A morte é a última coisa que eu quero que me aconteça.
Semana passada o Steve Irwin foi morto por uma arraia. Dizem que foi um baita azar. A tal da arraia nunca ataca, quando ataca, normalmente só machuca. Mas aí o que que aconteceu? O cara passou por cima da arraia exatamente no ângulo certo pra levar uma ferroada no coração. Dez centímetros pra cima, dez centímetros pra baixo e o cara ainda tava vivo. Se ele tivesse esperado dois minutos pro mergulho, se não tivesse posado pra aquela foto, se não tivesse comido aquele pão de queijo no café da manhã, se tivesse deixado o celular ligado, se tivesse deixado o celular desligado. Qualquer coisa poderia ter dado pro australiano mais dez centímetros pra cima ou pra baixo. Mas o cara passou exatamente naquele momento, naquela arraia, naquele ângulo.
A mesma coisa com o Senna. Aquela curva, aquela velocidade, aquele braço da suspensão, aquele capacete com uma abertura de viseira dois centímetros maior do que a abertura que ele normalmente usava. Um coquetel de detalhes culminou na morte do cara. A morte de qualquer um é fruto de um coquetel de detalhes sobre os quais, definitivamente, a gente não tem controle e essa é uma constatação que me deixa um pouco nervoso.
Eu mesmo posso morrer agora, enquanto tô escrevendo esse texto, se o coquetel estiver preparado de maneira jocosa pra mim. Um engasgo com esse sanduíche de presunto pode ser fatal, um curto circuito no teclado pode ser fatal , um tombo no meu escritório e uma batida de cabeça no ângulo certo na quina da mesa de vidro pode ser fatal. Pensando bem , eu deveria estar escrevendo agora sobre o sentido da minha vida, já que o risco de morrer a qualquer momento existe pra qualquer um. Mas eu procuro não pensar muito sobre esse assunto, inclusive pra não enlouquecer. Ao contrário do Salvador Dali que , dizem, pensava na sua morte todos os dias, justamente com o propósito de continuar vivo:
- Todas as manhãs, assim que eu acordo, pergunto pra mim mesmo se aquele vai ser o último dia da minha vida. Depois fico tranquilo: é uma coincidência muito improvável deixar esse mundo exatamente no dia em que a gente pensou que isso poderia acontecer.
Bom, o Salvador Dali morreu, o que faz a gente lembrar que um dia a coincidência acontece.
Cada vez que eu estou saindo de casa e descubro no caminho pra garagem que eu esqueci as chaves do carro em cima da mesa, eu fico apreensivo: por que que isso está acontecendo? Por que o destino está me roubando esses dois minutos? Qual é o encontro que será viabilizado ou evitado por causa desse atraso? Qual é a dádiva ou qual é a tragédia que está à minha espreita? Juro que eu fico pensando nisso e me dá uma baita aflição. Normalmente não acontece nada de ruim, felizmente. Então eu penso no lado positivo. Nas coincidências que me troxeram as coisas boas da minha vida. Nos trabalhos que surgiram dos encontros inesperados, dos encontros inesperados que resultaram em boas amizades, nos encontros inesperados que hoje são pra vida toda. Minha relação com a Glaucia é fruto de quinze mil coincidências. A minha filha é fruto daquela coincidência entre o desejo e a fertilidade. E a minha filha só é tão linda porque, por coincidência, aquele único espermatozóide dentre milhares combinou muitíssimo bem com o aquele óvulo em específico.
Então é assim a vida: esse festival maravilhoso de casualidades que podem mudar tudo de uma hora pra outra se for assim o desejo de Quem controla essa engenhoca toda. Enquanto a gente não morre por causa disso, tá tudo ok. A gente vai levando e acho que, definitivamente, Ele se diverte com essa imponderabilidade. A gente, se diverte de vez em quando. Já o Steve Irwin deve ter ficado um pouco puto.
Escrito por Leonardo Cortez às 10h11
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Holligan
Semana passada eu resolvi assistir o jogo do Palmeiras. Quero dizer o seguinte: a culpa daqueles 5 a 1 foi minha. Porque quando assisto um jogo do Palmeiras, o Palmeiras perde. Eu juro, eu tento evitar. Não vou mais no estádio por causa disso. Mas às vezes eu tô mudando de canal e aí, no exato instante em que eu paro no jogo, batata! Gol contra o Palmeiras! Claro que nem sempre que o Palmeiras perde eu tô assistindo. Claro que nem sempre quando o Palmeiras ganha eu deixei de assistir. São momentos raros, gravados de maneira indelével no meu coração. Lembro da decisão da Libertadores em 99. Eu torci até o final e o Palmeiras foi campeão! Só mesmo o Felipão e a Parmalat unidos poderiam acabar com a minha uruca...
Minha desgraça como torcedor não se restringe ao Palmeiras. A explicação do fiasco que é o Rubens Barrichello na Fórmula 1 é que eu sou o torcedor número 1 do cara. Por isso ele sempre larga com o pneu errado, por isso que o carro quebra, por isso que a Ferrari fez dele gato e sapato. A única vez que eu assisti a Formula 1 em Interlagos foi naquela corrida em que o Rubinho tava infernal, tinha ultrapassado meio mundo na chuva e tava liderando com folga quando a gasolina acabou na reta oposta. A gasolina acabou! O último cara que tinha abandonado uma corrida de Formula 1 por falta de gasolina foi o Nigel Mansell em 1985. Aí eu apareci em Interlagos e aconteceu isso com o cara. Foi mal, Rubinho.
Nem preciso falar da seleção. Nesse ano a culpa não foi do Parreira, nem do Zidane. A culpa foi minha porque no jogo contra a França até camisa oficial eu usei pra ficar na torcida. Quando a seleção vence pode ter certeza que é porque eu não tô vendo. Em 94 eu tinha levado um fora de uma namorada, tava deprimidíssimo e passei o jogo inteiro da final olhando o vazio enquanto o resto do mundo se desesperava com aqueles pênaltis. Em 98, eu estava felicíssimo e confiante que o Ronaldinho ia arrebentar com os franceses e deu no que deu. Em 2002, a gente só foi penta porque o jogo era de manhã cedo, eu tinha tomado um porre na véspera e só acordei quando já tava dois a zero. É isso. A culpa foi minha! Deixem o Roberto Carlos em paz!
Agora, pergunta se eu gosto de vôlei. Eu não sei o nome de um jogador sequer da seleção de vôlei. Eu tenho pelo vôlei a mais absoluta indiferênça. É a indiferênça que eu tenho pelos esportes a vela. Pelo judô, pelo Felipe Massa, pelo Rodrigo Pessoa, pelo Robert Sheid e por qualquer outro atleta brasileiro que esteja ganhando alguma coisa, porque se está ganhando é porque eu não estou torcendo, pode acreditar. O Guga tava bem até eu me interessar pelo tênis. A única vez que eu torci pela Daiane dos Santos foi nas olimpíadas e foi a única vez que ela cometeu um erro na coreografia do "Brasileirinho" e ficou em quinto lugar...
O destino não quer me dar a alegria de vibrar pelo meu time e pelo meu país nos esportes. Eu sei que eu não sou o único. Assim como eu, outros desafortunados tem em comum essa frustração perpétua e essa geleira por dentro dos sapatos. Pra nós a vida é mais difícil. Infelizes no ato de torcer somos obrigados a encontrar a felicidade na família, na realização profissional, no amor e em outras coisas que dão muito mais trabalho do que assistir a um jogo de futebol.
Escrito por Leonardo Cortez às 19h43
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O Silêncio dos Inocêntes
Quando tá passando o horário eleitoral, a Glaucia me chama pra ir assistir com ela. Aí, a gente tira o som da tevê e fica dublando os candidatos a deputado. Dá muito pano pra manga pra comédia porque os candidatos são em sua maior parte aquelas figuras patéticas de sempre. Nos anos anteriores era engraçado a gente assistir e ouvir o que, de fato, eles estavam falando naqueles quinze segundos preciosos que cada um dispõe. Hoje isso perdeu um pouco a graça, porque a piada quando se repete ao longo de muitos anos, por melhor que seja , se esgota. Então, a gente tira o som e cada um faz a voz de um candidato de maneira intercalada. Quem pega o cara que tá montado no avestruz ou alguém do PAN ou do PRONA obviamente tem a chance de inventar um discurso mais engraçado (alías, graças a essa brincadeira, só recentemente eu descobri que o Eneas tirou a barba por causa da leucemia. Pô, que chato...).
Bom, aí apareceu o Clodovil. Com o Clodovil não dá pra brincar. Do Clodovil eu tenho medo. Ele sempre fala o que pensa e foi mandado embora de TODOS os empregos que teve na vida, sempre brigado com alguém e sempre botando a boca no mundo. Eu acho isso macho pra caramba. Botei o som de volta e parecia que ele tava falando pra mim: "Ao invés de brincar comigo, decora meu numero!". Bom, eu esqueci o número do Clodovil, mas fiquei com vontade de ver o cara no Congresso. Lá ele poderia falar o que pensa pros sanguessugas e botar a lenha na fogueira em nome da soberania nacional. O voto no Clodovil é melhor que o voto nulo pra mostrar a nossa indignação com aquele antro de palhaços. Porque o voto nulo é só um protesto. Mas o voto no Clodovil é a garantia que a vida daqueles filhos da puta vai virar um inferno porque o Clodovil é macho, compra a briga e não vai ser mandado embora a não ser que participe de alguma falcatrua sem o devido cuidado. Taí! Vou votar no Clodovil! É o meu protesto!
(Claro que eu sou um eleitor consciênte, que pretende parar com a brincadeira da dublagem pra saber qual é o candidato com propostas melhores que as do Clodovil. No momento o Zé do Avestruz tem a minha simpatia. Mas só porque quem fala por ele na minha casa é a Glaucia.)
Escrito por Leonardo Cortez às 18h56
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