumentar a fossa de Nicole. Até onde sabia, Eduardo não havia tido mais amantes desde o episódio com a garçonete. No entanto, desejo era uma palavra abolida do seu dicionário matrimonial. Por isso, quando conheceu Giuliano, naquela mesma noite, sua perturbação chegou a níveis estratosféricos.

Vamos contar como tudo aconteceu. No começo desse conto, Constantine ajeitava seu cachecol, mesmo sem  saber que dali a poucas horas , seu corpo agora aquecido graças às sucessivas camadas de roupa, seria elevado à altas temperaturas pelo calor da paixão. Depois de arrumada, ela  tomou Nicole pelo braço e ambas se dirigiram às Ramblas , onde vencidas três quadras poderiam se encontrar com Pablo  no apartamento de Giuliano, um italiano de meia idade,  velho amigo da família e artista plástico de ocasião. Giuliano convidara Pablo, Nicole  e  a irmã,  que ainda não conhecia,  para uma rápida olhadela nos quadros novos e um jantar italiano. Deprimida, Nicole recusou, mas por insistência de Constantine, acabou topando. Mal sabia Constantine que aquela visita iria condená-la a partir daquela noite a um longo período de tormenta interior, pois quando Giuliano abriu a porta e disse num doce e rouco espanhol italianado “estejam a vontade”, Constantine percebeu que sua vontade era despir-se o mais rápido possível do seu tailer e de suas botas de grife para lançar-se na mais indecente aventura amorosa de toda a sua vida desde Jean Paul. Mas claro, essa era uma idéia abominável do ponto de vista moral, por ela ser casada, por aquele ser o primeiro encontro dos dois e por, naquela altura da sua vida, ela se considerar imune às inconveniências dos seus impulsos. Então conteve-se, sorriu e entrou, tecendo comentários subseqüentes aos quadros de Giuliano que honestamente , não tão competente na pintura quanto era na cozinha. (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 14h20
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Constantine - parte 1

 

“Constantine joga tudo para o alto, sai correndo do aeroporto Charles de Gaule e segue com Jean Paul , seu amante francês. Patrícia e Maria Claudia, a Clau,  irão xingar a amiga e ligarão para o pai da moça na primeira oportunidade. Mas nada deterá a força  do amor. Constantine se jogará nos braços daquele homem que ela mal conhece levando somente sua bagagem de mão , se esquecendo das compras que fez e das  suas outras três malas que ficarão na seção de achados e perdidos do aeroporto por algum tempo. Os dois irão para o Cadet e se entregarão a mais algumas horas de delírios sexuais até que outras necessidades fisiológicas, como a fome,  se manifestem. Comendo ovos mexidos com pão e Coca Cola, Constantine irá reparar na pobreza da mobília e  quão mal localizado é o minúsculo apartamento de Jean Paul, que nesse momento parecerá um pouco menos bonito do que das primeiras vezes. Constantine terá dificuldade de entender em francês as promessas de casamento de Jean Paul e de como ele está louco para leva-la até Lion,  sua terra natal. Três dias depois, o pai de Constantine irá a Paris pessoalmente para arrastá-la à força de volta para o Brasil, onde o Eduardo, o noivo de família abastada está tão triste que nem no Divino’s janta mais. A mãe já tem uma terapeuta de confiança com hora marcada e a matrícula da faculdade já foi feita. Constantine  não oferecerá resistência e Jean Paul chorará , mas somente por alguns dias .

 No Brasil, Constantine contará a aventura às novas amigas da faculdade, Paula e Maria Carolina, a Carol. Mas não poderá se estender muito no assunto, por que Eduardo vai encostar seu Omega na porta,  já que ambos tem um jantar muito chique e agradável às nove da noite."                                         

  In Contos de Constantine, não publicado

 

                                                        *

 

 

Já passa das dez da noite e Constantine Albergué  (foi esse o nome que Constantine adotou depois de casada com Eduardo Albergué), coloca o cachecol, última peça de roupa que - somada ao impecável tailler, às luvas de couro revestidas de pelo de cabra e botas de uma grife da qual não vale a pena fazer merchandising - compõe um magnífico , chique e providencialmente quente  figurino, ideal para passeio longos e agradáveis pelas Ramblas de Barcelona, no frio de quase oito graus que predomina na cidade catalã. Constantine agora é uma mulher sofisticada e rica, mas isso , obviamente, não significa que seja uma mulher feliz.

Muita coisa aconteceu na sua vida desde aquela famigerada viagem para Paris. Jean Paul se transformou numa remota lembrança de juventude, sufocada e sublimada através dos anos de psicanálise e dos cuidados com os filhos, que foram três e que agora crescidos e criados, só dão aos pais o trabalho de pagar as respectivas terapias.  Constantine, que tem simpatia por Freud, mas acredita que Reich tem sacadas muito interessantes sobre a questão da sexualidade, conversa sobre o assunto com as amigas Corine e Mary Claire, a Mary. Elas não estão presentes nessa viagem a Barcelona. Muito menos o marido Eduardo Albergué. Nem os filhos terapeutizados. Constantine veio só, encontrar-se com sua irmã , Nicole, que há dez anos mora na Espanha e que nos últimos meses foi acometida de súbita e violenta depressão, para desespero do marido , o espanhol Pablo, que nem suspeita que a origem do distúrbio está no seu caso com sua secretária , que a mulher descobriu , mas não tem coragem de dizer por intimamente se achar responsável pela traição do esposo, já que há anos desaprendeu a desejá-lo como homem. (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 14h18
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