Diario do Ganso- Um Blog de Leonardo Cortez


O escritor aceitou o convite para aquela entrevista à contragosto. O programa era notoriamente um lixo, apresentado por aquele afrescalhado que à pretexto de destilar seu conhecimento fútil, convidava personalidades para discutirem assuntos da contemporaneidade enquanto degustava  o vinho de quinta que era só era servido pro convidado porque o fabricante patrocinava o horário. O escritor aguardou no camarim, resignado diante da obrigação inevitável. Era o Brasil e suas contradições. Para criticar a sociedade corrompida através da sua arte ele seria obrigado à divulgá-la num programa de quinta categoria porque a sua assessora de imprensa havia garantido que a audiência do programa estava galopante e que isso poderia ser bacana pro lançamento do livro . Informação provavelmente mentirosa, porque a mãe do escritor nunca havia assistido o referido programa e a mãe do escritor costumava ser um bom termômetro daquilo que fazia sucesso ou não na televisão.

E antes que ele entrasse no estúdio, uma deliciosa estagiária brifou o escritor sobre a temática que seria discutida no programa daquela noite.

-A temática eu já sei. É a morte, o tema do meu novo romance, “O silêncio que precede a queda”, onde eu comparo o fim da existência com a descida em declive de uma montanha russa que...

-Pois é. Essa pauta caiu, porque ontem tivemos um  programa especial sobre diabetes e temos que diversificar a temática.

-Mentira.

-Então você já sabe.

-Já sei o que?

-Que o programa é sobre as mentiras que as mulheres contam. Uma pauta leve, pra dar uma diversificada...

O escritor deu uma gargalhada que a estagiária interpretou como uma concordância simpática sem saber que naquele instante ele pensou seriamente em enforcá-la com o fio do secador de cabelos usado pelos maquiadores.  E ignorando o perigo iminente, a estagiária ainda deu as recomendações:

-Respostas curtas e bem humoradas. É um programa de família. Prestação de serviços e entretenimento. Já prestamos o serviço no programa de hoje quando falamos sobre a prevenção da joanete pra mulheres que trabalham de salto alto. Vamos dar aquela alegrada, ok?

O escritor suspirou resignado. A única alternativa seria tentar estabelecer conexões entre o tema  e o seu livro recém-lançado. E no meio da sua simulação mental ele foi interrompido pela estagiária que tinha acabado de escutar alguma coisa no fone de ouvido.

-Sua vez, por aqui, por favor.

O escritor percorreu os corredores que davam acesso ao estúdio como o condenado à morte a caminho do cadafalso. Anunciado pelo apresentador almofadinha, ele entrou no estúdio num sorriso congelado. O que foi difícil, já que o apresentador errou o seu sobrenome.

-Como vai,  Leopoldo Castro?

-É Leopoldo Costa.

-É uma honra receber o autor desse que,  sem dúvida nenhuma,  será um sucesso de vendas no mercado editorial. O nome do livro é...

-“O Silêncio que Precede a Queda”.

-Opa. A queda que no caso...

-É a do protagonista, que se joga do alto de um prédio. O artista é um ser consciente da própria morte porque ansiamos pela imortalidade quando fazemos nossas obras. Ansiar pela imortalidade é essencialmente ter a consciência de que vamos morrer.

-Credo, bate na madeira, Léo...

-Você pode espancar a madeira até desmaiar de exaustão, mas isso não impedir que você morra de qualquer jeito.

-Sensacional. E já fazendo a ponte com o tema do nosso programa de hoje, eu quero te dizer que o que  me mata é não conseguir entender o que se passa na cabeça das mulheres. Elas acham que enganam a gente, Leozinho?

-Bom, no meu romance, a personagem principal se mata por amor.

-Sei. E por que a moça faz isso?

-Não é uma moça. É o Genivaldo.  Eu chamo de “a personagem” porque personagem é substantivo feminino, mesmo quando a personagem  é masculina.  

-E o Genivaldo se mata por que?

-A namorada do Genivaldo se mata e isso deixa o Genivaldo deprimido. Ele acha que foi por causa dele e por isso ele se mata também.

- Ahahaahha. Essas mulheres são de morte. Bem , chega de spoiler, Léo! Aqui no nosso programa ninguém precisa se matar pra desvendar os seus segredos minhas queridas e  sabem por que? Porque por mais que elas mintam, nós temos a perspicácia para desmascarar  as suas mentiras. É ou não é, Leopoldo?

-A vida é uma mentira. Viver  é a aceitação do transitório e o que transita não é perene. A consciência da morte me arrebata  em ondas mefilíticas.

-Ondas de quem?

-Mefilíticas, que  vem de Mefisto, da peça Fausto de Goethe. A imortalidade é uma ilusão, o que sobrevive é a obra.

-Então vamos aproveitar que você ainda não morreu e escutar as perguntas das nossas telespectadoras.  A Sônia de Teresina disse que sempre que sai com um homem pela primeira vez, ela dá risada de qualquer piada sem graça que ele conte. Por que ela faz uma coisa dessas?

-Talvez pelo fato dela ser uma cretina que acha graça de qualquer idiotice contada por um homem cretino como ela.

-Não seria uma insegurança camuflada, Leozinho?

-O que essa mulher tem que camuflar é o espaço oco que existe debaixo do couro cabeludo.

-Aahahahah, adorei, Leozinho..

-É Leopoldo!

-Vamos pra próxima!  A Julia do Rio de Janeiro pergunta por que os homens não gostam das amigas das suas namoradas.

-Ela tá falando das namoradas dos homens de um modo geral ou das amigas das namoradas dela de um modo específico?

-De fato, a pergunta permite essa dupla interpretação. Mas vamos falar dos homens de uma maneira específica.

-Especificamente no meu caso, a minha ex-mulher se descobriu apaixonada pela melhor amiga e eu,  obviamente, agora detesto as duas.

-Meu Deus do céu...

-Quem me dera acreditar em Deus. Eu rezo todos os dias pra Jesus Cristo me restituir a fé. É uma contradição eu sei. Eu sou um homem que tenta acender uma fogueira jogando água em cima do carvão.

-Que bonito. Gostoso o vinho?

-Não.

-E a última pergunta, que na realidade não é uma  pergunta e sim um depoimento da Marizete de Uberlandia. “Querido Francis: nos últimos anos do meu casamento, eu simulo o orgasmo para não entristecer meu marido. Isso não seria tão ruim se eu não desconfiasse que ultimamente ele está fazendo a mesma coisa. Como escapar dessa dupla mentira?

-A mentira compartilhada é uma verdade. É como esse programa. Você finge que me acha interessante e eu finjo que não quero te enforcar agora mesmo.

-Ahahaha! Eu quero morrer seu amigo!

-E eu quero que você morra agora.

-Espero que isso seja uma mentira!

-Espero que você esteja certo.

-Credo, que amargura. Tô achando que o “Silêncio que Precede a Queda” é um livro auto-biográfico.

-Agora você acertou, Francis.

 

Nessa hora,  o diretor chamou os comerciais. E o escritor não estava de volta no segundo bloco. 



Escrito por Leonardo Cortez às 01h06
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O jovem foi parado na blitz e como estava sem habilitação, foi logo perguntando  se era possível resolver as coisa de um jeito amigável . O policia recusou veementemente, mas não por pudor ou honestidade, mas porque andava numas de achar que  poderia estar sendo filmado. Agora com essa onda de microcâmeras, o negócio era não facilitar, era o que diziam no batalhão. Então, numa chave de braço, o polícia intimou o delinqüente num esporro sussurrado pra não chamar a atenção a dizer onde estava a  câmera. “Tamo aqui enquadrando miliante e vem um bosta como você querendo corromper a autoridade? Fica sabendo que a polícia tá higienizada e que pra otário corruptor a resposta é  a borracha,vagabundo!” E o jovem sem habilitação gemeu que pelamordedeus,  e que tudo o que ele queria era dar uma força pra cerveja, o que deixou o policia mais puto ainda. O que aconteceu dali pra frente foi uma daquelas  brutalidades que revoltam o cidadão. O policia chamou o colega sargento, os dois levaram o jovem pra trás dos tabiques  e fizeram o cara confessar que tudo o que ele queria era propor um suborno desonesto num pais onde esse tipo de coisa acontece todo dia. E quando o jovem disse isso, o sargento sacou a arma e apontou pra cabeça do moleque, o que fez o moleque se urinar imediatamente. Aí, os policias acharam que o terror já tava de bom tamanho, pediram desculpas alegando que na  corporação tava todo mundo assustado depois que o tenente Ronis tinha rodado naquela matéria do Fantástico e querendo mostrar simpatia, aceitaram  a propina fingindo contragosto, como se aquilo fosse uma espécie de ossos do ofício, sem saber que a câmera escondida estava camuflada no relógio do jovem jornalista ambicioso.  



Escrito por Leonardo Cortez às 02h09
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Crítica de Luiz Fernando Ramos, publicada na Folha de São Paulo.

 

PEÇA FAZ CARICATURA DA CLASSE MÉDIA COM HUMOR DE PRIMEIRA

O cômico espelhando o trágico. "Rua do Medo", espetáculo da Cia dos Gansos que faz caricatura da paranóia com a segurança na classe média brasileira, é uma inteligente tentativa de atualizar o potencial crítico da comédia de costumes.

O autor, o prolífico dramaturgo Leonardo Cortez, escreveu nos últimos sete anos cinco peças -três delas formam a "Trilogia Canalha", um núcleo de textos focado nos baixos padrões éticos dos brasileiros. Agora, se o lema principal da fábula é a insegurança pública, o tom tragicômico só vinga porque a encenação revela as entranhas de nossa corrosão ética.

Em uma situação dramática bem simples -uma reunião de moradores, interessados em aumentar seu aparato de segurança-, engendra-se uma sequência de ações que acabam gerando uma morte e desvendando as podridões dos personagens. Mesmo assim, prevalece o riso em meio a um olhar entre complacente e impiedoso às fragilidades humanas.

A encenação de Marcelo Lazzaratto inaugura uma nova fase na Cia. dos Gansos, quando um olhar de fora dialoga com o dramaturgo e ator protagonista. Ele limpa a cena de adereços e cenário naturalistas, dando espaço ao texto de Cortez e ao jogo dos atores com os personagens.

A cena que melhor realiza essa estratégia é a da apresentação pelo personagem do Capitão Tobias, dono de uma empresa de segurança, de um vídeo promocional. Os espectadores não veem nada e só ouvem o jingle comercial. É suficiente para combinar humor de primeira e economia de meios com eficácia.

Os atores trabalham na linha tênue que separa o caricatural do realismo. Nessa corda bamba todos se salvam, oscilando entre assumirem a natureza caricatural das criaturas que encarnam e acomodarem-se em um registro natural. Talvez essa oscilação reflita o próprio texto em sua ambição de pôr o dedo na ferida e divertir.

Criticar os hábitos e as fraquezas do seu tempo é a vocação da comédia. No caso desta dramaturgia, singular em meio à atual avalanche de humor rasteiro e aos projetos críticos que não se permitem a vera comicidade, é certo que honra a melhor tradição dos comediógrafos brasileiros. Despretensiosa no tema, mas aguda no teor crítico que alcança.

A Cia. dos Gansos, assumindo o projeto da sátira social implacável, tem muito ainda a oferecer, tanto quanto o talento de Cortez como poeta dramático.

 



Escrito por Leonardo Cortez às 01h43
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Sobre Rua do Medo, parte 3

Crítica de Afonso Gentil, escrita para o site Aplauso Brasil.

 

AUTOR DE ‘RUA DO MEDO’ FAZ JUS A ANTECESSORES ILUSTRES DA COMÉDIA

Temos bons dramaturgos habitando regularmente os teatros dos circuitos alternativos ou dos mais compromissados comercialmente.  Um exemplo disso é a presença maciça de 10 autores conhecidos ( e reconhecidos) num espetáculo sugestivo já a partir do título, “Te Amo, São Paulo”, cartaz dos fins de semana no Teatro Folha. Este espaço conta com o apoio publicitário da empresa que lhe dá o nome. Resultado: a sala vive lotada e as temporadas são, com freqüência, prolongadas.  Mas este caso é exceção: a maioria absoluta dos grupos e cias costuma ter dificuldade em divulgar na grande imprensa, falada ou escrita.

Assim, recentemente, bons espetáculos de autores novos (Camila Appel de “A Pantera”) ou um bissexto Hugo Possolo com “A Meia Hora de Abelardo” tiveram temporadas semi-anônimas, muito aquém do resultado artístico, pela mais absoluta impossibilidade de investimento publicitário. Resultado: autores talentosos, que no tempo dos “tijolinhos” dos jornais eram logo consagrados ficam patinando indefinidamente (salvo  raros deles) no limbo dos  “sem sem”(sem anúncio e sem chance).

 Entenda, assim, porque  tal circunstância nos faz  apresentar a vocês, como novíssimo, um talento em plena maturação há mais de 10 anos: LEONARDO CORTEZ,  que tem seus adeptos entre programadores culturais (SESI, SESC, CCSP), na classe teatral e continua injustamente preterido por setores da crítica teatral. Porém, pelo que se depreende do seu currículo, amado por onde passa com seus espetáculos.

             “RUA DO MEDO” CATIVA PELO HUMOR FURIOSO

O que impressiona de pronto nesta farsa irresponsável à maneira do Nelson Rodrigues de “Viúva, porém Honesta”, é o domínio de  Cortez da zombaria que seus descompassados personagens da classe média inspiram. Esse cartaz da pequena e simpática sala Paulo Emilio Sales Gomes, do Centro Cultural São Paulo ( ameaçada de morte iminente pelos descaminhos do poder público),  faz jus aos méritos dos textos anteriores, “O Crápula Redimido”, “Escombros” e “O Rei dos Urubus”, que despertaram nosso respeito à pena de Leonardo Cortez.

Em 2003, com “O Crápula Redimido” (que vimos mais recentemente), o autor focou o mundo empresarial  do ponto (torto) de vista do chefe supremo de todas as safadezas costumeiras em tal universo. Tinha uma vantagem adicional: Leonardo dirigindo e assumindo o protagonismo da peça com sua verve peculiaríssima para despertar o riso e também a repulsa simultânea do espectador.

“Escombros” serviu-nos como introdução ao mundo nada encantado de Cortez. Uma família desmorona literalmente à nossa frente, numa sátira ao mercado de trabalho e às suas regras implacáveis de exclusão.  Um clima saturado pelo  absurdo de Ionesco  disfarçava o riso involuntário.

Já “O Rei dos Urubus” (2008) desvendou os bastidores sórdidos de um programa de televisão, com um furor de indignação bem a propósito. A ética dominava o verbo corteziano.

                           ESSES CONDÔMINOS!...

De uma corriqueira reunião de condôminos de uma rua “fechada” ( o que já começa por ser ilegal) o autor atrita em cena tipos hilários à beira do  ridículo que deixam porejar a cada pensamento, palavra ou ação. Tudo para garantirem a própria sobrevivência no inóspito lugar. Dispensável sobrevivência, aliás, pelos baixos ou nulos valores éticos que carregam.

Os diálogos ágeis e cortantes estão a serviço de uma narrativa sem floreios literários, embora carregados de seiva humana. Característica que une involuntariamente o autor paulista ao universo carioca do pernambucano Nelson Rodrigues.

Mas muito contribui para o êxito da encenação a presença do diretor Marcelo Lazzaratto, formado ator também ao lado de Leonardo, pela ECA-USP. Sem maneirismos estéticos ególatras, Lazzaratto costuma experimentar com o mais absoluto respeito pelo público, o que, sabemos, é pouco praticado por estas sofridas bandas. Sua direção neste “Rua do Medo” prioriza o trabalho dos  atores da Cia. Dos Gansos, todos agindo com deliciosa cumplicidade  do jogo cênico: Glaucia Libertini, Kiko Bertholini, Daniel Dottori, Mariana Loureiro, Djair Guilherme e o próprio Leonardo como o tão sonhador quanto desajustado Capitão Tobias. Todos compõem seus tipos com histrionismo bem controlado, tornando-os verossímeis, humanos, fazendo-nos torcer para que ninguém realmente “saia mal”, salvação que vem – para todos? – na figura  de Danielle De Donato, uma empregada sonsa, mas nem tanto...

Não deixem de conhecer Leonardo Cortez neste seu “ Rua do Medo”, cujos textos fazem-no digno sucessor da extensa linhagem de seculares comediógrafos, desde Martins Penna. E do humor subjacente de nosso autor maior, Nelson Rodrigues, tão cultuado pelo encenador Antunes Filho.

                                  AFONSO GENTIL

Serviço:

 RUA DO MEDO, Centro Cultural São Paulo, Rua Vergueiro, n. 1000 / telefone 3397-4002 / Paraíso / Metrô Vergueiro/5ª, 6ª. e sábado às 21h, domingo as 2Oh/

 Ingressos R$ 20,00 / 70 minutos / 14 anos / até 19 de dezembro/ bilheterias abertas com 2 horas de antecedência/  possui estacionamento conveniado.

 

 



Escrito por Leonardo Cortez às 01h38
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Sobre Rua do Medo, parte 2

análise crítica de Danilo Santorini sobre Rua do Medo. Concordo com tudo.

ASSESSOR- Cabral! A Dona Odila representa a sociedade civil!  A sociedade civil está apavorada. A empresa responsável pela segurança privada dessa rua aparentemente não fez o seu trabalho. Precisamos que você assista esse vídeo, Cabral e nos ajude a tomar uma difícil decisão: continuar ou não utilizando os serviços da Capitão Tobias Segurança LTDA.

Rua do Medo, pg 36.

A fala acima situa-se no centro da ação de Rua do Medo, texto de Leonardo Cortez que, em 2010,  ganhou a encenação da Cia dos Gansos, sob a direção de Marcelo Lazzaratto. Nessa fala, residem os motes fundamentais que tornam Rua do Medo uma peça absolutamente popular e atual.

A sociedade civil está realmente apavorada? Segundo as estatísticas do mercado de segurança privada, sim. O Brasil é líder mundial na produção e vendas de carros blindados. A indústria da segurança privada ganha força na carona do aumento da violência. O medo de muitos é lucro pra poucos. E a mídia muitas vezes se torna parceira no desenvolvimento da indústria colaborando com seus jornalísticos sensacionalistas na propagação de um perpétuo estado de pânico que cai como uma luva aos interesses de um mercado em expansão.

O documentário Violência S.A. de Jorge Saad, Eduardo Benaim e Newton Cannito (2005) ilustra, com um humor cáustico essa triste realidade. Temos no filme o depoimento de representantes da indústria de segurança privada que dizem, de maneira textual e despudorada, o quanto a propagação midiática da violência vem ao encontro dos interesses de seus negócios. A trama ganha novas e funestas dimensões quando especialistas em segurança estabelecem indicativos que determinam quem pode ser o bandido em potencial. O preconceito se escancara quando o elemento é definido invariavelmente como “moreno, jovem, que traja tênis, bonés e roupas folgadas que potencialmente podem esconder armas”. Preconceitos que são destilados em nome da “prevenção” fomentando a criação de uma espécie de apartheid social se revela em paralelo à cruel realidade que o país insiste em escamotear: o fato de que a nossa distribuição de renda é uma das mais injustas do mundo moderno. A cultura da paranóia se fortalece em depoimentos como o do finado Coronel Erasmo Dias, que diz textualmente que todo o cidadão é um bandido em potencial, restando à parcela mínima da população a alternativa de viver em perpétuo estado de alerta.

 

A realidade descrita em Violência S.A. encontra terreno fértil na doentia mente dos personagens de Rua do Medo. A ambição ingênua de um empresário de segurança se confronta com a ignorância, preconceito e paranóia de duas senhoras distintas somente na aparência. Um Assessor de Deputado se auto-promove à custa de mentiras e promessas de benefícios. Uma empregada doméstica sofre maus-tratos calada, como se isso fosse condição inerente ao seu emprego. Um motoqueiro é morto injustamente. Um inocente precisa ser incriminado para que todos se favoreçam diante da absolvição do verdadeiro assassino. Retratos da sociedade brasileira entrelaçados numa trama desenfreada e atualíssima.    

Na fala de Rua do Medo, citada acima, o Assessor pede auxílio ao Delegado Cabral para decidir se os moradores devem continuar ou não contando com os serviços da “Capitão Tobias Segurança LTDA”. O Delegado Cabral surge como uma representação da ineficiência do Estado no cumprimento daquilo que deveria ser o dever do governo: promover a segurança pública de maneira satisfatória, geral e irrestrita. Diante da sua ineficiência, o que lhe resta é a fiscalização de um trabalho que na realidade ele mesmo deveria cumprir. Algo similar ao que acontece na relação do Estado com a Saúde e à Educação. Planos de Saúde e Escolas Particulares surgem como a tábua de salvação de quem pode pagar mais. O governo fiscaliza, já que promover um serviço público de qualidade não parece ser uma alternativa viável.

Mas a coisa não se restringe apenas à isso. Cabral e o Assessor estão à serviço de interesses espúrios encarnados na figura de um certo Deputado Fonseca, que nunca aparece, mas que notoriamente usa seu poder de autoridade pública para a obtenção de benefícios através do tradicionalíssimo esquema brasileiro da troca de favores.“Uma mão lava a outra!” grita o Assessor quando  Cabral se mostra reticente em acobertar um crime no segundo ato de Rua do Medo. O caráter do brasileiro é colocado em xeque. Os valores morais e éticos são resgatados  por  Adonis, o filho problemático da anfitriã da reunião, num discurso que aos ouvidos dos presentes soa patético. O bem estar comum significa para os moradores da Rua do Medo o bem estar de uma classe social absolutamente restrita. A união se constrói diante da perspectiva de uma vida segregada e isolada dos elementos “nocivos“ da sociedade.

Rua do Medo é a mais contemporânea das peças de Leonardo Cortez.

 

 

 



Escrito por Leonardo Cortez às 01h36
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Sobre Rua do Medo, parte 1

 Esse é o texto que escrevi pro programa da peça. Sem firula, com sempre. Porque a peça já diz tudo o que eu quero dizer.

 

Não me parece simples a idéia de definir meu próprio trabalho. Me bate o receio de ser redundante frente ao fato de que a obra já diz tudo o que eu quero dizer e portanto, não é necessário explicá-la. Então, prefiro falar das motivações. Que são as mesmas de sempre: realizar o teatro no qual eu acredito, de temática contemporânea, que se comunica diretamente com a platéia e que é pretexto para que a comunhão se estabeleça entre quem faz e quem assiste. E penso muito nos atores da Cia dos Gansos.  Quero dar a cada um deles um bom personagem.  Quero que os atores se desafiem e se divirtam na execução desse trabalho.  Pertencemos à mesma escola, temos a mesma idade,  filhos pequenos e vivemos as mesmas questões. Essa afinidade na vida se transfere para o palco e o prazer que existe na nossa convivência se estende ao prazer que temos em atuar em conjunto.  E se a minha dramaturgia é pretexto para que isso esteja acontecendo há quase dez anos,  isso é motivo de imensa alegria, gratidão e orgulho pra mim.

 Sou um leitor voraz de peças. Adoro o gênero como literatura e me parece fascinante dissecar  e entender o caminho percorrido por um autor  para que o texto  transmita seu recado.  Então, Rua do Medo foi um exercício de carpintaria teatral ao qual me dediquei sem pressa, trabalhando como um artesão ao longo de meses em diversas versões, discutidas   com o grupo e com meu  querido  diretor Marcelo. Fiz uma leitura aberta no Letras em Cena logo no começo do processo.  A peça era somente um esboço do que é hoje, mas a reação positiva da platéia  embasou a minha crença de que o esforço no aperfeiçoamento do texto valeria à pena.  Depois disso inseri personagens, criei o segundo ato, reescrevi  diálogos, eliminei cenas inteiras, incluí outras tantas. E o trabalho não se encerrou durante os ensaios, quando pude constatar as redundâncias que deveriam ser eliminadas. Enfim, labutei à beça até conseguir conquistar, no meu entender, o equilíbrio para que essa história sobre gente desequilibrada chegasse à cena.

Aliás, se estamos em cena é porque  esse trabalho se concretizou graças ao apoio material e amoroso de Rafael Cortez.  Esse texto é dedicado ao meu irmão e melhor amigo.

 Escrever para teatro é um prazer imenso pra mim, redimensionado diante da constatação de que é preciso muita calma, paciência e bom senso pra alcançar o resultado que me satisfaça plenamente.  Agora, esse caminho foi percorrido e tenho orgulho de mostrá-lo à vocês.

Finalmente, quero dizer que escrevi Rua do Medo para a Glaucia Libertini. Sim, sou um dramaturgo que possui uma musa.

 

Leonardo Cortez, São Paulo, 2010

   

 



Escrito por Leonardo Cortez às 01h32
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Eu volto. Muito embora não tenha partido.



Escrito por Leonardo Cortez às 09h56
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VIAGEM TEATRAL 2010

Saiu a agenda de apresentações de O Crápula Redimido que vai excurcionar pelo SESI de março a maio. Então ficou assim:

O CRÁPULA REDIMIDO- VIAGEM TEATRAL SESI 2010

MARÇO:

06 e 07- FRANCA

13 e 14- ARARAQUARA

20 e 21- RIO CLARO

27 e 28- PIRACICABA

ABRIL

03 e 04- ITAPETININGA

10 e 11- SOROCABA

17 e 18- OSASCO

22, 23, 24 e 25- SÃO BERNARDO E STO ANDRÉ

MAIO

01 e 02- MAUÁ

08 e 09- SANTOS

15 e 16- BIRIGUI

22 e 23- MARÍLIA

29 e 30- S J RIO PRETO

As apresentações serão sempre nos Teatros do SESI e no elenco estou muito bem acompanhado: Glaucia Libertini, Kiko Bertholini (ex-Julio Fashion), Daniele di Donato (ex-Celeste), Ricardo Corte Real (ex-Nepotônio Sobrinho), Claudia Tordatto, Daniel Canalha e Rinaldo Aranha.

O Crápula Redimido também fará uma temporada no Rio de Janeiro, numa nova montagem com elenco carioca, dirigida por mim e protagonizada e  produzida pelo Gil Hernandes. A estréia está marcada pro dia 17 de março no Espaço Galeria. E o ano tá só no começo.

Abração

 

    



Escrito por Leonardo Cortez às 14h42
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Enquanto ela não chega

 

André abre a porta de banho tomado e enrolado num roupão. Quem está tocando é o seu amigo de longa data, Roberto. Ele tem dez anos a mais que André e naquele momento parece ter muito mais. André estranha aquela visita fora de hora. São nove da manhã e Roberto está péssimo.

-Desculpe vir assim sem avisar. Eu tava indo pro escritório, comecei a passar mal e quando vi, tava na frente do seu prédio. Posso tomar uma água?

André corre pra cozinha pra providenciar a água e nitidamente a  justificativa para a visita inesperada não o deixou à vontade.

-Isso tem acontecido com frequencia. Os médicos dizem que é psicossomático. Semana passada foi a mesma coisa. Eu estava no transito, minha boca secou, a taquicardia. Quando eu dou por mim, estou prestes a ter um desmaio. É tudo emocional, André! Tudo emocional!

André diz que quer escutar tudo o que o amigo tem pra dizer, mas que antes disso precisa dar um telefonema pra desmarcar seu compromisso daquela manhã. Pede licença e se retira para o quarto pra poder falar com privacidade. Roberto desembesta num desabafo. É um homem em crise, no limite das suas forças.

-Eu achei que seria possível dar meia volta pra chegar em casa. Quando eu vi, estava na frente do seu prédio. Me desculpe. Quando isso acontece, eu preciso de um lugar fresco, entende? Cinco minutos e uma água são mais do que suficientes. Eu poderia ter pedido socorro na farmácia aí da frente, mas eu me sinto melhor na companhia dos amigos. Acho que eu posso te chamar de amigo, não é, André?

Mas André não escutou a última frase. Ele volta, precupadíssimo. O celular pra onde ligou caiu na caixa-postal.

-Eu disse pro porteiro que era seu amigo. Ele nem interfonou. Quer dizer, eu poderia ser um assaltante, um maníaco. Esses porteiros são uns bostas. Pra que que a gente paga condomínio, se porteiro não serve pra porra nenhuma?

-Eu vou tentar ligar de novo, com licença.

André sai novamente em direção ao quarto. Roberto precisa erguer a voz pra que seu desabafo seja ouvido.

-Odeio me sentir desse jeito, você entende? Minha saúde sempre foi ótima. Eu,  na sua idade não tinha nada de barriga. Os meus amigos de faculdade, todos, obesos. E eu na linha. Comecei a fumar agora. Depois  dos quarenta. A idade em que todo mundo pára. Eu sou uma mula.

André volta do quarto, coçando a cabeça. O celular não atendeu de novo e ele precisa se livrar daquela visita, mas Roberto aparentemente não faz a menor menção de ir embora. E olhando com mais atenção é possível perceber que Roberto está discretamente alcoolizado.

-Quebrei o pau com a Luciana, merda, ele diz,  naquela emotividade ébria.

-Todo casal passa por suas crises...

-Como é que você consegue, André? Essa independência emocional. Você é um solteirão convicto, tá sempre com uma menina diferente. Dali dois meses, troca de mulher como quem corta o cabelo. Como é que você consegue?

-Um minuto, que eu vou tentar telefonar de novo.

André sai e seguindo o  mesmo roteiro, Roberto desembesta a falar sozinho.

-Eu sou um adolescente com essa mulher. Sempre fui. A Luciana me pegou na vida e me jogou de quatro no chão. Dizem que a gente perde a incência com a idade, mas eu sou um cretino. Parece ridículo um homem como eu bater no peito e dizer que o amor é possível. Olha só o meu papelão, André. André? André?

André volta depois de mais um telefonema frustrado e o seu desconforto já se materializa nas mãos suadas e no andar frenético pelo apartamento. Ele precisa tomar uma atitude, por isso faz uma proposta que sai da sua boca quase como uma salvação.

-Eu posso telefonar pra Luciana. Dizer que você está aqui.

-Não adianta. O celular da Luciana tá comigo.

-Como?

-A gente discutiu e antes dela ir pra casa da mãe, eu roubei o celular e coloquei na minha pasta.

-Por que você fez isso, Roberto?

-Porque ela usa o celular pra se encontrar com o amante! Tecnologia é uma merda. A mulher se tranca no banheiro e combina a traição. No meu tempo era mais difícil. A gente tinha que andar até um orelhão, fazer os telefonemas do escritório, comer a secretária na hora do almoço...  Você tá nervoso, André?

-Só estou preocupado com você.

-Isso acontece nas melhores famílias. Não é a primeira vez que uma mulher sacaneia um homem. Tô provando do meu próprio veneno. Quando eu conheci a Luciana, eu era casado. Passei dois anos enganando a minha ex-mulher. Eu te contei.

-Você conta tudo pra todo mundo.

-Eu conheço o poder do celular, meu amigo. Por isso eu confisquei! Tá aqui. Na minha pasta! A vaca deixa no modo silencioso. Como toda adúltera. É bom que o celular seja discreto, entende? Toca na surdina , você atende na surdina. Eu conheço todos os truques porque eu fiz a mesma coisa com a minha ex-mulher. Menti como um filha da puta e agora a Luciana tá fazendo a mesma coisa comigo. Eu nem preciso pegar o celular da Luciana pra saber que nesse momento tem um monte de ligação não atendida de algum número misterioso. Aposto com você! Aposto com você, André! Nesse momento, devem ter umas cinco ligações não atendidas registradas nesse aparelho do filha da puta que anda comendo a Luciana. Aposto o meu décimo terceiro com você, André.

Roberto começa a chorar. André oferece outra água, mas no fundo tudo o que ele quer é que o amigo vá embora.

-Tem um lado meu que não quer saber de nada.  É o lado que se envergonha da minha possessividade , que reconhece a bosta de marido que eu fui nesses ultimos anos. É esse lado me diz pra não pegar esse celular da minha pasta e conferir as chamadas.

-O melhor é você esfriar a cabeça e tentar conversar com ela com mais calma.

-Mas tem um outro lado que precisa telefonar pra esse número e simplesmente perguntar quem está falando do outro lado da linha. Se exite o demônio é melhor que ele tenha nome.

Roberto tira o celular de sua pasta e sem olhar pro visor, mostra o aparelho para André. Um silêncio insuportável se instala enquanto Roberto olha fixamente pro amigo.

-Um bolão com você, André. Quantas ligações não atendidas. Eu voto em cinco e você?

-Não dá pra conversar com você nesse estado, Roberto!

-Cinco, dez, doze? Eu não tenho coragem de ver! Minha mulher é uma piranha!

-Me dá esse celular.

-Por que?

-Eu vejo pra você!

-Não.

-Por que não?

-Porque só é possível sair do inferno pela porta dos fundos.

Roberto confere o aparelho. São três chamadas não atendidas. Roberto sabe de quem é o número do telefone.

-A última ligação foi agora há pouco.

André não diz uma palavra. Seu coração está aos piparotes. Roberto continua, aparentemente recuperado do mal estar que justificou aquela visita.

-É preciso telefonar de volta...

-Não faça isso, Roberto...

-É preciso, André. É preciso... que isso... se esclareça.

André continua em silêncio e abaixa a cabeça. Roberto aperta o send e o telefone do apartamento começa a tocar. Roberto tira da pasta o revolver. André tenta pateticamente se proteger atrás de uma cadeira. 

-Que que é isso, Roberto. Enlouqueceu? Não vai fazer uma besteira, porra!

-Besteira nenhuma. É só uma conversa... de homem pra homem.

E apontando a arma para André, ele concluí.

-Enquanto ela não chega.

O telefone de André toca de novo. Dessa vez é Luciana, telefonando do orelhão pra dizer que perdeu o celular em algum lugar, mas que já está a caminho.

 



Escrito por Leonardo Cortez às 03h18
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Entrevista mortal

 

O grande comediante recebe a repórter no seu camarim, logo após mais uma estupenda performance do seu show solo intitulado “Eu Pago Mico, Mas Você Paga o Ingresso”. São noventa minutos onde nada escapa de sua lingua ferina. O grande comediante sabe que acabou com a plateia naquela noite, que todas as piadas funcionaram de maneira irrepreensível e que a conseqüência disso foram gargalhadas e mais gargalhadas de uma audiência que agora volta pra casa agradecida e desopilada. O dever está cumprido e seu último compromisso profissional da noite é a entrevista onde ele irá  coroar seu momento de glória com declarações inteligentes à imprensa.

 

 -Senta, minha querida. Puxa uma cadeira, muito embora eu te garanta que o meu colo é mais confortável.

 

 A repórter sorri, mais por educação do que por achar a piadinha engraçada. Ela se apresenta. Vanessa. O comediante vasculha no seu arquivo cerebral a cata de alguma comicidade que seja decorrente do nome Vanessa. E rápido como sempre, ele dispara:

 

 -Vanessa, vou nessa...

 

 O comediante dá uma gargalhada, como se a ausência da platéia o obrigasse a ser a sua própria claque. Vanessa não ri. De fato, ele acha o comediante um idiota. Mas está ali por uma obrigação profissional, aparentemente. Aparentemente, porque Vanessa tem um segredo que ela revelará somente ao fim da entrevista.


 -O humor é uma ciência matemática, ele diz, antes mesmo que seja feita a primeira pergunta. O segredo é criar a expectativa e depois surpreender a platéia. Por exemplo, se eu te digo: “prove esse croquete! Meu cachorro recusou, mas eu acho que é porque ele é vegetariano.”, essa piada reflete a essência do meu humor. Porque,  ao te oferecer um croquete,  eu crio a expectativa de que esse é um bom croquete, quando na realidade, nem meu cachorro consegue encarar essa porcaria, entende?

 

Vanessa entende, mas aparentemente não está interessada. O comediante percebe que tem diante de si uma minúscula e difícil plateia e secretamente começa a odiá-la, lamentando que a noite perfeita ofereça um anticlímax na forma de uma repórter mal humorada.

 

 -Pergunta, minha filha. Vai nessa, Vanessa.

 -Essa sua obsessão com os gordos...

 -Isso não é obsessão. É um gancho pra comédia. Você assistiu ao meu show. Quando eu disse pra aquele gordo da primeira fileira que ele devia ter mais dobras do que um origami a platéia rolou de rir. Por que? Porque eu crio a expectativa e depois surpreendo. Ninguém pensa num gordo quando vê um origami, mas o gordo tem dobras e o origami também. É tudo matemático. Tem certeza de que não quer sentar no meu colo?

 -Tô bem nessa cadeira.

 -Se você fosse gorda, eu diria que a cadeira é que não está bem com você. Mas essa é uma piada que não se encaixa nesse tipo de situação, justamente porque você é magra. É preciso estar atento ao seu público pra que o humor funcione. O humor inteligente, eu digo.

 -No seu show, você faz muitas piadas exaltando a burrice das loiras...

 -A burrice é exaltada de forma inteligente e isso é um paradoxo que gera comicidade.

 -A piada da loira fazendo compras...

 -A caixa diz: “vai passar o cartão?” e a loira responde: “pra que se ele já é lisinho?”

 -Isso é inteligente?

 -Eu acho. O público acha. Essa piada sempre funciona. Porra, o que você tá querendo insinuar, Vanessa?

-O jornal me pediu pra fazer uma matéria sobre a crise no humor...

-Que crise de humor? Crise de humor tem o sujeito com hemorróida em banco de igreja, minha filha! O humor está em alta, porra. Eu sou a prova!  E agora me dá licença que a entrevista acabou!

-A piada da Rapunzel...

-Que piada da Rapunzel?

-No show de hoje, você apontou para uma senhora no balcão e disse: “Rapunzel, joga-me tuas tetas...”

-Ah, isso foi improviso. Improviso puro! Aquela senhora ali no alto. Foi irresistível. Ela poderia jogar suas tranças, mas era uma velha! "Joga-me suas tetas!" O público adorou! Essa é a essência da comédia!

-A senhora era a minha mãe...

-Como?

-A Rapunzel era a minha mãe. Dona Eulália...

-Bom, eu espero que ela tenha entendido que foi uma brincadeira.

-Ela ficou um pouco puta...

-Chama sua mãe, que eu quero pedir desculpas...

-Agora é tarde...

-Tarde por que?

-Ela saiu chorando do teatro.

-Bom, isso acontece. Agora se me dá licença...

-O problema é que meu irmão que faz jiu-jitsu está lá fora querendo te dar um pau.

-Como é que é?

-E quando meu irmão encasqueta com alguma coisa, fica difícil fazer ele mudar de idéia. Enfim, obrigada pela entrevista.

 

Vanessa desliga o gravador, se levanta e chama o Janjão. Pela porta do camarim entra o irmão de Vanessa com dois metros de puro desejo de vingança. E de nada adiantarão os apelos do comediante. O irmão de Vanessa é um desses caras que não tem nenhum senso de humor.  

 

 


 



Escrito por Leonardo Cortez às 01h47
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Revelações sexuais- Republicação do conto

 

Descobri, estarrecido, que a minha ex-mulher resolveu escrever um livro com revelações sobre a minha vida sexual aproveitando-se do fato de que agora eu sou uma celebridade. Trata-se, obviamente, de uma estratégia sórdida e oportunista pra ganhar dinheiro às custas da minha reputação,  que os meus advogados prontamente irão coibir assim que o livro sair da gráfica. E se os meios jurídicos não forem suficientes para impedir o lançamento, estou pronto para apelar a outros artifícios, como o recrutamento de um esquadrão de piromaníacos que já se prontificou a incendiar algumas livrarias, desde que eu pague um por fora pra cerveja.

Infelizmente com o advento da internet, já está no ar um blog que antecipa os primeiros capítulos do livro nefasto, que nada mais é do que um pouporri de baixezas à meu respeito que ruborizariam até a Leila Lopes. Portanto, aproveito esse espaço e o fato de que esse site é lido pela minha mãe, para desmentir inverdades que dentro de pouco tempo estarão na boca do povo, o que certamente vai fazer da minha vida social algo tão insuportável quanto um final de semana trancado num quarto escuro tendo como única companhia um bode no cio.

É preciso de cara, esclarecer que não fui iniciado sexualmente pela minha vizinha de setenta anos de idade, a dona Loreta, muito embora ela tenha me recebido nua da cintura pra cima quando fui ao seu apartamento atrás das jujubas que ela havia prometido me dar no Dia das Bruxas. Dona Loreta era, de fato, uma senhora imprevisível, que após me assediar nesse episódio, foi internada numa casa de repouso de onde ela saiu completamente curada, até o dia que recomeçou a distribuição de jujubas no playground, dessa vez, nua da cintura pra baixo. Também é preciso deixar claro que a minha paixão por Dona Loreta foi absolutamente platônica, muito embora tenha sido difícil explicar o significado da  palavra "platônica" pro meu pai, já que ele não conseguiu parar de gritar durante dois dias, depois que flagrou eu e a minha idosa vizinha tomando banho juntos na minha banheira de plástico.

Ao contrário do que disse a minha ex-mulher no capítulo dois, minha primeira namorada não foi a minha cadela Abigail, muito embora eu sentisse algo muito belo e também platônico por aquele animal, pelo menos até o dia em que levei uma mordida na nuca durante uma brincadeira infantil chamada "gato mia". Na realidade, eu aprendi o que era o amor com uma modelo húngara de um metro e setenta e dois, seios volumosos e boca carnuda que conheci em março de 85. Durante longos meses, vivi momentos de extâse com essa mulher até que a minha mãe arrombou a porta do banheiro ao suspeitar que os gemidos que vinham de lá de dentro pudessem ser resultado de um escorregão no azulejo. Depois disso, a  minha revista Playboy foi jogada numa fogueira  e foi por causa desse episódio que mamãe resolveu me internar num colégio de freiras, de onde fui expulso quando descobriram que a idéia de vestir uma boneca inflável com um hábito bizantino tinha sido minha.

A crise de choro que eu tive num prostíbulo,  mencionada pela minha ex-mulher no capítulo três,  de fato aconteceu, mas é bom que se diga que eu só fiquei nervoso daquele jeito porque sou alérgico a determinadas pomadas. E se o meu relacionamento com a Veruska, que era garota de programa, acabou de maneira precoce, isso só aconteceu porque ela resolveu não aceitar mais meus cheques pré-datados depois de descobrir que o meu nome estava no Serviço de Proteção ao Crédito. Foi um momento muito duro na minha vida, onde durante muito tempo, a solidão foi a única presença constante na minha cama, o que era bem desagradável, principalmente quando ela puxava o meu edredon no meio da madrugada, me fazendo acordar de frio.

Foi quando eu conheci a Camilinha, que ao contrário do que diz a jararaca da minha ex-mulher, sempre depilou as axilas, muito embora não tivesse o mesmo cuidado com o buço, o que lhe garantia uma leve semelhança física com o Charles Bronson. Lembro, como se fosse hoje, de uma das nossas mais selvagens noites de amor. Estávamos juntos numa barraca, acampados no meio de um mangue, cercados de moscas, aranhas e caranguejos, e enquanto a Camilinha me perguntava em meio à tapas na cara, por que que eu havia comprado o pacote econômico pra aquela viagem ao nordeste, eu saquei um par de algemas. Subitamente louca de desejo, ela uniu o meu pulso direito ao seu tornozelo esquerdo e durante horas nos entregamos à aquela aventura sadomasoquista que poderia ter rendido lembranças mais agradáveis se não tivéssemos perdido a chavinha do apetrecho no meio do lodaçal. Fomos encontrados, ainda nus, por uma equipe de resgate umas doze horas mais tarde e depois disso, inexplicavelmente, a Camilinha me deu um pé na bunda.

Foi somente por causa da fossa causada por aquela separação que fiz determinadas bobagens das quais me arrependo como, por exemplo, ter me apaixonado por um peixe. Então, durante uma inocente sessão dos Alcoólatras Anônimos, conheci minha mulher. Foi uma atração irresistível, consumada ali mesmo, na ante-sala da reunião, muito embora minha mulher declare não se lembrar do episódio, talvez porque estivesse completamente bêbada. Nos primeiros anos de relacionamento, tudo transcorreu em grande harmonia e ainda que ela diga no livro que ficou ofendida, a idéia de convidar a nossa empregada pra um menage à trois foi dela. Meses depois, ela disse que eu poderia procurar outra mulher, porque se sentia tão atraída por mim quanto por uma enceradeira. De fato, eu procurei, e naquela mesma noite, minha mãe me recebia de braços abertos em sua casa, dizendo que eu poderia ficar por lá quanto tempo eu quisesse, com a única condição de nunca mais trancar a porta do banheiro.

 



Escrito por Leonardo Cortez às 21h06
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Carlo Zacaria, ou mais um desgraçado pra coleção

 

Semana que vem chega ao leitor a biografia não autorizada do escritor Carlo Zacaria, escrita pelo seu irmão, Tulio Zacaria. Com o sugestivo título de “Ele fez Tudo Errado”, o livro faz uma radiografia preciosa daquele que foi o mais maldito dos escritores brasileiros e que por isso mesmo, permaneceu censurado até mesmo depois do fim da censura, mesmo porque, segundo a versão de Túlio, o próprio Carlo proibiu a publicação de boa parte da sua obra por ter de vergonha daquilo que tinha escrito. A seguir, seguem trechos em primeira mão de um livro que ainda corre o risco de não chegar às livrarias porque a ex-mulher de Carlo ainda tenta embargar a publicação por ter se irritado com o fato de ser mencionada no capítulo 16 como “a megera rabugenta”.

 

Meu irmão Carlo era dois anos mais velho do que eu e sempre me cobria de porrada, na maior parte das vezes sem motivo. Boa parte do nosso dia era consumido por xingamentos e agressões e numa noite de natal, Carlo arremessou a vaca do presépio na minha cabeça pra depois dizer pra mamãe que foi sem querer, o que me deixou puto principalmente porque ela acreditou. Como éramos muito pobres, normalmente a gente dividia o mesmo par de sapatos. Por sugestão de Carlo, ele usava os sapatos durante o dia e eu durante a noite, enquanto dormia. Quando fiquei mais velho, consegui,  a custa de muita porrada, rever aquele acordo e comecei a usar o pé esquerdo do sapato enquanto Carlo usava o pé direito. Durante semanas eu procurei me deslocar pulando num pé só como um saci, mas num dia onde estava especialmente de saco cheio dessa história, empurrei acidentalmente Carlo durante uma brincadeira de amarelinha no exato instante em que ele ia pegar a casca de banana na casa sete e o resultado é que Carlo teve uma fratura exposta na tíbia,  que o deixou de cama durante um mês, ocasião onde pude andar com os dois pés calçados pela primeira vez na vida. O problema é que Carlo tinha frieira e dali a pouco eu também estava com os meus pés descascando, o que foi o suficiente pra que nós dois fossemos  barrados no exame médico da piscina da prefeitura. Nunca perdoei Carlo por ter pego aquela frieira e no natal daquele ano quem levou a vaca de presépio na cabeça foi ele. Carlo se apropriou dessas lembranças quando escreveu um dos seus primeiros contos, “Num Pé Essa Merda, No Outro, Frieira”, que infelizmente se perdeu depois que mamãe usou os originais pra forrar a gaiola do passarinho.”

 

“Papai era um estivador alcoólatra cujo principal passatempo era praticar pugilismo usando mamãe de sparring. Por sorte, papai era péssimo pugilista e mamãe sempre acabava botando ele à nocaute. Nós morávamos numa casa de quatro cômodos que seria confortável se fôssemos em quatro ou cinco na família. Infelizmente, mamãe foi obrigada a abrigar alguns parentes depois de uma enchente e a vinda de cinco tios e quatorze primos deixou as coisas um pouco mais difíceis pra todos nós. Eu, meu irmão e meus primos dormíamos em prateleiras na cozinha, o que não seria tão desagradável se não tivéssemos que dividir o pouco espaço disponível com as panelas e com o veneno de rato que mamãe escondia nos cantos. Pra piorar as coisas, nosso tio Zé Claudio instalou uma cama no banheiro e se recusava a sair de lá quando alguém entrava pra fazer suas necessidades, dizendo sempre que não estava olhando e que a gente poderia ficar à vontade. Usando meu tio Zé Claudio como desculpa, papai decidiu que não tomaria mais banho e num dia especialmente quente de verão e desesperados com o mal cheiro, Carlo e os meus tios jogaram papai no rio, se esquecendo que ele não sabia nadar. Papai sobreviveu por milagre e depois disso, mamãe achou que seria conveniente que toda aquela parentada fosse embora de casa, o que eles fizeram depois de um sem número de ameaças de morte e alguns atentados promovidos por mim e pelo Carlo, como, por exemplo, substituir o recheio dos travesseiros por carrapatos. Aquele amontoado humano produziu profundas impressões no meu irmão, o que certamente contribuiu para a sua visão pessimista do ser humano retratada na maior parte de suas obras, em especial no romance auto-biográfico “Gente Fede, Porra!”, censurado na época da ditadura.”

 

“A relação de Carlo com as mulheres sempre foi péssima e se durante toda a sua vida ele se envolveu com mulheres horríveis e problemáticas, isso certamente teve origem na nossa adolescência, quando freqüentávamos os bordeis mais decadentes da zona meretrícia de Santos. Havia um da nossa predileção, chamado A Casa da Cabra, e que era administrado por uma senhora dos seus sessenta anos, que atendia pelo nome de Mamãe Nonô. Como a casa de tolerância funcionava na clandestinidade, Mamãe Nonô nunca mostrava o rosto, apesar de andar sempre pelada. Pra manter o rosto escondido, ela colocava as duas mãos na cara e justamente por isso vivia dando topadas nos móveis . Existiam umas dez ou doze prostitutas trabalhando pra Mamãe Nonô, além da famosa cabra que ela encaminhava pros clientes mais bêbados. A prostituta preferida de Carlo era a Eteuvina, que justamente por ter a bunda mais bonita da zona , só andava de costas. As outras prostitutas, invejosas da beleza daquela bunda, volta e meia ficavam de quatro no caminho de Eteuvina, que não via o obstáculo e se estatelava no chão. Ela era a única prostituta que dava desconto se o serviço acabasse em menos de trinta segundos, no que Carlo era especialista e não demorou muito para que meu irmão se tornasse o seu cliente preferencial. Infelizmente, Eteuvina fugiu com um anão manco que trabalhava num circo e consumido pelo desespero, Carlo pediu a cabra em casamento. Um padre chegou a ser chamado pra oficializar a cerimônia, mas minha mãe impediu tudo a tempo usando o carinhoso argumento de que se Carlo quisesse se casar com uma cabra, seria espancado até a morte. Deprimido, meu irmão tentou cometer suicídio e se atirou da janela do prostíbulo mas, por sorte, a casa era térrea e as conseqüências físicas foram apenas um joelho ralado e um corte na testa. Fiquei puto com aquela história de Carlo tentar se matar e aproveitei que ele estava um pouco zonzo por causa da queda pra lhe desferir um tapa na orelha, que ele revidou doze anos depois, durante a cerimônia do batizado do meu filho primogênito. Parte das lembranças desse período cheio de descobertas, Carlo descreveu no romance infanto-juvenil “A Casa Das Bundas”, cujos originais ele queimou numa crise de fúria quando morávamos juntos em São Paulo. O problema é que o livro tinha setecentas páginas e o que era pra ser uma inocente queima dos originais se transformou num incêndio que acabou com a nossa quitinete.”

 

“Quando eu e Carlo decidimos morar em São Paulo, éramos tão pobres que o dinheiro só dava pra chegar em Cubatão. Carlo achou que seria fácil ganhar carona de Cubatão pra São Paulo, mas o fato é que ninguém parou pra gente na estrada e tivemos que percorrer o resto do caminho a pé e isso não teria sido tão ruim se durante todo o trajeto Carlo não tivesse cantado “A Arvore da Montanha” ininterruptamente. Uma das minhas primeiras lembranças com Carlo na cidade grande é ele me empurrando de brincadeira nas escadarias do Teatro Municipal, o que me rendeu a cicatriz que serviu de mote para que na faculdade eu ganhasse o apelido de “Queixo Ginecológico” . Anos depois, e sempre fiel ao espírito das nossas fraternas brincadeiras, eu revidei o empurrão quando ele descia as escadas da igreja depois do seu primeiro casamento, num episódio que custou o cancelamento da sua lua de mel no Guarujá.”

 

“Nosso primeiro endereço foi a Pensão da Dona Esmeralda, cuja única preciosidade estava no nome da dona, já que obviamente, a pensão era um pardieiro freqüentado pelos tipos mais abjetos e nefastos da sociedade, além de duas freiras que dividiam um quartinho nos fundos. Carlo alimentou devaneios sexuais com as duas religiosas, mas depois de uma cantada mais ousada acabou sendo enquadrado por um grupo de franciscanos extremistas e levou um pau num beco escuro. Vem daí a sua repulsa pela Igreja Católica retratada na novela erótica “ Irmãzinha, Eu Sei Que Você Não É Pinguim”, que ele começou a escrever na época, mas desistiu porque a tinta da esferográfica acabou num dia de chuva e ele ficou com preguiça de ir ao armazém comprar uma nova.”

 


 



Escrito por Leonardo Cortez às 16h45
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Carlo Zacaria- continuação...

 

“Durante os primeiros anos em São Paulo, eu e Carlo nos viramos fazendo bicos, normalmente como seguranças de algum estabelecimento de quinta categoria. Quando trabalhávamos num boteco na Av. Ipiranga, fomos surpreendidos com a notícia de que Vinícius de Morais estava tomando um porre numa das mesas. Carlo acreditou que aquela seria uma ótima oportunidade de mostrar suas poesias para um escritor profissional e enchendo-se de pinga e coragem, declamou em voz alta alguns dos seus versos pra Vinícius que de imediato o chamou de gênio e pediu para que Carlo o procurasse em seu apartamento, escrevendo o endereço num guardanapo. No dia seguinte, Carlo descobriu que aquele era o endereço de uma estação de tratamento de esgoto  e revoltado com o que ele considerou uma brincadeira de mal gosto, escreveu o poema “Ode ao Puto do Poeta”, onde todo seu ressentimento se revela com rara beleza estética e formal em versos como : “Ó Poeta, abaixa sua pena e me escuta: tú és um belo filha da puta”, ou “Ah, declamei em vão pro poeta bundão.””

 

“Durante a ditadura militar, Carlo foi membro ativo de grupos guerrilheiros e escreveu manifestos anônimos pela liberdade de expressão. Seus problemas começaram quando num dos manifestos ele usou a palavra “houveram” o que horrorizou a esquerda intelectualizada, que de pronto se colocou contra Carlo dizendo que aquele atentado à língua portuguesa prejudicava a credibilidade da luta armada. Lembro de ter alertado Carlo do erro gramatical quando ele me mostrou o texto na nossa quitinete, mas tudo o que ele fez foi dar gargalhadas na minha cara, até o momento em que eu lhe desferi um soco que ele acabou por revidar no dia do velório de mamãe. As gargalhadas de Carlo eram os primeiros indícios da insanidade mental que o levou, anos depois, a desfilar travestido de  chacrete no meio da torcida do Corinthians durante um jogo no Pacaembu.  Os erros de Carlo sempre tiveram conseqüências e quando meu irmão tentava consertar as coisas, tudo piorava. No caso do texto e envergonhado por ter cometido um deslize tão crasso de português, Carlo resolveu não assumir o erro, dizendo que tinha escrito “houveram” de propósito e que a correção gramatical nada mais era do que uma imposição cultural da elite dominante. Pouca gente levou meu irmão à sério e, num congresso clandestino da UNE ele foi chamado de analfabeto, o que motivou Carlo a escrever um artigo publicado no jornal “A Revolta Socialista” de tiragem aproximada de sete exemplares, onde ele fundamentava sua teoria num texto lotado de propositais erros de concordância e que era finalizado com uma das suas frases mais famosas: “Se nós queressemos, nós poderíamos!” . 

 

"Foi durante esse duro período que Carlo conheceu sua primeira esposa, Ianova Kruska, uma jovem estudante russa que estava no Brasil fazendo intercâmbio num curso de línguas. Para conquistar a moça, Carlo escreveu longas cartas de amor, até que desistiu da estratégia ao descobrir que Ianova não entendia patavina de português, passando a presenteá-la com chocolates, o que deu mais resultado. O casamento se realizou numa cerimônia clandestina, porque era mais barato se casar na clandestinidade do que mandar fazer os convites e contratar um bufê para festa e  terminou dois anos depois, quando Ianova aprendeu o português e finalmente conseguiu entender as cartas que meu irmão tinha escrito.  Deprimido, Carlo escreveu seu primeiro  livro infantil, “A Sacana  da Russa Me Fudeu a Vida”, mas os editores se recusaram a publicá-lo por considerar o texto inapropriado pra menores.”

 

“Carlo casou-se oito vezes, sendo que as duas últimas com a mesma mulher, por engano. Seu grande amor foi Adnólia Crespo, com quem teve três filhos:  Mauro, Joca e Joaquim, sendo que este último era uma menina.  Segundo relatos da época, Carlo registrou o nome da filha de Joaquim somente pra se vingar da esposa por ela ter comido todas as panquecas num jantar não deixando nenhuma pra ele, que sempre foi louco por panquecas. Nessa época, Carlo teve uma amante chamada Julieta, enquanto Adnólia tinha um amante chamado Everaldo. Julieta, por sua vez era casada com um comerciante chamado Otaviano e Everaldo, supostamente homossexual, namorava um pedreiro chamado Silva. Quando Silva foi, por coincidência,  contratado pra fazer a reforma do banheirinho de Carlo, acabou flagrando Adnólia e Everaldo na cama e quis participar da festinha. Naquele mesmo dia, Carlo chegou com Julieta no apartamento e quando o casal de amantes  viu Adnólia com Silva e Everaldo, todos aderiram à orgia.   A farra só terminou quando Otaviano invadiu o apartamento e, consumido pelo ciúme, desferiu cinco tiros naquele amontoado de gente, errando quatro e acertando o quinto por engano no próprio pé. O episódio rendeu uma ordem de despejo do apartamento e o amargurado romance “A Suruba da Morte”, que foi publicado somente em húngaro por motivos que Carlo nunca soube explicar.”

 

"O auge da carreira de Carlo se deu nos anos 90, quando ele se casou com Henriqueta Gabris, uma senhora de noventa e cinco anos que ele jurava ser o amor da sua vida, muito embora Carlo não tenha comparecido ao enterro da esposa, alegando que precisava ficar em casa esperando um telefonema. Na carona do conforto material proporcionado pela esposa rica, Carlo escreveu o romance ficcional “Nadando Em Dinheiro, Mas Encarando A Velha”, que ele jurou até o fim não ser inspirado no seu casamento. Henriqueta, no entanto, desconfiou das semelhanças do enredo com a vida real (no romance, o protagonista se chamava Carlos e a esposa velha, Henriete) e pediu o divórcio. A sorte de Carlo é que ela morreu logo em seguida, antes que pudesse acionar os advogados, e  assim, Carlo recebeu uma polpuda herança que ele torrou rodando o mundo e experimentando drogas. Suas experiências estão registradas no livro “Diário de Viagens”, de apenas vinte páginas, já que apesar de ter percorrido sessenta países, Carlo não se lembrava de nada do que tinha acontecido."


"De volta ao Brasil, Carlo tentou ser colunista de revistas importantes e segundo ele, a única coisa que o impediu de ser reconhecido como um dos maiores formadores de opinião da sua era foi o fato de ter sempre sido barrado na portaria das editoras. Anos depois e deprimido pelo fracasso sistemático de seus tratamentos contra  a calvície, Carlo decidiu se matar e anunciou sua intenção no exato dia em que minha filha anunciou que estava grávida do meu primeiro neto, ocasião onde promovemos um jantar comemorativo. Mamãe interpretou o anuncio de Carlo como piada, teve um acesso de riso, quase morreu engasgada com um pedaço de frango o que definitivamente acabou com o clima festivo e eu nunca perdoei Carlo por isso.  Dias depois, Carlo comprou um revólver e antes de atirar na própria cabeça, sentou-se na escrivaninha para escrever uma carta de suicídio.  A carta foi ficando longa e acabou se transformando num romance autobiográfico de quinhentas e doze páginas intitulado “Já vou tarde”. “Já Vou Tarde” foi considerado pelo meu irmão como a sua obra-prima e não é de se estranhar que ele tenha ficado puto com a empregada quando ela jogou no lixo os  originais durante uma faxina."

 

"A última vez que falei com meu irmão foi um pouco antes dele tomar a decisão que mudou sua vida pra sempre. Carlo refugiou-se numa distante cabana encrustada na floresta amazônica, onde optou pelo isolamento do mundo e da sociedade, dedicando-se somente à escrever até o fim da vida. Infelizmente, Carlo esqueceu de levar a fonte do laptop na mudança e na última carta que recebi de meu irmão, ele me pedia pra mandar a fonte por  SEDEX, mas pelo o que fiquei sabendo,  o malote do correio foi extraviado pelos índios.”

 

 


 

 



Escrito por Leonardo Cortez às 16h44
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A Revelação 2

O homem acorda com uma luz fortíssima invadindo a janela. O som de um coro barroco invade o ambiente. O homem se levanta sobressaltado e logo imagina que aquilo pode ser assalto, embora saiba que muito poucos assaltantes agiriam de maneira tão escandalosa.  De repente,  um anjo se materializa no teto do quarto. Ao seu redor, dezenas de querubins cantam acompanhados por harpas e trombetas celestiais.

-Isaias, acordai.

-Quem é você?

-O anjo Gabriel, não me reconheces?

-Não, nunca te vi mais gordo. E como é que você entrou aqui? Eu instalei o alarme mês passado justamente pra não ter perigo de invasão!

-O Senhor abre todas as portas, Isaias.

-Não foi isso que a empresa de segurança me garantiu quando vendeu aquele pacote prime com trava elétrica que reconhece a digital do dono e alarme conectado à central 24 horas.  E que cantoria é essa, pelo amor de Deus?

 -Esse é o coro dos anjos do Senhor, ó Isaias...

-Será que eles poderiam cantar mais baixo? Na semana passada já tive um puta pau com a síndica por causa de uma rodinha de violão que eu promovi com os meus colegas de escritório. A minha vizinha  aí do lado é uma velha insuportável que...

-Os anjos cantam em teu louvor, Isaias...

-Eu agradeço, mas prefiro ser louvado em silêncio, ainda mais nesse horário.

-Isaias, abra vossos olhos. É chegada a hora do  início de tua missão.

-Que missão? Olha, com todo respeito, são três da madrugada, amanhã eu tenho reunião na agência às nove, o meu personal trainer passa aqui às sete e...

-Abre mão de teus bens, ó Isaias!

-Do que que você está falando?

-Veste essa bata humilde e prepara-te para ir ao deserto. Assim como aconteceu com nosso Senhor, tu passarás quarenta dias e quarenta noites de jejum, e o diabo te tentará por três vezes...

-Que deserto? Nem à praia eu costumo ir porque areia me dá aflição quando entra na sunga.

-Deixa tudo o que é material pra trás, ó Isaias!

-Mas eu acabei de liquidar as prestações desse duplex!

-Isaias! Atenda ao chamado do seu Pai!

-Que chamado? Eu falo com o meu pai duas vezes por ano, no meu aniversário e no aniversário dele. E digo mais! Volta e meia meu pai confunde a data e me parabeniza no dia errado.

-Estou falando do chamado do seu Pai Celestial, Isaias! Do Pai de todos nós!!!

-Ei, um minuto. Ninguém está gritando com você.

-Perdão, é que eu perdi a paciência.

-Pra um anjo, você é bem temperamental...

-Desculpe. É a ansiedade,  pois hoje vos trago a Boa Nova.

-Boa Nova?  Eu tenho que abrir mão de tudo pra ir pro deserto passar fome e sede durante quarenta dias. Se essa é a Boa Nova , imagine qual será a Má Velha!

-Isaias! Eu vim até aqui revelar-te a grande verdade! Presta atenção na profecia e trata de espalhar aos quatro ventos o que teus ouvidos  escutarão: o Messias está voltando!

-Quem?

-O Messias!

-Ah...

- E caberá a ti o anuncio, Isaias! Tu és a reencarnação do profeta que anunciou o Salvador há dois mil anos atrás. O fim dos tempos está próximo! Bilhões irão se curvar aos teus pés! Da sua boca virá a mensagem de esperança que a humanidade aguarda por séculos e séculos! Vamos , Isaias, apressa-te, pois pouco é o tempo para completares  tua missão.

-Pouco tempo, quanto?

-Bem... não sei. Só sei que é pouco.

-Desculpa, mas é preciso fazer um planejamento de divulgação em função de alguma data específica.

-Eu posso perguntar e depois te comunico...

-Ok. Depois, enviamos  a notícia pelo mailling da empresa. São quase cinco mil endereços e...

-Isaias! O que falas? Tu deves bradar a Boa Nova aos quatro ventos!

-Eu contrataria uma agencia de publicidade. Obviamente tem um custo aí. Disponibilizaram alguma verba?

-Cala-te, Isaias! Será que não dimensionas a importância de tua missão?!  O Anjo do Senhor vem em pessoa lhe comunicar a Boa Nova e tu te apegas à mesquinharias mundanas!

-Ok, ok! Não precisa ficar nervoso outra vez. Eu topo. O Espírito Santo já me socorreu algumas vezes e eu tô devendo essa retribuição. Mas será que poderíamos deixar isso coincidir com as minhas férias?

-Férias?

-Isso. Final de dezembro, começo de janeiro. Eu marquei uma excursão na CVC, mas acho que se eu desmarcar com antecedência, eles me reembolsam.

-Mas o que dizes, Isaias?

-Olha, sem querer ofender, mas  a minha batata tá assando na empresa e não vai pegar bem pra mim essa história de jejum no deserto como justificativa pra faltar no trabalho. Depois, amanhã eu tenho um jantar marcado com os executivos americanos no Giuliano´s. Tudo bem, os executivos americanos são insuportáveis, mas o Giuliano´s tem um risoto de alcachofra ...

-Nem só de pão vive o homem!

-E quem falou de pão? É um risoto de alcachofra que é de comer rezando, se é que você me entende.

-Chega! Vou comunicar que,  infelizmente, vós não sois digno dessa missão!

-Um minuto! Eu to afim de dar uma força pra Divina Providência, mas eu tenho que defender meu lado!

-Tudo o que falas é heresia e blasfêmia, Isaias dos Santos!

-Péra lá. Do que que você me chamou?

-Pelo nome que é indigno de ti! Isaias dos Santos!

-Mas meu nome é Isaias Teixera...

-Como é que é?

-Isaias dos Santos é o meu vizinho aqui de baixo. Um santo homem, a começar por nunca ter reclamado do barulho que eu promovo quando dou as minhas festinhas de sábado á noite.  

-Ok, moçada. Vamos parar com a cantoria. Entramos no apartamento errado. E você aí, querubim, pare com essa arpa infernal. E quanto a ti, Isaias,  que Deus tenha piedade de tua alma!

Os anjos se retiram do quarto, indignados com a confusão. Isaias senta-se na cama e  pensa  longamente sobre tudo o que aconteceu. Depois de algum tempo, seu rosto ilumina-se e ele conclui que se o fim dos tempos está próximo, então não é uma idéia completamente ruim antecipar o pedido de aumento de salário.  E antes de dormir, ele ainda perde algum tempo de sono formulando o discurso que irá fazer pro patrão, aquela besta.

 



Escrito por Leonardo Cortez às 05h07
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O Quarto Rei Mago

Meu Nome é Macabázio e eu sou o quarto Rei Mago. Isso pode parecer uma idiotice já que todo mundo sabe que os Reis Magos foram três, mas o que eu quero dizer agora e com todas as letras é que, de fato, os Reis Magos, aqueles que visitaram o Menino Jesus na manjedoura, eram quatro porque eu estive com eles o tempo todo, dividindo a conta nos restaurantes de beira de estrada, contando piadas e tocando violão pra aliviar o tédio e o cansaço daquela viagem interminável que a gente fez pra Belém. E se eu não sou citado nos livros de história  e no Evangelho de São Mateus é porque (e é bom que se diga em alto e bom som) eu fui sacaneado pelos putos do Melquior, Baltazar e Gaspar. O resultado é que o meu nome foi esquecido pela humanidade e isso me deixa tão amargurado que é impossível encontrar consolo, mesmo quando eu lembro que o fato de ter sido esquecido contribuiu decisivamente pra que a minha ex-mulher nunca mais me cobrasse pensão alimentícia.

Todo o ano é o mesmo sofrimento nessa época de Natal. Eu não posso ver um presépio sem ter uma crise de nervos. Outro dia, na 25 de Março, eu tive uma discussão violentíssima com um camelô que se recusou a me vender um bonequinho extra de Rei Mago pra que eu fizesse um presépio verídico na minha casa. Pode parecer uma cretinice da minha parte, mas eu sempre faço isso. Compro um bonequinho a mais dos Reis Magos (normalmente o do Baltazar, porque a gente tem o mesmo biotipo), pinto a roupa da cor da roupa que eu estava usando no dia, desenho um bigode parecido com o meu e coloco uma legenda embaixo escrito "Macabázio". Depois, deixo tudo montadinho na minha mesinha de cabeceira junto com o Papai Noel de pelúcia e umas pinhas que eu recolho no parquinho. Não adianta nada do ponto de vista histórico, mas olhar pra aquilo me consola. Porque eu estava lá e ninguém sabe! Eu estava lá e ninguém reconhece! Mas agora isso vai mudar porque eu cansei de 2009 anos de injustiça! A partir de hoje, eu vou colocar a boca no trombone e dizer pra todo mundo a verdade do que aconteceu naquele distante 06 de janeiro de 00!

O problema é que eu e os meus amigos Reis Magos tivemos um puta pau na noite em que a Estrela de Belém nos conduziu até o local do nascimento. Na realidade, tava todo mundo exausto porque Estrela de Belém não tem a precisão de um GPS e por causa disso a gente deu quinze mil voltas à toa antes de encontrar o endereço certo. Aquela história de só poder viajar de noite também foi um inferno.  Eu, por exemplo, nunca consegui dormir direito durante o dia por causa da claridade e não raras vezes acabei pegando no sono montado no meu camelo, o que atrasava pra caramba a viagem, já que quando eu dormia, o camelo aproveitava e puxava um ronco também. Fora que ser guiado por uma estrela obriga a gente a ficar olhando pra cima o tempo todo e isso, além de dar um baita torcicolo, representa sempre um sério risco de acidentes, já que quem olha pra cima, não olha por onde anda. O Gaspar, por exemplo, torceu o pé depois de cair num buraco e numa noite especialmente desagradável,  eu pisei duas vezes no cocô do meu camelo, o que não teria sido tão ruim se eu não estivesse de sandálias e o cocô não tivesse entrado no meio dos meus dedos.

Mas voltando ao episódio da briga, é bom dizer que o motivo de tudo foram os presentes que a gente tava levando. Essa história de presente de Natal sempre dá merda. Se fosse nos dias de hoje, cada Rei Mago dava pro Menino Jesus um vale-presente das Lojas Americanas e tava tudo resolvido. Na realidade a gente sabia que isso podia dar confusão e tínhamos combinado que cada presente tinha que ter um valor-teto de 80 sestércios, o que convertido pra moeda atual daria mais ou menos uns 30 reais. Mas aí veio aquele esnobe do Melquior e inventou de dar ouro pro Menino Jesus. Aí eu falei: "Porra, Melquior! Agora vai ficar chato pros outros! Porque o Gaspar vai dar um incenso vagabundo, o Baltazar trouxe uma mirra de bosta e eu tô levando esse pacote de fralda descartável! Porra, velho! Vai rolar uma disparidade e a Virgem Maria vai fazer distinção entre a gente. O que que você tá querendo? Alguma milagre, seu interesseiro?". Mas o Melquior, que sempre foi arrogante e nunca quis saber dessa história de união de categoria,  disse que o ouro era dele e que ele dava o ouro pra quem ele quisesse. A coisa talvez poderia ficar por aí, mas o Gaspar e o Batazar se ofenderam quando eu falei mal dos presentes.  E foi nessa hora que eu explodi e disse pro Baltazar que ninguém em sã consciência daria um incenso prum bebê recém-nascido porque nenhuma mãe em sã consciência acenderia um incenso num quarto de bebê já que dali a pouco a criança poderia desenvolver uma crise de asma ou uma broncopneumonia. O Gaspar tentou defender o amigo e então eu fui obrigado a manifestar toda a minha indignação que tava represada desde que eu descobri que mirra é um unguento que serve pra embalsamar cadáver. Porra! O menino acaba de nascer e  você dá um presente pra se usar no funeral? Isso é no mínimo, de extremo mal-gosto!

Quando os ânimos começaram a se exaltar, um começou a xingar a mãe do outro e como a gente tava na frente da estalagem, os gritos acabaram acordando a criança , o que deixou a Virgem Maria possessa da vida e  com razão. Aí o José apareceu lá fora e deu um baita esporro dizendo que aquilo era falta de respeito e que a gente tinha que dar o fora senão ele chamava a polícia. Então, explicamos, com muito tato, que estávamos ali pra adorar o Menino  e que tínhamos vindo de muito longe, o que significava uma grana preta gasta em pedágio. Aí, o José, que era um santo, se sensibilizou e disse que a gente poderia entrar, só que três de cada vez porque uma das ovelhas tinha dado cria, também tava recebendo visita e a manjedoura tava lotada. Não houve jeito de convencer o José a liberar a entrada dos quatro e o resultado disso é que a gente teve que decidir quem iria ficar pra fora disputando uma rodada de "Joquempô". E foi nessa hora que eu fui sacaneado, porque todo mundo sabe que no "Joquempô" a tesoura corta o papel e o papel embrulha a pedra e se eu coloquei a pedra no "Joquempô", pelo menos da tesoura eu teria ganho. Quem colocou a tesoura foi o puto do Melquior, que acabou dizendo que a tesoura dele era blindada e que por consequência, ela poderia cortar a minha pedra. Aí, os outros dois acabaram concordando com ele só pra ficar contra mim e o resultado é que eu fiquei horas plantado na sala de espera enquanto todo mundo adorava o Menino.

Quando eu finalmente consegui entrar, a imprensa toda já tinha ido embora. Sacanagem.    



Escrito por Leonardo Cortez às 03h26
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