É o último do sertão...
Depois de muito tempo eu peguei um trem metropolitano de novo na minha vida. Bom, foi uma merda. Demorou pra chegar e quando chegou tava lotado. A cada estação entrava mais gente e não saia ninguém. Eu fui o caminho inteiro praguejando por dentro e quando chegou na minha plataforma eu não consegui sair do vagão porque tinha um monte de gente entrando ao mesmo tempo. Praguejei por dentro de novo, dessa vez com tanta violência que certamente alguma coisa nas minhas entranhas se rompeu. Desci uma estação à frente , o que me fez ter que pegar outro trem pra voltar uma estação pra trás. Claro que o trem que voltava também tava lotado, o que contraria as leis do contra-fluxo. Pelo menos consegui descer na estação certa, mesmo porque , eu tava mais pra fora do trem do que pra dentro.
Tenho que dar graças a Deus porque não é sempre. Eu faço parte dessa elite que tem carro, muita embora o meu quase sempre esteja com a documentação irregular. Depois de anos circulando na contravenção, finalmente eu paguei todas as milhares de multas acumuladas e licenciei o bichinho. Depois eu descobri que, por causa das milhares de multas, a minha carteira de motorista tava cassada. Quando resolvi a pendênga com o Detran, o carro ficou irregular de novo. Tô no caminho pra voltar a ser um cidadão honesto, mas eventualmente, me sobra um trem na vida.
Ok, tô reclamando de barriga cheia. O que eu vivo esporadicamente é o que milhares de pessoas enfrentam todos os dias graças a essa política de merda em matéria de transporte público que o PSDB implantou em São Paulo. O trem que eu peguei ainda tinha ar condicionado. É aquela linha que corre junto à Marginal Pinheiros e que por estar a vista de todo mundo é um pouco mais chique, mesmo que fique absolutamente apinhado de gente no horário do rush. Os trens da CBTU que saem pra periferia, que é um lugar que não está à vista da classe dominante, são obviamente bem piores e mais lotados, como se isso fosse possível. Já passei pela experiência, heróicamente. Dentro do vagão a média é de sete pessoas por metro quadrado e quem não entra, vai no teto. A cada dia a hecatombe se repete por ali e se continuar desse jeito, um dia acontece a tragédia ou a revolução.
Vai começar com um homem comum, que exausto de ser um contribuinte otário que recebe indignidade como contrapartida, vai dar um grito de revolta no meio do vagão superlotado e sem ar-condicionado. A irracionalidade da multidão vai determinar as ações posteriores. O povo unido vai tomar de assalto os trens e as catracas das estações serão liberadas. Os maquinistas serão rendidos e os vagões irão descarrilhar. Vai ter quebra-quebra e corre-corre, e antes que a luz seja cortada, a polícia já terá dispersado a multidão com cacetada e bomba de gás lacrimogêneo. No meio dos trilhos, vai sobrar aquele cara que começou tudo, estendido no chão, ensanguentado e gemendo a sua única exigência:
-Chamem o governador...chamem o governador...
Mas é claro que o governador não vai. Se não é época de eleição, ele não aparece na periferia.
Escrito por Leonardo Cortez às 01h17
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