1907
Meu primeiro carro eu comprei há quase uma década. Era um FIAT 147, ano 81, que eu arrematei por 1200 reais em três cheques de 400. Na época todo mundo me alertou que eu tava comprando uma bomba relógio. Mas eu tava exausto de pegar busão e fui em frente. Lembro de momento lindos com o Fiatola. A gente tava em cartaz com a “Diferença Que Um Dia Faz” no Teatro Laboratório e tudo era alegria e esperança numa época em que ninguém te cobra nada com muita seriedade pelo fato de você ser um universitário. O Fiatola me levava para a USP e para as baladas da época e meu cabelo cacheado, que passava dos ombros, balançava ao vento quando eu acelerava o meu possante. Adorava o som do motor do Fiatola. Adorava a cor verde metálica do Fiatola e as rodas cromadas Eu fiz um evento pros banheiros DECA, recebi uma bolada e gastei tudo na funilaria do Fiatola. Ficou lindo. O Fiatola ficava lindo quando eu passava cera Grand Prix na lataria. O Fiatola chamava a atenção das mulheres. O Fiatola era um amigo pra mim.
Um dia, e não demorou muito porque foi antes de cair o último pré-datado na conta, o Fiatola quebrou. No meio da Estados Unidos, no horário do rush. Eu nem tinha carteira de motorista, fiquei muito temeroso que aquela fumaceira chamasse a atenção das autoridades. Foi a primeira de algumas vezes que eu vi o Fiatola num guincho. Meses depois ele pifou na pista expressa da Marginal. Depois, quase pegou fogo na Avenida Morumbi. Me deixou a pé na Rebouças. Estourou o escapamento na Morato Coelho, engripou o câmbio na Pacaembu, perdeu o freio na Cerro Corá, ferveu o motor na Brigadeiro Luis Antônio, queimou o platinado na Faria Lima, perdeu o carter numa lombada da Rua Verbo Divino. Numa noite, quando eu passei num buraco indo pra um motel com a Gláucia o Fiatola quebrou a ponta do semi-eixo e sucumbiu de vez. Deu pra chegar no motel, mas depois daquilo o meu velho companheiro nunca mais foi o mesmo.
Quando eu levei o carro pro Ataliba, que era o meu mecânico de confiança, ele disse duas coisas que partiram o meu coração: a primeira que o conserto do semi-eixo ia custar mil reais, fora a mão de obra. Ou seja , quase o preço que eu tinha pago pelo carro. A segunda é que o Fiatola tava com falência múltipla de órgãos. Ele falou assim mesmo: “esse seu carro tá com falência múltipla de órgãos, Leonardo”. E eu que já tinha me afeiçoado pelo bichinho , tive que me contentar com a primeira e única oferta que me fizeram pra vender o moribundo: trezentos reais. Triste.
Depois tive outras duas carroças, que nunca estiveram perto de possuir mesmo charme do finado Fiatola, mas que quebraram tanto quanto ele e que me conduziram à uma peregrinação de mecânico em mecânico, deixando na mão dos Atalibas da vida boa parte dos meus parcos rendimentos em épocas bem mais miseráveis que a época atual.
Até o dia que eu comprei o meu carro zero. Já faz cinco anos e ainda tô com ele, infelizmente. Queria poder trocar de carro de novo pra poder sentir outra vez aquele cheirinho, pra poder curtir a novidade e principalmente , pra poder ficar tranqüilo em matéria de mecânica e mecânico por pelo menos dois anos. Porque depois que eu comprei meu carro zero, eu fiquei dois anos sem pisar num mecânico e isso foi uma das grandes alegrias do período. Hoje em dia o meu carro zero já tá com mais de cem mil quilômetros rodados e o Ataliba já matou as saudades de mim e dos meus cheques pré-datados. Paciência. Quem mandou ser um artista brasileiro?
Lembrei de tudo isso por causa do acidente com o Boing da Gol. Viajei muito pela Gol e toda vez que a aeromoça dizia que a Gol tinha a frota mais jovem do país, isso me tranqüilizava a beça. Eu lembrava do meu carro zero, dos dois anos sem visitar o Ataliba e chegava à conclusão que avião novo tinha muito menos possibilidade de cair. Aí o avião zerado da Gol se estatela no meio da mata e mata todo mundo que tava dentro. Uma tragédia que aconteceu aparentemente por causa de uma barbeiragem de outro avião que no meio de todo aquele espaço aéreo teve a moral de bater num Boing cheirando a novo que não iria cair se isso não tivesse acontecido.
Então pensei que não adianta ter um zero quilômetro. O perigo, são os outros.
Escrito por Leonardo Cortez às 23h39
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