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A Última Sessão de Cinema - parte 2
Agora que a filha nasceu pegar um cineminha virou um evento raríssimo. Por sorte, temos o DVD. O DVD é sensacional. Imagem digital, tem os extras, filmes antigos tão sendo relançados, eu posso assistir debaixo do edredon com a Glaucia, eba, viva o DVD.
O problema é que como tô indo pouco ao cinema, assisto tudo quanto é filme com atraso, ficando por fora de todas as conversas com os cinéfilos de plantão que frequentam as minhas rodas. Outro dia assisti o "Crash" e fiquei muito entusiasmado. Ótimo filme, a questão racial do EUA abordada de maneira contundente e inteligente, pô, filmaço. Mas perdi o bonde na hora de falar sobre o filme com as pessoas. O Oscar já passou, todo mundo já viu e comentou o filme. A maioria já nem lembra direito do enredo. E vem o Leonardo perguntando: " Pô, vocês viram o Crash? ". Ninguém quer falar do assunto.
Vi dois nacionais semana passada. Tô confiando que o exercício do fazer cinematográfico nessa retomada vai aprimorar os caminhos do cinema nacional e que aos poucos a gente pode ir conquistando a possibilidade de fazer filmes que sejam mais universais que brasileiros, porque essa necessidade de falar sobre assuntos essencialmente brasileiros muitas vezes deixa o nosso cinema muito chato e monotemático. Bom, não sei quanto à vocês, mas se me falam que o filme retrata a violência da periferia ou é ambientado durante o período da ditadura eu já fico com um muita de preguiça de assistir.
Um dos filmes que eu vi foi o "Contra Todos" que tem de cara o mérito de não ter nenhum mershandising que nos distancia no decorrer da exibição. Tô de saco cheio de filme nacional com propaganda escancarada. Acho "Irma Vap" uma vergonha nesse sentido. Um filme vendido (no pior sentido da palavra) aos patrocinadores e que se curva aos detentores da grana desde a hora que começa até os letreiros finais. Outro mérito de "Contra Todos" tá no elenco, sem globais , o que aproxima o espectador do universo da periferia. A história é bacana, surpreendente e direção ok (ainda que no making-off o diretor venda a estética da câmera na mão como coisa inusitada, sendo que desde o Dogma dinamarquês, todo mundo copia esse estilo). "Contra Todos" tem um único problema que me parece grave. O fato dos atores improvisarem as falas, numa tentativa de tornar verossímel ao máximo a interpretação resultou em diálogos tão pobres que na realidade o que era pra aproximar o espectador da trama acaba afastando. Você pensa: "que fala mal escrita" e depois descobre que ela não foi escrita e sim improvisada pelo elenco. O tiro sai pela culatra porque ator não é dramaturgo. Não aguenta esse tranco. O ator tá preocupado em transmitir verdade. E se é pra fazer o texto, então ele vai ser quase simplório, sem poesia, sintético, seco. Tem uma hora que cansa ouvir.
No oposto dessa questão está "A Máquina " do João Falcão, cujo roteiro é poesia pura, destilada no texto, interpretação, cenários e imagens. Tudo é poesia em "A Máquina " e é isso que incomoda no filme. O João Falcão quis ser poeta em cada cena , em cada tomada. Sempre uma sacadinha, uma simbologia. Cansa ver. A impressão é que falta em "A Máquina" a síntese e a verdade nua e crua de "Contra Todos". E que falta em "Contra Todos" alguma poesia, não a poesia do João Falcão, obviamente, mas a poesia que é possível mesmo pra quem se embrutece na violência da periferia.
Ok, eu sei que todo mundo já viu e discutiu esses filmes, ninguém vai dar importância pra essas colocações que eu tô fazendo. Mas que que eu posso fazer? Filha pequena , eu mal saio de casa e à propósito: nunca fui tão feliz.
Escrito por Leonardo Cortez às 02h30
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A Última Sessão de Cinema
Vou muito menos ao cinema do que gostaria. E olha que eu adoro, mesmo não sendo um entusiasta da linguagem. Não saio da sala falando sobre a estética do diretor ou o enquadramento. Quero saber da história, da interpretação. Talvez por ter feito pouco cinema como ator não tenho tanto envolvimento com a técnica. É diferente da postura que eu tenho quando assisto teatro. Nesse caso fico muito mais atento a tudo que cerca a montagem o que, de fato, torna a experiência menos envolvente, a não ser quando a peça é boa pra burro. Já com o cinema, tô cagando um pouco pra isso. Eu sento e me entrego à história. Agente passivo do processo. Tô nem aí com a linguagem, quero mais é me divertir. E ponto final.
Tem atores colegas meus que falam com a boca cheia que o sonho deles é fazer cinema, atuar pra cinema. Os curtas que eu fiz não me deixam muito entusiasmado com a possibilidade. Acho esse parentesco tão próximo que o cinema tem com a vida real uma coisa dificílima pro ator lidar na interpretação. Claro que tem trabalhos e trabalhos e uma porrada de excessões e possibilidades, mas normalmente tudo tem que ser pequeno, nada pode ser exagerado, tudo é interno, não tem composição senão distancia. A câmera pega tudo, tua cara fica com cinco metros de altura, a lente entra no teu olho e qualquer milhonésimo de canastrice vira o fim do mundo. E quando te dizem que não tem personagem, é você na situação? Aterrorizante. Você sendo espancado, espancando, estuprando, estuprado, chorando, sorrindo, amargando, celebrando. Fora o fato de que , uma vez rodado , fudeu. Tá lá e ninguém mais corrige ou apaga. Pra eternidade. Pro bem ou pro pro mal, pra sempre. Não gostou, azar seu.
Então eu acho o teatro bem mais divertido em matéria de interpretação, porque além da gente poder ser mais hiperbólico, dá pra aprimorar o trabalho mesmo durante a temporada e um dia nunca é igual ao outro , mesmo encenando todo o dia a mesma peça. No fundo, essa distinção é meio besta e nem sei porque tô me estendo no assunto. Porque no frigir dos ovos, o objetivo do ator é ser convincente. E se você consegue ser convincente tanto na sutileza cinematográfica quanto no histrionismo teatral, então certamente o prazer de interpretar se concretiza mais uma vez, esse prazer essencial que é um dos pilares que fundamentam essa atividade insana que é ser quem a gente não é com tanta verdade que até a gente mesmo acredita na mentira quando estamos especialmente inspirados. E é bom que se diga que dá pra ser histríonico no cinema e sutil no teatro e que a mescla disso tudo pode construir uma interpretação saborosa.
Enfim. Cinema por enquanto, só na platéia. É bom , também.
Escrito por Leonardo Cortez às 01h44
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entrevista, parte 1
Entrevista com Leonardo Cortez
Concedi essa entrevista em agosto do ano passado pro Caderno 2 quando “Escombros” estreou no Centro Cultural São Paulo. Entrevista por e-mail, publicaram dois por cento do que escrevi e o texto ficou arquivado no cemitério da minha caixa postal. Acho que não disse tanta bobagem, então disponibilizo o papo na íntegra. E pra quem quer assistir “Escombros”, a promessa de nova temporada ainda nesse semestre.
Fale sobre o texto de Escombros.
Terminei a primeira versão do texto no início do ano passado. Minha primeira pretensão como dramaturgo era escrever uma comédia que retratasse a decadência dos valores cultivados pela classe média. A obsessão pela casa própria foi um dos temas que eu quis abordar. Mesmo porque, eu como artista, vivo nesse dilema: a opção por fazer teatro no Brasil e estar a mercê de todas as instabilidades inerentes à profissão e a busca pela estabilidade que pode resultar na compra da casa própria, por exemplo. Quais são os sacrifícios que o homem faz para alcançar essa estabilidade? Os artistas estão aí, fazendo lixo e sacrificando suas convicções em troca de estabilidade. O mundo coorporativo está aí, sufocando a individualidade do sujeito pra que ele tenha direito ao usufruto de todos os seus benefícios. É difícil escapar da neurose nesse tipo de sistema. Felizmente, um pouco de neurose pode gerar boa comédia.
Qual é a crítica do texto em relação à televisão?
A medida em que eu fui fazendo novos tratamentos no texto, outras temáticas foram ganhando força. A questão da decadência cultural que a gente está vivendo ganha foco quando o texto expõe a grande obsessão dos personagens pelo lixo televisivo que eles consomem de maneira voraz e isenta de crítica. A televisão vive o seu pior momento no que diz respeito às temáticas abordadas e à qualidade de programação. Nunca tivemos tanta porcaria no ar. Nunca os realitys shows foram tão explorados, nunca o João Kleber teve tanta audiência. E um país que dá audiência pro João Kleber está obviamente em crise cultural.
Escrito por Leonardo Cortez às 18h33
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entrevista, parte 2
O texto faz referências às CPIs?
Não diretamente, porque não quero que o texto fique datado. Mas claro que o momento crítico que o país atravessa é absolutamente pertinente ao texto de “Escombros”. Não estamos retratando o cenário político, porque o texto se passa num apartamento de classe média. No entanto, os personagens da trama construíram suas trajetórias em cima de mentiras, essencialmente. Mentiras que tiveram por objetivo ganhos individuais em detrimento do coletivo. Impossível, portanto, não fazer associações com o sistema político atual. Além disso, estamos lamentavelmente diante de um quadro de desmoronamento dos valores morais e éticos. O que vai surgir dessa pilha de escombros é o que nos perguntamos no momento.
Você é um autor jovem. Alguma mensagem para a juventude?
Acho que a juventude tem a obrigação de estar atenta pra depois não repetir um comportamento de passividade no futuro. Na peça, temos um personagem jovem, o Otávio, interpretado pelo Kiko Bertholini , que repete os padrões de comportamento que levaram seu pai à ruína sem que ele mesmo se dê conta disso. O que queremos dizer com o nosso teatro é que é preciso estar atento. Que você pode estar sendo manipulado. As pessoas sacrificam talentos e vocações em nome de uma estabilidade que não é sinônimo de uma existência plena. Claro que não é fácil viver nem mundo onde temos que fazer concessões de maneira permanente. A saída talvez seja ter exata noção dos seus próprios valores éticos e morais e buscar uma fidelidade á esses valores.
É preciso manter o comichão pela mudança. Cabe a juventude zelar por esse desejo de mudança, mesmo que isso soe ridículo. Temos excessivo medo do ridículo, mas ridículo é deixar as coisas seguirem sempre o mesmo caminho. Ridículo é não parar pra pensar que estamos sendo manipulados pela mídia, pela família, pela culpa, pelo desejo de estabilidade.
Por que esse título , “Escombros”?
O texto fala da falta de ética e o comportamento amoral dentro das relações de família e de trabalho. Temos em cena personagens que se revelam na medida em que percebem que seu mundo está, literalmente, desmoronando. O texto mostra o desmoronamento físico de um edifício paralelo ao desmoronamento dos valores morais e éticos daqueles que estão dentro do apartamento. Existe apenas uma saída, mas essa é uma surpresa que o texto guarda pro final. Mas é bom lembrar que o texto é uma comédia. O riso é a ferramenta que utilizamos pra propor a reflexão. Eu acho um pouco chato ir ao teatro e encontrar um ator em cena te apontando o dedo na cara, dizendo; “Reflita! Isso é com você! Reaja, e etc...”. Agora, quando você faz o espectador rir do patético e do ridículo do ser humano isso pode ser uma das etapas pra que alguma coisa aconteça na cabeça do sujeito. “Por que que eu tô rindo disso se eu também sou assim? Se eu conheço gente assim?”. É o começo do processo. Se o cara sai discutindo a peça depois da sessão, então a semente tá plantada. Tô sempre repetindo a frase do Tom Jobim que disse que a arte tem a função de melhorar a vida das pessoas. Inclusive a minha, que me divirto muito fazendo teatro.
Escrito por Leonardo Cortez às 18h32
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Detalhes...
O cenário você conhece. Dez da manhã, avenida de São Paulo, aquela putaria do trânsito. Tudo parado, o inferno de sempre, o calor seco do inverno, poluição, buzinaço e aquela sensação que você só não enlouquece porque foi abençoado por Deus com uma paciência que te deixa a poucos passos da iluminação budista que faz um sujeito levitar. Tô dentro do meu carro, segurando as pontas apesar do atraso habitual. A agonia é mais suportável porque o Toca-Cd tá ligado e nesse momento, o Roberto Carlos tá cantando "Detalhes". Nossos pais e avós sabiam das coisas. Roberto Carlos era o fino. Depois começou a cantar coisas como "Mulher de Óculos" e outras pérolas. Mas paciência. Ele já deu sua contribuição para a nossa era. E "Detalhes" é um troço arrepiante, desculpa...
Então eu tô lá, ouvindo aquela flautinha, lembrando de alguma vaca que tenha me trocado por um outro cabeludo que apareceu na sua rua, totalmente alheio do pau que tá comendo lá fora, com toda aquela esbórnia da cidade grande na hora do rush quando o sinal fecha e batem no meu vidro. Claro que eu penso que é assalto e antes que o ritimo cardíaco volte ao normal eu vejo a caixa de caju e acima dela o sorriso amarelado do vendedor. O cara tem o rosto inchado , típico dos alcóolatras e pede pra que eu abaixe o vidro. Não tô interessado no caju, mas mesmo assim obedeço. Ele começa a dizer que o preço do caju tá bom, três caixas por...
Mas aí a flautinha da música sai do carro, chega nos ouvidos do vendedor que se ilumina. "É o Roberto Carlos?", ele pergunta, sabendo obviamente que era o Roberto Carlos. Meio que pra ser simpático, eu confirmo. E pra minha surpresa , ele praticamente enfia a cara dentro do carro e pede pra aumentar o som. Eu obedeço. O sinal tá fechado, o calor tá um inferno e a cara do cajú não é das melhores. Mas o vendedor só quer saber do Roberto Carlos. Ficamos em silêncio, eu e ele. como se "Detalhes" fosse uma prece.
"Lindo pra caralho", ele comenta, antes que o sinal abra e eu receba os primeiros buzinaços impaciêntes de quem tá atrás de mim. Sigo em frente e ainda consigo ver pelo retrovisor o vendedor de caju meio no clima da música ainda. O olhar parado, meio vago. De novo em silêncio, cabeça baixa. Sabe-se lá pra onde o cara se transportou. Década de setenta, antes do alcool , antes do farol, do caju. Sabe-se lá onde a história dele confluiu com o Robertão.
Sabe-se lá o que a gente vai sentir quando escutar o Roberto Carlos daqui a trinta anos....
Escrito por leocortez às 11h12
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