Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


O computador- final

Roberto olhou pra Luis .  A figura do sujeito nunca havia sido tão aterrorizadora, mesmo a par da simpatia forçada  com que ele dizia as atrocidades que acabara de ouvir. Os funcionários  brucutus cercavam seu corpo inerte e os fundos da loja eram como um cemitério de computadores, onde circuitos expostos, monitores abertos   e placas amputadas davam uma atmosfera de morte eminente. Roberto ainda tentou retrucar no meio da dor.

        -Isso é uma ameaça?

      -É um conselho de amigo, retribuiu com gentileza Luis, porque pra mim, o cliente é um amigo. E estendendo a mão num gesto que comprovava a  legítima amizade proposta , ele ajudou Roberto a  se levantar . Os outros dois brucutus  o conduziram  até  a porta da loja, onde o Seu Luis  lhe entregou aquilo que tinha sobrado do computador.

-Mas eu paguei o conserto, protestou timidamente  Roberto, enquanto estendia os braços pra receber os destroços.

-E nós consertamos. Pena que o senhor tenha arrebentado seu computador no seu acidente de automóvel.

-Ele já não funcionava antes.

            -Como é que se poderá ter certeza disso, não é mesmo? E olha. Como a placa mãe foi danificada, eu recomendo que o senhor compre um computador novo porque esse definitivamente, não tem mais conserto.  Paciência e passar bem, seu Roberto.

Após ser deixado na rua naquele estado lastimável, Roberto,  ainda atordoado,  consultou o  relógio e concluiu que já estava irremediavelmente atrasado para o trabalho, o que era certeza de demissão. A mulher estava por aqui com as suas neuroses e chegar em casa naquele estado, roto e sangrando no nariz só poderia ser a gota dágua para que ela saísse de casa com as crianças.  Cambaleante, atravessou a  rua e tocou a campainha  da casa  da mãe que por pouco não teve um enfarto ao ver o filho daquele jeito.  A úlcera  definitivamente estuporada  depois do soco e do pontapé lhe doía menos  do que o  orgulho ferido, mas Roberto a usou  como pretexto para chorar  copiosamente, abraçado à sua velha progenitora .

E enquanto  a mãe chamava uma ambulância , Roberto olhou por trás das lágrimas para aquela senhora tão frágil, tão preocupada, com o peito tão lotado de amores  e aflições por um filho que de maneira ingrata  quase nunca a visitava  e concluiu, quase sorrindo,  que jamais, jamais chamaria o PROCOM.



Escrito por Leonardo Cortez às 23h16
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O computador- parte 7

Felizmente , ninguém mais se machucou, mas a  perda foi total no seu carro  zero recém-adiquirido cujas prestações ainda estavam longe se ser quitadas. Refeito da pancada,  e objeto da curiosidade de centenas de pessoas que testemunharam o acidente , Roberto olhou para o banco de  passageiros  e pôde ver  que  o  computador  se apresentava aos pedaços como decorrência da batida. Placas, modens , winchesteres  e  unidades de disco  estavam  separadas de maneira traumática num amontoado  de circuitos  e mecanismos que nem mesmo o Bill Gates poderia por em funcionamento novamente.

Vendo o cádaver cibernético, Roberto começou a chorar , ainda dentro do carro, indiferênte às batidas no vidro dos solícitos transeuntes que lhe ofereciam ajuda. E assim permaneceu por algum tempo até tomar a súbita decisão: com o nariz sangrando, ele  apanhou o que tinha restado do seu computador    e afastando aos empurrôes os curiosos que se aglutinavam em torno daquilo que um dia tinha sido seu carro , ele rumou  a pé , ensanguentado, rasgado  e com o orgulho e  a dignidade sangrando tanto quanto o seu nariz , em direção à Oficina do Seu Luís, do maldito Seu Luís, responsável direto pela sua desgraça e  que não pôde recebe-lo com o sorriso hipócrita  de sempre, porque o choque de ver entrando em sua loja um sujeito em tão lastimáveis condições inibiu qualquer outra reação que não fosse o susto .

Roberto colocou os destroços sobre o balcão e desatou  a lançar sobre Seu  Luis o rosário de ofensas. Ameaçou com processos, ameaçou com   a SUNAB, com o PROCOM, com a polícia. Inventou amigos que trabalhavam nos jornais, inventou capangas que poderiam dar cabo do Seu Luis com uma única ordem sua . Ensandecido, ele deu vazão   a  toda  sua agressividade ao dar um soco no balcão de madeira , rachando o dito cujo em duas partes, o que causou fratura no metatarso , muito embora, mais tarde ele tenha ficado na  dúvida se a fratura era decorrente do soco ou da batida do carro. Roberto espumava na sua raiva colérica e a cabo de alguns minutos escutando passivo as ofensas, Seu Luis tomou uma providência. Encaminhou com educação Roberto até os fundos de sua loja, onde três funcionários , que tinham todos o dobro do tamanho de Roberto, o aguardavam. Quando Roberto tentou retomar o tom aspero do seu discurso, recebeu um soco no estômago bem aonde a úlcera doía e a dor foi tanta que ele achou que poderia perder os sentidos, caindo como um tatu-bola no chão. Quando finalmente recuperou o fôlego,  ele ouviu as simpáticas e suaves palavras do Seu Luís:

-Eu se fosse o senhor, ficava quietinho. A loja existe há cinco anos e é daqui que eu tiro o sustento dos meus filhos. Não vai ser nenhum otário que vai me obrigar  a  fechar meu estabelecimento.

-Filha da puta, ele gemeu, pra depois levar de um dos funcionários outro chute na úlcera.

-E depois tem outra, continuou Luís. Sua mãe mora aí na frente. Todo mundo aqui conhece a dona Maria de Lurdes. Vai ser chato se alguma coisa acontecer a sua mãe por causa do filho desequilibrado... (continua...)

Escrito por Leonardo Cortez às 23h15
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O computador- parte 6

Após uma noite terrível , onde o seu mau humor acarretou uma briga homérica com    a sua esposa , nessa altura da vida tremendamente insatisfeita com    a enorme distância alcançada entre aquilo que ela sonhava pra sua vida e  aquilo que sua vida tinha se tornado, Roberto perdeu  a hora pra acordar  e chegou atrasado de novo no escritório, prevendo o pior, que seria uma nova bronca do chefe, o que não aconteceu, deixando-o bem mais preocupado , já que a indiferênça costuma ser pior do que o ódio e não receber uma  bronca muito bem poderia ser sintomático de que o chefe já estaria desistindo do seu caso, o que seria meio passo rumo à demissão. No meio da manhã, Roberto ligou para o Seu Luís, dessa vez no telefone certo  e comunicou o ocorrido  na noite anterior, que o computador não ligava, que o dinheiro não tinha sido restituído  e que ele estava no minímo insatisfeito, pra não dizer, possesso e raivoso. A resposta do Seu  Luís foi motivo  de uma grande crise de nervos em Roberto. Ao lhe perguntar se Roberto “tinha certeza” de que o computador não estava funcionando, Seu Luis deu, ainda que involuntáriamente, o pretexto para que Roberto achasse estar sendo feito de idiota. “É claro que eu tenho certeza, porra, ou você acha que eu não sei sequer ligar a  merda de um computador?”, foi o que ele  gritou , bem alto , causando   a repartição outro imenso mal-estar, agravado pelo fato do chefe mais uma vez estar de butuca, testemunhando in loco o destempero de um funcionário que já não primava pela competência e pontualidade.  E foi exatamente nesses pontos que o chefe embasou um novo esporro  em Roberto salientando ao final da oratória que não haveria novas oportunidades para trangressões dessa natureza , principalmente numa época em que todos os balancetes não batiam . Na hora do almoço, ainda meio fraco pela diarréia do dia anterior ,   pelo ataque de nervos sofrido ao telefone e pela humilhação que o esporro do chefe tinha representado,  ele  rumou para a oficina, com o computador semimorto debaixo do braço, tendo  a ligeira sensação de que algo o matava, embora não soubesse precisamente o que.  Naquele momento ele somente pensava em  dar no Seu Luís um novo esculhambo dessa vez pessoalmente, similar aos esculhambos que ele havia levado do patrão e da mulher. “Chega de levar esbregue!” , ele pensava.  Usaria o Seu  Luís quase como uma válvula de escape de todas as suas humilhações  e de todos os sapos engolidos por conta de uma situação que o próprio Seu Luís, com   a sua incompetência, ajudara  a  construir. Roberto precisava gritar com  alguém para expurgar seus demônios  e  faria isso com   a plena convicão de que estava certo porque de fato ele havia sido roubado, ludibriado  e desrespeitado na sua condição de cidadão honesto que confia nas pessoas e se acha merecedor da mesma recíproca. A barriga ainda doía, numa conjunção do problema gastrointestinal com a úlcera que volta e meia lhe atacava principalmente em fases  de desequilíbrio. A dor aumentava e a falta de comida  e a diarréia de horas antes  deixavam o seu corpo progressivamente  mais fraco. Até que, a duas ruas da oficina , uma pontada lancinante distraiu sua atenção e o resultado foi que seu carro encheu  a traseira de um ônibus  e a cara de Roberto  foi arremessada pra cima do volante, o que acarretou uma fratura no nariz. (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 23h25
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O computador- parte 5

Foi com  alegria e surpresa que   a velha senhora recebeu o filho e foi com tristeza e amargura que ela constatou a pressa do rebento em subir as escadas e se trancar no banheiro antes mesmo de pedir a  sua benção como de costume. Suando em bicas  e sentado do vaso, Roberto consultou seu relógio e aterrorizado concluiu que se o  tempo se esgotava, não se esgotava o seu mal-estar numa equação funesta que certamente teria como resultado um novo atraso e   a  certeza de que as coisas poderiam piorar significativamente pra ele no escritório. Após concluído o processo de desintoxição de seu corpo, Roberto foi obrigado a  se despedir às pressas da mãe, que morava sozinha desde   a viuvêz e que mais do que nunca andava se sentindo solitária e esquecida dos filhos e netos. Aplacar a tristeza da mãe com promessas de uma nova visita mais calma consumiu mais alguns minutos  e ao chegar no escritório, o atraso estava mais do caracterizado o que lhe tirava qualquer moral para se defender do sabão que o chefe, estressadíssimo pelos balancetes deficítários, lhe passou.

Ao chegar em casa com o computador debaixo do braço, ele não falou com os filhos, a não ser pra dar um cascudo no menor que insistia em lhe mostrar o dente amolecido. Não sentiu disposição pra papear com  a esposa, nem fome para jantar, posto que estava desarranjado e se trancou no quarto dos fundos que servia de escritório e que era o seu santuário naquele caos que era sua casa, dominada pela euforia hiperativa das crianças  e pelas reclamações intermitentes da sua mulher. Instalou o computador com todos os cabos   e tomadas, sentou-se à mesa   e o que constatou encheu-o de horror e angústia: seu computador  simplesmente não ligava. Sentindo doídas pontadas na barriga,  ele ligou para seu banco e deu um gemido ao ouvir a gravação que lhe informava seu saldo: obviamente, o Seu Luís não tinha restituído nada na sua conta. (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 23h24
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O computador- parte 4

A hora do almoço chegou e  com ela  a fome característica que Roberto não poderia aplacar. Mas a fome não seria a única sensação desagradável  a ser sentida porque ela era  acompanhada da   dor de estômago decorrente da úlcera  e  a dor de estômago aumentou quando ele  pisou na oficina e foi informado pelo Seu Luis que a  Unidade do disco C estava desconfigurada e que isso tomaria mais alguns minutos. Respirando fundo pra não perder o controle, Roberto tentou ver o lado bom da coisa e calculou que o curto tempo de espera solicitado seria suficiente para  degustação de uma coxinha na padaria da frente. E enquanto devorava o salgadinho,  Roberto refletiu que de fato, ele estava extremamente insatisfeito com os serviços prestados pelo Seu Luis e que não perderia a oportunidade de manifestar seu descontentamento com o sujeito assim que tivesse nas mãos seu computador. Pagou   a coxinha, atravessou a  rua e  ia pensando no discurso: “ Olha, Seu Luís a palavra de um homem é o que ele tem de mais valioso. Se não somos honestos, o que vai ser do Brasil, etc, etc”.  No entanto , sua revolta foi aplacada  quando o Seu Luís entregou , cheio da  simpatia dos tempos remotos, o computador perfeitamente embrulhado  e lacrado  o que dava a impressão de um serviço bem realizado e extremamemente  profissional. Para favorecer  a boa impressão, o Seu Luís tomou nota do número da conta de Roberto pra fazer  a restituição, garantindo ao cliente que o valor da multa estaria incluso no depósito ainda naquele mesmo dia . E quase se sentindo culpado por fazer tão mal juízo de um sujeito cujo único pecado era ter um sócio trapalhão  e ser desorganizado em relação aos prazos  propostos, Roberto  colocou  a caixa debaixo do braço  e após as despedidas entrou no seu carro,  não sem antes conferir o relógio , o que lhe deu a tranquilidade de saber que haveria tempo de sobra pra voltar ao trabalho sem atrasos. No entanto,  exatamente no momento em que ele deu a partida no motor, a coxinha consumida minutos antes na padaria da frente, que além de não possuir um aspecto saudável  e ter um gosto ligeiramente azedo  tinha sido devorada  em meio a um estado emocional perturbado pelo stress , pela pressa e  pela irritação , pois bem , justamente essa coxinha, adivinhem, começou  a  catalizar no organismo de Roberto uma revolução gastrointestinal que só poderia ser aplacada com  a urgente visita  a um banheiro, que se mostraria limpo, confortável   e aprazível na casa de sua mãe , a quem ele disse que não poderia visitar horas antes. (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 15h37
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O computador- parte 3

Como Roberto chegou do almoço atrasado pelo segundo  dia consecutivo e  a empresa fazia o balancete mensal ( o que gerava grande volume de trabalho),  ele levou uma nova, discreta mas  porém firme chamada do seu chefe , que chegou até a  esboçar um sorriso ao ouvir o relato da epopéia que justificava os atrasos, numa clara demonstração de que os deslizes poderiam não ter maiores consequências, desde que não se repetissem. Roberto foi pra casa, não fez festa com  as  crianças porque estava com dor de cabeça, jantou   e comentou o episódio com  a mulher, que, como sempre, achou o marido um tanto frouxo, principalmente em relação à história dos cheques, o que gerou  um diálogo tenso entre os dois, prejudicial inclusive à digestão que foi   feita com dificuldade no estômago ulcerado de Roberto , atrapalhando o seu sono naquela noite. E em meio à insônia  e à azia , ele fez cálculos mentais para descobrir como resgatar seu equipamento e não chegar atrasado novamente  depois do horário do almoço. Concluiu que   a única maneira de não se atrasar era abrir mão de comer no almoço e resignado com  a perspectiva de passar  fome por causa do computador ,  finalmente adormeceu.

A manhã seguinte foi tensa no escritório. Os balancetes não batiam  e o chefe ameaçou demitir o Alvarenga que trabalhava no mesmo setor que o Roberto, gerando um mal-estar em toda a repartição . Lá pelas tantas,  a mãe do Roberto  ligou  e ficou muito ofendida quando o filho disse  que iria pegar o computador na frente da casa dela mas que não iria dar sequer uma entradinha pra dar um beijo porque não poderia chegar atrasado de novo no escritório. Quando Roberto tentava em vão aplacar a mágoa da progenitora, o  chefe entrou na sala, supreendendo-o na resolução de assuntos particulares quando relatórios pendiam atrasados na sua mesa. Roberto sorriu  pro chefe como quem diz com o olhar   “ sabe como é essa história de mãe”  e  o chefe não sorriu de volta como quem diz com o olhar “ sua batata tá assando,  seu incompetente”.  (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 15h37
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O computador- parte 2

E assim o fez pela manhã do dia seguinte no escritório e qual não foi sua surpresa ao constatar que o telefone da loja tinha mudado, informação que foi dada em meio a desaforos por uma senhora  já farta de ter seu telefone confundido em inúmeras situações anteriores. Na hora do almoço e antevendo problemas, ele tomou o rumo da oficina e quase como decorrência de uma  premonição, teve no meio do caminho uma súbita iniciativa de checar seu extrato no banco, tendo por consequência o imenso dissabor de constatar o depósito antecipado de seus dois cheques pré-datados, o que gerou o avanço no limite do cheque especial e a consequente cobrança dos juros.  Um tanto quanto transtornado, Roberto entrou na oficina, deu de cara com o  Seu Luís, dividido entre um telefonema e uma bronca num dos seus funcionários e percebeu intrigado que aquela figura  outrora simpática e  confiável,  agora já parecia ganhar contornos opostos . Ao ver Roberto no balcão, Seu Luis, não sorriu como de costume. Estava tão atarefado que não seria exagero dizer que a presença daquele cliente era indesejada naquele momento. Tanto foi assim , que  Roberto teve que esperar alguns minutos até ser atendido, o que aumentou sua revolta silenciosa  por ter seus cheques depositados antes do prazo combinado. Depois que Seu  Luís desligou o telefone e ouviu a queixa do seu cliente, ele  respondeu até de maneira um pouco ríspida, que não havia em hipótese alguma   depositado os referidos cheques, simulando até uma certa ofensa por ter sido acusado de uma atitude tão leviana. Atentou  para a possibilidade de Roberto ter se confudido  e chegou ao cúmulo de sugerir que o cliente tivesse mais cuidado antes de responsabilizar terceiros por suas próprias desorganizações bancárias. Obviamente , Roberto não esperava por uma resposta dessas e, estupefacto em ter a sua palavra posta em dúvida, vasculhou com frenesi os bolsos  e   a  carteira na vã tentativa de localizar o extrato, perdido no caminho. Ainda não acreditando no que estava lhe ocorrendo, ele pegou seu carro, voltou ao banco  e tirou novo extrato, tendo uma horrível palpitação e uma ligera pontada na úlcera quando ao voltar para o seu veículo, flagrou  um guarda de trânsito lhe aplicando uma multa por estacionamento proibido, numa situação que ele jamais imaginou que pudesse acontecer posto que o tempo  levado entre  o estacionar do veículo e  a sua ida ao caixa eletrônico não havia ultrapassado os cinco minutos. Progressivamente transtornado, Roberto voltou  a loja, mostrou os extratos  e sacou no embalo a multa recém-adiquirida, vociferando que ela deveria ser descontada do valor total do serviço. Para sua surpresa, Seu Luís voltou  a adiquirir o ar cordial de outros tempos. Assumiu o equívoco em relação aos cheques, pedindo inúmeras desculpas    e  solicitou uma  cópia da multa se prontificando a restitui-lo do prejuízo, desde que Roberto lhe desse o tempo necessário para falar com o Arlindo,  seu sócio, responsável pela parte financeira da oficina e consequentemente pela presepada com os cheques. Segundo Seu Luis, Roberto teria seu dinheiro retornado em mãos, teria os cheques  anteriores devolvidos  e faria outros dois cheques para que fossem respeitados aos critérios do acordo firmado anteriormente  entre os dois cavalheiros. Aproveitando o ensejo  e um pouco mais calmo , Roberto perguntou se estaria o computador pronto, ao que Seu  Luis respondeu que não,  dizendo que   a placa do modem havia sido danificada, e que o conserto seria feito sem nenhum custo extra. Roberto se acalmou   e solicitou novo prazo. Cordialmente , seu Luis jurou que do dia seguinte não passava, encerrando-se assim esse novo encontro dos dois.  (continua...)



Escrito por Leonardo Cortez às 15h29
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O computador- parte 1

Ando um pouco cansado de fazer crônicas, então vou começar a publicar uns contos pra variar um pouco, ok? Esse tem oito partes. Na verdade é curto, não se assustem. Eu tenho que dividir em oito porque o limite de caracteres desse blog é limitado. Então, fica aí, na sequência, uma espécie de novelinha pra vocês.

beijos 

Léo

 

 

 

O Computador- parte 1

  

De um lado , Roberto Ferreira da Silva, 32 anos , contador, casado, dois filhos. Do outro um PC, processador Durom 1.8 com 6 hd, modem  de 56l com placa de rede e  video compartilhada. A quebra de um representou a desgraça de outro. Assim começa essa históra.

Roberto levou o CPU moribundo na assistência técnica autorizada, uma oficina localizada por fortuna em frente  à casa da mãe. Aproveitou o ensejo e filou uma bóia em companhia da velha, aplacando o sentimento de culpa por não visita-la havia algumas semanas e ela por sua vez ficou  felicíssima com   a visita inesperada e se esforçou em ser amável,  mesmo estando ligeiramente magoada pelo descaso dos últimos tempos. Após a refeição, Roberto foi até a oficina, onde prontamente foi apresentado para o dono,  o Seu Luís, que  lhe pareceu um sujeito simpático e boa-praça,  digno de total confiança. Ao expor os problemas do computador que o traziam até sua loja , Roberto foi convencido por Seu Luis  da necessidade de um up-grade, serviço que seria executado mediante pagamento feito através de dois cheques  pré-datados que totalizavam um valor razoável, mas   compensatório:  a partir do up-grade, Roberto teria em sua casa uma máquina de última geração, dessas que custariam três vezes mais se compradas zero bala numa loja qualquer. E ignorando a sábia premissa que o barato via de regra  sai caro, Roberto se sentiu amplamente satisfeito, sem saber ainda que os dias vindouros tratariam de dar cabo do seu otimismo, gerando  na sua pobre alma  o mais impotente dos sentimentos , que é o do arrependimento, porque uma vez ele instalado, nada mais nos resta a fazer do que se lamentar.

Seu Luís prometeu a máquina pro dia seguinte. Sabendo disso, Roberto se programou para mais uma vez, aproveitar seu horário de almoço, comer  na mãe  e de lá pegar seu aparelho. A mãe, desacostumada com duas visitas em dois dias consecutivos, não conseguiu ser tão simpática quanto na véspera e desfilou um festival de queixumes que iam desde a sua saúde depauperada até a negligência do filho que só aparecia se o computador desse problema e tivesse que ser consertado na loja da frente. Já um pouco impaciênte e torcendo pro aparelho estar pronto para que não fosse repetida a via-crucis no dia seguinte, Roberto  saiu de lá em direção à loja para saber pessoalmente que a placa ainda não havia sido recebida e que o winchester era incompatível e que no dia seguinte certamente tudo estaria pronto. Resignado, mas não tão de bom humor assim, ele chegou atrasado no escritório, ouviu uma sutil reclamação do chefe e após a jornada cumprida, voltou pra casa, onde fez festa com as crianças, jantou em harmonia com   a esposa e foi dormir sabendo que no dia seguinte teria que aproveitar a  hora do almoço pra resgatar seu computador, o que poderia gerar novo atraso na volta, aborrecendo novamente  patrão, que entretanto certamente compreenderia esse pequeno problema cotidiano que qualquer um pode estar sujeito. Dessa vez no entanto, ele seria precavido e ligaria para a oficina, confirmando a execução do serviço pra justamente não ter que se deslocar até lá à toa.  (continua...)

 



Escrito por Leonardo Cortez às 21h19
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SAP

Houve um tempo em que as personalidades brasileiras eram heterogêneas entre si  e quando aconteciam declarações polêmicas, elas eram de fato polêmicas. As declarações polêmicas de personalidades do passado não mascaravam uma estratégia habilmente articulada de tentar passar para a opinião pública a imagem de personalidade polêmica. O Nelson Rodrigues era polêmico porque era e pronto. Fazia parte da natureza humana do sujeito e ele não tinha o rabo preso com ninguém. Hoje o mundo é dos fazedores de polêmica burra e fabricada. Tá todo mundo no mesmo balaio: Mainardi, Cicarelli, Clodovil, Severino. As nossas personalidades polêmicas nunca são autênticas. Tudo o que elas querem é uma polêmica que gere alguma promoção, pra elas e pros veículos que representam.

Na época que o Nelson Piquet tava na ativa, ele dizia coisas impensáveis nos dias de hoje no mundo profissional e totalmente mercadológico da Fórmula 1. Uma vez perguntaram o que ele achava do Mansell, que era o seu principal adversário nas temporadas de 86 e 87. Então o Piquet disse algo do tipo: “O que eu acho do Mansell, eu não sei, mas a mulher dele é um bucho!”. Eu sei que é uma coisa deselegante de se dizer da mulher de alguém, mas o mais triste é que nos dias de hoje, nenhum esportista vai ter a liberdade de dizer algo similar ou que seja resultado de uma opinião autêntica. Você sabe o que o Massa vai dizer, você sabe a desculpa que o  Rubinho vai usar. Tem tanto interesse em jogo que a competência ficou secundária. Não importa mais que o sujeito seja um Piquet no seu trabalho. Tem que se comportar como Rubinho no que diz respeito às relações públicas. Hoje, o comportamento com a imprensa  é pré-fabricado pelos marqueteiros e pelos assessores de imprensa de plantão. Todos os jogadores de futebol falam a mesma coisa do mesmo jeito. Todos os artistas da Globo tem as mesmas opiniões e a mesma simpatia no Faustão. As bandas jovens tem aquela rebeldia de butiquim que vende roupa de grife rasgada a quinhentos reias a peça. Os políticos são baluartes da moralidade  nacional e destilam os mesmos velhos jargões pra justificar suas chacinas éticas. A coisa está preta no Brasil, porque quando alguém aparece na televisão, você só precisa de trinta segundos pra dizer de onde o cara vem , pra onde ele vai e o que que você ganha com aquela insipidez toda destilada em forma de opinião sincera ou polêmica. Normalmente não é nada.    



Escrito por Leonardo Cortez às 17h43
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