Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


Luzes da Ribalta -final

E pra encerrar essa sessão dos perrengues enfrentados por um ator brasileiro, o maior que já vivi graças a minha escolha profissional. Foi durante os ensaios do curta São Paulo Nos Pertence do meu amigo Zé Roberto Pereira, em 2005. Pra quem não viu o filme, uma palhinha do enredo: dois marginais sequestram um playboy e saem com  o cara pela noite de São Paulo atrás de um caixa eletrônico. Como um dos marginais é um cara meio problemático que nunca desbravou os limites da periferia, a busca pela grana se transforma numa excursão turística pelos principais cartões postais da nossa cidade numa  epopéia recheada de humor e filmada com muita poesia pelo Zé.  Filmaço que inclusive já ganhou prêmio e que tá aí circulando no circuito nacional dos festivais.

Pois bem. Antes das filmagens o Zé pegou firme na proposta de construção de um trabalho de ator convincente. Ensaiamos à beça, eu , o Guilherme Jorge, o Robson Nunes e a Tatiane Floresti, hoje senhora Pedro Diniz. Claro que uma hora a gente ia ter que encarar um laboratório  e essa experiência quase custou a nossa vida, de verdade.

A gente ensaiava numa escola de cinema que fica num prédio da Paulista. Numa noite, diante da impossibilidade de ocupar a sala de ensaios, fomos encaminhados pelo dono da escola pra um apartamento vazio do prédio que , por um acordo com o condomínio, era eventualmente ocupado pra ensaios ou alguma aula.  O problema é que não avisaram o zelador ou parte da vizinhança. Nesse dia, o Zé propôs que eu e o Robson aterrorizássemos o Guilherme pra que ele sentisse na pele o medo de ser sequestrado. E como eu o Robson somos muito dedicados quando a  gente se propõe a isso, mandamos ver no exercício xingando o Gui pra valer e deixando o cara com a sensação de que ele estava de fato num cativeiro. Fomos muito otários, é bem verdade, porque ninguém atinou que o terrorismo poderia ser ouvido pela vizinhança. O resultado é que alguém chamou a polícia e enquanto o laboratório corria solto, duas viaturas encostaram no prédio e perguntaram  pro zelador sobre alguma movimentação esquisita no referido apartamento. O zelador não sabia de nada e diante da resposta, os policiais subiram até nosso andar e ouviram, provavelmente chocados com a ousadia dos bandidos, as seguidas ameaças ao Gui e os pedidos de clemência que ele fazia de maneira muito verossímel porque o Gui é bom pra burro.

Então os gambés chamaram reforço. Em poucos minutos, tinham quase vinte policiais fortemente armados atrás da porta que separava o apartamento do corredor social. O laboratório tava fluindo maravilhosamente bem , com os atores se sentindo cada vez mais donos da situação. No roteiro original,  o meu personagem se apavora com a perspectiva de ser pêgo numa blitz. Quis incorporar a situação no ensaio e falei com toda a convicção algo como : "fudeu, são os homens!". Foi a senha pra que a operação policial saísse da tocaia pra ação. Primeiro a gritaria que a gente no começo interpretou como uma arruaça de algum vizinho. Por via das dúvidas,  abri a porta e me vi no alvo de trocentas metrancas, enquanto os policiais gritavam pra gente se jogar no chão. Claro que foi o  que a gente fez, enquanto a  porta dos fundos era arrombada por outro esquadrão.  Me lembro de estar no chão rezando por uma porrada porque a chance de levar um tiro parecia realmente enorme. E num fio de voz, o Zé, deitado, assumindo a liderança do processo dizia: "pelo amor de Deus...é ensaio...é ensaio."

Por sorte o Robson Nunes é famoso. Foi reconhecido por um dos soldados e a versão do ensaio ficou mais que comprovada. O que não impediu que a gente levasse uma geral fenomenal e um belo esculhambo de algum comandante.  Pra consolar, só mesmo as palavras de um dos policiais, depois que tudo tinha se acalmado:

-Pô, vocês são bons pra caralho! A gente pensou que era mesmo um sequestro...

Às vezes é legal ser canastrão. 

(Em tempo. Achei que essa podia ser uma história engraçada, mas relendo o post, sobra uma agonia. Na hora não teve graça nenhuma. Mesmo.)



Escrito por Leonardo Cortez às 23h12
[   ] [ envie esta mensagem ]




Luzes da Ribalta- parte 2

Essa aconteceu quando eu tinha  vinte e poucos anos e pesava cinqüenta e oito quilos, o que me dava a aparência de sobrevivente de naufrágio. O lado bom dessa magrelice é que eu podia encher o bucho de qualquer porcaria e nunca engordava ao contrário do que acontece hoje, quando qualquer duas colherinhas de açúcar no café resultam no aumento da minha pança já pronunciadíssima.  A grande ironia é que justamente nessa fase  raquítica eu fiz o papel,  pela primeira e única vez na vida, de Papai Noel. E sem enchimento, que a fantasia era pobre.

 

Arrumei esse bico sei lá por indicação de quem. O negócio era ir até a casa da família, se refugiar no quarto de empregada pra criançada não me ver, esperar dar dez da noite e sair de lá com o saco de presentes gritando rou, rou, como o Papai Noel, esse velho canalha, sempre faz. No pacote, cinqüenta reais de diária e sobras de peru, se houvesse. Na época,  eu era miserável. Ainda sou, mas hoje eu posso fazer alguma pose com os bens adquiridos nos tempo de fartura. Antes nem isso. Por isso eu topei a proposta de trabalho, na esperança que a minha interpretação compensasse a ausência de gordura.

 

Fui recebido por uma das mães, que depois de mal disfarçar a decepção com a minha pouca idade e com a meu pouco peso,   me tratou como guerrilheiro revolucionário foragido que tem que se esconder dos militares em época de ditadura. Passei pela sala olhando pra baixo, com medo de encarar as crianças que poderiam me desmascarar na hora do show. Fui anunciado como um entregador de qualquer coisa, apresentado pra empregada como o cara que tinha que ficar escondido a qualquer preço, e depois praticamente escorraçado pro quartinho, onde a precária vestimenta tamanho GG aguardava o meu corpo franzino.

 

Suspirei melancolicamente e comecei a trocar de roupa como quem dá-se ao carrasco. Minha aparência ficou lastimável. Olhando no espelho eu parecia um ex-obeso , depois de operado da redução de estômago. A fantasia vermelha folgada fazia as vezes das pelanca e o meu olhar era pura depressão.  O gorro não escondia o meu cabelo preto e a fantasia não tinha peruca. A barba era dessas de algodão que fica presa num elástico atrás da orelha e o elástico tava meio largo.   Dei uma olhada no saco de presentes e descobri, amedrontado,  que a maioria dos pacotes, algo em torno de setenta por cento,  eram pra uma menina só, provavelmente a filha da anfitriã, o que certamente iria contribuir pra minha impopularidade naquela noite já que as crianças iriam achar que o Papai Noel tava  promovendo protecionismo. Sabia que viriam caneladas, puxões na barba, risidinhas dos adolescentes, olhares constrangidos dos tios e tias. Olhei no relógio. Nove e quinze. Quarenta e cinco minutos pra ficar pensando nas injustiças e vicissitudes da existência. Por cinqüenta reais, aquela situação, aquela fantasia, aquele calor. Fora a fome. Minha dignidade estava ferida. Eu era um ator, fazia ECA, discutia Artaud na faculdade e agora tava lá, na iminência de encarnar aquele papel inadequado pro meu fisique-du role...

 

De repente, batidas na porta. Antes da hora combinada. Fiquei sobressaltado. Sempre existia o risco de alguma criança invadir o recinto. E antes que o pânico se instaurasse  a dona da casa surgiu com o prato de peru que comi vorazmente vestido de Papai Noel dos pobres.

 

(Em tempo. Até que a entrega dos presentes foi bem-humorada e as minhas tiradas espirituosas cativaram adultos e crianças. Saí de lá até que animado, antes das onze, naquela pressa pra passar o natal com a minha família. Infelizmente não tinha mais ônibus  e do cachê de cinqüenta reais, trinta eu gastei com o táxi.)

 



Escrito por Leonardo Cortez às 13h59
[   ] [ envie esta mensagem ]




Luzes da Ribalta - parte 1

Um amigo meu leu o post abaixo e comentou que o Diário do Ganso tava virando uma espécie de registro das agruras do ator brasileiro. Então eu disse que aquilo não foi nada perto de outras agruras enfrentadas por este que vos escreve. Já apanhei de criança enfurecida quando eu fazia papel de vilão em peça infantil , por exemplo. Faz uns dez anos, eu ainda tava na ECA. Foi assim: a gente se apresentou na periferia, numa escola,  no meio da quadra, ao ar livre. Quinhentas crianças, um calor do cão e eu de figurino de teatro infantil, ou seja,  uma sobreposição de tecido com sucata  com a intenção de deixar o personagem com um aspecto lúdico e interativo conforme a concepção do espetáculo. Figurino lindo pra quem vê, mas o ator sua em bicas. E fede, porque não tem jeito da coisa não ficar insustentável em matéria de fedentina depois de tantas sessões sem que exista a possibilidade de botar a roupa na máquina de lavar , já que nenhuma máquina de lavar consegue lavar alguma coisa que tenha cinquenta tampinhas de garrafa costuradas em cada manga.

Pois bem. Tô lá, dando tudo de  mim,  quando o público começa a ficar impaciênte pelo fato de que não se escuta nada em função da pouca acústica que uma quadra de escola a céu aberto pode oferecer pra um espetáculo teatral. Através do olhar apavorado dos meus colegas de cena percebo que a situação está saindo do controle. Somos xingados e achincalhados. As atrizes que fazem os seres da floresta usam um colant e são chamadas de gostosas pelos adolescentes do colegial, estranhamente convidados pra apresentação do teatro infantil. Tento interagir com a platéia, perguntando onde por ventura meu inimigo estaria escondido. Os gritos são ensurdecedores. Meu personagem teria que ser um vilão atrapalhado mas esse aspecto cômico é interpretado pelo público irrascível  e principalmente pelos adolescentes do colegial como burrice. Cada vez que eu abro a boca , ao invés de risadinhas infantis escuto um "dãããã". Quero chorar , mas mantenho a pose.  Ninguém entende a peça que ainda por cima conta uma história infantil meio cabeça, conceitual, cheia de metáfora e ambientada num planeta fictício. Lá pelas tantas , meu personagem se regenera e expulsamos a bruxa. Na busca pela interatividade, a diretora marcou a saída da atriz pela platéia. Péssima idéia. Nossa colega é chutada impiedosamente por parte da criançada ensandecida, enquanto outra parte promove uma sonora vaia antes que o protagonista possa engatar o seu discurso politicamente correto em defesa do respeito às diferenças. Com  o canto do olho, vejo a atriz que faz a bruxa chegar em segurança  ao banheiro feminino (que era o nosso camarim improvisado), desconjuntada e talvez com algum sangramento. Temos ainda o terceiro ato, o mais divertido, onde todos se integram e cantam uma linda canção cuja letra é uma linda poesia cheia de metáfora conceitual. Mas o Paco, o ator que faz o menino  Bebeto se antecipa à ação e anuncia num desabafo: "Quer saber? Eu vou embora desse planeta! Pra mim chega! " A criançada vai ao delírio. Eu grito em desespero : " espere por mim, menino Bebeto!"  e as três atrizes  gostosas vão atrás na esperânça de dar fim ao calvário. O único caminho disponível pra chegar no camarim-banheiro é o meio da platéia. Depois de levar safanão, mão na bunda, canelada e ter metade das tampinhas do figurino arrancadas com violência, entramos ofegantes e doloridos no banheiro e trancamos a porta que sofre seguidas tentativas de arrombamento pela multidão enfurecida até que a diretora interfira na rebelião que a gente promoveu. Num misto de humilhação e revolta com as precárias condições oferecidas pela escola ao Teatro, nossa arte, nossa luta, nossa opção de vida, vamos tirando a maquiagem e contando as luxações. Estamos de saída quando damos de cara com  uma professora do primário que olha pra gente e com um ar meio entediado  solta um "parabéns pela espetáculo" que até hoje eu não sei se ela disse por irônia ou porque simplesmente estava na sala dos professores fumando um cigarro enquanto o pau comia lá fora.



Escrito por Leonardo Cortez às 19h21
[   ] [ envie esta mensagem ]




Olê-lê, Olá -lá

Adorei fazer a novela, juro. Adorei o personagem, a relação com a equipe foi ótima, peguei uma porção de praia no Rio de Janeiro, mesmo não gostando de praia. Tudo certíssimo. Mas confesso que ser jurado do Concurso Floribella do Raul Gil me deixou um pouco oprimido. Fiquei na minha, não fiz piadinha, não puxei o saco do Raul, não mandei recadinho. No Raul Gil fiquei bloqueado.  Acabei pagando de antipático, eu acho. Paciência. Não sei se me chamam de novo.

No Raul Gil  eu quis ser jurado criterioso. Duro. Insensível à adulação. Uma das candidatas me entregou um coração de pelúcia no meio da apresentação e eu ali. Firme. Avaliando os aspectos técnicos da performance. Que não vai ser o coraçãozinho de pelúcia que vai me dobrar. Queriam um cara mais descontraído, eu sei. Com tiradas desconcertantes, o comediante em tempo integral. Até me fizeram dançar a dança do Evaristo. Fui. Mas com integridade. Todos riram e eu ali. Digno. Duro. Insensível. Como poucas vezes alguém foi visto no palco do Raul Gil.

Quando o resultado do concurso foi divulgado , o pranto dos derrotados se misturou com a euforia dos vencedores. O Raul felicitou quem venceu, consolou quem perdeu e emendou num mershandising. Na saída, algumas mães me olhavam com ódio. Maldito antipático que ainda por cima não votou na minha filha. Mas eu sigo em frente. Duro, insensível. Dizendo através do olhar convicto que a vida não é mole e que a bola tem que jogada pra frente, moçada.  Paciência.



Escrito por Leonardo Cortez às 23h29
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
  20/12/2009 a 26/12/2009
  01/11/2009 a 07/11/2009
  18/10/2009 a 24/10/2009
  06/09/2009 a 12/09/2009
  16/08/2009 a 22/08/2009
  09/08/2009 a 15/08/2009
  02/08/2009 a 08/08/2009
  26/07/2009 a 01/08/2009
  19/07/2009 a 25/07/2009
  31/05/2009 a 06/06/2009
  24/05/2009 a 30/05/2009
  10/05/2009 a 16/05/2009
  19/04/2009 a 25/04/2009
  01/03/2009 a 07/03/2009
  22/02/2009 a 28/02/2009
  08/02/2009 a 14/02/2009
  01/02/2009 a 07/02/2009
  11/01/2009 a 17/01/2009
  04/01/2009 a 10/01/2009
  21/12/2008 a 27/12/2008
  30/11/2008 a 06/12/2008
  23/11/2008 a 29/11/2008
  07/09/2008 a 13/09/2008
  31/08/2008 a 06/09/2008
  24/08/2008 a 30/08/2008
  10/08/2008 a 16/08/2008
  03/08/2008 a 09/08/2008
  27/07/2008 a 02/08/2008
  20/07/2008 a 26/07/2008
  13/07/2008 a 19/07/2008
  22/06/2008 a 28/06/2008
  01/06/2008 a 07/06/2008
  04/05/2008 a 10/05/2008
  13/04/2008 a 19/04/2008
  06/04/2008 a 12/04/2008
  23/03/2008 a 29/03/2008
  16/03/2008 a 22/03/2008
  09/03/2008 a 15/03/2008
  17/02/2008 a 23/02/2008
  10/02/2008 a 16/02/2008
  03/02/2008 a 09/02/2008
  27/01/2008 a 02/02/2008
  13/01/2008 a 19/01/2008
  06/01/2008 a 12/01/2008
  30/12/2007 a 05/01/2008
  23/12/2007 a 29/12/2007
  02/12/2007 a 08/12/2007
  18/11/2007 a 24/11/2007
  11/11/2007 a 17/11/2007
  04/11/2007 a 10/11/2007
  21/10/2007 a 27/10/2007
  14/10/2007 a 20/10/2007
  07/10/2007 a 13/10/2007
  30/09/2007 a 06/10/2007
  23/09/2007 a 29/09/2007
  09/09/2007 a 15/09/2007
  02/09/2007 a 08/09/2007
  19/08/2007 a 25/08/2007
  12/08/2007 a 18/08/2007
  05/08/2007 a 11/08/2007
  29/07/2007 a 04/08/2007
  15/07/2007 a 21/07/2007
  01/07/2007 a 07/07/2007
  24/06/2007 a 30/06/2007
  17/06/2007 a 23/06/2007
  10/06/2007 a 16/06/2007
  03/06/2007 a 09/06/2007
  27/05/2007 a 02/06/2007
  20/05/2007 a 26/05/2007
  13/05/2007 a 19/05/2007
  06/05/2007 a 12/05/2007
  29/04/2007 a 05/05/2007
  22/04/2007 a 28/04/2007
  15/04/2007 a 21/04/2007
  08/04/2007 a 14/04/2007
  01/04/2007 a 07/04/2007
  18/03/2007 a 24/03/2007
  11/03/2007 a 17/03/2007
  04/03/2007 a 10/03/2007
  25/02/2007 a 03/03/2007
  18/02/2007 a 24/02/2007
  11/02/2007 a 17/02/2007
  04/02/2007 a 10/02/2007
  28/01/2007 a 03/02/2007
  21/01/2007 a 27/01/2007
  12/11/2006 a 18/11/2006
  05/11/2006 a 11/11/2006
  22/10/2006 a 28/10/2006
  15/10/2006 a 21/10/2006
  01/10/2006 a 07/10/2006
  24/09/2006 a 30/09/2006
  10/09/2006 a 16/09/2006
  03/09/2006 a 09/09/2006
  27/08/2006 a 02/09/2006
  20/08/2006 a 26/08/2006
  13/08/2006 a 19/08/2006
  06/08/2006 a 12/08/2006
  30/07/2006 a 05/08/2006
  23/07/2006 a 29/07/2006


Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog