Velozes e furioso
O Salão do Automóvel é um horror. Estive lá ontem fazendo reportagem pro “Me Poupe” e achei tudo um saco! A começar que fica no Anhembi. O Anhembi é um saco! Pra chegar lá tem que pegar a Marginal Tietê e a Marginal Tietê é uma merda, com o perdão do trocadilho. Você sempre vai pegar um trânsito absurdo pra chegar no Anhembi. Vai ser sempre uma experiência chata achar uma vaga no estacionamento. Vai ter sempre um flanelinha te extorquindo, vai ter sempre um cara parado em fila dupla fazendo o trânsito piorar. A chegada no Anhembi é como a derradeira tentativa de Deus, tentando te alertar que você está indo pro lugar errado. Mas você insiste, quer visitar o Salão do Automóvel. Quer ver as novidades que a indústria automobilística reserva pra quem nunca pensou em fazer consórcio pra comprar um semi-novo porque pode comprar um Jaguar à vista.
O Salão do Automóvel é um sucesso de público. Mas não é uma coisa assim, cheinha. É um troço absolutamente insano de lotado. Demora pra você conseguir comprar o ingresso caríssimo, demora pra pegar a fila da bilheteria, demora pra entrar, demora pra ver os estandes, demora pra chegar num banheiro, demora pra vagar uma privada, demora pra conseguir comprar uma Coca, demora entender o sentido de estar dentro de um lugar como aquele. Demora. O calor é insuportável, o barulho é ensurdecedor com cada fabricante te presenteando com alguma musiquinha brega que ilustre a esportividade, o requinte ou a possibilidade de aventura embutida nos veículos que você jamais vai ter condições de adiquirir, exibidos ao lado de modelos siliconadas que jamais vão te dar o telefone. Quando os primeiros acordes da música de “2001, Uma Odisséia no Espaço” se fazem ouvir em altíssimos decibéis, você já sabe: alguma demonstração brega de algum possante inacessível vai começar. As modelos gostosonas desfilam e fazem pose na frente do carro. Tem gente que se acotovela pra assistir, tem gente que tira foto. Tem gente que entra no carro e sente a maciez dos comandos e o cheiro do banco de couro. Tem gente que pergunta se a modelo vem de brinde se você pagar meio milhão de reais pra comprar o carro e recebe uma risadinha amarela da menina entediada. Em determinado momentó é impossível não ficar claustrofóbico. Tudo o que você quer é sair! Sair! Mas não pense que será fácil achar a saída da sucursal do inferno. Vai demorar algum tempo até você receber a orientação certa, pegar todos os brindes mequetrefes e ver a saudável luz do dia novamente. Demora algum tempo pra entrar, num misto de esgotamento e exaustão, no seu velho carro 1.0 sem os acessórios, que não lembra em nada as carangas luxuosas que você viu em exposição. Não tem modelo gostosa no banco do passageiro, não tem ar-condicionado, ou banco de couro, mas, na hora em que você estiver sozinho na sua carroça, tudo será alegria e conforto.
Meu 1.0 vai de zero a cem em cinco minutos e ainda assim, depois de visitar o Salão do Automóvel, a quietude do meu carro popular foi um dos maiores alívios que eu experimentei em muitos anos.
Escrito por Leonardo Cortez às 04h28
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A Mosca
Ando preenchendo muito edital ultimamente. É o que me resta se ainda existe essa vontade inexplicável de fazer teatro. Deixamos na mão da Funarte, da Secretaria de Cultura , da Petrobrás e da Votorantin o nosso futuro. Rapaziada , agora é com vocês. Já pedi minha esmola, estou no farol desde manhãzinha, tomei sol e chuva na cachola, agora me garantam o meu quinhão de felicidade me dando a verba pra eu poder brincar de fazer cultura ano que vem. Se não rolar, saibam que eu vou fazer de qualquer jeito, naquele velho esquema miserável, onde a amizade é posta à prova , bem como o amor à arte.
Podia ser pior, eu sei. Podia não ter edital, podia ter ditadura, podia nem ter peça na cabeça pra sair atrás na batalha. Mas tem. Ano que vem a gente estréia e uma estréia em teatro ainda vale o ano, como diz o meu amigo Henrique. Enquanto isso, me aventuro no mundo hostil da televisão. Já saquei o meu facão pra dar umas cutiladas nos pedregulhos dessa selva de pedra. De vez em quando me pego sendo estúpido como os detentores do poder. Outro dia, levantei a voz com a produtora da GNT. Uma bobagem, poderia ter dito a mesma coisa num tom suave mas na hora eu estava impregnado do stress, da sensação de tempo perdido e dei uma vociferada com a pessoa que não tinha nada a ver com o pato. É o monstro que está nascendo em mim, um monstro necessário, presente em todo mundo que é bem suscedido no mundo cooporativo selvagem de hoje. Ou eu mato o monstro ou eu o alimento. Tô na dúvida e o resultado é que tem dias que o monstro fica faminto. Principalmente quando eu peço desculpas pela minhas eventuais grosserias e o monstro percebe que o lado humano ainda resiste.
A questão é a seguinte: ou a gente se enquadra ou a gente subverte. Nos dois casos a gente paga o preço. Nos dois casos, a possibilidade de fracasso é enorme. Tô tentando ver se dá pra se enquadrar subvertendo. Tô tentando ver se dá pra dar uma subvertida enquadrada. Então eu escrevo uma peça que detona a classe média que é o meu público consumidor. Uma piadinha pra enquadrar, uma porrada na barriga pra subverter. Essa tem sido a fórmula dramatúrgica que, no momento, não me faz um sucesso de público. Então, pra ganhar a vida eu fiz um comercial engolindo todos os sapos porque essa batráquia digestão vai me dar um mês pra escrever meu texto de teatro novo que detona a televisão que me sustenta. Eu sou um ser contraditório, eu sei. Eu queria ser mais radical, mas ainda não sou forte o suficiente. Eu chego lá. De um jeito ou de outro, tem uma hora em que tudo fica insuportável e a gente tem que tomar uma decisão. Por enquanto, cuspo no prato que como mas depois dou uma boa lavada no bicho com detergente que é pra ele ficar pronto pra me alimentar de novo. Como consolo, a primeira e mais importante tentativa: se divertir na criação. É isso. Criar tem que ser divertido, mesmo que , paradoxalmente, você esteja falando da sua própria desgraça.
Escrito por Leonardo Cortez às 09h45
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