Rosney
Outro dia eu tava na casa de uma conhecida que eu não via há um tempão e ela disse:
-Deixa eu te apresentar meu neném.
Aí, entra na sala, saltitante, um chato dum cachorro, latindo pra mim e fazendo da visita um inferno. Não pelo cachorro em si, mas porque essa mulher tava em lua de mel com o bicho e não mostrava nenhum constrangimento em ficar se agarrando com ele na minha frente, chamando o bicho de neném e pedindo pra ele ir com a mamãe e etc. Saí daquela visita com a impressão de que estava atrapalhando alguma coisa, segurando uma vela, sei lá. Pior foi encontrar com ela no dia seguinte e ouvir a pergunta fatídica:
-Gostou do meu neném?
No esforço de ser simpático é lógico que eu confirmei num sorrisinho amarelo. Mas no fundo eu queria ter dido o seguinte: não, minha filha, não gostei. Primeiro que ele não é neném, é um cachorro. Um cachorro que é chato, que late e que naquele dia tava fedido. Um cachorro que tá te prejudicando no convívio social, porque quando ele está presente qualquer pessoa ou assunto perde o interesse e olha aqui, menina, existe certamente alguma carência mal resolvida que você tá projetando nesse cachorro e eu não quero mais ser testemunha dessa relação neurótica, portanto não me convide mais pra te visitar, ok?
Eu juro que eu gosto de cachorro. Minha mãe tem uma cadelinha, adoro a Frida. Mas acho um porre gente que trata cachorro feito criança, que conta historinhas sobre as peraltices do seu cachorro, que dorme na cama junto com o cachorro, que dá mais atenção pro cachorro do que pra visita, que coloca fitinha na orelha do cachoro, que leva o cachorro no pet-shop, que leva o cachorro pro trabalho, que diz que você tem que deixar o cachorro te cheirar que é pra ele se acostumar com você. Posso até achar engraçado quando o cachorro quer cheirar o meio das pernas das mulheres menstruadas. Mas não quero cachorro de ninguém me cheirando. Não quero, pronto!
Não tenho nada contra os cachorros, mas os donos e as donas, juro por Deus, me dão no saco.
Escrito por Leonardo Cortez às 23h43
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Stop and Go
A Mel um dia chegou pra mim e perguntou por que eu gostava de Fórmula 1. Então eu disse que na Fórmula 1 estão os melhores pilotos e a mais alta tecnologia aplicada no automobilismo. Que os caras disputam posição a 300 por hora e que qualquer um que tem noção do que isso significa em matéria de perigo, acaba se fascinando pelo negócio. Falei com todo o entusiasmo que justifica eu estar de pé aos domingos , nove da manhã mesmo tendo que aguentar a narração do Galvão Bueno. E quando eu dei por mim, no meio do meu discurso, a Mel bocejava. Eu sei. Essa paixão é só pra iniciados.
Quero dizer o seguinte. Eu sempre adorei Fórmula 1, a par da incredulidade daqueles que, como a Mel, não entendem o fascínio que um ser humano pode ter pelo automobilismo. Pra mim, começou com o Piquet. Eu sempre torci mais pelo Piquet do que pelo Senna. O Senna me irritava pelo mesmo motivo que o Shumacher me irrita: ganhava demais, ganhava fácil, pole-position, liderança de ponta a ponta. Com o Piquet era como na minha vida: cada vitória vinha suada, a custa de um esforço hercúleo. O Piquet desmaiava no pódium e só ganhava de vez em quando, por isso era mais saboroso ficar na torcida por ele. Desisti do Rubinho, que a par de ser um piloto razoável com seus rompantes de audácia, incrivelmente toma sempre a decisão errada em matéria de pneus e estratégia. Fora que se vendeu pra Ferrari sem nunca assumir que era um vendido, o que aumenta a revolta com o sujeito.
Aí vem o Massa e ganha na Turquia. Nunca botei muita fé no Massa como piloto, mas agora tive que calar minha boca, afinal ele botou os melhores do mundo no bolso. Então me lembrei que eu conheci o Massa! Pô, tinha me esquecido! Foi na época do Zapping Zone, o cara participou de um dos programas. Gente boa, topou todas as brincadeiras e nos intervalos a gente bateu um papinho sobre o mundo das corridas. Com aquela voz fanha de piloto brasileiro, ele falou de uma ou outra sacanagem com aquelas modelos que ficam segurando guarda-sol no grid de largada e disse que, tirando o Shumacher, o único piloto que ele achava bom de verdade era o Fisichella. Então, o papo murchou, o programa acabou e eu acabei cruzando com ele mais uma única vez, no "Na Mata Café" meses depois. Nessa noite, eu só cumprimentei e saí de canto. O assunto tinha acabado.
Agora, pra que contar tudo isso? Ninguém que eu conheço gosta de Formula 1 , tampouco do Felipe Massa. Por que escrevi esse texto? Por que me detive nesse assunto que reconheço, é insípido e desinteressante? Por que resolvi contar essa história com o Felipe Massa que não tem nada digno de nota, e nenhuma passagem engraçada?
A resposta pra todas essas perguntas é "não sei." Assim como eu também não sei que merda eu tinha na cabeça pra frequentar um lugar como o "Na Mata Café".
Escrito por Leonardo Cortez às 23h03
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