Me Poupe
Tô me sentindo muito chique agora que estou fazendo um programa na GNT. Canal à cabo, destinado ao público A e B, meus colegas de emissora são a Marilia Gabriela e o pessoal do Manhantan Connection. Se a empresa promovesse uma festinha de integração entre os funcionários eu poderia bater um papo com o povo e dar uma esnobada no Diogo Mainard. Mas , claro, tô de novo numas de prestador de serviço, então, tenho certeza que não vou ser convidado pra nada.
O nome do programa é "Me Poupe", e fala essencialmente sobre economia e dinheiro. É bem irônico eu fazer esse tipo de programa frente ao fato de que sempre fui muito desorganizado com as minhas (parcas) finanças. A Glaucia tá tentando me endireitar , mas ela sabe que é difícil. Nesse ano a gente abriu conta conjunta. Eu digo pra ela: "administra aí", mas a Glaucia também não é cem por cento em matéria de organização financeira. Deve ser por isso que ela me entende e não me bate quando leva um susto eventual com os rombos que aparecem no saldo decorrentes da minha incompetência em matéria de planejamento orçamentário.
A gente não tem TV à cabo pra fazer economia, mas assisti o programa algumas vezes na casa de um ou de outro. O programa, diga-se de passagem, é bom pra caramba. Dicas quentíssimas pra fazer render seu dinheiro e algumas constatações assustadoras do tipo "Tudo o que você paga em dez anos de cheque especial financiaria a sua previdência privada" e outras coisas pra te fazer sentir culpado. Além disso, depoimentos de pessoas bacanas e famosas que contam como elas lidam com o vil metal. Tudo muito bem dirigido e editado pelo Pedro Moreno que é o idealizador da coisa toda e que depois de ter sido meu colega de cena nos Especialistas tá batendo um bolão atrás das câmeras.
O meu quadro se chama " O Pechinchador". Divertidíssimo de fazer e fica ainda melhor depois de editado. Eu chego numa loja, sendo filmado por uma câmera escondida e fico azucrinando o vendedor até conseguir algum desconto, algum brinde, algum xingamento ou tudo isso junto. Curioso fazer esse quadro porque sou praticamente um analfabeto em matemática. Meu raciocínio com números é extremamente lento e quase que a minha vida escolar naufragou por conta dessa inaptidão. Ia bem nas humanas e biológicas mas não lembro de nenhum bimestre sem sufoco nas exatas. Ainda hoje, posso ser facilmente passado pra trás quando a proposta é dividir a conta. Alias , volta e meia isso acontece, mas acho que o problema não é a matemática e sim os amigos com quem tenho jantado.
De qualquer maneira, da mesma forma que fiz da minha incapacidade de dançar um pretexto pra construir comédia com o Evaristo da Floribella, faço da minha dificuldade com números o mote pra fazer graça com o Pechinchador. O personagem quer desconto mas tem não consegue calcular , se perde nas contas, esquece o nome dos vendedores, esquece o que estava comprando. E quando consegue dez centavos a menos no preço, comemora como se tivesse marcado um gol. Depois o Pedro edita e acaba ficando engraçado. Fora que é uma experiência muito interessante de interpretação. Como ninguém da loja sabe que eu estou sendo filmado, as pessoas acham que eu sou de fato, aquele chato inconveniênte. É bacana ser chato e inconveniênte na ficção sem ninguém saber que é de mentira.
O problema é quando a gente se acha bacana na vida real quando na verdade tá sendo chato e inconveniênte. Ainda bem que não me filmam nessas horas.
Escrito por Leonardo Cortez às 01h52
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Me Chamam Lobo Mau - parte 2
O pai de um amigo meu tem um Audi. Esse meu amigo pega o Audi emprestado do pai quando quer catar uma mina ou quando vai pedir emprego. Os resultados são satisfatórios em ambos os casos. No caso do emprego, o contratante pensa que se o sujeito chega de Audi é porque tá podendo. Afinal se ele tem um Audi é porque é bem pago normalmente e se é bem pago normalmente é porque normalmente ele é muito competênte. Poucos sabem que o seu outro carro é um Gol e que pra bancar o último motel pra onde ele levou a mina que ele catou de Audi ele teve que pedir dinheiro pro pai, o dono do Audi.
Esse cara percebeu, com a sabedoria que os anos lhe trouxeram, que o mundo moderno não gosta de fudidos e por isso quem quer se dar bem tem que fingir que tá sempre bem o tempo todo. Então a gente vê aquele festival de gente se promovendo nas rodinhas informais, nos papos de butiquim e na salinha do café. E você tá lá no meio, dando um jeito de falar bem de você mesmo pra ninguém pensar que você é um loser.
Difícil competir na selva do mundo moderno. É preciso se auto-promover sem parecer vaidoso, é preciso liderar sem ser autoritário, é preciso trabalhar em equipe impondo a individualidade. E tem que fazer tudo isso de preferência sendo engraçado e agradável que o mundo moderno gosta dos engraçados e dos agradáveis. Então todo mundo se esforça pra ser engraçado e agradável e o resultado é que o mundo, estranhamente, vai ficando cada vez mais desagradável e sem-graça.
Escrito por Leonardo Cortez às 00h58
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Me Chamam Lobo Mau
Eu não sei fazer lobby. Eu nem sei escrever lobby. Não sei se é com y, não sei se é com i, com dois bês, com dois ó. Não sei nada de lobby e por isso a minha vida no mundo moderno é mais difícil porque cada conquista minha depende do mérito e o mérito às vezes cai em desuso no mundo atual cada vez mais impregnado de lobistas. E eu conheço uma porção deles. Vivo perdendo espaço pros caras e não reclamo porque eles tem essa habilidade que eu não tenho. Então o azar (ou a sorte) é meu.
Eu sei que posso estar construindo uma desculpa perpétua, esfarrapada e perigosa. Cada fracasso eventual pode ser creditado à minha pouca habilidade na matéria de lobby e aí eu posso ficar tranquilo achando que tudo que dá errado é consequência de um ato quase heróico de um cara que não se rende ao sistema. No monólogo que eu fiz em 2003, o personagem tinha esse bordão: de não fazer lobby. Batia no peito e dizia que não fazia lobby e se considerava um injustiçado. O resultado era trágico pro sujeito, porque ele não enxergava que o problema não tava na incapacidade dele de fazer lobby e sim na incapacidade de se relacionar com as pessoas.
Sei que certamente eu já perdi o bonde por incompetência. Inúmeras vezes, reconheço. Tenho uma porção de defeitos, nem sempre dá pra passar por cima deles. Mas, em todas as vezes que eu me dei bem na vida, em nenhuma isso aconteceu por causa de lobby. Mesmo porque não tenho talento pra isso.
Escrito por Leonardo Cortez às 00h02
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